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Estudante de Design na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo FAU-USP. Desde 2010 trabalha com comunicação, colaborou para o portal El Toron, anexo a MTV, com conteúdos digitais sobre artes visuais, design, cobertura de eventos e mídias sociais. Participou do curso de crítica literária na Escola São Paulo ministrado por Daniel Pizza, trabalhou com jornalismo cultural para a Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da USP com matérias semanais sobre a programação da universidade e a edição do guia mensal Caminhos da Cultura. Ilustradora freelancer e interesses em direção de arte e design digital.
nathalia.albar@gmail.com
Matérias sobre artes plásticas, eventos, ilustração, design, posts publicitários e manutenção de mídias sociais. Design de banners e outras peças digitais para o portal.
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Andou mais 20 metros e parou cansada. Fazia algumas semanas que Ana adquirira o habito de caminhar cerca de quarenta minutos a mais do que o tempo habitual que levaria pra chegar em casa, isso porque estava tomando um caminho diferente do que seria mais óbvio: virar a direita na rua Iaiá com destino à avenida Horácio Láter e de lá pegar seu ônibus. De fato as andanças não lhe incomodavam, se arrastar por vinte e cinco quadras, 4,1 km, era de certa forma uma maneira de se esquivar dos pensamentos inoportunos que sempre lhe ocorriam quando sentava na janela do transporte público e era obrigada a esperar mais cinquenta minutos até seu bairro. Ler? Tentou algumas vezes, mas as vozes inquietas não deixavam que se concentrasse nas palavras escritas por Lars Kepler, mesmo sendo um de seus romances policiais preferidos. O que incomodava mesmo Ana era o fato das andanças não terem alcançado seu objetivo principal. Na sua imaginada trajetória demoraria uma ou duas semanas até que, com o horário cuidadosamente calculado, entre 18h10 e 21h (estaria disposta a vagar por um intervalo de tempo de quase três horas se pudesse comprar um chá no caminho) avistaria por mera coincidência na sua frente, ou do outro lado da rua quem sabe, Jan.
O encontro não aconteceu por seis semanas, com os pés sovados decidiu parar com a peregrinação. Por fim, antes de virar na Av. Dr. Cardoso de Melo, deu meia volta e sentou na Praça Um para rever seu plano; na sua rota pela cidade, Ana constatou que seria de fato difícil forjar um encontro casual pelo simples motivo de que ela não sabia por onde Jan andava. Fazia talvez alguma ideia, mas estava longe de acertar com precisão. Além do mais, não estava certa se queria mesmo que aquele encontro acontecesse, não sabia com que olhos ela olharia para ele ou pior, que olhos ele voltaria para ela. E o medo de o ver acompanhado, aquela situação constrangedora que só os que viveram podem relatar o quão doloroso é. No balanço geral de sua situação, se deu conta de que não fazia diferença de quantas crônicas de Rubem Braga lesse, a sua história não se enquadrava em nenhuma delas. Não tinha o drama do cotidiano necessário, tampouco a moral e os bons costumes que seriam de se esperar. Moral, esse sim lhe havia faltado nos últimos meses. Ana levantou e praguejou uma formiga que acabara de picar seu pé sujo de terra. Inferno. Inferno são os outros, e naquele momento Jan era seu inferno particular. Podia deitar a cabeça no travesseiro à noite, disposta a dormir e refazer sua vida, na semana seguinte que pisasse naquele bairro, playground do diabo, ele estaria lá de novo, em todas as coisas e lugares para atormenta-la.
Tomou uma decisão importante, voltou algumas quadras, passou no Mr. Baker, comprou três cookies de chocolate amargo, tomou seu ônibus para casa e decidiu nunca mais pisar ali. Semana que vem estava de volta.
Foto: Tessroby on Flickr
Fantasma, 1991
Encerrando um ciclo de encontros semanais que acontecem desde 2010, o Mac Cidade universitária recebeu nesta terça feira (29) a artista Jac Leirner para expor e debater de maneira retrospectiva seus trabalhos. O projeto intitulado O Mac Encontra os Artistas se consagrou como atividade cultural na universidade sendo uma oportunidade para proporcionar melhor compreensão e aproximação do público com diversos artistas contemporâneos nacionais e suas obras. A ideia inicial é que os encontros sejam retomados em 2013 dando continuidade ao projeto. Com suas obras expostas atualmente em dois locais em São Paulo – uma coletiva na Pinacoteca do estado e na galeria Fortes Vilaça, Jac Leirner fez de maneira rápida e ao mesmo tempo complexa uma, apresentação do seu trabalho e do que ele significa subjetivamente para a artista.
Trabalhando com materiais do meio comum, mas não vagando aleatoriamente entre muitos tipos de objetos – maços de cigarro, envelopes, cartões de visita, ao longo de sua carreira trabalhou com cerca de 12 objetos diferentes – a artista recorre insistentemente ao valor que as suas obras assumem para si: é arte por ser arte, e não por significar ou idealizar outra coisa senão esta.
Ao longo dos anos, críticos e jornalistas se debateram entre suas resenhas caracterizando os trabalhos de Jac Leirner como metáforas, ideologias do mundo moderno e da forma de consumo, críticas da sociedade como vistas deliberadamente nos trabalhos de Cildo Meireles como elemento desaparecendo/elemento desaparecido exposto na Documenta 11 em 2002 ou Zero Dollar, de 1977, onde o questionamento político é predeterminado. Para Jac, a obra tem um sentido diferente “Nunca usei um termo como política e economia, mesmo que agreguem esse valor ao meu trabalho” e com um texto escrito no dia anterior especialmente para o encontro afirma “A linguagem é o alvo, o processo, o tempo envolvido. Fazer arte que fale de arte”. Ainda que, a própria artista admite, de fato em seus trabalhos a crítica em relação a objetos descartáveis e à sociedade de consumo sejam leituras possíveis e que não devem ser de todo descartadas. Acima disso, e ai talvez esteja toda a força do trabalho realizado por ela, é o tempo de cada trabalho, tempo utilizado como potencializador dos projetos, os tornando tão pessoais e tão subjetivos. Jac Leirner diz que para ela, o objetivo é fazer o objeto de arte que se realize nele próprio, que não seja autobiográfico e conte sua própria historia, ele deve ser feito para que qualquer pessoa se identifique e o chame de seu; “Ler uma poesia em primeira pessoa é muito chato, ninguém quer saber do artista, o que interessa é a obra”. Neste ponto, cai no seu paradigma pessoal, onde mesmo negando sua presença na obra, não consegue fugir dela, de fato esta inserida nos seus trabalhos. Em Pulmão, a artista fumou todos os maços de Marlboro utilizados na confecção, coletado durante anos e anos, assim como em Foi um prazer utilizou os cartões de visita que recebeu e em Void, as sacolas que garimpou em museus. Com isso, reforçou no evento a opinião que deu a Daniel Piza em uma matéria de 2009 para o Estado “Demorou um tempo até que eu percebesse que não eram erros, que não era repetição. Era eu mesma. Eu estava me repetindo porque meus trabalhos são todos, na verdade, um só. A gente se ilude que é outra pessoa, mas não é. É a gente.”
Little Lights, 2005
Nessa busca de tentar fugir do autoral e metafórico, é em um trabalho específico que Jac Leirner assume não ter conseguido escapar e aderiu por fim a metáfora; Foi em Little Lights, 2005, um fio de cobre se desdobra por um zigue-zague extenso formando quando visto de longe um retângulo enorme onde culmina na ultima ponta do fio uma lâmpada acesa. É o único trabalho da artista em que a metáfora se tornou mais importante que o tempo levado para elaboração e a técnica. Little Lights permite a leitura de que faz alusão aos caminhos e percalços que as pessoas percorrem pra conseguir chegar a um objetivo final, uma luz no fim de tudo. E foi ainda de maneira espontânea, como relata a artista que esse sentido metafórico surgiu na execução desse trabalho.
Além das questões sobre sentidos de suas obras, há ainda duas vertentes presentes nos seus trabalhos, a insistência de “quantidades” e a dificuldade da técnica. Em todos os seus projetos, Leirner aplica diversas técnicas para chegar no resultado final satisfatório, não importa quanto tempo isso demande. Tudo é pensado e planejado, cada elemento tem seu lugar próprio, é mais do que organizar, é arranjar e dar lugar às coisas. Sobre quantidades, seria ralo dizer apenas repetição de elementos. É verdade que em Void são dezenas de sacolas plásticas, e que em Os Cem, a artista comprou malas e malas recheadas de notas fora de circulação para serem trabalhadas, mas não é só a questão de repetição, nem todas as notas são iguais, algumas possuem grafismo e tonalidades diferentes, bem como as sacolas que já sendo distintas entre si ainda receberam uma interferência em cada uma. Portanto se trata de agregar objetos, de se trabalhar com o número, com o múltiplo, em dar forma através de grandes quantidades. Formas inclusive complexas e orgânicas, como em Fantasma de 1998.
Pulmão, 1987
Imagens Artinfo e Itaú Cultural
Matéria publicada no site caminhos da cultura em 5/9/2012
Inédita no Brasil, está aberta para visitação na Estação Ciência até o dia 20 de dezembro a exposição Nikon Small World – fotomicrografias. A mostra itinerante é resultado da seleção de fotografias vencedoras do concurso promovido pela Nikon desde 1974, em que cientistas do mundo inteiro podem enviar fotos e vídeos obtidos por microscópios, com temática e tipo de processo de captação livres.
A abrangência da temática livre fica bem clara ao se observar as fotografias de 50 x 60 cm, em média, impressas e emolduradas cuidadosamente pela sede americana e enviadas diretamente de Nova York para que seguissem o padrão definido pela Nikon. Bem à entrada do espaço expositivo da Estação Ciência, entre as estruturas metálicas montadas para suspender os quadros através de fios imperceptíveis, figuram desde um estame de planta ampliado 150 vezes, o comportamento de um fluido em meio plano, neurônios e até mesmo um cronômetro – sim um simples objeto. A exposição conta com 21 imagens dispostas lado a lado, porém, a lista de fotografias anuais provenientes do concurso é muito mais extensa e retratam uma diversidade de objetos, como microchips e moedas enferrujadas.
Na percepção imediata da mostra, a surpresa fica por conta da tentativa de adivinhar o que cada uma das imagens, ricas em cores, de formas pouco usuais e que formam composições dignas de qualquer outro processo considerado artístico, representam. Exemplo disso é o curioso nono lugar do concurso de 2008. Leva-se um tempo para perceber que, na verdade, aquelas formas complexas, refletindo um colorido de luzes em formas curvas não passa apenas de uma capa acrílica de CD, ampliada através do processo de polarização da luz no microscópio.
No entanto, além da proposta lúdica e esteticamente bem realizada das composições, orgânicas ou não, a Nikon, ao realizar o concurso anual, bem como suas exibições, almeja também demonstrar o caráter emocional e sensível do próprio cientista. A ciência vista, muitas vezes, como uma área cética, calculista e até mesmo distante do campo da subjetividade aproxima-se do fazer artístico, da sensibilidade visual, da produção estética e revela o gosto pessoal do cientista que consegue enxergar além da teoria – a beleza de um objeto observado no seu sentido literal.
Além de apreciar as fotografias, os visitantes podem manipular dois microscópios – uma sugestão feita pela Estação Ciência para ampliar a interatividade da mostra. A Nikon acatou a ideia e cedeu os microscópios do modelo biológico E-200 para o espaço que estão no momento sendo protegidos por uma caixa de acrílico (para evitar que sejam danificados ou desregulados) e serão integrados novamente à mostra na próxima semana.
A iniciativa de trazer a exposição para o solo paulistano coincidiu com a abertura da primeira sede da Nikon na cidade, no primeiro semestre do ano passado; até então, as fotografias haviam percorrido o Estados Unidos e o Canadá apenas. Quando teve conhecimento do espaço da Estação Ciência e a dinâmica das mostras ali realizadas, a empresa procurou a direção e decidiu que seria merecido expor as fotografias naquele local, conta Michel Sitnik, assessor de imprensa do centro cientifico.
A Estação Ciência é um órgão da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP, e atende a mais de 200 mil pessoas anualmente, entre escolares, turistas, famílias e outros visitantes espontâneos. É uma vitrine da USP para a sociedade, apresentando pesquisas e diversas carreiras científicas ao grande público
A visita à exposição, cabe lembrar, vale não só pela apreciação das imagens e pelo seu caráter inédito, mas também porque se torna um passeio completo pelo mundo do conhecimento cientifico que pode ser estendido por várias horas pelos espaços da Estação Ciência, onde também estão em cartaz a exposição “Biodiversidade, fique de olho!” e demais áreas repletas de atividades interativas ligadas à ciência e tecnologia.
Conheça a galeria das fotos vencedoras de outros anos do concurso acessando nikonsmallworld.com
Primeiramente acho importante ressaltar a surpresa que me ocorreu no começo da leitura, imaginava duas coisas distintas e possíveis do livro — este seria estritamente acadêmico, rico em detalhes gramaticais sofisticados, normas técnicas e pediria um pouco mais que uma leitura despretensiosa; Ou então seria um guia prático elementar para estudantes de design. A verdade é que de maneira prazerosa e intencional (como descreve a própria autora no prefácio) Pensar com Tipos consegue unir ambas as expectativas mesclando-as em cada capítulo e introduzindo gradualmente a curiosidade do leitor e o nível técnico esperado. Assim, se torna um guia auxiliador e elementar para estudantes apresentando não só a “técnica” por de trás do projeto tipográfico, mas ensinando uma postura quase que social do designer em si, proporcionando conhecimento histórico da evolução da tipografia, regras práticas, e conceitos fundamentais para um bom projeto.
O livro foi estruturado em três frentes: letra, texto e diagrama. Cada divisão ainda possui pequenas subdivisões mais especificas. Poderia soar até linear demais essa divisão segundo a concepção de projeto que Lupton aborda no livro, mas analisando uma segunda vez, se torna completamente necessária a divisão. A quebra de linearidade criada pela autora encontra-se espalhada pela obra, seja nos trechos inusitados que são usados como exemplos em diversas partes (como em hierarquia, página 95, uma brincadeira com males tipográficos), analogias com as palavras de exemplo, quebras de parágrafos imprevistas, sem mencionar a disponibilidade de diversas capas da obra, feita com tipos móveis e que permitem uma gama de escolha do leitor. Sendo assim, dividir o livro em frentes, mantém uma coerência com a linearidade e facilita a evolução do entendimento do livro, propicia uma maior compreensão por parte do aluno no aprendizado, a medida que ele consegue criar o raciocínio e bases bem definidas dessa abordagem inicial do universo dos tipos. Parece então cabível acompanhar essa linha de pensando nesta resenha crítica.
A primeira parte do livro aborda o lado fundamental da tipografia, as letras em si, e não apenas como um conjunto da obra. Para fazer com que o leitor perceba que as fontes, ainda que totalmente distintas, possuem alguma ligação e que conhecer essa comunicação entre as fontes bem como sua história é fundamental para uma abordagem mais profundo do projeto, é apresentado cronologicamente uma história da tipografia, de maneira breve mas abrangente, situa o leitor no tempo e no período histórico de cada criação tipográfica feita. Situa bem diferentes estilos e quais suas funções, objetivos, mostram como os projetos de uma fonte são cuidadosamente pensados e possuem sempre um objetivo final. Além disso, sem esquecer-se da parte técnica, são explicados termos comuns, mas que a definição às vezes não é explicita (como letras romanas, itálicas, góticas) ou termos específicos da área como escala de medidas de tipos móveis em paicas, terminais, ascendentes, versalete, etc. É dada então a visão inicial e necessária ao aluno para que ele tenha uma bagagem cultural e entenda que tipo de fonte ele esta trabalhando.
Ao falar sobre o texto na segunda parte do livro, a autora já se preocupa em suscitar uma ideologia de projeto. É onde a questão da linearidade nos projetos é abordada, e o quanto é papel da tipografia saber aborda-la de maneira mais pretenciosa, ousada porque não, e trabalhada de maneira inteligente, visando o máximo alcance e originalidade à leitura. A autora faz comparações valiosas ao se deparar com a problemática do mundo digital que vivemos. O designer pode exercer um papel fundamental no universo digital, em um mundo onde cada vez mais somos cobrados a sabermos filtrar as informações, os diversos veículos que nos circundam na rede. Um bom design, um projeto bem elaborado que sabe despertar e chamar o interesse do leitor pode ajuda-lo nesta função. Um bom design pode proporcionar uma leitura mais fácil de programas que traduzem textos para deficientes visuais. A quebra da linearidade pode abrir portas para uma gama imensa de possibilidades na leitura do mundo digital, que ainda não foi atingida a fundo. O design bem elaborado de um site não só pode facilitar a visão, mas dizer ao leitor para onde olhar e é neste ponto que se encontra um potencial fator para o bombardeio de informações que recebemos hoje. Mas do que nunca o lado visual do projeto do design abrange o lado intelectual, a problemática de como este pode influir na sociedade de maneira reflexiva e ativa.
Depois de explicitar a problemática da linearidade no design, Lupton expõe um guia de como se trabalhar o diagrama, o arranjo dos parágrafos e dos textos. Talvez mais ainda do que o texto em si, o diagrama e a linearidade nunca foram tão próximos, conceitualmente falando, o que na minha opinião se mostra um desafio interessante em criar um diagrama, até mesmo modular, em contraposição com qualquer linearidade. Retomando um pouco da metodologia utilizada na primeira parte do livro, agora são apresentados historicamente alguns movimentos artísticos que utilizaram a obra tipográfica como parte fundamental de suas criações. Modernistas criaram alfabetos inteiros carregados de conceitos e enriqueceram o campo da tipografia, são citadas obras realizadas pela Bauhaus, publicações, e a proporção áurea. Novamente a técnica apresenta maneiras úteis de se utilizar da criação de parágrafos, trabalhar com tabelas e diagramas.
Quando estava próxima do final do livro, mais uma vez a autora me propõe outra surpresa; Uma parte final dedicada apenas à dicas úteis, como erros comuns, hifenização, atalhos do teclado, como corrigir um texto na revisão, enfim, uma pequena área repleta de itens específicos reunidos que podem ser facilmente consultados sempre. O prazer me foi ao perceber que quando a autora propõe uma quebra na linearidade, ela prova que um livro acadêmico, destinado às faculdades e que com um projeto aparentemente dentro dos padrões, pode surpreender o leitor de maneira inteligente, em detalhes, e aos poucos, usando inteligência e boas ideias.
O livro concebido por Ellen Lupton se torna em minha opinião um amuleto para os novos designers, mesmo que não abordando profundamente os pontos contidos, mesmo porque não seria seu objetivo, ele inicia o aluno em um universo recheado de especificidades que é a tipografia. Apresenta dicas ricas, leitura rápida, uma biblioteca de fontes referenciais, exercícios práticos no final de cada parte do livro, além de referencias bibliográficas durante quase todas as páginas, e não apenas no índice bibliográfico, o que torna a pesquisa e o aprofundamento no tema mais fácil e mais interessante.
Agora é a parte em que o tempo não passa, passa bem devagarinho. Como quem cumprimenta um parente distante, tímido, ele vai ocupando seu lugar no espaço-tempo. Lá, tudo cabe, cabe porque engole a si mesmo e continua, como bem aprendemos fazer à excelência; Não seria assim se não chamasse infinito.
E é nesse aglomerado de poeira cósmica que escolheu morar. Ali, entre fótons e outros amigos intergaláticos, descansa intocável. Memória ou ontem, como o seja, vai estar ali onde não deseja mais sair mediante o maior e mais puro esforço.
Assim, como um amigo que nos corta, vêm os segundos, os minutos, os dias, cruéis companheiros que nos doem mas ao mesmo tempo nos toleram. Dizemos - Ah, deixe que ele (tempo) cuida disto. E cuida disto, daquilo, daquele e de mim.
Quem me dera ser essa poeirinha cósmica que é tão mais calada, mais discreta e menos pretensiosa do que eu.
Enquanto não consigo me metamorfosear nesta própria, só me resta torcer para que, ao menos ela, lhe acolha bem.
Ao norte de um comprido vale gelado, pode-se avistar um casebre. Uma casinha simples de madeira onde as tábuas grossas já estão gastas e expõem claramente os nós. A pintura azul celeste se desfez pelas intempéries e os vidros estão embaçados pela gordura da banha de porco frita a alguns dias. Na minúscula varanda foi deixada uma caneca branca de ágata, com um resto de leite - Quem iria roubar naquele findarel do mundo? Em menos de quinze minutos de observação astuta, já se ouve os murmúrios de Gezebel. Ela vem toda charmosa, em seus 120 cm de altura, tropeçando entre as quatro patas, ovelha velha, dezesseis anos, puxa o restante do bando faminto. Sofrem no inverno e anseiam a primavera como os bons; Acabaram de voltar da tosquia.
Eu poderia criar ovelhas. Eu me mudaria para o sul do país onde o clima é mais ameno. Os verões seriam secos, mas no final de outono seriamos felizes, quando a temperatura de 20Cº se mantém estável e boa para minhas amigas ovinas.
Não lhes tiraria a carne, mas não as poupariam de sua lã. Queridos veganos que me perdoem, mas quem resiste à pele mais velosa? Delas tiraria também o leite, e se tivesse algumas cabrinhas, poderia misturá-los e vender como iguaria. Faria a ordenha e venderia às segundas, quartas e sextas. Nos outros dias, escolheria uma delas para entrar no casebre, para que eu pudesse deitar sobre a sua pele quente e macia. Ela me aqueceria nos dias frios.
Eu seria como uma ermitã, menos selvagem, talvez domesticada. Amigos viriam me visitar, mas não viriam tão longe mais que duas vezes ao ano.
Eu poderia me enamorar do lavrador das terras vizinhas, quem sabe ele me cedesse uma de suas vaquinhas para me ajudar nas idas até a cidade. Nós compraríamos dois cães pastores, um para cada, e lhes daríamos nomes engraçados. Poderíamos dormir juntos no celeiro e ninguém se importaria com o barulho das nossas pobres almas. Os dias passariam e o campo nos traria paz. Bucolismo? ora não sejamos tão reacionários assim; Retrocesso? Tampouco, eu nunca estive lá. Aqui não existem moinhos, frutos doutra realidade do velho continente. Mas pouco me interessam os moinhos, se eu puder ter minha ovelha Gezebel.
Foto: Danske on Flickr
Título mais apropriado — O meu mundo Sufoca você? Sufocar é o verbo comumente utilizado para descrever um prazer interesseiro, de demostrar ânsia, ou ainda desespero deliberado. Acontece que ele se perde no ato de degolar ou de simplesmente entornar as mãos envoltas ao pescoço da vítima. Poeticamente falando, sufocar para mim não é um verbo, e sim uma condição; Se vive sufocado, se suporta a si mesmo sufocado. Olha-se no espelho e se vê completamente em condição sufocante e cada dia mais e mais. Depressivamente falando, Não existe o mínimo problema em se viver assim. É ótimo na verdade; Se você vai comer algo em excesso, pode lembrar que está sufocado e então provavelmente não vai querer bloquear a sua garganta com mais algum pedaço de glúten, se você decide sair para respirar ar puro, pode se lembrar de que se o ar lhe falta, a menor culpa é aquele que permeia as narinas, mas sim daquele que vem de dentro e se expira. Por fim, se você se sente sufocado, você pode simplesmente viver na mais pura e infinita condição de ser ingrato, porquanto isso lhe der prazer.
Sim, porque por vezes o ser que não consegue sentir as traqueias sente de fato um prazer descomunal em tal condição de vítima.
O problema propriamente dito é quando esta condição sai do seu círculo vicioso e passa a contagiar outros seres em entorno. Vou lhes contar a patologia da coisa: Primeiro se nega. Reluta-se em entender o quão sufocado o indivíduo se sente, e ele enfim passa a conviver com isto o mais naturalmente possível. Essa é a primeira fase. Passado desta que eu carinhosamente apelidei de assimilação, ele se depara com um grande muro, um muro por vezes formoso, com pares de pernas, pares de orelhas, pares de bocas e de peitos em certas situações. Este muro, também ingrato, consegue perceber mais facilmente a asfixia, isto porque por vezes é ele o pretexto. A comorbidade disso se reflete nas ações do primeiro. Ao tentar negar inconscientemente a pobre condição de sufocado, começa dentro de si uma verdadeira luta, onde todo o mundo que o circunda é seu grande palco.
Esta condição é extremamente complicada para ambas as partes, ou quantas forem as envolvidas. Porque a solução é muito simples, é a aceitação.
A não aceitação causa dor, sofrimento e discórdia aos pares de formosuras. Causa dor ao sufocado pela incompreensão, e é a incompreensão a causa de dor na humanidade. É a falta de respostas que causa angustia, quando não se sabe nem mesmo as perguntas certas a se fazer. Por quê? Não existem perguntas certas? Ah não, estas estão guardadas para os libertos.
O meu mundo sufoca. As conversas, os olhares, as risadas, as mentiras, e os disfarces. As noites mal dormidas desperdiçadas sobre um pedaço de pizza amanhecida, as olheiras cuidadosamente cultivadas em horas ininterruptas.
Não existe desfecho. Existe espera. Existe expectativa de autoafirmação, e existe pena acima de tudo, pena de que as coisas tenham caminhado assim.
Your shared planet [Seu planeta compartilhado]
É difícil não cair no lugar comum ao tentar passar a experiência de uma exposição quando esta assume grandes dimensões e projeção considerável, como foi o caso desta primeira mostra em solos Sul-americanos do dinamarquês Olafur Eliasson. Primeiro, porque este projeto foi espalhado por três áreas distintas da cidade: Sesc Pompéia,Sesc Belenzinho e Pinacoteca do estado. Os três são referências não só pelo acervo ou projetos culturais que oferecem a população, mas também como espaços em si, como projetos arquitetônicos muito bem concebidos. O trabalho que Olafur realiza nestes espaços tem envolvimento direto com a arquitetura do lugar, criando um diálogo deliberado entre obra e espaço.
Talvez ele atraia atenção porque, junto com muitos outros artistas que realizam projetos site-specific (ou seja, a obra de arte pensada para um espaço determinado, criada para um espaço pré-definido e específico), este consiga tocar diretamente nos sentidos, na percepção e na maneira como o espectador vê e se relaciona com o mundo ao seu redor. Como o próprio artista coloca, seu trabalho foi feito para que seja não apenas consumido como arte apreciativa; Deve ser também absorvido, sentido, experimentado, é um projeto que cobra algo além de nós, que nos chama para participar do seu destaque criando uma relação interpessoal e sensorial do individuo com a obra. É realmente impossível não querer interagir com as obras expostas e sentir além da impressão sentimental, mas também tática e corporal. É a partir disto então que se deu o nome Seu corpo da obra à mostra; O nosso corpo, que a visita e a testa de maneira pessoal.
Take your time [Tome seu tempo]
Esfera de luz lenta
Literalmente falando, a grande dimensão de sua obra se dá principalmente pela sua escala, de fato enorme, ocupando por exemplo o teto do salão de entrada da Pinacoteca de São Paulo com um espelho circular em movimento - a obra Take your time. Seu tamanho é tão grande, e posicionado a uma altura tão alta e distante de nós, que mesmo quando sozinha na sala de exposição se torna difícil, enxergar meu próprio reflexo no espelho. Para completar, o enorme circulo ficava girando infinitamente, mas só era possível notar sua rotação através de linhas de junção do espelho, bem discretas, distantes a cerca de 2 metros uma da outra, indicando o movimento ocasionado por um motor oculto. Este foi um caso de adaptação de uma obra já exposta por Olafur no MoMa em 2008, adequada agora a um novo espaço. Com excessão de Take your time, Waterfall e The Structural Evolution Project todas as outras 7 instalações foram desenvolvidas especialmente para São Paulo. Nada na exposição é modesto ou despretencioso, cada módulo de espelho e vidro são pensados e cuidadosamente articulados com um único objetivo: priorizar a experiência do espectador, provocar sua reação, e não necessariamente contar uma idéia ou desejo específico do artista em si.
Em Your shared planet, são colocados 4 caleidoscópios coloridos e lúdicos com ambos os lados vazados onde os espectros de luz refletem apenas nas paredes laterais internas. A vista é para a Av Tiradentes uma das mais movimentadas da cidade. Carros, caminhões e prédios antigos são vistos distorcidos e coloridos pelos caleidoscópios gerando imagens quase que infinitas. É como se fosse um convite para sair da visão cômoda de como enxergamos São Paulo. Já foi dito tudo sobre essa cidade, e todas as coisas parecem girar em volta dos próprios termos, mas quando temos a oportunidade de ver a cidade que já conhecemos em ângulos de 45º esbanjando luzes amarelas, roxas, azuis e vermelhas, parece que de fato nada passa de uma opção; Você pode escolher como quer enxergar aquilo, você pode transformar o seu olhar mesmo para o que já está concretizado na mente, a partir disso, você pode mudar alguma coisa.
Your shared planet [Seu planeta compartilhado]
Your shared planet [Seu planeta compartilhado]
Nessa mesma linha de pensamento reflexivo sobre a cidade e espaço, a obra Sua cidade empática [Your empathic city] realizada junto com o cineasta brasileiro Karim Aïnouz (diretor de Madame Satã e vencedor de diversos prêmios em festivais internacionais) representa uma espécie de escape ao alternar cenas cotidianas do trânsito. Como o próprio cineasta disse, “é acima de tudo uma possibilidade de cidade empática, e não uma afirmação” porque é justamente isso que nos propõe, a reconstruir com o olhar através dos 24 projetores e spots de luz que mostram cenas do trânsito paulista em contraposição a um domingo no famoso Minhocão vazio com diversos ciclistas e pedrestes.
O mais curioso ao assistir a essas cenas de Sua cidade empática foi ver que o objetivo do trabalho, descrito por Olafur, foi de fato compreendido. Eu explico melhor: Visitei a exposição com a minha familia, e junto estava minha vó, uma senhoria bem ativa no auge dos seus 74 anos. Os cubos coloridos iam sendo refletidos em frente as cenas de trânsito, e se alternando em cores e tamanhos até se misturarem nas imagens. No ápice da projeção minha vó suspirou e disse “É, é uma arte que agente precisa de muito estudo pra entender ne?” antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, meu pai interveio explicando que na verdade aquilo só devia ter explicação pra ela mesma; Ela devia não tentar entender, mas tentar sentir porque estava ali e porque aquilo agradava ou não a ela, antes de mais nada entender como ela se sentia em relação aquelas imagens e ai sim concluir o que quisesse entender. Depois disso, minha vó não parou de comentar uma obra sequer tampouco escondeu a satisfação que sentiu. Me pegou pela mão e me fez passar mais umas cinco vezes pelos labirintos criados com película colorida e pendurados no teto do Sesc Pompéia. Tirou fotos e disse que queria ver o resto da exposição no Sesc Belenzinho. Aquilo me irradiou de tal forma, que foi o que mais guardei de todo o trabalho de Olafur Eliasson.
Sua cidade empática
Sua cidade empática
A obra que também é o nome da exposição, Seu corpo da obra nos permite entrar em um labirinto de cores presas ao teto, e que contornam o rio interno do galpão do Sesc Pompéia. São placas retangulares que se cruzam, que formam novas cores quando sobrepostas e caminhos diversos pelo amplo espaço. A corrente de agua que passa no chão permite a reflexão das películas que por hora deixam a água levemente amarela, ou violeta. Talvez aqui fique a máxima evidencia de diálogo entre a arquitetura do local, realizada por Lina Bo Bardi na década de 80, onde a obra não se torna um objeto isolado, e sim integra, une, e preenche o lugar onde está. É possível fazer inúmeros caminhos diferentes e experimentar sensções de como as cores são refletidas na pele, de como elas estimulam o nosso andar, e até a nossa velocidade em observar os paineis. É como se o artista nos convidasse a tentar se perder em um labirinto de placas transparentes, que indicam o caminho, mostram a saida, mas talvez pela luminescência, pelo colorido, se perder se torne uma escolha, algo desejável.
Seu corpo da obra
Seu corpo da obra
Levando ao extremo o conceito de experimentar a obra, em uma sala comprida e razoávelmente larga, fechada e sem janelas, Olafur monta Seu caminho sentido. Lá, tudo que você irá enxergar é escuridão, luz e fumaça. A cerca de 3 metros de você pode haver outra pessoa, mas você não irá enxergar, talvez possa ouvir sua voz. Entrando no quarto escuro, ouvindo os sons de outras pessoas, caminha-se em direção reta esperando se encontrar alguma coisa, e o quarto vai se tornando cada vez mais claro, até ficar insuportávelmente luminoso, onde há uma demarcação do fim da sala. É um teste quase sociológico, onde as pessoas sem serem vistas, principalmente as crianças, podem gritar, rir, correr, assustar os outros visitantes da mostra, experimentando a possibilidade do ser sem nenhuma censura do ver, do enxergar. É como caminhar em um ambiente que possui dois extremos, o claro e o escuro, mas que ambos se tornam desconfortáveis pelo seus excessos. Você deve caminhar sem ver nada, em direção a um objetivo que de fato não existe, a não ser a luz ou ausência dela, e contar com que nada de ruim lhe aconteça. É dar um voto de confiança ao artista e pensar “nada de mal pode me acontecer - dentro- de uma instalação artística, pode?”. É elevar os sentidos do tátil, do olhar ao detectar luz, dos pés que parecem não conseguir se fixar no chão que está a poucos centímetros de você mas ainda sim impossível de se ver.
Seu caminho sentido
Eu poderia ter usado nesta resenha as fotos disponíveis no site da mostra que são em qualidade técnica imensuravelmente melhores do que as minhas, mas eu realmente quis utilizar as que eu tirei como uma conclusão do que foi visitar a exposição, como um ato pessoal. Infelizmente, na Pinacoteca do Estado a exposição encerra hoje dia 8 de janeiro. Nas unidades do Sesc ficará exposta até dia 29 de janeiro
Olafur Eliasson - Seu corpo da obra
Curadoria de Jochen Volz
SESC Pompeia
Rua Clélia, 93, Pompeia, São Paulo
SESC Belenzinho
Rua Padre Adelino, 1000, Metrô Belém
O twitter propõe às pessoas, além de toda sua irrelevância, a vantagem de transmitir informações rapidamente sobre qualquer coisa que aconteça no globo, não podemos escapar delas. Hoje foi diferente, a notícia chegou até mim com 2 dias de atraso, talvez por um relaxo meu em não ler os jornais no último final de semana do ano, ou por as pessoas pouco comentarem mesmo sobre o assunto, o fato é que, no dia 30 de Dezembro de 2011, o jornalista cultural Daniel Piza sofreu um AVC e não começou 2012 conosco, deixando sua mulher também jornalista Renata Piza, e dois filhinhos pequenos.
Quase não acreditei de tamanho choque, nunca fui amiga, nem intima, nem nada na verdade de Piza, mas tive a sorte de conhece-lo em seu curso curto de crítica literária ministrado na Escola São Paulo em Novembro de 2011. Só pude conversar com ele acho que três vezes pessoalmente, uma sentado no café Dulca dentro da Escola, entre uma aula e outra, um aluno que atrasa, e lá estava ele, com toda sua calma inacreditável para uma pessoa com a vida que este tinha. Conversei alguma coisa com ele depois da aula, e uma vez antes, e só. Toda a nossa intimidade se resume ao seu caderno no Estadão e minha xícara de café.
Isso tudo porque, mesmo brevemente, e sem saber já no fim de sua carreira, foi ele quem me apresentou mestres que eu não tinha interesse antes, falando de Longhi, Ruskin, Schamma, Hughes e seus textos sobre Goya e Hopper. Talvez se não fosse por ele, eu nem saberia que poderia encontrar algum prazer em jornalismo cultural e que eu iria desejar tanto isso pra mim um dia. Teve mesmo a ousadia de criticar o bom e velho Argan, o qual os seguidores de Agnaldo Farias aclamam como mestre supremo (um pouco talvez por falta de outros mestres para chamar de seu); Sobre o retrato do carteiro Roulin de Van Gogh, ele leu a seguinte sentença do livro “Arte Moderna” - O quadro não representa: é - e logo em seguida disse entre um sorriso sarcástico de quem duvida “É lógico que a obra representa, vejam só o carteiro, ele existiu.” Pensei, que filho da puta esse cara então, quanta audácia pra um “novinho”. Temos o péssimo hábito de não respeitar pessoas sem cabelo branco quando falam sobre arte e literatura. Alguns tem o hábito pior ainda de não respeitar nem mesmo os cabelos brancos.
E entre um e outro comentário tecido com inteligência, Daniel encantou os alunos, alguns pouco flexíveis e teimosos, mas de certa forma, encantou.
No último dia de aula, ele pediu para que trouxéssemos nossas críticas escritas para sua avaliação. As melhores, iriam ganhar do próprio Daniel, livros de sua biblioteca pessoal. Três pessoas ganharam, sortudos. Eu não havia escrito, estava fechando o semestre na faculdade e não conseguia pensar em outra coisa, esforços que no fim não valeram em muito. Não tive minha crítica avaliada por Daniel Piza, e o seu email ainda esta escrito em um cantinho de papel rasgado do meu caderno, guardado cuidadosamente para que eu ainda pudesse lhe escrever um dia, e quem sabe, receber sua opinião. Ainda posso obter a opinião de outros grandes literários que se encontram facilmente na Universidade de São Paulo, mas a de Daniel Piza, não mais.
Hei Daniel, eu usei dois pontos neste texto. Espero que você perdoe qualquer superficialidade cometida.
Um aforismo que este gostou “ ‘Qualquer idiota atravessa uma crise.’ Sim, mas não atravessa sem deixar de demonstrar como é idiota.” Tchekhov
Desta vez, fui ao cinema como quem espera ver uma singela e bem escrita produção da própria história (no caso deste gênero de filme, espera-se que a produção seja modesta e tocante, distante de algo luxuosamente produzível) e foi o que encontrei. Menos melancólico, menos surpreendente e menos agitado do que o esperado para esta película, de fato como a vida sempre se mostra ser.
O titulo é sugestivo e auto explicativo; Adeus, primeiro amor carrega qualquer coisa de realidade no excesso de Camille, que aos seus 15 anos entrega todos seus pensamentos e minúcias à Sullivan. Poderia ter se tornado um filme transbordado de clichês por adotar o tema do romance adolescente, mas ao contrario, o filme não é sobre amor ou como é dificíl supera-lo, mas sim uma passagem de vida, um suspiro de uma jovem que não conseguiu perder o frescor da juventude após tortuosos 7 anos. Camille se entrega do começo ao fim do filme, e faz com que nós, reles telespectadores, fiquemos aflitos esperando que a garota finalmente entenda o quanto toda aquela angustia e esperança que ela constrói dentro de si, esperando que Sullivan retorne de sua viagem à América do Sul, de nada irá valer para ela. No íntimo, Camille sabe que Sullivan não iria voltar, e que o temperamento incerto, aventureiro e inquieto deste com certeza afastariam os dois durante os 10 meses, que se tornaram anos, de sua viagem. Tudo isso foi necessário. Camille é melancólica como ela própria se define, carrega com si a vontade de que toda sua dedicação e sua dependência afetiva seja retribuída de igual tamanho, o que não acontece. A menina precisa destes anos, não para que se recupere, mas para que sofra, para que chore e para que esgote toda a expectativa interna, e só então possa escrever sua própria história, sem aquela “doença” que carrega.
A prova de que o filme não se trata de um romance, pelo menos não a maneira literal, são as entrelinhas de verdades durante cada 110 minutos de angústia, um corte de cabelo feminista, a escolha da faculdade de arquitetura, a viagem a Dessau para visita a sede da primeira Bauhaus, um projeto arquitetonico perfeito para um monasterio mas imperfeito para uma universidade. Esses detalhes definem quase que uma poesia a profissão de Camille, e são esses detalhes que a adornam que a fazem amadurecer ate assumir um romance mais maduro com um de seus professores. Maduro até o retorno do primeiro amor. Enquanto Camille vive e amadurece, Sullivan parece o mesmo, e talvez seja esse o principal elo entre o casal - Ambos vivem coisas totalmente novas, de Camille sabemos o quanto sua vida mudou, a separação de seus pais, um novo relacionamento, uma nova postura; de Sullivan não acompanhamos o trajeto mas podemos deduzir que a viagem pela América do Sul, a fundação de um novo negocio e a escolha pela fotografia tenham tornado-o um rapaz diferente, porém, juntos, são exatamente os mesmo de 7 anos atrás. Se reencontram quando a jovem já está morando com seu antigo professor norueguês, porém o trai com Sullivan, o castiga por nada, e fazem sexo como se ainda tivessem 15 anos. Mais uma vez o temperamento inseguro e inquieto do rapaz rompe com a relação tortuosa e a menina decide não insistir desta vez. É preciso que o chapéu ganhado do amor da adolescência desça as águas do rio La Loire, para que ela possa viver em paz, ou quase isso.
Se Mariana não tivesse mudado o caminho, talvez não tivesse sentido aquele estalo que deu no pé, aquele que machuca a coitada até hoje. Foi que por um dado azar, ou golpe daquela maldita pedra mal intencionada, havia chutado em seus tamancos duros e de dedos de fora, dedos compridos e com frieira, bem no meio da avenida aquele objeto rolante. Ficou estática no chão quando ainda tentava se levantar e viu por entre os ombros um grande banner na loja branca bem em frente.
“Felicidade se acha em horinhas de descuido” E então resmungou feito tola. Chorou porque sabia que aquelas pequenas sete palavras podiam ser sua vida inteira, ou quem sabe, os últimos 15 minutos. Se emocionou em saber que poderia respirar tão breve quanto os períodos curtos que passavam pela sua mente, vagando, divagando, e explorando aquelas entranhas do cérebro, tão enroladas em massa encefálica, que ela mesma não conseguia fazer sequer cóceguinhas. Sofreu de leve como quem perde um filho, por pensar que aquilo podia de fato sê-la e podia ser todo o mundo que a conhecia. - Mas porque ninguém percebe? - Talvez porque todos vivessem em eternas horinhas de descuido, e ela, como que por uma escapulida sapeca, decidiu simplesmente subir no banquinho e ver aquilo que os adultos apaixonados costumavam chamar de sessão coruja. Na verdade vivia aquilo a mais de oito anos, sem nem pestanejar.
Se visse o coração do cartaz poderia pensar que fosse uma referência ao coração queimado, melhor estilo Old School, e logo pôde imaginar as gatinhas fazendo filas para tirar foto ao lado do grande penduricalho, para assim poderem mostrar aos namorados, aqueles mesmos que ficavam em frente as lojas de tatuagem da rua XV esperando doutras meninas passarem; Aquelas que já tinham o coração incrustado em Ink no braço esquerdo. Podia ser um patchwork na verdade, com as flores bordadas em renda, ou um tecido pesado de jacquard, daquelas que ela iria vestir quando fizesse a colação. Ah Mariana, se você soubesse que no seu nome, já carrega toda a homenagem que podia ter, não teria incrustado no braço o coração flamejante, que hoje, só te faz coçar.
Não me considero artista, nem de longe. Acho que alguns tipos de definições soam prepotentes, essa por exemplo. Faço arte que nem criança e me divirto com isso, e as poucas que faço se algum bom samaritano achar que deve julga-las “artes de gente grande” que o faça, ficarei honrada (geralmente estas boas almas são minha mãe, meu namorado, ou amigos próximos, meu pai jamais).
De qualquer maneira, onde quero chegar com isso: Basicamente sempre que resolvo atacar um papel e um lápis pra fazer qualquer rabisco, costumo ter uma imagem em mente que será desenhada; As vezes eu olho milhões de fotos pra me inspirar, as vezes eu pego revistas como a Vice ou Mag, enfim, talvez eu possa dizer sem prepotência alguma da minha parte que sei como os artistas se sentem naqueles momentos em que não conseguem produzir nada.
Talvez porque essa arte tenha que vir de dentro, e não de uma habilidade técnica que as mãos encaram. É algo tão grande, uma vontade tão excitante interna que estas mesmas mãos não tem outra opção sequer tentar abobalhadamente desenhar o que o cérebro esta enxergando. Como então fazer algum risco se a mente está em inércia completa?
Minha mente se desligou por aproximadamente 180 dias esse ano, dando alguns sinais de vida sobre pressão. Sem querer ser catastrófica mas é quase como a sensação de um coma de idéia, criatividade, entusiasmo, tesão pela vida. Não preciso dizer que durante esse tempo eu não podia nem ver um material de desenho na minha frente; primeiro porque só existe uma coisa mais triste do que não conseguir fazer aquilo que você sempre fez e amou: você não querer fazer.
Sem prolixidades, foi uma prévia da idade média que fez eu me sentir péssima, e sem produzir nada, o que só agravava ainda mais. Fazer a visita diária aos Tumblrs e feeds dos artistas favoritos era extremamente irritante.
Este relato, é mais como um desabafo da felicidade relâmpago que me ocorreu quando encontrei dois novos sites. O primeiro é um flickr, não são ilustrações diferentes das que eu costumava ver, muito menos tem técnica sofisticada, mas de tão singelo e simples, me pegou. O segundo um Tumblr limpo, claro, e com um conteúdo de mais de 120 páginas das imagens mais toscas e meigas que eu já vi.
Não estou na menopausa e desde meus 15 anos não faço o tipo mulherzinha-fofinha mas fiquei feliz de saber que algumas coisas tão simples, até banais, mas gostosas de se ver podiam despertar minha atenção, e minha vontade de fazer as coisas novamente.
Queria que pudesse servir para outro alguém, que se sente triste por não conseguir fazer aquilo que mais gosta, ou frustrado por algum motivo semelhante, que talvez não seja tão bom menosprezar alguns detalhes que podem nos trazer de volta em um estalo.
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