Mauro Siqueira

Assistente editorial, escritor, colunista do site O BULE, colaborador da livraria Blooks, fomentador e instigador de redes sociais e entediado nas horas vagas

Posts

May 18, 07:11 AM


Há trinta e dois anos morria Ian Curtis.

February 10, 07:24 AM


Lá vamos nós outra vez...
É tão frustante e cansativo... Tentar pedir desculpas é sempre voltar ao começo. E retornar a momentos de dor bem mais antigos, supostamente curados e cicatrizados... Há culpa por toda parte. Tão bem mais distantes, quase pueris, e vir caminhado este caminho sentindo as dores outra vez, mais espinhos no meu bolso. Mais outro e outro... Andando descalço por sobre pedras, perdas, separações, decepções e todo o resto. Faz parte do projeto! A sua cabeça que fique com o vozerio depois... Daí você pensa: por quê? Qual o sentido de encontrar alguém, de querer fazer bem a este alguém, de fazer este alguém confiar piamente em você, para num piscar de olhos, num digitar de senhas, num erro latente figurado em palavras falsas, por a perder o que vinha sendo construído? Castelo de cartas são mais firmes... É mesmo necessário distender-se, tensionar para verificar até aonde vamos com isto? Estamos buscando algum limite aqui? Restará alguma coisa boa o suficiente capaz de suplantar o resto? É tudo tão desmedido também... como tudo vem embolorando as coisas boas, fazendo a todos virarem o nariz, e deixando evidente só o lado ruim de tudo. De mim, a minha letargia congênita; de você, sua pulsão por autodestruição. Será possível uma vida normal? Sem revelações bombásticas a todo instante? Venho tentando lutar contra mim mesmo e ser positivo. Mas é impossível ser indiferente aos sinais, a perfeita sintonia, as horas diante do computador conversando, ler um sinal no rosto, numa pinta, num traço de expressão, numa sobrancelha... é impossível ser indiferente ao beijo, ao toque da pele que arrepia, aos sexo sem restrições. Será que tudo isto são mesmo sinais e evidências de somamos uma mais um? Toda essa luta, essa dor... tem que ter um objetivo maior. E me arrepia a espinha só de pensar na possibilidade de isto não significar nada, de ser apenas um impressão muito forte, motivada pela carência mútua que cada uma possuía. Noto isto só agora...
Ou sempre esteve lá?
January 29, 02:12 PM

Num curtíssimo tempo atrás, escrevi um conto que publiquei aqui, no FB e que chamou a atenção dos amigos do Negodito. Este que aqui vai não é uma continuação, mas também não é independente... talvez seja o início de uma série (se o tempo, saco, tesão assim permitirem).




A violência com a qual esfregava os dentes era desmedida, Túlio queria limpar algo que não estava lá. A boca escancarada, a arcada fechada numa mordida capaz de trincar todos os corretos e perfeitos trinta e dois dentes; os músculos do rosto impelidos a ficarem daquele jeito, indefinidamente, até ele terminar. Só se ouvia a água corrente da torneira e o rush-rush-rush das cerdas... Sentia-se sujo, encardido.
“Está tudo bem?” — Tânia perguntou, do lado de fora.
Zero de resposta, apenas o som da escovação. De súbito, abriu a porta, Tânia no caminho, empurrada no sofá, Túlio apenas abriu a porta e saiu...
Sem entender nada e chocada com a reação do namorado, o olhar de Tânia se perdia na porta aberta; do banheiro, a torneira ainda aberta, sentiu um cheiro forte, levantou-se e quando entrou suas pernas reagiram antes e tremiam sem controle. A louça agradável e aconchegante digna de uma revista de decoração das paredes manchada de sangue; no chão, antes impoluto e combinando perfeitamente com o restante do ambiente, poças de uma coloração amarelada e viscosa, um cheio acre em todo o lugar — a torneira aberta, tubos inteiros de creme dental usados, a sua escova largada dentro da pia...
“Que merda é essa?...” — foi o que Tânia conseguiu dizer.

~~~

“Então, vamos?” — Túlio assentiu com a cabeça sem dizer nada, sentia-se tonto muito tonto, como nunca estivera antes, nem mesmo em uma noite de pura esbórnia dos tempos da faculdade, ele fora até aquele bar apenas para entregar o livro a sua dona, preferiria um lugar e horários diferentes... um shopping, café, ponto de ônibus, metrô, qualquer porra, mas um bar à noite? Tânia também achou estranho.
“É onde a moça trabalha, o que eu posso fazer se o único momento que ela pode é lá!? Antes eu não fosse educado e ficasse com o livro...” — respondeu ele a namorada, antes de sair e perguntar se também não queria algo da rua. “Só cigarros” — disse ela, ainda achando tudo estranho.
O bar não era nenhum desses inferninhos ou lugares de reputação ambígua que permeiam o cinema e a literatura. O local não estava cheio àquela hora, na mesa de sinuca, dois funcionários do lugar arrumavam as tudo, nem música havia. Túlio vasculhou o lugar e aproximou-se da moça do caixa e perguntou quem era ***
“Sou eu.” — respondeu com um sorriso. Túlio abriu a mochila e já ia entregando o livro quando *** pegou no seu braço e disse, espere, aceite uma cerveja como agradecimento.
Sentaram-se no bar mesmo...
“Sabe, quase morri quando descobri que perdi esse livro... você fuma? Se importa? Foi um presente muito especial...”
“Ele é muito... bonito...” — Túlio não se interessava por livro, mal chegara a olhá-lo, apenas viu quando *** deixou sobre o banco o metrô, ele chegou a dizer: “Moça, seu livro!”, mas a porta fechara, prendendo a voz no vagão, por sorte, no livro um guardanapo daquele bar marcava as páginas 122 e 123.
“É um livro raro, você sabia? Antigo... mais velho que nossas idades somadas. Qual a sua idade?” — perguntou de surpresa.
“Trinta e um...” — respondeu por impulso.
“É muito mais velho que a nossa idade somada! — ela falava como um gato se movia, era tão sexy que Túlio começava a se incomodar de estar ali, a cerveja nem na metade e *** já pedira outra.
“...é mesmo um peso diferente… Comprei de um professor, estava precisando de grana, um viciado, pobre coitado... Feltro, letras douradas, edição limitada, erro na folha de rosto, dedicatória; ainda em bom estado, as páginas amareladas, o preço ainda em réis anotado no canto direito superior, com uma caligrafia feminina que ele não quis apagar... disse que era de alguém importante. Não sei... O que você acha?”
“Olha, também não sei... Escuta, tenho de ir, obrigado pela cerveja...”
“Espere, deixa só te contar umas das histórias que envolvem esse livro...”
Túlio que se levantava, voltou a se sentar, afinal, que mal havia? A cerveja era boa e aquele decote...

~~~

Em certas situações os gestos mais racionais são os mais ilógicos. A primeira coisa que Tânia fez ao se deparar com seu banheiro coberto de sangue, vômito e o que parecia serem vísceras foi tomar um balde, pano e desinfetante de lavanda e, de joelhos nus, começar a limpar aquelas “coisas” incrustadas na aconchegante e agradável louça do seu banheiro. Limpava de maneira cega e quase monástica. A água balde de um vermelho apenas, moscas voavam por cima daquilo que pareciam ser pedaços de alguma carne... demorou muito tempo e os pensamentos começavam a fazer mais sentido e a se preocupar com Túlio... Não sabia a que horas ele voltara, sequer ouviu a porta, e agora estava realmente tensa, que desgraça havia acontecido na noite passada?! Que sangue era aquele? Teria atropelado algum cachorro? — começa a racionalizar... Guardou o balde, o pano pôs de molho, e os desinfetantes acabaram... agora era ela que se sentia imunda e fétida. Tomou um banho quente, muito quente, a pele ardia e viu sangue escoar pelo ralo, sentia-se ainda suja, encardida... Mais uma vez abriu o chuveiro, besuntou a bucha com sabonete liquido, xampu e condicionador, esfregava com fulgor a ponto de escarificá-la, deu por si que chorava... agachou, deitou-se e em posição fetal e deixou a água cair sobre ela... Ficou um sem tempo ali... Levanou-se e sem se dar o trabalho de fechar a torneira saiu e nua, seguiu para a sala, sobre a TV viu o livro que o namorado fora entregar na noite anterior... Era mesmo um peso diferente o daquele livro com feltro verde e letras douradas...
Não sabe o que veio primeiro: o susto, o grito ou o sobressalto ao ouvir a porta irromper com Túlio passando e gritando “Socorro” por ela. Nua, Tânia viu o namorado ser algemado no chão da sala por dois policiais e dali se arrastado, um terceiro se aproximar dela e dizer: “Desculpe senhora.” e dali sair sem dizerem mais nada. Apoplética, Tânia, novamente, não sabia como reagir naquele dia, ficou ali imóvel se ver nada e tendo somente o livro nas mãos.     

   
January 21, 09:57 AM
Só para não acharem que matei o blog... trecho de um conto in progress.



De maneira alguma era a chuva.

Tremiam sob a marquise estreita de um velho prédio no Centro, dos tempos de calçadas mais estreitas, ruas de paralelepípedos.

— Tudo isso aqui era dos jesuítas...
— Que merda, hein?...
— Por que? Se não fossem eles, talvez a cidade nem existisse.
— Nãããooo, garoto, to falando da Chuva!!!
— Ah tá...

Mas de maneira alguma era a chuva.

Resolveram sair daquele jeito mesmo, o tempo muito fechado, aquele abafado, apesar do vento... A urgência do encontro contrastava com o receio do que poderia sair dali — não muito. Tinham razão... o discurso não batia, ambos queriam a mesma coisa, mas não batia...

— A.
— B.
— Cinza.
—Fúcsia.
— Boca Juniors.
— River Plate.
— O Cortázar de Rayuela.
— O Cortázar de Historias de cronopios y de famas.

Mesmo assim seguiam tentando um entendimento, afinal de conto só o encontro já significava alguma coisa, apesar de travarem cadaum monólogo a dois (...) [continua um dia]
November 08, 08:30 PM






É um peso diferente que tenho nas mãos, um livro... Jogo-o de uma mão para a outra..., de uma mão para a outra... O do livro, o peso, nem o faz abrir no ar, é mesmo um peso diferente... Comprei para ela: feltro, letras douradas, edição limitada, erro na folha de rosto, dedicatória; ainda em bom estado, as páginas amareladas só aumentam o charme, o preço ainda em réis anotado no canto direito superior, com uma caligrafia feminina que ela não quis apagar... só Deus sabe como foi difícil achar esse livro — talvez o diabo também. Sebos, sites, alfarrabistas. Nada. Até roubá-lo da biblioteca da universidade. Não, roubar não: eu paguei por ele, comprei de um funcionário. Crime e castigo? Nem para mim, nem para ele. E agora só resta o livro... parece ter sido fácil deixá-lo para trás passou a madrugada juntando suas coisas em uma mala e uma mochila, que nem mesmo cheias foram — não havia espaço para o livro? Sim havia... Mas somente ele ficou. Pela janela acompanhei o esforço ao vê-la carregar a mala — é, talvez não houvesse mesmo espaço — não tive pudores de gritar para que voltasse, não virou o rosto pela última vez. Mesmo amanhecendo, dormi com o livro entre as mãos, levantei com o sol na minha cara, vindo da janela... Por que ela não te levou? Só então percebi que nunca chegara a metade da história... estava lá na página marcada, 117, uma foto nossa, dobrada ao meio, mal revelada; dois fantasmas: ela e eu; ela segurando o livro... Voltei a janela, é claro que não tinha ninguém lá... Ia deixando o quarto com os livros nas mãos. É um peso diferente, jogo-o de uma mão para a outra..., de uma mão para a outra... de uma mão para a outra... de uma mão para a outra... Filha da puta!!!!!!!! O grito veio primeiro, o peso do livro depois; nem o faz abrir no ar, é mesmo um som diferente... o baque seco no asfalto, lá embaixo...


"Defenestrar: v. (a1958) 1 t.d. atirar (alguém ou algo) janela afora, violentamente." Me veio certinho, à mente, o verbete do dicionário...

July 11, 03:22 PM

Em algum momento da semana passada comecei a ler o novo do Miguel Sanches Neto... gostando muito. Não o lia há muito tempo.

June 21, 09:02 AM
Ontem, segunda, entrou no site da Shahid Produções as minhas impressões sobre o mais novo romance da Ana Paula Maia, Carvão Animal. A ideia partiu da própria Ana, conversava com ela de que assim que acabasse com a leitura escreveria algumas linhas aqui para o meu blog mesmo; ela então sugeriu que enviasse a resenha para a Valéria Martins, que é quem toca a Shahid, empresa de comunicação que atua principalmente no e para o mercado editorial.

Agradeço a Ana e a Valéria, e para lerem a resenha, basta clicar na imagem para serem redirecionados para o site da Shahid.

A ideia é de um futuro bem próximo transformar essas minhas leituras da "Trilogia do Brutos" - a reunião das histórias dos últimos livros da Ana - em projeto para o mestrado. Me identifico com a linguagem, com o mundo ficcional e, por que não, com Edgar Wilson? ;)

http://www.shahid.com.br
Acessem também: www.killing-travis.blogspot.com
May 27, 04:47 PM
Dentre os gêneros que me formaram como leitor, guardo com apreço a Ficção Científica. 
Um dos primeiros livros que li por escolha própria foi "Viagem ao Centro da Terra" - numa edição de bolso da Ediouro, que tenho até hoje, desfazendo-se pelo tempo. Tinha nove anos então e o encanto não passou até o livro seguinte "Vinte mil léguas submarinas" e deste seguiu. É até emocionante escrever sobre isto... Eu li muito Verne depois disso, conheci Asimov, Ray Bradbury, Burgess, Robert A. Heinlein, Aldous Huxley... Michael Crichton e outros e outros... E que para muito é um gênero menor dentro da literatura - um erro crasso. A  ficção científica, dentre as características da própria literatura, ainda promove o futuro e o desenvolvimento. Não acredita? Pergunte aos robôs, ao seu celular, ou se preferir, clique AQUI para alguns exemplos recentes. Asimov, por exemplo, usava o termo "literatura de antecipação" invés de Ficção Cinetífica - gênio. Então é com imensa alegria que vejo uma livraria abrindo - mais uma vez - o seu espaço para debater esse gênero. Eu estarei lá como admirador, andei flertando a minha escrita para o sci-fi, mas não é qualquer um que faça algo razoável nesse GÊNERO.

Então, convido a todos para prestigiarem o SpaceBlooks 2011 e com a ajuda da Jaciara Rodrigues, deixou a programação completa do evento, além da linda vinheta feita pelo Toinho Castro e o pessoal da Místico Solimões Design




Spaceblooks 2011
A ficção científica em órbita no Rio

Escritor e roteirista britânico Rob Shearman (Doctor Who)
é um dos destaques dos bate-papos que reúnem fãs do sci-fi,
de 30/05 a 1/06 na Blooks Livraria


Evento único no Rio de Janeiro que discute ficção científica e suas conexões com a TV, o cinema e outras mídias, o Space Blooks invade, de novo, um dos lugares mais plurais da cidade: a Blooks Livraria.

Com curadoria de Octavio Aragão, doutor em Artes Visuais (UFRJ) e professor da Escola de Comunicação da UFRJ, a segunda edição do encontro traz a cidade, de novo, para o centro do universo de alienígenas, mundos paralelos e fenômenos inexplicáveis que conquista uma crescente legião de fãs.

Este ano, o Space Blooks ganhou mais uma noite e um convidado internacional: Rob Shearman, escritor britânico vencedor do World Fantasy Awards, finalista do prestigiado prêmio Hugo, e um dos roteiristas da série cult britânica Doctor Who. “A maior parte dos seriados tem seu pé bem plantado em conceitos de Sci-Fi, vide os fenômenos Lost, Heroes, Fringe e The 4400. Mais do que o cinema, a TV é hoje o principal veículo pelo qual a ficção científica chega ao consumidor, formatando gostos e visões de futuro. Ter um roteirista do gênero e escritor premiado falando sobre seu processo de trabalho na TV inglesa será um presente para todos nós”, comemora Octavio Aragão.

A programação, claro, tem prata da casa: Lúcio Manfredi, de Dom Casmurro e Os Discos Voadores (Leya), e Pedro Vieira, de Memórias Desmortas de Brás Cubas (Tara Editorial) - autores de mashups que ousaram lançar mão de obras do “bruxo do Cosme Velho” em romances polêmicos, que mexeram com o panorama literário no final do ano passado. Além deles, Gérson Lodi-Ribeiro faz a noite de autógrafos do seu A Guardiã da Memória (Draco), no terceiro e último dia do evento. A Draco aproveita e lança, também, Space Opera, antologia com textos de diversos autores brasileiros sobre naves espaciais, alienígenas e armas futuristas.


PROGRAMAÇÃO/SERVIÇO

30/05: “Mashup de Assis” – Lúcio Manfredi, autor de Dom Casmurro e Os Discos Voadores (Leya), e Pedro Vieira, de Memórias Desmortas de Brás Cubas (Tara Editorial).

31/05: “Ficção Científica na TV” – Robert Shearman, escritor britânico vencedor do World Fantasy Awards, finalista do prestigiado prêmio Hugo e um dos roteiristas da série cult britânica Doctor Who.

01/06: Lançamentos - A Guardiã da Memória, romance de Gérson Lodi-Ribeiro, e Space Opera, antologia de autores brasileiros: ambos da Editora Draco.


space blooks 2011
Data: 30 e 31/05 e 01/06, às 19h.
Local: Blooks Livraria – Praia de Botafogo 316, Botafogo (Unibanco Arteplex) - (21) 2559-8776 / Grátis.
blooks.com.br - diariamente, durante todo o mês de maio, posts especiais sobre Sci-Fi. Às sextas-feiras, filmes.
facebook.com/blookslivraria & twitter.com/Blooks - para curtir e acompanhar.


Realização: Blooks Livraria
Curadoria: Octavio Aragão
Assessoria de Imprensa: Jaciara Rodrigues - (21) 8121-2474 :: rjaciara@uol.com.br
May 20, 08:16 AM
Eu simplesmente adoro bandas de rock femininas, ou com vocal feminino. Não sei bem quando descobri ou mesmo quando passei a notar (talvez em algum momento lá nos idos dos 90 junto com o interesse pelas meninas hehe). O que trouxe isto à tona foi uma sequência no shuffle do meu mp3 que em uma sequência de dez músicas, sete eram de bandas femininas ou cantoras. Então fui averiguar... e realmente, há muitas no meu HD, cartões de memória, Cd's, Lp's(!) e fitas k-7 (!!!!) e resolvi então postar aqui parte desse fascínio em um momento clássico e seminal, outro afetivo e um recente (de dois anos?) rememorado por uma amiga essa semana. Aumente o volume e se jogue na dança!

1. The Runaways - Cherry Bomb 



Nada mais justo do que inciar esse post com aquelas que inciaram tudo para as bandas de rock femino. Joan Jett (considerada pela Billboard uma das maiores guitarristas de todos os tempos) e Cherrie Currie no Runaways duraram pouco, mas ecoaram, influenciaram as gerações seguintes.


2. Luscious Jackson - Naked Eye



Ahhh anos 90! Muita diversidade, MTV, consolidação da Internet, surgimento do mp3 e no final da década o Napster... Antes disso tudo troquei muita fita K-7 e fui a muitas festas e numa fita e numa festa conheci aquela que se tornou a 1ª banda do selo Grand Royal dos Bestie Boys. De imediato fui tomado pela voz "cool" de Jill Cunniff e depois o clip muito bacaninha.


3. Warpaint - Elephants


A terceira escolha foi a mais complexa... Pelo simples ¬¬ fato de que hoje há bem mais bandas com meninas e de que as ouço. Aqui poderia estar um vídeo do Le Tigre, New Young Pony Club, Au Revoir Simone e outras, mas preferi postar War Paint por algumas pequenas razões: uma ouvi intensamente quando conheci  e meio que esqueci quando perdi tudo do meu antigo HD, segundo voltei a ouvir muito desde segunda, quando motivado pela postagem da  amiga Amanda (@madamelexton) no facebook e por último, a difícil classificação do som das moças. 

E claro, nenhuma escolha foi motivada pela beleza das integrantes ¬¬ Sequer pelo lindo nariz da Emily Kokal do queixo da Theresa Wayman ou os... deixa pra lá da Jenny Lee ;)

Bom som! 
May 18, 11:02 AM
Não, idiota, ela não está sorrindo para você! Ela está olhando é sua camisa do Joy Division.

























Leaders Of Men

Born from some mother's womb,
Just like any other room.
Made a promise for a new life.
Made a victim out of your life.

When your time's on the door,
And it drips to the floor,
And you feel you can touch,
All the noise is too much,
And the seeds that are sown,
Are no longer your own.

Just a minor operation,
To force a final ultimatum.
Thousand words are spoken loud,
Reach the dumb to fool the crowd.

When you walk down the street,
And the sound's not so sweet,
And you wish you could hide,
Maybe go for a ride,
To some peep show arcade,
Where the future's not made.

A nightmare situation,
Infiltrate imagination,
Smacks of past Holy wars,
By the wall with broken laws.

The leaders of men,
Born out of your frustration.
The leaders of men,
Just a strange infatuation.
The leaders of men,
Made a promise for a new life.
No saviour for our sakes,
To twist the internees of hate,
Self induced manipulation,
To crush all thoughts of mass salvation.
May 17, 01:44 PM



Tinha em uma das panturrilhas Kurt Vonnegut e na outra, Paulo Coelho.  Achei uma ( ) feliz ( ) estranha ( ) insuspeita coincidência e só podia ser ela mesma... Tatuar tão díspares figuras... – não tinha como ser outra pessoa. Eu não iria desperdiçar a oportunidade, a mulata – antes de tudo um estado de espírito que características étnicas-sociais – sambava como desenvoltura. Os cabelos mudaram, um corte batido curto, na altura da nuca deixando aquela penugenzinha... O aloirado de quando a conheci dera lugar a um tom de ruivo quase verdadeiro, combinando com as sardas do rosto e do colo, que era exibido pelo decote canoa da camisa listrada (tipicamente de turista) cortada à mão, que indo de uma ponta a outra do ombro, deixava à mostra parte dos seios diminutos. Olhei para a palma da minha mão. Olhei para os seios: cabiam direitinho. Nossos olhos se encontram. Vi um riso. Reconhecimento? Usava um shortinho bobo e apertado, a cintura marcada descia para o quadril largo e a bunda arrebitada – ancas de parideira! Ela tinha um quê de Franka Potente. Fui até ela. Fingiu susto, girando sobre os calcanhares, quando toquei o ombro ossudo saliente e sardento. Gritando sobre o compasso da bateria, perguntei:

– LEMBRA-SE DE MIM? DE BERLIM... *

Ela não parou de dançar, mas me dava atenção, sambando na minha frente, gesticulando o braço como duas serpentes, aliás, havia duas serpentes tatuadas em cada braço. O vermelho cor de cereja do batom atraindo toda a minha atenção. Não me respondeu e eu continuei (não tinha como ser outra pessoa) com minhas suspeitas:

– TALVEZ ENTÃO DE FRANKFURT... ESTIVE NA ALEMANHA HÁ DOIS ANOS...

(A bateria vez uma paradinha, ela rebolou até o chão) Meus olhos vidrados, escaneando o corpo: muito branca, veias azuis, verdes, sardas, manchas de sol, marca de biquíni!

– QUEM PODERIA IMAGINAR QUE IRÍAMOS NOS ENCONTRAR LOGO AQUI?... NA LAPA... NA LAPA! É ATÉ ENGRAÇADO..., NÃO ACHA?

(Do chão rebolou até o alto, o sambão recomeçando... emulava movimentos eróticos: subia e descia, os músculos das coxas ali rígidos, subia e descia).

– MAS VOU TE CONFESSAR: ESQUECI SEU NOME.

Vislumbrei nos seus olhos pela primeira vez uma ponta de atenção genuína – passou a sambar a minha volta e eu ali. Ela então parou na minha frente e riu:

– QUEM ME CONHECE NÃO ESQUECE MEU NOME.

Eu ri mais para mim do que para ela: saberia dizer até seu sobrenome: Klein- Hoffmann.

– NÃO QUER SAIR PARA CONVERSAR SEM GRITARMOS? TALVEZ LÁ FORA EU CONSIGA ME LEMBRAR DO SEU NO...

Ela não me deixou terminar o gracejo, pegou a minha mão e me tirou da roda. Lá fora uma garoa recém-caída deixava os paralelepípedos boêmios do bairro brilhantes e escorregadios, ela andava com a mesma desenvoltura do samba de antes, eu seguia; nos perdíamos propositadamente entre as ruas, vielas e becos da Lapa – a mais escura nos serviria.  A Lapa é famosa, é badalada, cool, agitada, essas merdas todas, e para mim que já zanzou pela metade do mundo, a Lapa é só mais um lugar para se esquecer no dia seguinte de porre. O bairro, já teve seu inferno astral e, hoje, mais uma vez se reinventa e por ironia (ou não) perde a sua cor local: boemia autêntica... samba de raiz... berço da malandragem carioca (mais merdas assim) e como todos os locais da moda sempre há um lugar ou outro que conserva a velha aura. Era dessas babaquices que conversávamos enquanto andávamos observando os bares pequenos e antiquados; ela como o mesmo pensamento de desencanto do lugar: o mesmo papo furado pseudo-inconformado, algo para falarmos enquanto andávamos... Ela decidiu onde pararíamos e entre os bairros da Lapa e Glória deu nosso entendimento. Conversamos mais alguma coisa sobre as conexões Lapa-Berlim e percebemos que não tínhamos nada a dizer um ao outro, como qualquer outro casal que se (re)conhece na noite. Ela então me mostrou as novas tatuagens, as serpentes, enormes e cores vivas, dando voltas em cada um deles e adentrando pelas costas dos braços.

– Onde elas terminam? – perguntei com sincera curiosidade.

Ela riu, deu as costas e levantou a blusa folgada. As tatuagens seguiam na direção dos ombros, um pouco abaixo das omoplatas, encontravam-se e fundiam-se os dois ofídios na bem demarcada coluna vertebral e como uma cobra só, desciam até a base do cóccix – era uma coisa de louco... Excitante só de olhar. Não resisti ao que queria desde o momento em que reconheci Kurt Vonnegut e Paulo Coelho. Numa pegada apertada pela cintura a envolvi, uma risadinha nervosa autorizava a conduta. Esfregava a barba por sua nuca, mordiscava sua orelha – um gritinho de nervoso. Virou-se bruscamente e tomando o meu rosto em suas mãos, me beijou com demasiada força. O abraço era o mesmo de Berlim, a maneira das mãos as mesmas, o cheiro da pele o mesmo, a língua... – não tinha como ser outra pessoa – toda ela a mesma mulher. Foi então que levando para uma parte mais escura da rua, entre dois sobrados centenários, nos pegamos. (E daí se pudessem nos ver? Não seria a primeira vez para ninguém: eu, ela, moradores voyeurs). Ela desafivelava meu cinto com dificuldade; a qual eu não tive para tirar a blusa e o sutiã dela – sim, os seios cabiam corretamente em minhas mãos. E como no apertado banheiro de uma boite alemã onde nos conhecemos, ela se virou para mim, empinando com talento a bunda branca crescente feito lua e eu no escuro podia claramente delineá-la por completo: alisei-a por um momento hipnotizado... logo fui tomado pelo óbvio: terminei com o cinto, nem me dei conta da cueca...
Enquanto transávamos, ela dizia coisas em um alemão incompreensível para mim, talvez um dialeto, o que só me deixava mais excitado e fizesse tudo com mais vigor... arfávamos juntos e sincopados, acariciava os seus seios eternamente tungidos, beijava suas costas, segurava com força seu quadril... E a bunda enorme na minha frente, eu até me sentia pequeno diante dela. Apoiadas nela, minhas mãos escorregaram para as coxas – afinal eu não tinha esquecido Berlim. Sentia os músculos das pernas, os dedos vagarosamente seguindo para o que havia entre elas...

– O que você quer ai – me disse ela num arremedo de português afetado com alemão.
– Você sabe bem...

Encontrei e ela riu, o que eu fazia era tocá-lo – era duro... pulsante. Abruptamente ela ergueu todo o corpo e girou, me beijou e me mordeu o lábio, senti o sangue... ela me empurrou com força contra a parede, dessa vez eu fui pego pela cintura... me virou com calma... um silêncio se fez na Lapa e por um momento nada se mexia – como naquela vez em Berlim, ouvi que cuspia em sua própria mão. Encostou o corpo no meu corpo e enquanto me penetrava com carinho, falou no meu ouvido com a sua voz grossa e vigorosa:

– Joachim Klein- Hoffmann, e da próxima não esqueça mais meu nome.

  


* Traduzido do alemão.

May 14, 01:31 PM
Olá, amigos! 
Recentemente publiquei o conto "Corpo & Neve" na revista RapaDura, da qual sou editor. Para uma história tendo como suporte a internet, achei que ela ficou um pouco extensa, o que cansaria a leitura, então resolvi dividir o conto em duas partes no site. Porém, dessa forma, acredito que a história tenha perdido "liga", resolvi juntar tudo e criei um "livrinho" só para o conto - com direito a 4ª capa da especialíssima Letícia Rangel

Vocês podem ler aqui, direto do Issuu ou baixá-lo em .pdf.
May 06, 09:53 AM



O relógio de alcachofras na parede trabalhando.
À esquerda, WW, o desenhista desenhava o retrato falado (ou outra hq); à direita, PA, o escrivão, catava milho na máquina de escrever escrevendo o que dizia a testemunha (ou outro romance).
Numa enorme mesa, jornais fazendo o seu papel antes das suas metamorfoses; na cadeira, o delegado JC interrogava a testemunha: Eu.
"Dotô delegado, tenho certeza que vi aquele Fama empurrar o Cronópio nos trilhos da estação de metrô Esperança. Tenho certeza."
O delegado JC mastigava uma ou duas horas do relógio alcachofra... fumou um ou dois cigarros. Pediu que WW e PA que saíssem da sala. Olhou bem olhado para mim, e me perguntou se eu sabia por que a tia dele havia de ter tanto medo de cair de costas, eu disse que suspeitava, mas ainda carecia de fontes para uma teoria elaborada, ele pareceu satisfeito, anotou o que disse no pulso, comeu outra hora-alcachofra, pegou o chapéu e o vinho: não saia daí, volto em alguns anos com um livro assim assim.



May 03, 12:27 AM

Como sabem - ou a maioria - sou um dos editores da recém lançada revista digital RapaDura. Terei uma papel mais de bastidores do que holofotes, mas esporadicamente, um texto ou outro irá surgir. E como toda primeira edição é especial, não poderia deixar de participar com alguma coisa nela. A RapaDura é um revista temática e tomamos a loucura para ser o primeiro tema, pensei em não me ocupar muito e pretendia reapresentar um texto já escrito e publicado aqui e ali, mas no decorrer daquilo que foi surgindo para a revista, e a forma com que cada vez mais me envolvi como um certo personagem que se tornou - sem querer - o personagem desta edição, preparei um texto inédito.

Robert Walser além de um escritor fascinante também o é como personagem - diria inebriante até. Paradoxalmente ao que desejou em vida, o que ele mais queria era desaparecer, por um tempo seus livros andaram sumidos, mas um dos escritores prediletos de Kafka não atingiria  seu objetivo. Talvez em parte pelas circunstâncias excêntricas de sua vida e, sobretudo, de sua morte. E é a partir dela que posiciono a minha escrita e tento - de maneira simplória - contar parte da história de dois garotos que 'topam', no dia de Natal, com um homem na neve, Walser, e como tal fato mudou a vida de cada um. 

Para saber como trabalhei essa história, convido a lerem essa história no dia 04/05, às 12h na Revista RapaDura. No momento ofereço um diminuto trecho sugiro também lerem Os exercícios de redação de Fristz Kocher, obra inédita do autor suiço que a revista está repoduzindo em seus pixels e o belo artigo do outro editor da RapaDura, Christian Fischgold, "Vila-Matas e Walser: o desaparecimento e a loucura". Vamos ao texto:

"Eu percebi algo de estranho antes de Peter e por isso parei... das pequenas colinas que levavam ao centro psiquiátrico Krombach vi algo que destoava  de tudo ali. As pegadas sobreviventes à neve eram fundas, a distância entre uma e outra era pouca, tortas e vacilantes, sinais claros de que seu dono cambaleava ao deixá-las. Segui-las foi inevitável. A cada passo, meu coração se elevava dentro no peito, o frio já não era sentido, de Peter eu ouvia a respiração ofegante e no vasto daquele cenário branco, víamos a trilha completa que as pegadas faziam: próximo à cerca do Hospício. Uma mancha escura borrava o branco, no fundo do vale. Corremos. Um homem emborcado na neve. Congelamos. Não sei quanto tempo ficamos em silêncio, o chapéu caído, não víamos o rosto do homem emborcado na neve, um grosso casaco de feltro. Foi Peter quem agiu primeiro, com a vara que não abandonava e que antes era uma espada de pirata, e agora servia para verificarmos com cautela quem era aquele homem-da-neve. Eu, há dois passos dele e com a mão no seu ombro, tremia. Com a ponta da vara, Peter cutucou a sola do sapato do homem... Nada. Outras tentativas... Nada. Notei que as mãos do homem estavam encobertas pelo peito; Peter, então tentou empurrando com mais força a vara nas costas do caído... Nada. Decidimos virá-lo.
do conto "Corpo & Neve"

Mauro Siqueira 

March 09, 10:21 PM
Por vezes não é o número enorme de fases, a jogabilidade absurda, a dificuldade quase espartana, a qualidade cinematográfica dos gráficos que faz de um jogo um sucesso, mas sim uma ideia simples. Como dezenas de joguinhos online espalhados por ai (e que te fazem perder tempo no trabalho), Doodle God é um deles e com uma premissa bem básica: o que combina com quê? É simplesmente viciante. Experimentem...


February 28, 08:10 PM

Dog Days Are Over
Happiness hit her like a train on a track
Coming towards her stuck still no turning back
She hid around corners and she hid under beds
She killed it with kisses and from it she fled
With every bubble she sank with her drink
And washed it away down the kitchen sink

The dog days are over
The dog days are done
The horses are coming
So you better run

Run fast for your mother, run fast for your father
Run for your children, for your sisters and brothers
Leave all your loving, your loving behind
You cant carry it with you if you want to survive

The dog days are over
The dog days are done
Can you hear the horses?
'Cause here they come

And i never wanted anything from you
Except everything you had and what was left after that too, oh
Happiness hit her like a bullet in the mind
Struck from a great height by someone who should know better than that

The dog days are over
The dog days are done
Can you hear the horses?
'Cause here they come

Run fast for your mother, run fast for your father
Run for your children, for your sisters and brothers
Leave all your loving, your loving behind
You cant carry it with you if you want to survive

The dog days are over
The dog days are done
Can you hear the horses?
'Cause here they come

The dog days are over
The dog days are done
The horses are coming
So you better run (Here they come)

The dog days are over
The dog days are done
The horses are coming
So you better run
February 18, 01:06 PM
Gosto muito do Chile por razões que desconheço. Daquelas que conheço estão alguns jogadores de futebol, filmes, o deserto do Atacama, os Andes, os vinhos, e claro, a literatura - Neruda, Donoso e Bolaños.

Por esses dias me deparei com um blog de tirinhas "En Dosis Diarias" (Doses Diárias), do chileno Alberto Montt, gostei muito do traço, das cores e, lógico, do humor. Muito da graça de uma tirinha está em dizer muito em muito pouco, os limites gráficos da Imprensa meio que tornaram padrão as tiras com 3, 4 quadros. Montt o faz em apenas um, na maioria, não que ele seja o único ou o melhor, mas a concisão me impressionou.



E um humor ácido para esses novos tempos...



Fora esses exemplos, há muitos sobre Deus e o Diabo, Batman e Robin, ursos polares e pinguins e em especial de um personagem que oscila entre o bem e o mal - marcada pela auréola e o par de chifres - que solta frases aforísticas ácidas.

Vale fazer o ctrl + d no blog de Alberto Montt e torcer que algum jornal traduza as tiras para o grande público... se bem que nem precisa! Com o próprio site e as possibilidades de multiplicação da obra do chileno, mas não seria ruim. :)

ms

Deixo os links do BLOG e do TWITTER do artista.

February 15, 02:25 PM

February 28, 08:07 PM
"You like a little chaos
We like a little thrill..."

January 18, 03:31 PM

Estou lendo o livrinho aqui do lado. Num primeiro momento fui atraído pela capa (que a meu ver não é um estilo muito comum nessa casa editorial). "Raiva" é uma leitura densa, direta e sem firulas, que na concisão das frases e períodos concentram o sentimento que o título alude. A sinopse (mais abaixo) fala de uma parcela da sociedade normalmente desprezada. É o tipo de literatura que me seduz: o Lado B das coisas. Em certos momentos, visualizo um jeito Ana Paula Maia de ser na narrativa de Bizzio, em outros a tensão de Casares. É daqueles textos que te dominam, que você começa a ler de modo meio displicente e quando nota, já está virando a 47 página... 

O livro gerou um filme e pelo que já li dele e a atual qualidade do cinema latino atual, anseio em assisti-lo. Deixo a sinopse do livro, linkado do site editora e o trailer de la película.


 O amor entre o pedreiro José María e a diarista Rosa surge à primeira vista, em um supermercado em Buenos Aires. Mas o temperamento explosivo dele coloca tudo a perder quando, dominado pela raiva, José espanca até a morte o capataz do canteiro de obras em que trabalha e com quem tinha uma rixa. Sem ter para onde ir, ele se esconde na mansão em que a namorada trabalha, sem que ninguém note sua presença. A partir disso, a história toma um rumo inusitado, e o protagonista se transforma em um voyer com impulsos assassinos, mas para quem é impossível não torcer.
 Link de origem



ms


January 10, 08:50 AM
Para ler a matéria, basta clicar na imagem



Neste mês, na 6ª edição da revista Crase, em matéria assinada por Vinícius Baião, dei lá uns pequenos pitacos junto do Ramon Mello sobre a relação entre a literatura produzida hoje e a Internet.

Num texto objetivo, Baião traça um panorama dessa deliciosa(?) tensão que não parece ter fim. Afinal a literatura na rede é ruim? É só para rede? É ponto de partida... Leia a reportagem busque alguma resposta e conheça a revista, que é nova e promete bastante.
January 07, 06:59 AM

Relacionamentos... de vários formatos, tamanhos, embalagens e cores e (de)sabores de um. É o que escolhi para ser a coluna  onde meu próximo livro se sustenta e do vago de possibilidade disso escrevi um conto sobre um reencontro fortuito, em que de maneira muito breve um casal põe tudo em pratos limpos (ou não). 

"O lábio fica torto quando ela sorri de algo que descrê. Surgem aquelas covinhas no canto esquerdo da maçã do rosto. Já fiz muito, muito por aquele instante do rosto dela – mentir, inclusive. Hoje é diferente, conto a verdade. Digo que eu nunca soube desse lugar; ela faz as refeições ali quase que religiosamente aos finais de semana, mesmo não morando mais no bairro. Mas não me defendo da acusação inaudita de que a estou seguindo e desisto daquele assunto. “E a sua casa?”, pergunto. “Vendi”, responde sem saudade na voz, num tom metálico. (...)"
December 20, 09:22 PM

Não sei se o projeto vingará, já que as doações para a realização do filme ainda estão bem longe do que pedem seus realizadores. Eu, assim como muita gente, detesta essa fonte - ainda mais em e-mail's com cor vermelha. Boa parte das razões de não gostar são técnicas mesmo, como usabilidade... outras por puro hype! :P
Gostaria de ver esse doc feito e comparar com o feito em homenagem àquela que é  a mais popular família tipográfica: a helvética. É demais! E após a exibição fiquei procurando exemplos em todos os lugares :)

Deixo para vocês o trailer de ambos.

"Comic Sans or the most hated font in the world"


Comic Sans: Documentary Teaser from Anthony Meadows on Vimeo.

e

"Helvetica - the film"

December 16, 02:58 PM


Amigos, gostaria de lembrá-los que é só até sábado a vídeo instalação "Há muitas noites na noite", homenagem sobre "Poema Sujo". O evento foi concebido pelo grande cineasta Silvio Tendler.

Participo humildemente no 'prato' 4, ao lado de nomes como Dau Bastos, Amir Haddad, Camila Pitanga, Márcio-André e outros.

Vexo só de contar que participei... melhor, que venci a timidez - mesmo que o vídeo diga o contrário :)

Mais detalhes

Posts

May 24, 04:58 PM
Por Daniel Lopes

Para Martin Heidegger 

“As lágrimas de alegria que os mortos derramam pelo primeiro que não mais morre.”
Elias Canetti

No ventre da última mulher
Um óvulo sonha inútil
[Os homens já não são]
A última mulher pinta as unhas para o fim
& se maquia só para a morte
Não mais silêncios ante o Absurdo
Não mais desesperos ao pôr do sol
Não mais a morte devorando a vida que torna a nascer sem cessar

(Há um lago e o silêncio das águas)

A última mulher carrega o vácuo nas algibeiras
& fura os olhos de Deus
A última mulher assassina a própria morte com seu óvulo infecundo
& trava a roda do devir
Sobre a face das águas flutuam inúteis
Um piano branco
            Um exemplar da Odisséia
                         Um par de luvas de boxe
                                 Um pincel que pertencera a Paul Cézanne
A última mulher povoa a Possibilidade
& tranca
Com seus imensos cadeados
A porta de abertura do Ser.
May 21, 09:32 AM

 Por Marcia Barbieri                                                                                      
O rio é um mar pequeno, infinito e tenebroso. Cavalos marinhos devorando submarinos de todas as cores e mastigando cadáveres frescos. Carvalhos sentimentais. Cardumes de olhos me olham. Espiões. Peixes esperando serem fisgados.
Relembrar é estranho... É viver duplamente o que deveria ser subtraído da memória. Reencarnações. Engulo estranhas pílulas brancas. Não se compra a paz. A sanidade num frasco de vidro. Medley. Duzentos anos para decompor. Tarja preta.
O divã é um culto intelectual às emoções mortas. Lazaro e suas roupas em farrapos.

- O que você está sentindo?

Moscas mortas. É o que eu vejo toda vez que fecho os olhos. O perolado das moscas mortas. Varejeiras.

- Conte mais. O que mais você vê?

- Redes resgatando enguias. Cristo mergulhado em ódio e silêncio. Sinestesias. Mantos revestindo pedras. Sanguessugas cobrindo meu corpo.

- E a sua infância? Qual o cheiro da sua infância?

- Vísceras frescas. Leitos. Vidas submersas. Chuvas e escombros de janeiro. Velas queimando sobre carne. Diálogos escorregando entre os vãos obscuro da portas.

- E a morte? Você tem medo da morte?
- Não. Penso na morte como números cabalísticos. Inevitável. Roda da fortuna.

- A morte não te surpreende?

- A morte, algumas vezes, não é surpreendente. Não chega feito um batedor de carteiras. Vem mansa e certa, como a correnteza... Como uivos em noite de lua plena. Como o suicídio previsível dos desesperados.

- E a sua mãe, gostaria de falar dela?

- A minha mãe estava na beira do rio comigo no colo, não me recordo nitidamente, acho que meu irmão brincava um pouco mais distante, aí então...

- Pode continuar.

- ... foi então que ela perdeu os sentidos, a vida perdeu o sentido. Eu puxei-a pelos cabelos e gritei, gritei, gritei, mas a correnteza foi levando, levando... Ainda sinto seus cabelos escorregando entre meus dedos finos e enrugados, sua vida se tornando fluida e transparente.


Era um aquário, depois virou rio, depois virou mar.

- E o mar?

O mar é apenas um rio grande, infinito e tenebroso. Tão somente... Campos ceifados.




May 19, 11:10 PM
Por André Giusti

Desceram correndo as escadas sete ou oito jovens enfileirados. Era bem dividido o grupo, três ou quatro homens, três ou quatro mulheres. Faziam algazarra, estavam felizes, leves como é a cabeça na idade que tinham. Os homens falavam graças uns para os outros e para as meninas, contavam também piadas, mas inocentes, aquelas bem bestas, sem palavrões ou indecências. Elas riam, achavam bobeira, como a vida toda acham que são as coisas dos homens e o que eles dizem.

Pedro era o primeiro da fila. Ele não lembra se apenas ria ou se também dizia besteiras, mas percebeu que estava uns cinco degraus à frente de quem o seguia. Ela estava mais para o final, da metade da fila para trás. No último degrau Pedro esticou a mão esquerda, segurou firme na curva do corrimão e deixou que o corpo fosse no embalo da descida até quase o primeiro degrau do outro lance da escada. Ali fincou a ponta do pé direito, fazendo-a de freio. Parou e voltou um tanto de nada, feito um carrossel que encerra a diversão. Plantou-se bem no fim do lance de escada que todos ainda desciam. Dali olhou para o alto, ria de algo que ainda dizia ou que ainda ouvia, mas sempre olhando para ela, vendo-a se aproximar. Passou por ele a segunda pessoa da fila, desviando em cima; a teceira também, a quarta, a quinta. Mas ela, não desviou, e Pedro teve a certeza – feliz – de que ela não queria mesmo desviar. E quando já estava próxima, ele esticou para o alto a mesma mão esquerda que soltara do corrimão. Ela pegou com a delicadeza de quem toma um lenço e veio tal como paetê ao encontro de Pedro. Se ensaiado fosse, o movimento talvez não conseguisse tanta perfeição. Ela veio girando, enroscando no braço dele, parou enlaçada na cintura, agora pelos dois braços de Pedro (ele tão galante, tão jovem no sonho, uns 25 se tanto. Ah! Quantos anos atrás Pedro tinha 25 anos?). O último da fila passou também desviando em cima. “Olha isso aí vocês dois, hein?”, e a galhardia prosseguiu escada abaixo quando o grupo percebeu que os dois ficaram para trás, a sós.

Pedro era um sujeito comum, e como tal não gostava das segundas-feiras. Mas naquela não lhe ocorriam temores e frustrações. Sentado na beira da cama às 6h30 da manhã, apenas uma angústia lhe assaltava: a de não lembrar do rosto dela. Este fugira-lhe da mente, escorrera-lhe a lembrança feito água derramada de um baldinho de criança na areia da praia. Como são fugazes as memórias dos sonhos, era apenas o que Pedro lamentava naquela manhã em que o fardo de mais uma semana incrivelmente não lhe pesava nos ombros. Fixou algum ponto do quarto onde o dia claro ainda não alcançara. Dali, enovelou de volta o sonho. Tudo mais era nítido, feito a manhã anunciada há pouco. A algazarra na escada, a correria, seu gesto cavaleiro. Agora vinha a certeza de que até mesmo música existia, em algum lugar lá embaixo do prédio, onde certamente uma festa esperava aquele grupo feliz e em paz com a vida. Mesmo da cor dos cabelos dela, Pedro poderia afirmar com certeza: eram castanhos claros, anelados na ponta, chegavam no máximo aos ombros. Noite fria, céu cinzento, e Pedro lembra-se de mais esse detalhe recortado no basculante do corredor do prédio. Por isso ela vestia blusa de gola alta bege, talvez por cima estivesse um casaco pesado e marrom, Pedro acha que sentiu a textura do couro legítimo quando a enlaçou e ela sorriu seduzida. Havia um sorriso de sonho no rosto, mas do rosto Pedro não lembrava.

- Pedro! Um avião caiu com duzentas pessoas! Todos mortos, uma catástrofe! – bradava o redactor de notícias da pequena emissora radiofônica em que Pedro trabalhava. Mas, de olhos e ouvidos ausentes, Pedro adentrou a ampla sala como se os pés não tangessem o chão encardido. Cruzou mobília e computadores decadentes flutuando feito pena que se desprendesse do pássaro que mais alto voasse sobre a cidade.

Sorrindo para o todo e para o nada, Pedro fustigava as imagens do sonho, tentando que se deslindasse a que mais ansiava lembrar: o rosto que sabia belo, mas que se quedava incógnito na distância das horas que separavam Pedro do que sonhara. O máximo a que conseguia chegar eram os olhos castanhos de penumbra e o sorriso de felicidade sincera, de alegria de festa, de euforia de conquista. Mas nada na lembrança de Pedro encontrava pouso na moldura de um rosto de mulher.

- Pedro! Morreu o fabuloso astro da música pop! O mundo está abaladíssimo! – e o velho redactor puxava cabelos ralos num ir e vir sem destino e objetivo. Enlevado pelo sonho, Pedro sentia-se balão de gás desprendido da mão de menino.

No meio do dia, Pedro vagava pela avenida principal sem almoço e sem fome. Tão displicente sempre para quem passava ao lado, agora fitava todas as mulheres no caos da cidade sem coração e dó. Verificava que rosto seria possível sustentar o sorriso que só conheceu no mais belo dos sonhos que teve, de toda a vida de verdade que viveu.

A estudante que abraçava os livros no ponto do ônibus; a mãe jovenzinha que afoita entregava o filho na escola; a modelo sorridente que anunciava creme dental no para-brisa do ônibus. O avião, o astro pop! E o mundaréu de gente se apinhava comovida na frente do magazine para ver as TVs ligadas na vitrine. Nem a moça que apresentava o noticiário nem a correspondente internacional, nenhuma delas. E o sorriso flutuava sem moldura nos flashes que sobraram da madrugada.

- Pedro! Quebrou o poderoso banco estrangeiro! Faliu a grande fábrica de automóveis! O mundo vai à bancarrota, Pedro! E os brados incansáveis do redactor ainda eram ouvidos no fim do expediante, no corredor que recebia a noite, mas foram sumindo à medida em que o elevador chegava à portaria que Pedro cruzou para pegar a avenida onde todos os rostos eram apenas confusão de sombras e luzes de neon. Talvez alguma ex-namorada, pensou sacolejando no ônibus, mas também o passado não lhe trouxe resposta. Torceu a fechadura da humilde quitinete e o peso de casa fechada o dia inteiro deu-lhe as vindas sem nenhum entusiasmo. Vizinhas, colegas de emprego que teve. Cruzou a passos curtos a sala e a solidão que por contigência há anos desposara; a professora do primário tão nova, e despejava a sopa de pacote na tigela de água morna; antigas colegas de ginásio, e partia cascas de pão de forma que sobraram; o banho pingado no chuveiro elétrico, ex-namoradas de amigos. Só que nenhum rosto capturava o sorriso do sonho na noite vazia de Pedro, no escuro do quarto em que ele chama o sono com esperança de que venha junto o mesmo sonho e o gosto de ser amado como nunca foi.

André Giusti é escritor e jornalista, autor de A liberdade é amarela e conversível e A solidão do livro Emprestado, ambos da Coleção Rocinante, da editora 7Letras. É carioca e mora em Brasília.
May 19, 01:14 PM

O jovem e premiado escritor paranaense Rodrigo Domit visita Uberlândia no dia 01 de junho, sexta, para lançar o livro Colcha de Retalhos. O evento será realizado na Cafeteria Vozzuca (Praça da Bicota, Centro), das 19h às 21h. A obra é composta majoritariamente por contos, mas também apresenta prosas poéticas e crônicas. O texto inteligente e de agradável leitura conquistou o primeiro lugar no Prêmio Utopia de Literatura, organizado em 2010 pela Utopia Editora, de Brasília. Além disso, a publicação também foi finalista do Prêmio Nacional SESC de Literatura, em 2008.
Assim como uma colcha de retalhos, a obra apresenta-se como um emaranhado heterogêneo. Entretanto, o autor desenvolve costuras e amarras entre os temas, estilos, linguagem e ritmos. São 73 textos curtos, que conquistaram a admiração de especialistas:
“Em seus microcontos, Domit expressa o universo denso da sociedade contemporânea. Com palavras dosadas, ele constrói textos milimetricamente estruturados. Ao longo de seu livro pode-se deparar com uma variedade de estruturas textuais e de linguagens que nos fazem refletir abismados sobre os mais variados temas”, citou a escritora e jornalista Karen Debértolis, de Londrina (PR).
Sobre o autor:
Nascido em Curitiba em 1984 e atualmente morando no Rio de Janeiro (RJ), Rodrigo Domit escreve contos e poesias desde 2003. É coautor do livro de contos Vem cá que eu te conto (2010) e autor deste que está prestes a ser lançado. Entre outros certames literários, já foi selecionado nos concursos Luiz Vilela (Contos – 2007), Helena Kolody (Poesias – 2008 e 2009), Prêmio SESC (Livro de Contos – 2008), Poemas no Ônibus (2010 e 2011) e Prêmio ler&Cia – Livrarias Curitiba (Contos – 2011). Além destas classificações, foi 1º colocado nos concursos Machado de Assis (Contos – 2011), Prêmio Cidadão (Poesia – 2011) e Prêmio Utopia (Livro de Contos – 2010).
Onde e quando:
01 de junho, sexta-feira, às 19h, na Cafeteria Vozzuca (Praça da Bicota, Centro, Uberlândia-MG)

Entrada franca (coquetel por conta da casa)


Programação


> 19h – Abertura

 


> 19h30 / 20h – Declamações, por Fernando Martins

Declamação e leitura de textos próprios (aberto ao público)

{ Ensaie. Leve um poema ou um texto em prosa. Mas leve um texto seu. Leia-o para o público. Antes, envie seu nome e faça sua inscrição: rogers.silva@yahoo.com.br (Rogers Silva) pagcultural@gmail.com (Página Cultural)}


> 20 h / 20h40 – Bate papo com o escritor Rodrigo Domit: A publicação de um livro: dificuldades e soluções


> 20h40 / 21h – Lançamento do livro Colcha de Retalhos, de Rodrigo Domit (Rio de Janeiro)

{ Finalista do Prêmio SESC de 2008, o livro Colcha de Retalhos, de Rodrigo Domit, ganhou o Prêmio Utopia, a partir do qual ele foi publicado }


Espaço, de Rodrigo Domit

“__ Eu preencho meus dias com ela.

__ E quando ela vai embora você fica com um buraco, vazio.

__ Não é que fique vazio, eu guardo espaço para quando ela voltar”.


May 17, 02:15 PM
Meus olhos verdes (folhetim romântico)


EPÍGRAFE:


Did they get you to trade
Your heroes for ghosts (…)
And did you exchange.

(Wish You Where Here, PINK FLOYD)




*** ***
TRECHO: "A questão acima o instigava. Como? – se perguntava, agora deitado na cama, no som tocando Lady in red, olhando o teto escuro, pouca alumiação que vinha da janela aberta. A lembrança do rosto de Jéssica também o instigava..."



*** ***
TRECHO: "Esfregava o peito tentando assustá-lo, expulsá-lo, fazê-lo sumir. Isso não pode ser. Faz tão pouco tempo. Tão pouco tempo! O jeito é dormir. Amanhã estarei melhor... Dormiu com o som ligado. Tocava Words".




*** ***
TRECHO: "A noite, após uma breve chuva à tarde que atrapalhara o casal, pois combinara em passar o dia todinho juntos, ao ar livre, estava fria. No som, a música-clímax da paixão: Total eclipse of the heart".





*** ***
TRECHO: “Até que enfim a música ridícula que estava tocando acabou, pois não tem nada a ver com a situação que relembro agora. Quero uma canção que eu possa questioná-la. Talvez esta:
Eu tranco a porta pra todas as mentiras

E a verdade também está lá fora... Será que existe verdade lá fora?

A porta fechada me lembra você a toda hora...

Que tanto de ‘portas’ são essas?

Orientação...





>>> Manicômio é um livro de Rogers Silva. Será publicado em julho de 2012. Há mais música no folhetim romântico Meus olhos verdes e em todo o livro (mais trilha sonora AQUI).

Abraços!
Rogers Silva.
May 15, 11:30 PM

Por Ricardo Novais


Quando Rita desembarcou na rodoviária do Tietê, logo se viu diante de gigantesco mistério guardado no coração da cidade grande. Percebeu-se, então, como parte deste coração tão cosmopolita, mais precisamente num dos portões mais importantes onde a dona Esperança recebe os forasteiros.


Entre movimentos céleres e bater violento de pernas pátio afora, Rita observou rostos desconhecidos tão dela reconhecidos d’algum lugar. Dona Esperança foi logo chegando e lhe dizendo:


- Que belezinha! De onde você veio, menina?


- De Minas...


Rita achou tudo na cidade uma peça monumental. Ela veio por amor, amor ao noivo que não foi buscá-la na rodoviária, não deu notícia nenhuma de seu paradeiro e não soube que ela arrumara emprego numa pensão da Ponte Pequena. Mas dona Esperança era patroa boa; deu-lhe comida, ofício, roupas afrancesadas e companhia certa nas noites frias, também nas quentes.


Entretanto, nem toda felicidade do mundo é completa; Rita sentia muita dor de solidão – não mais do noivo antigo, mas das antigas montanhas. Numa tarde de folga ela andava pela Praça da República quando viu um quadro belíssimo, pintado por artista sensível e bucólico. Era paisagem de montanhas, cobertas por um verde muito vivo e tocante, uma sobreposta à outra, como encaixadas em cenário de papelão. Rita comprou a aquarela; sorrindo de alegria, pendurou-a na parede de seu quarto recordando-se das porteiras de sua terra natal que havia deixado para trás.


Deitada na cama a olhar a paisagem das montanhas pendura na parede, ela imaginava tudo que o real panorama não lhe mostrava. Rita abria a vidraça e tentava ver algo a encaixar-se entre tantos prédios, nada via além do cinza; então fechava a janela contra o frio, vento, chuva, insetos, ladrões, fantasmas, enfim, fugia por instantes da cidade de garras árduas. Ao anoitecer, o acender humano lhe dava a visão desejada: a paisagem das montanhas, com a linha do horizonte a tocar o mágico e formoso sol descambando numa luz alaranjada, discreta, bem colocada, onde tudo é tão vasto que a pequenez não tem fim. “Deveras, quadro belíssimo! Que artista estupendo!”, dizia ela consigo. “Sinto como se estivesse junto de mamãe naquela serra...”.


A vida foi assim passando para Rita; vida estéril, artificial, impessoal. É verdade, amiga leitora; a moça sofria de tudo – menos falta de amor já que não se pode sofrer do que não se tem. Nenhum dinheiro trouxe gosto à paisagem que ela enxergava de sua janela...


Noutro dia dona Esperança morreu, Rita herdou a janela da patroa. Vitral maior, vista bem localizada para o Pico do Jaraguá, onde a luz e o ar entram com maior entusiasmo e esplendor; mas nem isto é bom consolo a quem só consegue ver é o beco, como diria Manuel Bandeira. Rita dependurou o quadro de paisagem de montanhas à parede de seu novo quarto; este foi sempre a sua companhia de solidão entre seus ofícios sutis e inexplicáveis – onde a felicidade não inspira nenhuma confiança.

May 12, 11:01 PM
Por Daniel Lopes

       Nossos vizinhos argentinos gostam muito de comparar coisas incomparáveis. Eles, frequentemente, bradam, aos quatro ventos, que Maradona é Deus e que Pelé não passa de um santinho menor. Não bastassem os números, Pelé fez três vezes mais gols que o Deus argentino, nós ainda teríamos o desenvolvimento de cada um dos atletas nos fundamentos básicos do futebol. Maradona era canhoto, (e que canhoto!) mas Pelé, em se tratando das pernas, era ambidestro. Maradona era um tremendo driblador, Pelé também. Aqui empatamos. Pelé era um exímio cabeceador, Maradona até quando fez gol de cabeça, fez gol de mão, La mano de díos, segundo ele. Por enquanto, o placar está em três a um, certo? Em se tratando da qualidade do passe, acredito que ambos empatam novamente, o que deixa o placar em quatro a dois. Vitória de Pelé e do nosso futebol. Mesmo assim, Maradona ainda tem um diferencial, talvez um golzinho a mais a favor dele: o argentino ganhou uma copa sozinho em 1986, coisa que Pelé não chegou a fazer. Garrincha talvez tenha conseguido tal feito em 1962, mas Garrincha é uma outra história.
            Nosso futebol é melhor do que o deles, não há dúvida. Como diria a Preta Gil, (credo!) se eles são bi, nós somos penta, e cinco sempre foi mais que dois.
            No futebol não dá pra eles, entretanto não é necessariamente de futebol e nem desse tipo de time que quero tratar aqui. O objetivo deste artigo, ou resenha, ou sei lá o que... é levantar a bola para o timaço da literatura argentina no século vinte. São tantos nomes que é até difícil se ater a qualquer um deles em especial. Ficadifícil qualquer tipo de escolha, ou eleição, num time que tem jogadores, digo, escritores, do porte de Roberto Arlt, Adolfo Bioy Casares, Ernesto Sábato, Julio Cortázar e Jorge Luís Borges. Seria delicioso, se eu tivesse paciência, debruçar-me numa análise abrangente e profunda da obra de todos estes escritores. O grande problema é que sou preguiçoso. Macunaimado ao extremo, talvez. Portanto, não me vou delongar além da paciência do leitor e nem vou além da minha própria paciência. Só quero levantar a bola, quem quiser, que corra atrás dos livros dos caras e da crítica especializada. Tratarei aqui, portanto, de apenas um ou outro texto dos últimos três escritores citados anteriormente.
            Vamos lá! Mãos à obra! Não, ainda não, antes de nos debruçarmos, ainda que de maneira preguiçosa, sobre a obra de Sábato, Cortázar e Borges, é necessário esclarecer um tópico, para que este nosso texto, que é seu também leitor, não fique manco e seja logo condenado por falta de paralelismo semântico, ou sintático, ou de qualquer outro gênero. É o seguinte: comecei este trabalho, comparando o futebol brasileiro ao argentino, seria, portanto, lógico na tessitura das ideias, que agora eu continuasse comparando escritores brasileiros e argentinos. É óbvio que também temos um timaço no século vinte, com escritores do porte de um Guimarães Rosa, um Graciliano Ramos e uma Clarice Lispector. Acontece que literatura é Arte e eu acho desonesto com qualquer artista a comparação. Até porque, todo artista é o seu universo, e todo ator, todo pintor, todo escritor... enfim, todo artista, grita a sua verdade, e entrega a sua alma, e faz o seu melhor. Não que os atletas também não façam tudo isto, mas Arte é outro papo. Ainda que existam obras de Arte melhor, ou pior realizadas, todo artista é grande, e é bom, e é bonito.
            Isto posto, tudo esclarecido e o texto, mesmo que capenga, já devidamente amparado pelas muletas da explicação, vamos ao que interessa, que são os três escritores fodões aí do lado, digo... aí de cima. Sem querer confundir espaço geográfico e textual. Se é que me entendem.
            Comecemos por Borges que é um escritor de textos curtos, mas amplos de significação. Pequenas pérolas, eu diria, e qualquer um pode dizer, ainda que seja piegas a comparação entre textos e pérolas. Atenhamo-nos, pois, a uma destas pérolas, melhor, destes contos, o completo: Pierre Menard, El escriptor del Quijote.
            Resumidamente, o texto conta a história de um escritor que acaba de morrer, cuja maior obra é ter conseguido reescrever dois capítulos do Dom Quixote. Visto assim, parece simples, mas esta narrativa dá muito pano para a manga. Percebam que Pierre, não copia o texto do Cervantes, ele tenta tocar, outra vez, o mesmo mistério, alguns séculos depois. É um trabalho quase impossível e é totalmente quixotesco... inútil, afinal de contas o livro já existia. Mas aí entramos em contato também com Platão e seu mundo das ideias. Talvez o Quixote perfeito, se é que pode haver um melhor, esteja lá, repousando em algum lugar, em estado de dicionário, basta alguém que saiba tocar para alcançá-lo. Tal discussão é extremamente pertinente num tempo em que a inspiração vem sendo, constantemente, massacrada e o trabalho do artista vem sendo comparado com qualquer outro trabalho, que não exija coisa alguma, além do esforço. Sou de posição contrária, acredito que o artista é um predestinado, quase que um xamã. Sei que a Arte também é feita de um trabalho árduo e racional. O problema é que a maioria das pessoas, hoje, acredita que só o trabalho árduo e racional construa a Arte, e não é isso. A Arte é feita de uma mistura de racional e irracional. De consciente e inconsciente. De Apolo e Dionísio. Portanto, meu caro cabotino, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Beleza, chega de Borges.
            O homem que escreveu Sobre heroes y tumbase El túnel parece, ele mesmo, uma de suas personagens obscuras, enigmáticas e monomaníacas. Sábato foi um cientista, mas, num determinado momento, percebeu que a ciência não era capaz de explicar a coisa toda. Deixou-a de lado. Partiu com todas as forças para a pintura. Pintou. Pinta. Ainda faltava, ainda falta alguma coisa: tentou a ficção. A impressão que tenho, quando leio seus textos, é a seguinte: um cientista, perdido num pântano, numa noite sem lua, procurando algo que nem ele mesmo sabe o que é. Sábato parece não conhecer suas personagens, elas quase que conseguem viver independentes dele. Mesmo assim, ele as segue por vários cenários. Acredito ser esta a grande força de seus livros: as personagens, principalmente as femininas. É evidente que em  Sobre heroes y tumbas ele tentou um romance completo. Onde pudesse retratar o particular e o universal. É evidente também, que lá estão experiências literárias importantes, como a narrativa fragmentária, a mudança de foco narrativo e os tempos superpostos e colados, como se as personagens, literárias e históricas, fossem unidas pelos mesmos sentimentos, mas em épocas e mundos distintos. Nada disso, entretanto, se compara à força ficcional, ou real... sei lá, de personagens como Alejandra e Fernando Vidal Olmos. Quanto a esta personagem feminina, é necessário deixar registrado aqui, como um à parte, que eu nunca vi um nome se encaixar e traduzir tão bem uma personagem: Alejandra é Alejandra. Bola pra frente.
            El túnel, comparado com Sobre heroes, é um livro menor em número de páginas, mas é igualmente, uma história de beleza incomensurável. O eixo da narrativa também é a obsessão, como quase tudo o que o autor escreveu. Sou louco por esta novela, ou romance, entretanto não vou me aprofundar em qualquer questão referente a ela. Os que necessitarem de mais informações, procurem pela resenha do meu xará, Daniel Lopes.
            Para quem deseja ter um primeiro contato com a obra de Sábato, acredito ser El túnel, o texto ideal. Aos já familiarizados com a linguagem do autor, sugiro Abbadón, el exterminador, dentre seus três livros de ficção, será este, quiçá, seu texto mais hermético. Com isto, passemos a Cortázar. Mais precisamente para um direto de direita chamado Las babas del diablo.
            Certa vez Júlio Cortázar, ele mesmo, assim como eu, um grande admirador de boxe, disse que, enquanto o romance era uma luta ganha por pontos, o conto devia ser como uma luta ganha por nocaute. Sejamos, pois, nocauteados por Las babas del diablo.

            Mas, antes de travarmos tal batalha, é necessário preparar o cenário. Determinados textos fazem-me agir, e espero que isto contamine também você leitor, como um adolescente. Las babas é um destes casos. Toda vez que tenciono relê-lo, vou preparando o terreno alguns dias antes. Começo ouvindo sons tenebrosos do Black Sabbath e sigo deixando minha alma perambular pelos terrenos de água parada dos Doors. (A metáfora dos Doors foi boa, não foi não?)
            Sempre que possível, corro, como outro passo de um mesmo ritual, atrás do Blow up do Antonioni, filme que, a meu ver e no ver de muita gente, tem muito em comum com o conto. Só depois de tudo isto, encaro a narrativa. Está ansioso? Calma, leitor, que a luta já vai começar. Soltem os escorpiões.
            Las babas del diablo começa e termina como uma aula de literatura. A princípio, o narrador trata da impossibilidade de se narrar algo. Questiona a dificuldade de escolher entre uma narrativa em primeira, segunda, ou terceira pessoa, tanto do singular, quanto do plural. “Si se pudiera decir: yo vieron subir la luna, o: nos me duele el fondo de los ojos, y sobre todo así: tu la mujer rubia eram las nubes que siguen corriendo delante de mis tus sus nuestros vuestros rostros. Qué diablos.” Por fim, o narrador acaba optando por uma mescla entre primeira e terceira pessoa.
            Resolvida a questão do narrador, passemos à mistura produzida entre tempo e espaço na narrativa. Liguem-se no período: “Uno baja cinco pisos y ya está em el domingo”. O cara desce de seu apartamento até o térreo e já está em outro dia! É, ou não é terrível e belo?
            A maneira como o enredo é construído, é outro aspecto impressionante do conto. Roberto Michel, um tradutor e fotógrafo, num dia qualquer, tirou foto de um casal numa praça erma de Paris. A mulher que compõe o casal é mais velha que o rapaz, ele deve ter no máximo quinze anos. Todavia, há também alguém mais na cena, um homem, cuja face está coberta de um pó estranho que lhe esconde as feições. Este ser misterioso também aguarda o desenlace da história, dentro de um carro negro. Não conto mais nada... vale à pena ir atrás.
            A professora Heloísa da Costa Milton, da UNESP de Assis, certa vez me disse que é imperdoável o uso de alguns adjetivos num texto crítico. Bem... não sou crítico: Cortázar é foda!
            Outro lance que não poderíamos deixar à margem, é a maneira como a trama é construída: aos poucos, como se o narrador estivesse estudando o leitor, da mesma forma que um boxeador estuda o adversário, dentro do quadrilátero. Parece-me que Roberto Michel vai gingando com as pernas da palavra, soltando apenas alguns golpes curtos. Sem pressa, o texto vai minando a defesa do leitor e, no final, vem a pancada e o nocaute.
            Como já disse antes, seria interessantíssimo produzir um estudo, que se aprofundasse na obra de Borges, Sábato e Cortázar, mas aqui não é o lugar e eu tampouco tenho paciência para isto. Por enquanto é só. Todos os idiomas repousam nas bibliotecas. E o dicionário é o livro definitivo de qualquer língua.      

May 11, 12:11 AM
Por Roberto de Sousa Causo

Eu cresci em uma cidade do interior do Estado de São Paulo, chamada Sumaré, e não tenho problema algum em admitir que, até onde eu saiba, o melhor escritor que Sumaré já produziu é o dramaturgo e cronista Walter Cavalcanti de Paiva. Nós nos conhecemos lá por 1988, no Clube de Literatura de Sumaré, criado pela bibliotecária Terezinha Ongaro Monteiro de Barros, que na época chefiava a biblioteca pública. Eu lá lidava com ficção científica, é claro, e um dia, anos depois, Walter me disse – veja que ele não perguntou, mas me disse – que a ficção científica era a minha utopia.

“Mas qualficção científica, exatamente?”, eu perguntei. “A da invasão da Terra por alienígenas, a da distopia totalitária, a da superpopulação ou a do pós-apocalipse nuclear?”

Moral da história: ficção científica não é ideologia, é só um gênero literário – o que justifica a sua abordagem de temas duros e sombrios, aos quais ninguém em sã consciência poderia atribuir qualquer aspecto utópico.

É claro, uma história de FC pode ter uma ideologia. Certamente, a ficção científica que foi escrita em países soviéticos devia ser comunista, e a FC escrita nos Estados Unidos devia ser bem capitalista, assim como a FC francesa seria... Sei lá, pós-estruturalista?

O escritor cubano Yoss (José Miguel Sánchez) contou uma história divertida, no Festival Utopiales 2002, em Nantes. Num painel sobre ficção científica global, ele contou que publicou um romance de FC no qual ainda existiria capitalismo no futuro – e foi imediatamente processado pelo governo de Cuba, país no qual o único romance de FC americana liberado para a publicação e leitura era Os Mercadores do Espaço (The Space Merchants; 1952), de Frederik Pohl & C. M. Kornbluth, uma crítica sarcástica ao consumismo.

Yoss, de qualquer modo, foi salvo pelo gongo: seu processo foi suspenso quando caiu o Muro de Berlim. “Obrigado, Gorbashev. Bem na hora!”, exclamou, referindo-se ao fato de o então presidente do Partido Comunista da União Soviética ter permitido o fim da divisão da Alemanha, ao evitar a repressão a protestos na Alemanha Oriental. Aparentemente, as autoridades cubanas passaram a aguardar os desenvolvimentos – e Yoss se safou por uma eventualidade histórica. O episódio, por outro lado, mostra como posições extremas enxergam ideologicamente as especulações imaginativas da ficção científica.

O escritor do noveau roman francês Michel Butor lamentou justamente que a FC enfraquecia seu potencial de “mitologia do nosso tempo”, ao realizar uma multiplicidade de idéias e cenários. Butor sugere – no ensaio “Science Fiction: The Crisis of Its Growth” – que seus escritores deveriam trabalhar coletivamente na criação de um único universo ficcional: “A FC, se conseguisse se limitar e se unificar, seria capaz de adquirir acima da imaginação individual um poder de constrangimento comparável ao de qualquer mitologia clássica.” A proposta de se desenvolver coerentemente um mesmo cenário, que Butor chama de “cidade” e que eu interpreto como “utopia”, levaria os leitores a “organizarem suas ações em relação à sua existência eminente, e derradeiramente eles seriam obrigados a construí-la”. A última sentença do ensaio deixa claro o quanto Butor desejava que a ficção científica assumisse o papel de uma ideologia: “É fácil ver que prodigioso instrumento de libertação ou de opressão [a FC] poderia se tornar.”

Nesta coluna eu tenho pregado a variedade como ingrediente primordial do gênero, e não custa citar novamenteOrson Scott Card, que explica o funcionamento da FC a partir dessa perspectiva: “Dúzias, centenas, milhares de vezes [os leitores de FC] viveram o processo de apreensão de uma realidade surpreendentemente nova. Não importa o que o futuro seja, eles já conhecem o processo: reconhecer a contradição entre a visão familiar do modo como as coisas são, e a nova ordem; extrapolar das contradições um novo sistema de causa e efeito; reconstruir uma visão do modo como as coisas são que inclua e acomode as antigas contradições; inventar o seu próprio papel na nova ordem; agir de acordo com o seu novo papel e sua nova visão da realidade.”

Seria justamente essa variedade de experiências o que permite ao leitor de ficção científica enxergar como mudanças de naturezas diversas (tecnológicas, políticas, econômicas, sociais, culturais e filosóficas) operam ao longo do tempo, ou a quais resultados determinadas circunstâncias podem chegar, a partir daquilo que a FC faz costumeiramente, que é extrapolar contextos atuais. Daí surgiria uma forma de senso crítico particular aos leitores do gênero, e sua função de quebrar os condicionamentos sócio-culturais. Isso nos leva ao conteúdo de uma carta de Isaac Asimov, escrita em 1966. “Eu sempre declarei que uma das virtudes da ficção científica é que ela pode romper qualquer tabu sem ter que ser ‘ousada’”, disse o Bom Doutor, naquilo que eu interpreto da seguinte maneira: a ficção científica alcança os efeitos das vanguardas literárias mas de modo acessível, sem a arrogância implícita de dizer que se anda na frente dos outros.

Mas se me perguntassem, na lata, qual é a ideologia da FC mais bem-sucedida do mundo, a norte-americana, eu diria que ela seria, ou estaria muito próxima, do libertarianismo.

Também chamado de “liberalismo clássico”, o libertarianismo (ou “libertarismo”) enfatiza a autonomia e as liberdades individuais, que, se deixadas em paz para se expressarem sob forma de livre-mercadoe livre-iniciativa, conduziriam, por um princípio positivo de organização espontânea, a uma condição mais avançada de sociedade, menos propensa à guerra e à opressão. Em geral, o libertarianismo é contrário às intervenções do Estado – que deveria existir apenas para garantir direitos civis – sobre indivíduos, empresas e sociedade, e denuncia o poder coercitivo dos governantes. Para essa filosofia política e econômica, os indivíduos deveriam ser visados pelo poder apenas quando não respeitassem os direitos dos outros, e a natureza humana ­­e sua suposta base moral natural triunfarão se o Estado se retrair e deixar que a sociedade civil se auto-organize.

Para a maioria dos fãs brasileiros de ficção científica, essa ideologia passa batida como “coisa de americano”. De fato, muito do libertarianismo caracteriza a sociedade americana, embora institucionalmente o Partido Libertarianonão tenha a força dos dois partidos dominantes nos Estados Unidos, o Democrata e o Republicano.

Graças à minha dieta de FC e outros produtos culturais americanos – o romance Uma Vez uma Águia (Once an Eagle; 1968) de Anton Myrer em particular –, fui muito influenciado pelo pensamento libertariano. É evidente que uma sociedade será mais positiva na medida em que seus cidadãos, individualmente, estiverem empenhados em contribuir para com ela e a agir honestamente no interior dela. Assim como parece evidente que governos e burocratas exorbitam as suas funções. Basta olhar para a opressão econômica que o governo brasileiro exerce sobre nós, com uma carga tributária de 35,13% do PIB, o que limita o poder de decisão individual do brasileiro sobre o usufruto do seu trabalho – especialmente perante do retorno insatisfatório desses impostos sob a forma de serviços essenciais, e diante dos níveis de corrupção no país.

Na FC, basta pensar na obra de Robert A. Heinlein (1907-1988), autor americano que foi socialista na juventude, mas que na década de 1950 já se inclinava para o libertarianismo. Seus romances Um Estranho numa Terra Estranha (Stranger in a Strange Land; 1961), Revolta da Lua (The Moon Is a Harsh Mistress; 1966) e Amor sem Limites (Time Enough for Love; 1973) foram eleitos para o Hall da Fama do Prêmio Prometheus, criado em 1979 para obras de FC de cunho libertariano. O prêmio é entregue pela Libertarian Futurist Society, criada em 1982. A sua mera existência já diz muito sobre o quanto o libertarianismo pesa na conta da ficção científica.

Heinlein foi imensamente influente, conquistando gerações de fãs que cresceram lendo os seus romances juvenis. Foi em algum momento o autor americano de FC mais popular, popularidade que nunca se refletiu aqui no Brasil – o que sugere o quanto nós estamos longe dessa visão político-econômica (ou talvez seus livros tenham aparecido num momento delicado, durante a ditadura militar, quando os discursos libertários eram exclusivos pela esquerda marxista). Mas também é sintomático que a militante do capitalismo radical, Ayn Rand (1905-1982), uma americana que passou a juventude na Rússia comunista, tenha escolhido dramatizar suas idéias na forma de bojudos romances de FC (lançados recentemente no Brasil pela Editora Landscape) como A Nascente (The Fountainhead; 1943) e A Revolta de Atlas (Atlas Shrugged; 1957). Hoje, Allen Steele, com a premiada série Coyote de FC hard, parece ser um dos muitos herdeiros de Heinlein a manter a bandeira do libertarianismo fincada no planeta FC.

Às vezes definido como liberal em termos sociais e conservador em termos fiscais, o libertarianismo incorre, como todas as ideologias, naquelas simplificações que H. L. Menckendenunciou quando disse: “Para cada problema complexo há uma resposta que é clara, simples e errada.” E a economia, a política, a sociedade e a vida humana são a própria definição do complexo – é ridículo propor resolver tudo com automatismos ideológicos, sejam eles do tipo “afastando a burguesia do poder teremos a utopia social”, ou do tipo “o livre-mercado conduzirá a uma sociedade mais feliz e mais justa”. Especialmente porque a organização espontânea pode não levar necessariamente a um estado de bem-aventurança. Afinal, a própria natureza busca antes o equilíbrio, que a utopia. Um equilíbrio violento pode muito bem ser o resultado. Em termos humanos, com a superpopulação e a crise climática global, a oferta de armas altamente eficientes e as comunicações instantâneas e de dimensão planetária, a violência possível, seja num período de transição ou na configuração final da “organização espontânea”, pode ser potencializada e vir a alcançar proporções catastróficas e resultados desastrosos irreversíveis.

Os libertarianos gostam de apontar o dedo para o Estado de bem-estar social na Europa, assim como nós gostamos de apontar o dedo para suas políticas protecionistas. O que ninguém reconhece é que se você tivesse sofrido duas guerras mundiais no seu solo, você aprenderia a conciliar, aplacar e mitigar descontentamentos e insatisfações, por todos os meios possíveis.

Nesse sentido, é compreensível que o espaço cósmico seja o lócus preferido dos épicos libertarianos na FC. A “fronteira final” é isso mesmo – uma fronteira, paisagem despovoada em que os indivíduos se provam e na qual o empreendedorismo é ferramenta de sobrevivência contra a hostilidade do meio ambiente. É por isso também que o planeta dos dorsais – uma sociedade libertariana/militar mercenária criada pelo autor canadense de FC Gordon R. Dickson (1923-2001) para o seu multigeracional “Ciclo Childe” – seja um mundo agrário subpovoado. Menos ingênuos, autores da new space opera como o escocês Ken McLeod não deixam de notar que a mesma tecnologia que manipula energias suficientes para o trânsito rápido entre sistemas solares pode ser canalizada para a destruição total dos adversários. Daí a cínica apologia, em The Cassini Division (1998) de McLeod, do ataque preventivo genocida (veja a espetada da escritora Cheryl Morgan no site Emerald City).

No livro Cyberselfish: A Critical Romp Through the Terribly Libertarian Culture of High Tech (2000), Paulina Borsook, uma ex-colaboradora da famosa revista Wired, disseca e pisoteia o libertarianismo na “cultura eletrônica” americana. Para efeito retórico, e acreditando que o autor e fã americano de FC teriam muito em comum com o membro da cibercultura, eu identifico muito das críticas dela com essa ideologia da FC dominante. (Borsook, aliás, menciona Heinlein, Rand e os cyberpunks.)

A autora dirige suas armas à cultura nerd/geek, cujos membros gostariam de se ver como “homens da fronteira”, e que seria “mais emocionante fazer de conta, em nossos tempos milenaristas, que você de fato vive numa frente de batalha hobbesiana”. Uma afetação heróica que seria muito melhor do que “encarar os problemas reais da nossa era, tais como a violação corporativa da privacidade, a superpopulação, a degradação ambiental e a ascensão de lideres guerreiros pelo mundo todo”.  

Seu outro alvo é a fusão conceitual de biologia e economia conhecida como “bionomics” – a partir do livro de Michael Rothschield, Bionomics: Economy as Ecosystem (1990). A esse livro seguiu-se uma série de conferências, nas quais se discutia como os conceitos darwinistas de sobrevivência do mais forte e evolução pela interação competitiva em um ecossistema (o mercado) funcionariam como impulsionadores do progresso e da prosperidade. Para isso, é preciso desregulamentar (fiscalizar, impor limites e procedimentos) o mercado, deixando-o livre o mais possível, na busca da “ordem espontânea”.

Nóis aqui abaixo da Linha do Equador sabemos no que deu a retração do Estado durante a aventura neoliberal, mas o livro de Borsook, publicado antes da explosão da bolha imobiliária americana – fonte da atual crise internacional –, soa ainda mais importante perante os resultados desastrosos da desregulamentação republicada na Administração Bush. Sem falar do desastre ambiental do Golfo do México, que se pode associar à desregulamentação do setor petrolífero. Livre-mercado às vezes se iguala a desastre econômico socializado e a catástrofe ambiental – não por qualquer razão ideológica, mas simplesmente porque dogmanão é substituto para racionalidade e equilíbrio nas ações humanas.

Muitas vezes o libertarianismo soa, apesar de todo o seu propalado pacifismo, como dono de um sombrio lado cultuador da força. Em parte porque no libertarianismo freqüentemente há um elemento de darwinismo social, idéia contra a qual venho falando há algum tempo, como no meu livro Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: 1875 a 1950 (Editora UFMG; 2003).

Definido como a aplicação das idéias de sobrevivência do mais forte e evolução pela competição entre os seres, o darwinismo social ajudou a justificar o colonialismo e a opressão dos povos da África e Ásia, e dos indígenas das Américas e da Austrália. Considerados mais fracos e portanto perdedores dentro da lógica do mais apto, esses povos estavam destinados ao desaparecimento – como, na ficção científica, Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930) dramatizou nos romances O Mundo Perdido (The Lost World; 1912), em que hominídeos preservados num planalto entre Brasil e Venezuela são exterminados por uma aliança entre aventureiros brancos e índios amazônicos, e em A Nuvem da Morte (The Poison Belt; 1913), em que a cauda de um cometa envenena a atmosfera da Terra, atingido primeiro “as raças inferiores dos trópicos’ (a mortandade é enganosa, porém, já que os efeitos são temporários). Em Cyberselfish, Barsook condena a falta de filantropia entre os ricaços do Vale do Silício, associando-a à tendência “tecnolibertariana” da sua mentalidade.

Curiosamente, a justificativa darwinista social da tutela e do controle de povos considerados “inferiores” pelos ocidentais espelha a noção de superioridade moral cristã que justificou práticas semelhantes e todo as missões religiosas no mundo subdesenvolvido. No plano da cibercultura que Pauline Borsook critica, e citando alguns dos profetas do tecnolibertarianismo como Kevin Kelly e Stewart Brand, também haveria uma aproximação do discurso científico biológico e o discurso religioso. “A biologia como metáfora pode colocar sob a asa”, ela sentencia, “crenças que são tão atrasadas quanto [os tecnolibertarianos] são avançados”. De fato, assim como as línguas românicas surgiram da combinação do latim com adstrato e línguas locais como substrato, muitas vezes idéias novas se combinam com as velhas. Achar que novas idéias substituemas velhas é ingenuidade.

Às vezes embutidos em argumentos de antropologia evolucionária, que tenta explicar o comportamento humano, a sociologia, a sexualidade e às vezes a economia (daí a bionomics) e a política a partir da lógica evolucionária – o que é basicamente impossível dada à qualidade intrinsecamente especulativados seus argumentos: não importa o quanto eu e você possamos apoiar o evolucionismo nas escolas ou aceitar que somos frutos da evolução da espécie, o fato é que não há mecanismos “finos” que funcionem como ferramentas exatas para o entendimento particularizado dos nossos comportamentos a partir da lógica evolutiva.

Borsook afirmou que “muito do que diz respeito à bionomics é no seu sentido mais amplo uma grande diversão intelectual – ver relacionamentos entre padrões na natureza e padrões em computação ou economia, pensar de maneiras interdisciplinares e aplicar tecnologia com exuberância fora das maneiras óbvias de contar feijão e pagar contas...” De modo semelhante, a antropologia evolucionária estimula o pensamento e nos ajuda a equilibrar a noção radical pós-estruturalista de que tudo – todo o comportamento e todas as variações de interação social e humana – é produto exclusivo da cultura. E vice-versa: a idéia de que tudo é cultura ajuda a equilibrar a pretensão de se explicar tudo pelo evolucionismo.

Nesse sentido, explicar o homossexualismo pela antropologia evolucionária – como Greg Egan sugere fazer no seu romance de FC Terranesia (1999) – parece tão insuficiente quanto a tentativa de certos intelectuais de firmar que toda sexualidade é construção cultural e portanto arbitrária e impositiva.

Na ficção científica americana, a mais bem-sucedida, o libertarianismo freqüentemente encobre um darwinismo social que segue puro ou disfarçado de empreendedorismo capitalista radical, em antropologia evolucionária ou nas novas teorias de complexidade ou emergência (do verbo “emergir” e não do verbo “fugir correndo em pânico”). Essas novas teorias em particular são fascinantes por si mesmas, mas, novamente, entendê-las seus princípios ainda mal alinhavados como certificação científica do dogma do livre-mercado é outro atropelo conceitual.

Uma visão alternativa vem da Europa – a série de Karen Traviss, Wess’har Wars, que imagina espécie alienígena bem-sucedida e tecnologicamente superior à humana, e que se enxerga mais próxima da cooperação do que da competição: “A vida no seu planeta se desenvolveu pela competição”, diz um deles sobre a Terra, no romance TheWorld Before (2005), antes de oferecer: “A nossa se desenvolveu largamente pela cooperação, simbiose e equilíbrio sustentado.” E na minha noveleta “A Alma de um Mundo” (a sair na antologia Space Opera: Jornadas Inimagináveis em uma Galáxia não muito Distante, de Hugo Vera & Larissa Caruso), tento fornecer um argumento evolucionário para uma espécie que, de modo semelhante, valoriza mais a cooperação e a confiança, do que a competição e a rivalidade.

No estágio em que estamos da civilização humana sobre a Terra, a cooperação é a única saída possível.



Roberto de Sousa Causo é autor dos livros de contos A Dança das Sombras (Caminho, 1999), A Sombra dos Homens (Devir, 2004), dos romances A Corrida do Rinoceronte (Devir, 2006) e Anjo de Dor (2009), e do estudo Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil (Editora UFMG, 2003), que recebeu o Prêmio da Sociedade Brasileira de Arte Fantástica.
Seus contos foram publicados em revistas e livros de dez países. Foi um dos três classificados do Prêmio Jerônimo Monteiro (1991), da Isaac Asimov Magazine, e no III Festival Universitário de Literatura, com a novela Terra Verde (2000); foi o ganhador do Projeto Nascente 11 (da USP e do Grupo Abril) em 2001 com O Par: Uma Novela Amazônica, publicada em 2008. Completando um trio de novelas de FC ambientadas na Amazônia, Selva Brasil foi lançado em 2010 pela Editora Draco.
Causo escreveu sobre os seus gêneros de interesse para o Jornal da TardeFolha de S. Paulo e para a Gazeta Mercantil, para as revistas ExtrapolationScience Fiction StudiesCultCiência HojePalavra Dragão Brasil.
Mantém coluna quinzenal sobre ficção científica e fantasia no Terra Magazine (http://terramagazine.terra.com.br), a revista eletrônica do Portal Terra. O jornal A Tarde disse sobre ele: “Roberto de Sousa Causo é um dos mais atuantes escritores brasileiros de FC, horror e fantasia.” Vive em São Paulo, com esposa e um filho.
May 07, 11:01 PM
Por Rodrigo Novaes de Almeida
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Ela morre no final. Você está maluco? Como é que você começa a história contando o final? A pessoa ali do outro lado não quer saber o final da história logo na primeira linha. Que falta de consideração! Acabar assim com a diversão dos outros... Diversão? Então ler a nossa história é um mero passatempo? E por que não seria? Ou você tem a cara-de-pau de dizer para a pessoa ali do outro lado que ler a nossa história é um caminho de transcendência de algum tipo, uma espécie de busca por verdades ou revelações existenciais, ou blá blá blá, blá bargh, acho que vou vomitar... Vai nada. E não acho nada também. Vamos continuar a contar a história. Continuar? Você já estragou. Não estraguei não. A pessoa ali do outro lado não sabe como ela morreu, não sabe por que ela morreu, não sabe quando ela morreu, não sabe onde ela morreu... Só sabe que ela morreu. Então escreva uma nota jornalística, um obituário, sei lá, porque não é assim que se começa uma novela. Novela? Ah, você está mesmo de palhaçada. A gente nem ia escrever uma novela. No máximo um conto, uma crônica, ou seja lá que tipo híbrido se escreve hoje em dia. Você vai ou não continuar? Tudo bem, eu continuo. Certo. Ela era muito, mas muito gostosa. Que maravilha! E ainda reclama de mim. Esta é a sua descrição abre aspas literária fecha aspas para os atributos físicos da personagem? Sim. Penso que é melhor deixar para a pessoa ali do outro lado os detalhes, faz bem para exercitar a imaginação. Bem o escambau. Devemos descrever os pormenores, sempre. Basta dizer que ela é bem parecida com a Rosario Dawson. Ah não, não! Se é para fazer deste jeito, que ela seja parecida com a Eva Green. Eu prefiro a Rosario. E eu a Eva. Mas elas são bem diferentes, assim confunde a pessoa ali do outro lado. Pelo menos as duas são gostosas pra cacete, como você queria. É verdade. Vamos adiar então esses detalhes sobre os atributos físicos dela. E o que você sugere? Vamos contar como e quando ela morreu. Ela morreu no finalzinho da tarde, na Voluntários da Pátria, em Botafogo, no Rio de Janeiro, ao sair de uma igreja. Levou um tiro, uma bala perdida. A polícia e os traficantes brincavam de faroeste caboclo, como de costume. Até aí nada demais, bem comezinho. Aliás, você é um péssimo narrador, nem sabe contar uma história, êta resuminho chinfrim! E ainda se esqueceu de dizer que ela estava vestida de noiva, que saía da igreja chorando tanto que mal podia enxergar um palmo diante do nariz, que talvez até morresse atropelada se não tivesse levado aquele tiro. Atropelada? Por quem? Pelo quê? Um trânsito desgraçado, tudo parado, os motoristas deitados debaixo dos carros para não serem alvejados no meio daquele tiroteio todo. Tem razão. Pobre coitada. Largada no altar pelo noivo e morta três minutos depois. Hum... Talvez a pessoa ali do outro lado não acredite na gente. Por quê? Porque só agora me dei conta de que já dissemos que ela era gostosa, muito gostosa. Quem vai acreditar que o noivo a largou? Ué, mas ser gostosa é o único motivo para estar com uma mulher? E não é? Claro que não! Mas é um bom motivo, um motivo bem forte, diga-se de passagem. Eu sabia que esse negócio de dois narradores para contar uma única história não daria certo. Assim a gente não vai terminar nunca. E eu que queria contar sobre toda a sua vida, desde a infância até o último suspiro no asfalto naquele finzinho de tarde. Último suspiro? Nem deu tempo para um último suspiro. O tiro foi na cabeça. Está vendo? Não dá. Que autor idiota tem uma idéia idiota de ter dois narradores numa mesma história, sendo um deles também idiota... Você está insinuando que eu sou idiota? Bem, não estou falando de mim. Tem mais alguém aqui? Tem, a pessoa ali do outro lado, e que já deve estar com ódio da gente. Pelo menos somos narradores sem nome, vai sobrar xingamento para o autor. Ele já está acostumado. Vive naquele mundinho de fantasia dele. Que mandem ele... Você sabe. É, sei. E a história? O que a gente faz com ela? Continuamos? Não sei, perdi o fio da narrativa. Que fio? A gente destruiu qualquer possibilidade narrativa aqui. Sim, destruímos a narrativa, para falar a verdade. A pessoa ali do outro lado talvez queira saber por que o noivo largou a gostosa no altar. Pelo menos podemos dizer por que, não? Talvez. Mas tenho um plano. Qual? Não vamos dizer. Não? Não. Por quê? É simples. Destruímos a narrativa, certo? Certo. Não temos nome, certo? Certo. Então. Não satisfazendo a curiosidade da pessoa ali do outro lado, desviaremos a atenção para o autor. Ele será o culpado pelo fracasso da narrativa. Belo plano. Bem perverso. É, eu sei. Mas temos um outro problema. Qual? Como terminaremos isto aqui? Com um ponto final. Ou reticências. Reticências não, o autor poderia se vingar fazendo com que a gente voltasse num outro texto, uma continuação, e já vimos que a gente não consegue trabalhar em parceria. Mas então é só escrever ponto final e pronto? E pronto não, só ponto final. Não estou gostando... O que você sugere? Vamos deixar com o autor. Como? A gente espera. Uma hora ele terá que parar, terá que sair, ir ao banheiro, atender um telefonema, comer, dormir, o que for. Ele é resistente, pode demorar... É verdade, mas a gente pode enrolar. Como? Hum... Deixa eu ver... Já sei. Fala! A gente pode, pelo menos, tentar decidir se ela se parecia com a Rosario ou com a Eva. Já não importa mais. Ei, escuta! Que foi? Parece que o telefone está tocando. Bendito seja o Nosso Senhor! Que isso? Não vai me dizer que é religioso? Era só o que me faltava, um narrador religioso... Não sou não. Sou agnóstico. Estou pouco me lixando. Mas nessas horas a gente apela. Ele não foi atender. Mas vai. Como você sabe? Eu sei porque vou lembrá-lo de que pode ser aquela mulher que ele está querendo, você sabe... Ah, sim. Claro. Gostosa pra cacete. Bem gostosa. Ela me lembra aquela atriz... Rosario? Não, seu besta! Nem Eva. Aquela. Esqueci o nome. Acho que se chama Scarlett. Sim, ela mesma. Scarlett Johansson. Podíamos ter escolhido el

Do livro  A construção da paisagem (Ed. Sapere, 2012)
Lançamento dia 10 de maio, no Rio de Janeiro


May 07, 09:42 AM
Por Daniel Lopes

Se pudesse entender, não escreveria. Estava cansado, um bocado cansado mesmo, embora contente. Contente porque depois de três meses eu poderia encontrar outra vez com Benedita, que é boa e eu amo. Contente por poder ficar longe de toda aquela correria do banco, daquele dinheiro todo, daqueles clientes todos, de todas aquelas gravatas coloridas e daqueles ternos bem e mal talhados. Estava feliz porque Benedita escrevia poesia e me esperava e era sexta-feira e o trem... o trem estava por vir, e me levar pro oeste, onde ela, Benedita, me esperava, com seu vestido vermelho, elefantes indianos desenhados e a bíblia aberta sobre o criado-mudo.

Certo é que ainda sobrava tempo pra tomar um café e fumar um cigarro olhando os gêmeos colombianos tocarem suas flautas de bambu enquanto o trem não vinha. Enfim, era tempo de sorrir, eu estava sem calor, de banho recém tomado, imaginando Benedita nua com seus olhos brilhando no meio do rosto alegre, o corpo deixando o vestido sair, as mãos prontas pra serem minhas. E pensar que em breve eu seria senhor de tudo aquilo! Em breve eu não estaria mais na estação vermelha esperando o trem, em breve São Paulo e suas neuroses seriam passado e eu beberia  algumas cervejas bem geladas depois do amor.

Eram  sete e trinta e sete da noite, quando olhei no relógio da estação e decidi que era hora de abandonar o café e embarcar. Por farra resolvi pular a catraca, justamente na frente do guarda pra ver o que aconteceria. Embora eu pulasse devagar, ele, o guarda, não esboçou qualquer reação. Fez como se não me tivesse visto. Melhor pra mim que poderia guardar o dinheiro pra mais tarde.

O trem não demorou a encostar. Estranhei-o, porque era extremamente velho. Como é que uma coisa naquela situação poderia atravessar o estado? De qualquer maneira eles, os chefes da estrada de ferro, deveriam saber o que estavam fazendo. Não colocariam pro serviço um veículo que não poderia fazê-lo.

Assim que as portas se abriram, entrei. Já havia algumas pessoas, poucas, dentro do vagão. Achei que eram, principalmente por sua aparência, foragidas de algum circo. Havia um palhaço sentado no banco em frente ao meu que fazia crochê com lã vermelha, não consegui distinguir o que ele tecia. Um pouco mais adiante, sentados no mesmo banco, conversavam uma mulher barbada e um homem de terno negro e cartola, que eu deduzi ser o mago. No banco atrás do meu dormia um senhor de uns noventa anos com roupa de trapezista.

Sentei. Sorri. E decidi que era hora de tomar o meu comprimido azul.

Lá fora a noite aumentava cada vez mais. E, aos poucos, uma névoa clara quase como nuvem envolvia o trem. Senti meu corpo amolecer. Estava relaxado da cabeça à ponta dos pés. O mágico acendeu seu cachimbo. Tinha um cheiro bom a fumaça que o cachimbo dele, do mágico, emitia.

O trem ganhou velocidade. Avançava na noite feito um tigre. Não sei se adormeci, ou se ainda estava acordado. Talvez fosse sonho, talvez meus olhos estivessem realmente vendo aquele rio correndo ao lado dos trilhos, cercado de girassóis azuis, e no qual os peixes eram todos de cores exóticas. Ao longe havia montanhas em cujos cumes um fogo intenso crepitava. Foi estranho que nem eu nem ninguém no trem tivemos a menor reação, quando aquela cruz enorme surgiu entre as montanhas, tingindo tudo ao seu redor de fogo, feito o sol quando se põe. Mais estranho ainda foi ver aquele  pano roxo enorme descer sobre a cruz encobrindo tudo, inclusive as montanhas... Talvez eu estivesse mesmo sonhando.

Sei que quando dei por mim novamente os alto-falantes do trem anunciavam que dentro de dez minutos chegaríamos à estação onde eu deveria descer. Notei que os outros passageiros não estavam mais no trem. Fiquei feliz ao pensar que em vinte minutos, no máximo, eu teria Benedita só pra mim.

Assim que o trem parou, pulei com minha mochila, entretanto estranhei a estação, não parecia ser mais a mesma. O mofo havia tomado conta de todas as paredes, que em muitos lugares estava destruída ou deixava os tijolos à mostra. Havia um cheiro azedo no ar. Pensei em tomar um café, uma cerveja, ou coisa que o valha, mas o telhado da estação, onde ficava o bar, havia desabado. Saí da estação e a cidade inteira não estava em melhor estado. Era absurdo que as coisas tivessem mudado tanto em apenas três meses. O cheiro de carne podre empesteava o ar.

Nas ruas não havia mais asfalto, apenas buracos, buracos enormes. Resolvi caminhar. Não havia viva alma em toda a cidade, apenas aranhas, teias de aranhas e o zumbir das moscas, alimento. Pelo menos as ruas ainda existiam, embora as casas estivessem destruídas e as pessoas estivessem longe, invisíveis.

Dobrei uma esquina, depois a outra, segui em frente...

Então, mesmo com medo de olhar, avistei a casa. Como a estação e todo o resto da cidade, estava em ruínas... Continuei ... A porta estava escancarada, em algumas partes os tijolos apareciam porque o reboco havia caído. Onde os tijolos ainda não apareciam, o mofo cobria tudo. Um mofo negro, áspero.

Entrei devagar, sentindo o assoalho velho ranger sob meus pés. Ouvi vozes baixas  que vinham do quarto onde Benedita dormia. Fui até lá. Meu coração disparou. A porta do quarto estava fechada. Pensei em bater, mas desisti e acabei entrando de uma vez.

Havia uma velhinha deitada na cama, segurando na mão  de uma menina de uns doze anos. Conversavam. Não pude entender o que diziam. Aproximei-me da cama. A menina não se moveu um milímetro sequer. A velhinha, entretanto, virou-se pra mim e sorriu. Apesar de velho, era um rosto bonito o dela, e os olhos azuis, embora acinzentados pelo tempo, ainda brilhavam. Eu conhecia aqueles olhos. Ela disse meu nome. Calma. Percebi pelos olhos, o sorriso, a voz que aquela senhora ali, deitada, de alguma forma, era Benedita, a minha Benedita. Havia uma cadeira encostada na parede. Tudo que pude fazer foi me sentar e segurar a outra mão dela.


May 06, 10:02 PM
Por Marcia Barbieri

                                                                           Egon Schiele

Traças adormecem entre as frestas. Elas estão assim há trinta anos, como um olho cego na cara de um suicida. As suas feridas continuam alastrando o oco do seu corpo, o vácuo da sua alma. As fuligens dos objetos inanimados grudam nas suas órbitas. Ninguém irá ajudá-lo, as coisas mudaram. Você continua ingênuo, procurando respostas num mundo antigo, que se desfez fácil como uma malha mal tecida. Não temos mais médicos para aplicar injeções milagrosas. Os antibióticos não estão mais ao nosso alcance. Teremos que voltar nossas mãos para o alto e clamar por alguma divindade, qualquer uma serve, um céu, um sol. Mas se preferir posso pedir que minha mãe te benza, ela é curandeira, basta ela tomar um chá e entra em transe, se comunica com o sagrado. Eu sei que é pouco para um filósofo, mas para quem acredita piamente no Ser, não acho tão descabido crer em rezas e ramos santos. Quantos tomos de livros precisou ler para não crer em nada¿ Você é um cético de proveta, não é genuíno. Não foi a vida que te fez descrente, foram suas conversas de rodapé, notas no fim da página. Qual dos seus filósofos te salvou da ruína ou da gonorréia? Mesmo doente você continuou soberbo, continuou utilizando dialetos incompreensíveis, não queria se misturar a grande massa de ignorantes. Você costumava dizer que a mulher trazia o sêmen da desgraça, por isso se manteve casto por muitos anos. Você estava certo, a buceta é um buraco infectado. Você também trazia o leite infectado no seu pau, ele estava em carne viva, vertia uma pus esverdeada e fétida, e o que as mentes evoluídas fizeram por você? Nenhum deles quis te fazer a punção, com medo de se contaminar. Você também sentiu medo, pediu que eu passasse minhas mãos nas suas costas. Um bicho mimado. Eu recusei, você tinha a pele escamosa e seca, como a de um peixe que vive fora de seu habitat. Pensei nos axolotes que nunca conheci, na sua semelhança mórbida com os homens. Você demorou a aprender que os verbos estão distantes da ação. O corpo é a casa dos fortes, a alma é para quem tem tempo sobrando. A sua glande ainda traz cicatrizes de outros úteros, outras línguas, outras tragédias. Não assisto mais aos seus espetáculos. Você não encarava sóbrio a tristeza, me pedia para fazer a infusão com alguma planta alucinógena (as mandrágoras que cresciam ao lado do cemitério dos não nascidos), depois deitava sozinho no escuro e batia cinco punhetas seguidas, como se o prazer fosse capaz de compensar a dor. O prazer e a dor são frutos do mesmo escarro. Eu sabia que era inútil, no entanto, não via motivo para alertá-lo. Ninguém me avisou, tem coisas que somos obrigados a enxergar sozinhos. Não adianta a ducha para se limpar, a sua carne-músculo traz rachaduras, uma parede mal erguida, frágil nas estruturas mais primitivas. Acaricio com o dorso da língua suas fendas embrionárias, você se originou assim, homem bífido. Filho de uma placenta descolada. Não precisa me explicar, me poupe dos seus discursos vazios, você não tem mais platéia, todos os seus discípulos estão mortos, vagueiam na brancura fosca do nada. Você não vale um centavo e eu poderia esfaqueá-lo sem remorsos. Esfaqueá-lo como se faz com as marionetes depois das encenações. Poderia cortar todas as cordas e  assistir ao seu despencar. Prefiro me tocar enquanto trago um cigarro cubano, eles me acalmam. Fico imaginando como é o sexo dos homens cubanos, será que tem o cheiro forte como o dos cigarros¿ Penso no dedilhar dos músicos. Passo as mãos na parte interna das minhas coxas, vejo que elas começam a ficar flácidas, em compensação meus pelos pubianos ainda estão pretos, não vislumbro nenhum fio descolorido, ainda verto água, enquanto a água verter estou viva. Choro pelo cacto que um dia nascerá na minha vulva, então ela será terra seca, granulada. Olho pelo buraco por onde a chave deveria atravessar. Vejo homens solitários contando as dobras do intestino. Contam até dez e dão um nó e contam novamente até esgotar todas as possibilidades matemáticas. Solidão - progressão geométrica. 
May 06, 10:03 PM
eu quero o verde de todos séculos.

tragam rosa
colher na boca e outros poemas
o silêncio dos minerais azuis
e o abraço cego
do poeta aproximado

acendam um lampião
e risquem a minha cabeça
no chão da linguagem iluminada

bebam o vinho sangue
essa palavra doce
que escorre cedo
pela foice da lembrança

durmam longe da noite
na véspera do abismo

eu ficarei
no incêndio

**********************************************
samambaias e os ciclos solares
sobre meu ego.

saudades eletrônicas
e a atividade. pequena memória de
esgrimas.

meu grande amor
rasgando camisas debaixo do céu

e esses uivos essa sede
a saliva

os nomes doces
da noite.

**********************************************
não demora
e a vertigem do horizonte
se instala:

numa amora
num jazz
num amor.

**********************************************
o poema se faz com o barulho
dos ossos. A poesia é distúrbio,
ruído, transgressão - os sons do corpo
mamífero.

O poema cria o abismo com violinos
e a vertigem

(as alucinações caóticas do deserto do real).

A poesia é o incêncio do encontro
e o acaso: olhos do nômade
na paisagem de animais.

José Juva (Olinda, 1984) – mamífero, poeta,pousa-tigres. Na UFPE se formou em jornalismo e fez mestrado em teoria da literatura – com dissertação sobre o xamanismo na obra do poeta Roberto Piva. Ainda por lá, atualmente faz doutorado, com tese sobre as relações entre a poesia, o mundo natural e o sagrado. Membro fundador do coletivo casa de marimbondo (artes visuais, literatura, música). Ainda inédito em livro, está produzindo, em parceria com a editora Livrinho de Papel Finíssimo, o primeiro livro de poemas, “vupa”. Guarda poemas na gaveta: josejuva.blogspot.com
May 02, 11:03 PM
Boa sorte a todos!


CONCURSO HISTÓRIAS DE TRABALHO
Modalidades/categoria: histórias verdadeiras, histórias inventadas, poesia, ensaio acadêmico, histórias em quadrinhos/cartum e fotografia. Tema:trabalho.
Inscrição: isenta de taxa.
Prêmio: publicação no livro Coletânea Histórias de Trabalho – 2012 + 10% do total da tiragem da 1ª edição do livro.
Publicação: sim.
Envio: correios, internet ou pessoalmente.
Data: até 11/05/2012.

***
II CONCURSO DE POESIA AUTORES S/A
Modalidades/categoria: poesia.
Inscrição: isenta de taxa.
Prêmio: 1º lugar: R$ 400,00; 2º lugar: um aparelho de MP5 4GB; 3º lugar: um aparelho de celular (Samsung); 4º lugar: um caderno Moleskine; 5º lugar: uma assinatura, de dois meses, da revista Metáfora; 6º lugar: dois livros.
Publicação: sim.
Envio: internet.
Data: até 14/05/2012.

***
CONCURSO POEMAS NO ÔNIBUS E NO TREM/EDIÇÃO 2012
Modalidades/categoria: poesia. Tema: livre.
Inscrição: isenta de taxa.
Prêmio: veiculação dos poemas nos ônibus de Porto Alegre e trens da Trensurb; edição e lançamento de livro com os poemas selecionados + uma cota de livros equivalente a 30% do total da edição.
Publicação: sim.
Envio: correios, internet ou pessoalmente.
Data: até 18/05/2012.

***
CONCURSO INTERNACIONAL DE LITERATURA 2012 – UBE-RJ
Modalidades/categoria: conto, crônica, ensaio, literatura infantil e juvenil, poesia, romance, teatro (para livros editados).
Inscrição: isenta de taxa.
Prêmio: não informado.
Publicação: não.
Envio: correios.
Data: até 18/05/2012

***
ANTOLOGIA MALDITAS, AS CASAS TÊM ATMOSFERA (EDITORA ESTRONHO)
Modalidades/categoria: conto . Tema: casas.
Inscrição: isenta de taxa.
Prêmio: participação em antologia.
Publicação: sim.
Envio: e-mail.
Data: até  20/05/2012

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ANTOLOGIA AMORES IMORTAIS (EDITORA CANÁPE)
Modalidades/categoria: conto. Tema: histórias de amor envolvendo vampiros.
Inscrição: isenta de taxa.
Prêmio: participação em antologia.
Publicação: sim.
Envio: e-mail.
Data: até 20/05/2012.
   
***
ANTOLOGIA  SÉRIE TERRIR – CONTO E QUADRINHO (EDITORA ESTRONHO)
Modalidades/categoria: conto. Tema: fantástico e humor.
Inscrição: isenta de taxa.
Prêmio: participação em antologia.
Publicação: sim.
Envio: e-mail.
Data: volumes 3 e 4:  até 27/05/2012; volumes 5 e 6: até 27/07/2012.
 
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VII CONCURSO RUBEM BRAGA DE CRÔNICAS
Modalidades/categoria: crônica. Tema: livre.
Inscrição: isenta de taxa.
Prêmio: 1º lugar: R$ 800,00; 2º lugar: 600,00; 3º lugar: 400,00
Publicação: sim.
Envio: correios.
Data: até 27/05/2012

***
2º CONCURSO DE MICROCONTOS DE HUMOR DE PIRACICABA 2012
Modalidades/categoria: microconto. Tema: livre.
Inscrição: isenta de taxa.
Prêmio: 1º lugar: R$ 800,00; 2º lugar: R$ 500,00; 3º lugar: R$ 300,00.
Publicação: sim.
Envio: e-mail.
Data: até 28/05/2012.

***
PRÉMIO LITERÁRIO NACIONAL DIAS DE MELO (PORTUGAL)
Modalidades/categoria: romance, novela, conto ou poesia. Tema:livre.
Inscrição: isenta de taxa.
Prêmio: cinco mil euros + publicação.
Publicação: sim.
Envio: correios.
Data: até 30/05/2012.

***
VIII PRÊMIO LITERÁRIO VALDECK ALMEIDA DE JESUS
Modalidades/categoria: redação (artigos, crônicas e resenhas). Tema:vida e obra de Jorge Amado.
Inscrição: isenta de taxa.
Prêmio: participação em antologia.
Publicação: sim.
Envio: e-mail.
Data: até 30/05/2012.

***
I COMPOZAGÃO – CONCURSO DE POESIA “CEM ANOS DO GONZAGÃO”
Modalidades/categoria:  poesia. Tema: alusivo aos cem anos de nascimento de Luiz Gonzaga, o “Rei do Baião”.
Inscrição: isenta de taxa.
Prêmio:troféu “A Coroa do Rei” + certificado.
Publicação: sim.
Envio: pessoalmente, e-mail e correios.
Data: até  30/05/2012
 
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XIV CONCURSO LITERÁRIO “MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE” – CONCURSO DE POESIA E PROSA 2012
Modalidades/categoria:  poesia, revelação e conto.
Inscrição: isenta de taxa.
Prêmio: modalidade de poesia: dois mil euros; modalidade  de revelação: mil e quinhentos euros; modalidade de conto: mil e quinhentos euros.
Publicação: sim.
Envio: correios.
Data: até  08/06/2012
 
***
CONCURSO DE CRÔNICAS LAURA FERREIRA DO NASCIMENTO
Modalidades/categoria: crônica. Tema: Nepotismo.
 Inscrição: isenta de taxa.
Prêmio:  1º lugar: R$ 1.000,00 (mil reais) + Certificado + Livros;  2º  lugar:  R$300,00 (trezentos reais) +Certificado +Livros; 3º lugar: R$ 100,00 (cem reais)+ Certificado +Livros; 4º lugar: Certificado +Livros; 5º lugar:Certificado+Livros.
Publicação: não.
Envio: correios.
Data: até 28/06/2012

***
1ª EDIÇÃO DO PRÊMIO LICINHO CAMPOS DE POESIA DE AMOR - VERSÃO 2012
Modalidades/categoria: poesia. Tema: poesia de amor.
Inscrição: isenta de taxa.
Prêmio: publicação na Revista Ventos do Sul.                                       
Publicação: sim.
Envio: e-mail.
Data: até 30/06/2012

***
CONCURSO NACIONAL SULINFO DE MINICONTOS – EDIÇÃO 2012
Modalidades/categoria:  miniconto.
Inscrição: isenta de taxa.
Prêmi0:publicação em livro e também em e-book pela Editora Sul Info + certificado da Editora + 5 exemplares da coletânea a título de Direito Autoral.
Publicação: sim.
Envio: internet.
Data: até  30/06/2012

May 06, 10:03 PM


Programação


>>> 19h – Abertura

>>> 19h30 / 20h – Declamações

Declamação de Drummond, por Guimarães Lobo

Declamação e leitura de textos próprios (aberto ao público)

{ Ensaie. Leve um poema ou um texto em prosa. Mas leve um texto seu. Leia-o para o público. Antes, envie seu nome e faça sua inscrição: rogers.silva@yahoo.com.br (Rogers Silva) pagcultural@gmail.com (Página Cultural) }


>>> 20 h / 20h30 – Leituras de poetas mineiros, por Flávio Sassioto


>>> Troca de Livros (interação durante o evento)

{ Leve um livro. E troque com alguém que tenha em mãos um livro que lhe interesse. Simples assim }


>>> Vendas e exposição de livros (durante todo o evento)

- Estande para venda de livros novos de literatura.

- Estande para venda de livros dos participantes.

{ Possui livro publicado? Então leve-o para o evento. Lá teremos um espaço e uma pessoa que ficará responsável por expor e vender o seu livro }


>>> Encerramento

May 01, 11:30 PM

Por Ricardo Novais


No meu bairro estão caindo as casas velhas e brotando prédios moços. Meu bairro acordou trocado. As árvores deram lugar ao cimento cru e ao asfalto cinza-escuro – cor do céu da cidade. A chuva não é mais bem-vinda como antes, arrasa a família do dono da padaria e a escola das crianças. O sol, tão esperado nesta terra, teima em queimar os sonhos daqueles que dormem nas calçadas – calçadas estas que viraram ruas de comércios.


Não me conformo. Derrubaram o meu bar e no lugar botaram uma locadora de automóveis... Para que tanto carro nesta cidade, meu Deus?! As moças da noite saíram das esquinas porque os bulevares agora são das festas da prefeitura... Que será de minhas amigas, meu Deus?!


Em busca do ouro, o pároco da capela levantou-se, fez breve discurso e pediu que bebêssemos um brinde à felicidade do bairro. Ao progresso! Aos novos prédios! Às novas casas de negócios! Ao profeta Abraão!


Ora, caro leitor; mas tenho saudade de quando os meus vizinhos garimpavam o futuro debaixo do pé de acerola que ficava na praça do arrabalde ou em jogos de cartas e dominó no bar da Dona Portuguesa. Ser feliz era mais simples no tempo de outrora... Apenas a velha capela, restaurada, mas próxima da original, sobrou como testemunha da vida e da época de nossos primeiros erros.
May 01, 10:18 AM

A construção da paisagem (Sapere Editora, 2012) divide-se em duas partes, denominadas, respectivamente, de Crônicas de Christiane AngelottiCrônicas de Rodrigo Novaes de Almeida. Cada parte é composta por quatorze crônicas, indicando o desejo do casal de encontrar a simetria e o equilíbrio. Ambas as partes abrem-se com uma crônica de mesmo título: A construção da paisagem. Isso poderá dar ao leitor, num primeiro momento, a falsa impressão de estar lendo uma obra composta, digamos, a quatro mãos. Mas, tão logo comece a ler a crônica de Rodrigo Novaes de Almeida, após ter lido a de Christiane Angelotti, o leitor perceberá que se trata de textos de feições bem diferentes. A temática é a mesma  a construção da paisagem ­, mas o modo como cada um a apresenta aos leitores é bem diferente: na visão de Christiane, essa paisagem está envolta num clima de mistério, quase de sonho, onde a personagem vaga aos tropeções. Já Rodrigo dá ao tema um tratamento mais filosófico, mais reflexivo, abarcando, sem abrir mão do lirismo, tanto a visão da paisagem exterior quanto da interior. Podemos sentir, quase tocar, através da sua narrativa, os cheiros e as cores que compõem essa paisagem exterior. Christiane Angelotti é dona de uma escrita centrada na emotividade, no resgate da memória, e fica evidente que sua intenção é prender o leitor pela emoção. Já Rodrigo Novaes de Almeida, em boa parte das suas crônicas, explora o humor como meio de atrair o leitor e mantê-lo cativo pelo riso. É capaz da reflexão mais profunda, mais séria, mas o humor é sua característica mais constante. Com estratégias diferentes, mas eficazes, os autores transportam o leitor para dentro da paisagem que ambos constroem. (Apresentação de Geraldo Lima)

Christiane Angelotti é escritora, editora do site ABC Kids e colunista da revista Emília.


Rodrigo Novaes de Almeida é escritor e jornalista. Cofundador do coletivo literário O Bule e colunista do site PáginaCultural.

O lançamento é no dia 10 de maio,
no Rio de Janeiro, às 19h30.

Espaço Oito e Meio, Travessa dos Tamoios 32 C, Flamengo.
April 29, 03:56 AM
Por Rogers Silva

É sabido que o ensino de literatura é o mais antigo do Brasil, visto que, desde o século XVI, em 1553, os jesuítas iniciaram o curso de Letras na Bahia. Claro deve ficar ao leitor, no entanto, que o ensino era condicionado aos propósitos sobretudo da Igreja. Desde já o “ensino distanciado da literatura” é característico no Brasil, o que se comprova nos séculos XVII e XVIII.
A literatura brasileira, como disciplina escolar, data de final do século XIX, após a reforma educacional de Benjamin Constant, em 1889. Porém, como assim o foi e tem sido, o ensino da literatura era pretexto para outros objetivos, a saber: a literatura concebida como “belas-letras”, artefato textual e, sobretudo, para a memorização de autores e suas respectivas obras.
Assim, surgem algumas questões: como tornar o ensino da literatura uma prática social?, como despertar o interesse do estudante para ela?, como aparelhá-la para competir com este mundo predominantemente audiovisual? Pode-se considerar a literatura como prática social na medida em que ela é atividade humana em intenção transformadora do mundo, que expressa o peculiar da relação do homem com o mundo, os modos de ser do homem no mundo. Como, então, a melhor maneira de enfatizar/privilegiar essa relação?
A resposta é simples (ou não): o melhor caminho para se aprender (e apreender) a literatura é a leitura. Ler poemas, contos, romances, crônicas etc., antigos e atuais. Para tal, é preciso um mínimo de bom senso, como, por exemplo: evitar atitudes passadistas; discutir previamente com o aluno a escolha das obras; aliar a literatura a assuntos contemporâneos etc.
Sabe-se que vários são os entraves, hoje, para se conseguir fazer um aluno ler. Porém, em compensação, várias também são as possibilidades de se fazer o aluno se interessar pela literatura. É necessário, antes de tudo, estar ciente dos prováveis objetivos e resultados do ensino da literatura.
Dentre esses objetivos e (por que não?) resultados do aprendizado (aprendizado?, apreensão, gosto...) se destacam: 1) a literatura como um instrumento de conhecimento de mundo (do passado, do presente, da mentalidade de uma época, de outras civilizações); 2) a literatura como “objeto de linguagem”, destacando os seus aspectos estruturais/formais; 3) a comparação de textos literários com não-literários  a fim de destacar suas diferenças; 4) a contribuição da leitura na interpretação e produção de textos; entre tantas outras coisas.
Igualmente relevante é o professor-mediador estar ciente do trabalho que é necessário para alcançar tais objetivos: ter uma biblioteca básica em casa; estar em constante contato com a produção literária contemporânea; sugerir aos alunos livros de literatura e história da literatura; dialogar com outras disciplinas; possuir base de teoria literária (sem tomá-la como ponto de partida), entre outras práticas, são extremamente importante.

A mediação na literatura

  
O texto A literatura como mediação, de Leyla Perrone-Moisés, trata da importância dos mediadores culturais (especificamente literários) e sobre a atuação desses mediadores (crítico e professor) na atribuição de valores a um texto literário frente ao aluno.
Para Leyla Perrone-Moisés, literatura não é tão-somente reflexo e/ou documento de questões étnicas, políticas, religiosas, sociais. Literatura é, também, e sobretudo, “uma forma de mediação, e uma mediação pela forma”, ou seja, um texto em que o arranjo, a forma como se diz é tão importante quanto o que está sendo dito, diferentemente, por exemplo, de textos puramente informativos, referenciais, comunicacionais.
Na opinião da autora, “o texto literário é um mediador entre o autor e o leitor, e um mediador que pressupõe uma infinidade de mediações: línguas nacionais, repertórios culturais, pactos de leitura definidos pelo gênero, pelo tom etc.” e, por isso, o professor seria o intermediário entre autor e leitor – uma espécie de orientador de leituras, que deve escolher textos mais complexos diante da quantidade de textos medíocres e, principalmente, não deixando que o texto se apequene, dada a quantidade de leitura interpretativa que se pode fazer dele.
Em virtude, como diz Leyla Perrone-Moisés, da “inexistência de critérios prévios para o juízo” de uma obra literária, no entanto, essa função de mediador de professores e críticos não é fácil. Portanto, dado esse dilema entre cultura de massa e “alta cultura”, objeto de valor e objeto descartável, tecnologia e passado, informação imediata e conhecimento, o professor deve, sem se corromper com a “ordem do vale tudo”, aproveitar todo esse aparato e ideologia modernos no intuito de ampliar seu repertório (e conseqüentemente o do aluno) de ensino e pesquisa.
No dizer da autora, “a literatura que merece ser lida, divulgada e ensinada, é aquela que não faz média com o público, o mercado, a mídia ou a moda”. Por outro lado, é necessário estar ciente de que literatura sem leitor inexiste. Ser erudito não é ser ininteligível. Agradar ao leitor não implica, necessariamente, agradar ao mercado. Ser complexo não é, de maneira alguma, ser difícil (vide, por exemplo, Manuel Bandeira e tantos outros escritores). A intenção de Leyla Perrone-Moisés é boa e, logicamente, válida. Porém, devemos ter o cuidado de não fazer da literatura algo intragável.
April 27, 11:30 PM

Por Nilto Maciel


Moravam no vigésimo andar. Noronha, quando voltava do trabalho, à noite, tomava banho e, durante o jantar, conversava com a mulher e os filhos. Logo os meninos voltavam a brincar e Irene se derramava no sofá diante da televisão. O homem sorrateiramente se encafuava num quarto, para ler e escrever. Havia quase vinte anos escrevia e reescrevia a mesma história: “Quando a carroça parou à frente de nossa casa, minha tristeza aumentou. Os homens carregavam os móveis. O burro comia capim. Mamãe dava ordens. Cuidado com o pote! Deixava para trás amiguinhos, a calçada, a rua, a própria casa, o quintal. Os poucos móveis logo encheram a carroça. O maior deles talvez fosse a mesa de refeições. O fogão de alvenaria, construído no chão, não poderia ser levado”.


Finda a novela, Irene agarrava um caderno e se punha a fazer contas e mais contas. Só se descuidava dos números quando Zenóbio a procurava, aos prantos. Ele está me fazendo medo. Quem? Só pode ser o Ari. Resolvida a pendenga, voltava ao caderno. Como juntar muito dinheiro para comprar três apartamentos, um para cada filho? Fazia cálculos astronômicos, riscava, rabiscava.


Havia quase vinte anos Noronha estudava línguas. Tencionava dar à sua história outras feições. Traduzia para o francês o trecho: “Ao final da tarde, após a saída da carroça, fechadas porta e janela, seguimos nós, mamãe e os meninos, a pé, rumo à nova casa. Uma tristeza sem fim. Quando veríamos de novo os amiguinhos, a casa, a rua? Ora, poucos minutos de caminhada separavam uma casa da outra. Para mim, no entanto, era como se estivesse deixando meu país e me retirando para muito longe, me exilando”. Finda a tradução, reescrevia o original: “Sol posto, a carroça pesada, o burro trôpego...”.


Durante meses estudou grego. Como não conseguisse aprender nada, trocou o grego pelo romeno. Desiludido, voltou ao inglês. Economista, trabalhava no Banco Central. Gastava os dias a ver normas, tabelas, gráficos, números, manuais. De noite desejava esquecer tudo aquilo e se dedicava à sua reminiscência infantil. Estudou sânscrito, latim, alemão. Disso, porém, ninguém sabia. Como não sabiam de sua história. Não a mostrava a ninguém. Nem mesmo a Irene. Se a ela perguntavam as amigas: Que fazem vocês à noite? Ela respondia vagamente: Assisto às novelas, enquanto Noronha lê. Não vão a cinema, shopping, restaurante, teatro?


Noronha gostava também de aeromodelismo. Passatempo de fim de semana. Mal o sábado começava, saía de casa para soltar aviõzinhos muito coloridos e barulhentos. Lembravam-lhe as pipas da infância. Quando passou a sentir preguiça ou desânimo, convidou os filhos para irem ao campo. Aristarco pareceu o mais interessado. Queria pilotar um daqueles aviões. Noronha riu. O menino projetava voos para além das estrelas. Fugir da cidade. Zenóbio não gostou nada dos aviões. Apetecia-lhe voltar para casa e brincar com os anõezinhos de plástico. Se o pai pudesse ficar com o irmão, melhor ainda. Assim, não seria importunado por Ari e suas conversas esquisitas.


Nos fins de semana e de noite Irene andava para lá e para cá, sempre a ralhar com os filhos, quando cansava dos cálculos para a compra dos apartamentos. Também trabalhava no Banco Central. Noronha lhe arranjara uma bela função: ler relatórios. Bastava ler. Nada de comentários, explicações. Ninguém cobrava resultados. Lesse ou não lesse, garantia-se o salário no fim do mês. Mais uns cobres para a poupança. Mais uns tijolos para os três apartamentos. Arredia, quase nada falava às colegas. A não ser dos filhos. Vocês casaram tarde, não foi? Com quase quarenta anos. E como são os meninos? Uns capetas. A amiga ria. Toda criança é assim mesmo. Irene se queixava mais ainda da menina Flora. Não larga o pai. Parece que o quer para marido. A colega olhava assustada para ela. Essa mulher deve ser louca. Zenóbio, o outro menino, também um diabo, porque não parava de implicar com Aristarco. Consumia o tempo todo a enredar: Ele está me dizendo que os seres estão atrás da cortina. Estou com medo. A menina, sem calcinha, vez por outra corria e se jogava nos braços do pai. Ele a acolhia, abraçava-a e percebia a falta da peça íntima. Tocava em seu sexo e perguntava por que ela não vestia a calcinha. Ela ria e mais se agarrava a ele. A mulher se aproximava e fitava o marido: Por que você vive agarrado a ela? Parece que é tarado? Ele se defendia: A bichinha vem para mim, querendo carinho. A menina ria e voltava ao quarto, aos brinquedos, às bonecas de pano por ela mesma feitas. Todas semelhantes à mãe. E espetava agulhas na bunda das bonecas.  E ria, de prazer sádico. Muitas e muitas calcinhas da menina a mulher encontrou nas gavetas da mesa de estudos do marido. Noronha, para que você quer as calcinhas de Flora? Ele se assustava. Eu não sei como vieram parar aqui. Deve ter sido Florinha. A mulher voltava aos cálculos. Desejava saber de quantos anos de trabalho precisava para poupar o dinheiro da compra dos imóveis.


Aristarco vivia pelos cantos a falar com seres invisíveis. Dizia para o irmão: Eles estão escondidos por aí e vão aparecer a qualquer hora. Eles quem? Não posso dizer. Eles não gostam de mexericos. Via seres pequeninos pelo apartamento. Eles vão aparecer e nos atacar. São malvados. Zenóbio empalidecia, tremia todo e corria para a sala, em busca de salvação. A mãe se zangava. Parasse com aquela conversa idiota. Não a interrompesse mais.


Um dia, Aristarco se escondeu detrás do sofá e ouviu uma conversa dos pais: Precisamos levar Arizinho ao psicólogo. Melhor levá-lo ao psiquiatra. Zenóbio me contou tudo. Ele vive falando de uns seres invisíveis, escondidos na casa, prontos a nos atacar. Talvez seja doido, e nós de nada sabemos. Precisa de tratamento. Poderemos até interná-lo. Coitado! O menino se apavorou e correu para o quarto, a conversar com os amiguinhos ocultos. Na sala a conversa prosseguia: Ele pode tentar o suicídio. Pular? Sim, pular do vigésimo andar. De noite acorda e sai pela casa. É sonambulismo, meu bem. 


No outro dia, o casal contratou um homem para pôr grades nas janelas. Ninguém prestava atenção ao trabalhador. Os meninos brincavam, Irene fazia cálculos na sala, Noronha lia, relia e reescrevia sua reminiscência: “Dias depois, minha irmã Dalva veio passar férias. E com ela chegaram umas cadeiras de palha grandes”.


Ao ver as grades, Aristarco se espantou. Precisava fugir o quanto antes. E se pôs a arquitetar o plano de fuga. Levava horas e horas dentro de armários, trancado no banheiro, a confabular com os amigos imaginários. E um dia, numa tarde antes de o Sol se pôr, diminuiu-se o mais que pode, tornou-se do tamanho dos inquilinos invisíveis, colou ao corpo umas asas de papelão e voou pela janela, apesar das grades. O pai o viu sair, se aterrorizou e gritou: Volta, Arizinho, volta. E gritava pela mulher e pelos outros filhos. Ele fugiu, ele voou. Venham ver. Está a caminho do Sol. E lá no céu o menino voava, pequenino, quase nada, a sumir no rumo da grande estrela. Flora deu um salto e se lançou nos braços de Noronha. Pai, compra mais uma caixa de agulhas. Zenóbio correu para o quarto, contente por estar só e poder jogar com os anõezinhos de plástico. Ainda bem que ele foi embora. Irene deu adeus ao filho, até não vê-lo mais, e correu para o caderno de contas. Não precisava mais de tanto dinheiro. Dois apartamentos bastavam. O homem, conformado com a perda do filho, voltou ao quarto e abriu o caderno: “Minha irmã trouxe também uma mocinha chamada Mariinha. Pequenina, bonita, sapeca. Para mim uma boneca viva e muito maior do que eu”. Pela janela o menino passou, a voar, rindo sem parar.


 * Este é o sexto conto da primeira parte do livro Luz vermelha que se azula, de Nilto Maciel.
April 27, 10:08 AM
Por Geraldo Lima
Sono

Estava deitada, dormia imersa no REM, quando a porta rangeu de leve, forçada por mão matreira. Um corpo levitou e ganhou o interior da casa sem fazer ruído algum. Não podia vê-lo, apenas sentir seu hálito quente bafejando-lhe a nuca. Enquanto a presença do outro crescia dentro do seu sono, tentava, em vão, reencontrar a voz, os braços e as pernas inutilizados pelo pânico.

Fenda

Era preciso então só começar para que tudo se desarranjasse. Um primeiro gesto, arcaico, corroído pela raiva, quase impensado: a mão que se desprende  do tampo da mesa e se ergue guindada pelo braço longo e forte. E depois um estalo. Um aiagudo que se prolonga na memória durante anos e anos, como uma faca que fosse penetrando lenta e meticulosa a alma, para dentro sempre, no mais profundo do ser, aí, onde o carnegão se formou.
Foi a partir dessa fenda aberta na alma que ela começou a vazar.
April 26, 09:13 AM
Por Diogo Almeida

"Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum - uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais." (Edgar Allan Poe, "O gato preto")

Uma única imagem perseguiu-me durante toda minha longa vida: eu, aos sete anos, chorando ao lado da janela e sendo repreendida por mamãe. Também me lembro de ver minha avó debruçada na janela, olhando para fora.

Ela mirava, como bem sei hoje, seu gato pardo estatelado na calçada. Em minha crueldade infantil e, provavelmente, devido ao ciúme pelas atenções de minha avó, eu havia apanhado a pequena criatura e a lançado pela janela do nosso apartamento. Naquele momento, mamãe deveria estar gritando algo sobre não jogar gatos pela janela, especialmente se eles pertencessem a membros de nossa família.

Por décadas e décadas, essa fotografia mental me perturbou até o âmago da alma, fazendo-me retornar a meus medos de menina no exato instante em que dela me recordava.

O impacto dessa lembrança dos meus sete anos meio que desviou minha trajetória para uma determinada direção. Nos anos seguintes, tudo – ou quase tudo – parecia originar-se daqueles gritos tenebrosos de minha mãe. Minha sensibilidade aguçou-se, e passei a considerar toda vida frágil e preciosa. Por incrível que pareça, passei a gostar de animais, e tentei transmitir à minha filha, assim que esta nasceu, minha paixão fervorosa por todos os seres vivos.

Dessa forma, é possível imaginar meu assombro quando, ao chegar em casa, minha mãe contou-me que a menina, em seus tenros sete anos, havia jogado seu gato pardo pela janela. Furiosa, chacoalhei a menina e berrei, disparando as frustrações acumuladas ao longo do dia e da vida, buscando fazê-la apreender a importância que cada existência tinha na tessitura do universo. Ela rompeu em prantos, obviamente. Arrependi-me do escândalo logo depois, mas não voltei atrás. Minha mãe, desesperada, procurava com os olhos vidrados no asfalto o gato que a acompanhara por quase toda a velhice.

Naquela noite, temi haver traumatizado minha filha. Tive ganas de ir até seu quarto, acordá-la e beijá-la e lhe dizer que poderia arremessar pela janela quantos gatos pardos quisesse, que eu nunca mais gritaria com ela daquele modo. Mas não o fiz: receei que, caso afagasse sua cabeça naquele momento, ela nunca aprenderia a lição. Permaneci na cama.

Creio que o incidente acabou causando grande impacto em sua personalidade. Da noite para o dia, tornou-se mais amarga e rancorosa. Os anos se passaram sem que, aparentemente, a lembrança daquele dia enfraquecesse em sua memória. Fingia ser gentil com todas as pessoas e animais, mas eu, sua mãe e criadora, sabia que ela não tinha qualquer amor sincero por qualquer ser que se arrastasse sobre a Terra. Era como se meus gritos tivessem interrompido, em um momento crítico, o natural processo de formação de seu caráter. Naquele dia, algo morrera nela.

Ainda assim, vivi calada meus anos em seu apartamento e tolerando seus gestos vazios e indiferentes. Quando ela me comprou um gato, em sua autopropalada ânsia de mostrar-se caridosa com a mãe e um gato ao mesmo tempo, permaneci muda. Até quando nasceu minha neta, nenhuma satisfação cresceu em mim: observava o rostinho da criança por horas a fio, vendo-a chorar sem nada fazer. Finalmente, dava-lhe o leite ou trocava as fraldas, indefesa diante das escolhas que a vida havia-me legado.

Diante da silenciosa derrota que minha filha havia me imposto, pude apenas praticar uma última vingança. Um dia, quando a neta já possuía lá seus sete anos, aproximei-me da janela com meu gato pardo. Por um largo tempo eu fingira que gostava do animal quando, na verdade, nada sentia além de asco por ele. Lembrava-me minha filha. Ela, tão fútil e cheia de si; tão oca.

Senti que minha vida não havia passado de um tortuoso círculo de enganos e falsidades. O caminho a seguir parecia mais claro. Assim, ergui o gato e o empurrei pela janela.

Diogo Almeida,  nascido em Natal - RN, é jornalista de formação e, desde 2006, diplomata. Desde pequeno gosta de ler, hábito adquirido na família, e recentemente começou a fazer incursões mais sérias na área do conto. Planeja publicar seu primeiro livro em breve. Reside atualmente em Portugal. 
April 22, 07:06 AM
Por Daniel Lopes

“He ain´t heavy, he is my brother”

The Hollies.

Para o meu irmão Marcos, porque sempre esteve lá.


É estranho vê-Lo sorrindo agora, quase trinta anos depois. Mas o sorriso é o mesmo, não fossem as rugas e alguns cabelos brancos, eu poderia jurar que Ele ainda é o mesmo. Aproxima-se sem jeito, ainda rindo meio de lado e o sorriso dEle me desafina, me faz pensar que a minha vida inteira eu poderia ter sido uma pessoa melhor. Que eu poderia ter demonstrado mais o que sentia pelas pessoas e poderia ter feito mais por elas, entretanto não fiz. O caso é que nunca fui mesmo muito bom com esse negócio de sentimentos e emoções. É minha natureza, ou será que esse negócio da natureza é só mais uma das minhas desculpas? Como aquelas que sempre inventei pra não ter assumido o filho que perdi, pra ter abandonado a mulher que amava, ou pra ter comido e descartado tantas outras mulheres pelas madrugadas do mundo? Vai saber. Ele por seu turno continua sorrindo. Tento sorrir de volta, contudo há anos que desaprendi a sorrir e minha boca é como uma pintura colada na cara.
- Paga um doce. – Ele me pede, esfregando as mãos, como sempre fez a vida inteira. Estou tomando uma cerveja só para me lembrar, porque, afinal de contas, esse bairro pequeno e perdido no subúrbio é a minha memória, o meu lado mais humano, bonito e verdadeiro. Havia cinco anos que não vinha aqui. Nesse meu ramo de negócios não podemos ser muito humanos e nem muito verdadeiros. O fato é que, apesar de tudo, meu trabalho me deu muito dinheiro, mas muito dinheiro mesmo. Contudo Ele, meu amigo, não se importa com todo o meu dinheiro e continua esperando apenas o seu doce, ainda esfregando as mãos.
- Ô seu Mariano, o senhor tem caixa de bombom aí? – Pergunto ao dono do bar.
- Tenho.
- Faz um favor então, dá uma aqui pro meu amigo.
O dono do bar continua o mesmo desde que tínhamos oito ou dez anos. Tudo aqui parece continuar o mesmo. As pessoas envelheceram, mas não mudaram o olhar e nem o sorriso. As casas mudaram de cor, conservando o mesmo cheiro... o mesmo som. As ruas perderam o paralelepípedo e ganharam um asfalto novo e bonito com duas faixas amarelas pintadas no meio, no entanto ainda são as mesmas ruas onde jogávamos bola com gols feitos de chinelo ou de pedra.
- Posso me sentar aqui? - Ele pergunta com a caixa de bombom nas mãos, sorrindo ainda mais que antes.
- Claro. – Respondo e então Ele se senta ao meu lado, no chão da porta de entrada do bar.
- Desse jeito, vocês vão me fechar toda a porta e aí como é que os fregueses vão entrar? – Grita o seu Mariano atrás do balcão. Os pêlos do meu braço se arrepiam. Como é que pode? É a mesma frase que ele gritava pra gente trinta anos atrás, quando nos sentávamos ali na porta, toda a molecada, depois do futebol, pra tomar um refrigerante qualquer em copos descartáveis que ele nos dava pra não ter de lavar tantos copos depois.
- Esquenta não Seu Mariano. Eu dou uma caixinha gorda pro senhor depois. – Falo e ficamos os dois sentados ali, lado a lado, em silêncio, olhando a rua. Até que Ele abre um dos bombons e diz:
- Esse é o que eu mais gosto.
- Do que é?
- De chocolate, ora.
- Eu sei, mas ele não tem outro sabor, banana por exemplo?
- Não sei.
- Deixa eu ver a embalagem. – Ele me entrega o papel que envolvia o bombom. Crocante com recheio de creme de leite.
Eu peço mais uma cerveja e reforço para o seu Mariano a idéia de que ele tem de pegar uma cerveja lá do fundo, porque elas é que são sempre mais geladas.
- Tá tudo igual. –Ele grita de trás do balcão. Sempre teimoso e mal-humorado esse Seu Mariano. Há cinqüenta anos que vende a mesma cerveja morna.
- Esse carro bonito é seu? - Ele me pergunta com os dentes ainda cheios de chocolate enquanto aponta para o meu carro preto, conversível e importado, com rodas de liga-leve, direção hidráulica, trio elétrico e sistema de freios ABS.
- É sim, gostou?
- É bonitão.
Há trinta anos foi também um carro que mudou a nossa história. Tenho de pedir licença agora, pois o que vou contar não é algo de que me orgulho e também não é uma coisa lá muito bonita. Se quiser abandonar a história ainda é tempo.
Não é necessário repetir que éramos pobres, entretanto eu era o mais pobre de todos. Sempre descalço, sempre poupando o mesmo velho conga rasgado e vermelho pra escola. Filho de mãe solteira, empregada doméstica. Não era fácil suportar a tiração de sarro dos outros moleques. Ao contrário do que pregam, as crianças nem sempre são boas e inocentes. Mas eu não me deixava abater porque era forte e despeitado, quatrocentas lutas e quatrocentas vitórias, de modo que eu era o líder da nossa turma, mas não era um líder bom e nem piedoso. Este mesmo rapaz que está aqui sentado ao meu lado agora, comendo inocentemente seus bombons, foi um dos que mais sofreu nas minhas mãos.Uma das diversões da nossa turma, talvez a maior delas, era persegui-lo pelo bairro jogando pedras, paus, lixo, ratos mortos e tudo o mais que encontrávamos em cima dEle. Eu sempre na frente. Sempre liderando. Sempre tendo que me sobressair e mostrar a minha força, a minha coragem, a minha maldade. Não tinha mesmo piedade, se tivesse um revólver naquela época, talvez tivesse dado um tiro na cabeça dEle sem pensar duas vezes. Só pra mostrar o quanto eu era homem, o quanto eu era forte, o quanto eu era gigantesco, potente, maior, melhor, o quanto eu era inquestionavelmente um líder.
E aí um dia uma coisa aconteceu. É difícil contar isto com Ele aqui ao meu lado sorrindo e desembrulhando seus bombons, mas vou contar de qualquer forma. Mais uma vez, nós o estávamos perseguindo. Eu ia na frente dos outros, como de costume, jogando sobre Ele tudo o que encontrava pelo caminho. Ele era tudo o que eu mais odiava em mim mesmo, Ele era a representação física da fraqueza, e eu não podia deixar espaço para a fraqueza, nem uma brechinha sequer. Naquele dia, os outros desistiram cedo da perseguição, porque alguém havia acertado uma pedrada, ou uma paulada, ou coisa que o valha bem na cabeça dEle e agora ela, a cabeça, sangrava em abundância e Ele chorava, mas tinha de continuar correndo, porque eu estava atrás com toda a minha fúria. Era tarde e eu era o único a continuar na perseguição que já durava mais de três horas. Lembro que saímos do bairro, atravessamos a linha do trem, a avenida onde os ônibus passavam, entramos no outro bairro, onde moravam outros meninos, nossos maiores inimigos, mas não paramos de correr. Então, de repente, na adrenalina da perseguição, atravessamos uma rua sem olhar pra lado algum. Só ouvi o barulho da buzina, o carro derrapando, e então senti o baque nas minhas pernas e voei pelos ares. O carro desapareceu na rua escura. Não fez qualquer menção de parar. Minha testa agora também sangrava e minha perna devia estar quebrada, porque eu não conseguia movê-la um centímetro sequer.
Eles não nos tinham percebido e nós, a eles, também não, entretanto, com o barulho da batida, os meninos do outro bairro, nossos maiores inimigos, que estavam jogando futebol justo ali, na esquina da próxima rua, pararam com a bola e foram ver o que tinha acontecido. Era muita sorte pra eles. Eu ali, no meio do bairro deles, caído no chão e com a perna quebrada. Nem em seus maiores delírios eles imaginavam um milagre desses, nem em suas orações mais fervorosas eles tinham coragem de pedir a Deus que realizasse tamanho milagre, e, no entanto, era eu mesmo lá. Foram se aproximando devagar, feito hienas, feito ratos, feito vermes. Não sentia medo, há poucos dias tinha assistido ao filme Warriors, Guerreiros da Noite na televisão e estava pronto para morrer representando minha Gang. Não fechei os olhos ou tremi, contudo num determinado momento eles pararam, ficaram todos quietos no meio da rua. Eu não entendi. Esperava a surra, a depredação, o linchamento, a morte e nada disso vinha. Então olhei pra trás e lá estava Ele, a testa sangrando, mas imenso, com um pedaço de pau enorme na mão. Depois de alguns minutos um dos meninos gritou:
- Ih! Olha lá! Agora o Doidinho pirou de vez. Vai enfrentar nós todos só com aquele pedaço de pau na mão.
Ele levantou o pedaço de pau acima da cabeça e falou com uma voz grossa e calma, como se tivesse trinta e não dez ou doze anos.
- Vem pra você ver o que te acontece.
O menino fez uma cara de espanto, não, de espanto não, de medo mesmo e se enfiou entre os outros. Aos poucos, como um exército em retirada, foram se dispersando. Primeiro as fileiras de trás, depois as do meio e, por último, as da frente. Um dos derradeiros garotos ainda gritou:
- Vocês estão fodidos quando a gente pegar vocês seus filhos da puta. -
Ele fez mais uma ameaça com o pedaço de pau e o menino saiu correndo em disparada. Então se abaixou e me pegou por baixo dos braços, de frente e me sorriu esse mesmo sorriso de agora e... por Deus...  não pude entender mais nada e chorei... chorei... chorei... como nunca tinha chorado nem na frente do espelho e muito menos na frente de quem quer que fosse.
- Para com isso Marquinhos, você é o líder! – Ele disse e então me jogou nas costas com uma facilidade e com uma força que eu nunca imaginei que Ele tivesse e me carregou de volta para a nossa Vila, caminhando por mais de duas horas e doze quarteirões.
Agora Ele sorri de novo, comendo o último bombom e me pergunta, enquanto eu limpo com o dedo a baba que escorre pelo canto da boca.
- Posso pedir um guaraná?
- Claro.
Ainda sorrindo, bebe quase todo o guaraná, reclamando que está doendo a testa porque o refrigerante é muito gelado.
- Então bebe devagar. - Eu falo, só que, em vez de beber devagar, o que Ele faz é virar todo o refrigerante na boca de uma vez. Depois exclama com a mão na testa.
- Ai!
Vendo que Ele não tem jeito mesmo,  esboço também um sorriso e balanço a cabeça para os lados.
- Posso pedir uma última coisa? – Ele me diz.
- Vai lá, o que é?
Aponta para o carro meio sem jeito, sempre sorrindo.
- Que foi quer dar uma volta?  
Balança a cabeça indicando que sim. Então, eu pago a conta com uma nota de cinqüenta reais e mando o Seu Mariano ficar com o troco. Seu Mariano sorri, como sempre sorri quando vê dinheiro e me diz pra voltar mais vezes, não sumir assim. Digo que volto sim, abro a porta do carro e mando meu amigo entrar. Em seguida colocamos o cinto de segurança, ligo o aparelho de som para ouvir o bom e velho Elvis Presley... Like a bridge over troubled water... e dou a partida. Ele ensaia uma pequena batucada sorridente no painel, ao mesmo tempo em que saímos pelas ruas do bairro em baixíssima velocidade. Antes de alcançarmos a primeira esquina Ele aponta para o alto.
- Que foi quer que eu abaixe a capota? – Pergunto e Ele mais uma vez balança a cabeça indicando que sim. Aperto um botão e a capota aos poucos vai se guardando feito uma sanfona lá atrás. Ele está em êxtase e faz um dia lindo lá fora, como há muito tempo eu não via. Atrás do céu azul, espelho de tudo, está o universo e, atrás do universo, um sorriso nos lábios de Deus... um sorriso nos lábios de Deus...

April 21, 12:12 AM
Por Marcia Barbieri

Assisto a lentos suicídios – layouts da solidão,

dolorosos e mortos como cadáveres de irmãos

boiando na inconsistência do mundo

- mártires esquartejados.


Descanso sob a nudez dos vitrais

negros cães raivosos devoram

as estrelas das noites obscuras,

obtusas regurgitações.


Minhas mágoas são peroladas,

estrias profundas no abdômen,

vísceras às avessas.


 Atravesso as teias das manhãs

brancas e vazias

onde crescem flores de beleza

vulgar e furtiva

-íntimas erosões. 
April 18, 10:46 AM
Um voo entre as estrelas e o chão (conto)


TRECHO: "A música (Ando tão à flor da pele: qualquer beijo de novela me faz chorar) que eu escutava não tinha nada a ver com o ambiente de amor e prazer que se criou quando ela entrou sorridente e sensual por aquela porta vestida com uma calça jeans que ficava maravilhosamente bem em seu lindo corpo e uma blusinha que apertava seus seios grandes (Barco sem porto, sem rumo, sem vela)".



 *** ***

TRECHO: "Lembrei disso, esqueci a água, corri e Para Eliza de Beethoven tocando no vizinho, corria corria corria à sacada. Meu Deus! Tropecei na mesinha no meio da sala. Josi! Josi! A resposta: um grito já distante".

 

*** ***

  Uma viagem esplêndida (conto)


EPÍGRAFE:


Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá

O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar

Vamos todos numa linda passarela de uma aquarela

Que um dia enfim descolorirá.
(Aquarela, TOQUINHO E VINÍCIUS DE MORAES)




>>> Manicômio é um livro de Rogers Silva. Será publicado em julho de 2012. Há muita, mas muita música em todas as suas histórias. Acima, a trilha sonora de mais dois contos. Mais músicas virão por aí, em outro post sobre o assunto.

Abraços & Beijos.
Rogers Silva.
April 16, 07:34 AM
Por Ricardo Novais

Pedro acordou de um pesadelo horrível. Sobressaltado, sentou-se na cama e olhou o irmão que dormia em outra cama ao lado.

- Paulo, Paulo, acorde!

O momento era aterrador. Paulo não acordava e Pedro se desesperava. Chacoalhou o irmão com energia, de repente, Paulo despertou.

- Que é?

- Nada... É que tive um sonho ruim... – balbuciou aliviado Pedro.

Leitor, está a pensar que Paulo ficou irritado por ser acordado tão abruptamente; não é mesmo? Pois não ficou. Ele estava esquisito, entorpecido por algo que ia além do sono. Pedro notou e estranhou o irmão. Bateu-lhe na cara com força, mandou que se recompusesse, perguntou-lhe o que acontecia. Entretanto, Paulo apenas sorria debilmente e emitia um assombroso som idiota: “Hehehe, hehe, hehehehe, hehe, hehehe...”.

- Mãe! Mãe! Mãe! – gritou Pedro muito assustado com o comportamento de zumbi do irmão. Porém, ele percebeu que seus gritos eram abafados, como se estivesse num sonho pautado ou numa filmagem antiga onde as imagens e os sons fossem desconexos.

De um salto, Pedro correu em direção à porta do quarto e ia abri-la quando a mãe apareceu em sua frente, subitamente, com a audácia e a prepotência materna.

- Que foi menino? Está louco?

- Eu não sei... Olha o Paulo, mãe...

- Vai dormir e deixa o seu irmão dormir também. Já é tarde, amanhã é dia de escola...

Ao olhar para trás, Pedro viu que Paulo dormia serenamente. “Será possível?”, pensou ele. “Estou sonhando?”.

Era incrível, tudo estava acontecendo e ele não entendia nada. A mãe foi à cozinha, Pedro saiu do quarto e foi ao banheiro. Seu andar era lento, moroso, como se estivesse mesmo sonhando. Olhou no espelho e conjecturou:

- Ai, meu Deus! Será possível? Eu estou sonhando, só pode ser... Tenho que acordar, eu tenho que acordar... – ele dizia e dava tapas ao rosto jogando água fria aos olhos.

Nisto, num abalo psíquico, ele bateu no espelho o jogando com violência contra a parede. Saiu do banheiro e olhou para sua mãe. Ela nada disse, e ainda continuava se comportando normalmente como se não tivesse ouvido nenhum barulho do impacto do espelho se estilhaçando no azulejo ou dos cacos de vidro caindo ao chão. Talvez não houvera acontecido barulho algum mesmo, talvez fosse tudo imaginação de um pesadelo bizarro.

- Tenho impulso, tenho impulso, tenho impulso... – repetia Pedro freneticamente com as mãos juntas encobrindo o rosto.

O impulso era matar a mãe indiferente, o irmão zumbi e todos os estranhos da casa. Já que era um sonho dentro de outro, não haveria consequências; era só ceder aos instintos que lhe acometiam as ideias, acordar do pesadelo no outro dia e pronto, tudo tornaria ao normal. Um anjo barroco, de olhos bondosos, disse-lhe que queria embarcá-lo ao céu, mas outro mensageiro, mais sedutor, guardião do inferno, ofereceu-lhe a barca dos prazeres diabólicos. Sonhos parecem mesmo ter destino articulado pelo arbítrio angelical – de modo que, muitas vezes, até um par ou ímpar entre meirinhos provenientes do além-mundo decide a sorte futura de alguma vida; e, em tal sequência de fenômenos ilusórios, não há o que a inatividade de consciência possa deliberar além de entregar-se ao próprio pesadelo.

Sendo assim, foi então que Pedro foi à cozinha, pegou da faca de cortar bife e cravou-a no peito da própria mãe. Depois caminhou com o mesmo andar vagaroso de antes, embora agora os pés estivessem sujos de sangue, e dirigiu-se ao seu quarto de dormir. Lá olhou o irmão adormecido e deu treze golpes com a faca nas costas de Paulo, que não ofereceu reação alguma. Em seguida, Pedro fez o mesmo com o pai, o primo, toda a família e alguns amigos que encontrou por acaso e nem mesmo moravam na casa, em uns deu dez golpes mortais, em outros deu dezessete ou vinte. Feito o ofício noturno, tornou ao quarto e deitou-se. Dormiu bem. No outro dia ele acordou cedo. Não era sonho.
April 15, 08:29 AM
Uma viagem ruim (conto)


TRECHO: "Que balada triste é essa, meu amigo? Parece música erudita. Toca também erudito? Reconheço! Essa é o Romance de amorde Antônio Rovira. Muito triste essa canção. Si... si... si... si... lá... lá... sol... sol... fá#... A música é em Mi menor harmônico! Ah, e é ternária. Pare, Brad!, se não daqui há pouco eu também estarei chorando. Imagine uma canção chorando. É adequado dizer que ainda não sou uma canção. Estou em fase de composição". 

 



*** ***

TRECHO: "Esse rock eu conheço, Brad! Knockin’ on heaven’s door – eis o nome da canção. Batendo o céu na porta? Como assim? Isso é ilógico. Ou seria Batendo na porta do céu? Esse deve ser o ritual de Brad: tocar algumas melodias tristes antes de compor uma canção".





*** ***


TRECHO: "À noite inteira, a mesma canção:


I used to love her, but I had to kill her

I used to love her, yeah but I had to kill her

I had to put her six feet under.

And I can still hear her complain…


I used to love her, ooh, yeah, but I had to kill her.

I used to love, ooh, yeah…


(Na madrugada inteira, a mesma canção).

Num imensurável escuro e num denso silêncio passei a noite.


Não dormi. Também não tenho espírito. Repeat, repeat, repeat, repeat, repeat... E sempre o mesmo I used to love her, but I had to kill her..."





*** ***

Manicômio (conto)


TRECHO: "Escutou, de quase todos, cada um à sua maneira, para não ir. Que ficasse mais um pouquinho. Quando João Marcos saía, um mulato com cabelo black power cantava uma música que não ouvira nos luaisanteriores:


Quero explodir as grades e voar

Eu não tenho pra onde ir, mas não quero ficar..."




*** ***

TRECHO: "Dava atenção a tudo: às casas pequenas, sujas, do bairro pobre em que morava, às árvores maltratadas da beira da rua, às pouquíssimas pessoas (morenas encardidas, negras) que via andando pela rua, ao (talvez) único bar que estava aberto àquela hora. Só não prestava atenção à música que, apesar da péssima transmissão, passava na rádio AM:


Vocês são vermes, pensam que são reis"




*** ***

TRECHO: "Rafael, enfim no local onde fora marcado o mini-evento, ouviu os outros, que já estavam cantando:


Enquanto você se esforça pra ser...

um sujeito normal...

e fazer tudo igual...

Eu, do meu lado, aprendendo a ser louco...

Um maluco total, na loucura real..."



>>> Manicômio é um livro de Rogers Silva. Será publicado em julho de 2012. Há muita, mas muita música em todas as suas histórias. Acima, a trilha sonora de apenas dois contos. Mais músicas virão por aí, em outro post sobre o assunto. Aguarde.

Abraços & Beijos.
Rogers Silva.

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