Estudante e futura educadora matemática.
Hobbies: aquarismo, fotografia, flauta, apreciação de cervejas.
Dúvidas, sugestões, reclamações: hs.maiza@gmail.com
Nasceu em fevereiro de 2009. Esteve com uma moça e seu pai por aproximadamente três anos. Tudo que se sabe a respeito do que passou em tal período é o que pode ser inferido das marcas que traz consigo.
Após três anos de trabalho, em abril de 2012, tornou-se amigo, cúmplice e professor de uma menina. Trabalhou e foi trabalhado. Apanhou e foi afagado. Presenciou prantos e risos. Paciente e silenciosamente, viu-a errar. Alegre e também silenciosamente, viu-a acertar. Foi testemunha e agente de um grande amadurecimento pessoal.
Foi visto recentemente numa loja, sendo vendido por um valor abaixo da tabela FIPE.
(A última parte deste texto não é real)
Certas pessoas são como a Matemática: parecem diretas, exatas, elegantes, organizadas. Mas, quando a gente as vê mais de perto, são tão confusas quanto tudo que um cérebro humano é capaz de produzir.
Que as ciências não explicam tudo, que a razão não explica tudo, é evidente. Existe o desconhecido, existe o incompreensível, existe o mistério, e sempre existirá. Mas com quedireito os crentes podem querer se apropriar desse mistério, reservá-lo para si, fazer dele uma especialidade sua? O fato de haver mistério não dá razão à religião, nem desautoriza a razão! Desautoriza, isso sim, o dogmatismo, e qualquer dogmatismo, seja ele religioso ou racionalista.
But capitalism is good because of free markets and social Darwinism. THIS IS JUST NATURE, THERE IS NO REASON TO QUESTION THIS LOGIC.
Everyone who defends capitalism on the internet (via desukapital)
There was a time when supporting “social Darwinism” was signing the Nazi invitation to the party.
(via brunomarconi)
“O homem é um animal amarrado às teias de significados que ele mesmo teceu.” (Clifford Geertz)
O excerto acima é norteador de boa parte das minhas concepções. Uma delas é a de que antropocentricamente a maioria de nós acha certos seres vivos “nojentos”, “feios”, “desprezíveis” ou mesmo “inúteis”.
Acho que minha simpatia pela Biologia deve-se à sua demonstração de que, afinal, o mundo não gira em torno da nossa espécie. Sem essa compreensão, muitos acabam defendendo os “direitos dos animais”, mas pensando em cães, gatos, aves coloridas e canoras etc. Poucos dos que dizem gostar de animais veem alguma beleza em insetos, aracnídeos, répteis, seres do fundo dos oceanos etc. ou até mesmo do ecossistema como um todo.
Através de uma perspectiva biológica, entendemos que todos os seres vivos manipulamos as leis da natureza a nosso favor, mas não somos capazes de mudá-las. No fim das contas, somos mais uma espécie que faz o que pode usando os recursos que tem a fim de sobreviver. Depois de compreendermos nosso lugar na biota, passamos a tentar observar de forma menos egoísta nossos companheiros de planeta e, quem sabe, de Universo.
E a necessidade de dar significado às coisas, que antes resultava em estranheza, passa a resultar em admiração. É um exercício de humildade ver como um caramujo ampularídeo, que não sabe Cálculo Diferencial e Integral, é capaz de respirar dentro e fora da água, enquanto eu, que sei, morreria em alguns minutos sem ar. Essa situação ilustra como outras formas de vida podem divergir tanto mas serem, cada uma à sua forma, bem sucedidas.
A conclusão a que chego após tal reflexão é, num primeiro momento, frustrante: perceber que não estamos, como pensamos durante séculos, acima do que quer que seja. Depois, é animador encarar a unidade do funcionamento do mundo e dar a pequena contribuição que me cabe a ele.
“Os homens pedem a seus deuses que provem sua existência com milagres; mas a maravilha eterna é o fato de não haver milagres a todo instante. E é por isso que o mundo é divino, já que é por isso que ele é harmonioso. Se fosse regido pelo capricho, o que nos provaria que não é regido pelo acaso? (Henri Poincaré)
Science is not only compatible with spirituality; it is a profound source of spirituality. When we recognize our place in an immensity of light-years and in the passage of ages, when we grasp the intricacy, beauty, and subtlety of life, then that soaring feeling, that sense of elation and humility combined, is surely spiritual. So are our emotions in the presence of great art or music or literature, or acts of exemplary selfless courage such as those of Mohandas Gandhi or Martin Luther King, Jr. The notion that science and spirituality are somehow mutually exclusive does a disservice to both.
Uma ínfima minoria dos aprendizados por que passamos na vida se dá de forma gentil.
Conforme crescemos, começamos a deixar o conforto da proteção dos mais velhos e encaramos situações mais cruas e problemáticas, tanto intelectuais quanto cotidianas, e aí faz-se necessário aprender a aprender.
Saber aprender é saber ao mesmo tempo proteger-se de potenciais abalos e estar aberto a novas perspectivas. É na tensão desse antagonismo que talvez resida a sabedoria, ou ao menos parte dela.
Muito se tem falado sobre os ditos errôneos usos de termos específicos de certas áreas do conhecimento. O objetivo deste texto é mostrar como muitas palavras ou expressões podem assumir uma gama ampla e por vezes contraditória de significados, e não necessariamente algum desses significados está errado.
Começo então introduzindo a noção de Esfera de prática, ou SP. Esta expressão fui cunhada por Kilpatrick et al. em seu livro Meanings of Meaning in Mathematics. Uma SP, em linhas gerais, é um contexto onde as pessoas envolvidas praticam e constroem significados para um conjunto de termos. Exemplos não faltam: uma sala de aula é uma SP onde professor e alunos ao longo do período letivo vivem certas experiências e um determinado conteúdo é visto. Um grupo de amigos, com suas piadas internas, é uma SP. Uma universidade é uma SP, com seu projeto pedagógico familiar aos alunos e professores que a frequentam.
Agora, alguns exemplos de como um termo pode assumir diferentes significados. Escolhi dois com os quais sou mais familiar, mas há uma porção de outros casos semelhantes.
O primeiro deles é o conceito de número decimal. O que é um número decimal? Grosso modo, para um físico, um número decimal é uma medida. A quantidade de casas após a vírgula (ou ponto, dependendo do sistema de numeração e medidas que se adota) pode ser grande como for, mas um físico ou um engenheiro são treinados para pensar em algarismos significativos. Por exemplo: seja calculada uma massa de 34,54081714 g. Dependendo da precisão dos instrumentos usados, esse número decimal pode ser reduzido a 34,54 g ou até 34 g; todos os outros algarismos não tem o menor sentido e podem ser eliminados. Para um lojista, o número decimal 34,5408171 significa simplesmente R$34,54. Para um matemático, um número decimal, qualquer que seja, é um elemento que satisfaz determinadas propriedades de uma estrutura algébrica, como os conjuntos dos números racionais e reais. E 34,5408171 é absurdamente diferente de 34,540817.
O segundo deles é o conceito de evolução. O que significa evoluir? Na SP da Biologia, evolução é o processo de mudanças sofridas por populações, por meio da Seleção Natural. Não significa necessariamente que a população se torne melhor ou mais complexa ao longo do tempo, mas sim mais bem adaptada às condições ambientais às quais está exposta. Em termos de epistemologia, pode-se falar em evolução conceitual, por exemplo. Quando falo em evolução dos conceitos matemáticos, falo, com o auxílio da História, da natureza de certos conceitos e práticas que os babilônios tinham, que os egípcios tinham, que os hindus tinham, que os árabes tinham, que os gregos tinham, etc., até chegar aos dias atuais. Às vezes, como é o caso da Matemática, essa evolução dá-se no sentido do rigor lógico; mas, se estivesse falando em evolução dos conceitos antropológicos, como bem observa Clifford Geertz em seu A Interpretação das Culturas, estaríamos partido de uma situação complexa e chegando a outra também complexa. Para algumas religiões, evoluir o espírito significa melhorar como pessoa. No dia a dia, ouve-se muito essa palavra nesse mesmo sentido de melhora, de ascensão.
O que quero dizer com esses exemplos? Que não existe um significado correto para determinado termo, ou, em outras palavras, que não existem termos pertencentes a uma única esfera de prática. Os idiomas são plásticos o bastante para permitirem essa flexibilidade terminológica. O grande problema é quando colocamos nossos preconceitos e valores pessoais no uso de qualquer termo. Não é porque não pratico nenhuma religião que o termo evolução deixa de significar melhora em determinadas SPs. Não é porque estudo Matemática que as aproximações numéricas feitas por físicos e engenheiros estão erradas, ou que o uso da própria palavra número significando quantidade seja inadequado.
E, se a linguagem permite que certas palavras assumam significados são diversos, talvez os desacordos relacionados a terminologia sejam na verdade reflexos de nosso egoísmo ou de nossa desatenção em relação à esfera de prática em que estamos inseridos. Um resultado direto, por exemplo, são as incoerências entre rigor e objetividade. Precisamos estar cientes dessa flexibilidade de significados e usá-la a nosso favor, não como catalisador de falácias, esclarecendo os significados do que estamos falando e evitando mal entendidos.
Yo recuerdo mi infancia como un período largo, interminable, triste, donde el miedo dominava todo.
O corpo precisa de rotina e a mente, de estímulos. Somos uma geração cuja mente está afogada no tédio da rotina e cujo corpo está afogado na degradação dos estímulos cada vez mais doentios.
Hoje saí só. Comprei um vaso novo para o meu bonsai, bebi uma cerveja barata numa praça suja ao lado de um trailer de hot-dogs, depois fui até o shopping da minha cidade, pedi um café irlandês e li algumas páginas de um livro que comprara na rua. Me diverti interagindo com algumas pessoas pela internet, me preocupei com um relacionamento em particular, bebi um restinho de uísque que ganhei há menos de uma semana no meu aniversário e tomei meu remédio. Depois, fui ocupar-me com a leitura de alguns textos para um trabalho em cuja admissão tanto contentamento me causou.
Meu cotidiano tem momentos doces e amargos, nem sempre na proporção em que gostaria.
Tenho recorrentes momentos de reflexão ― frustradamente limitada pelo meu pouco domínio filosófico ― nos quais penso sobre meu ser e estar no mundo e na minha percepção sobre ele. Às vezes existir é uma angústia. O existir consciente implica em saber que vou deixar de existir, que vou deixar de pensar, avaliar, sentir a doçura e o amargor dessa realidade que, a despeito de suas adversidades, é a única em que me é permitido estar e ser, e que às vezes me parece ser tão estranha, num jamais vu perene. São estes os meus momentos de maior miséria existencial.
Mas tenho também meus momentos de ação: momentos em que o ser e estar no mundo é subentendido, quase esquecido, e em que me sinto feliz por ter uma quantidade ao mesmo tempo tão pequena e tão grande de ferramentas através das quais posso fazer alguma diferença, seja no meu corpo intelectual e emocional, seja no de terceiros. Nesses momentos, a miséria de minha existência é posta de lado pelo deleite de ver minhas ações produzindo respostas positivas, e sou feliz.
Incomoda-me, entretanto, a ideia de que contentar-me com o que quer que seja significa na verdade embriagar-me, fugir do dever de pensar minha miséria existencial, que tanto me aflige, até chegar a uma conclusão razoável. Meu maior medo é morrer em desarmonia com o ciclo da existência, deixar de existir sem ter jamais pensado meu ser e estar neste mundo que, até que convençam-me do contrário, é o único (finitamente) tangível pela minha frágil percepção. Tenho medo de contrair o vício da embriaguez “de vinho, de poesia ou de virtude”, mesmo sabendo que, afinal, não vai fazer muita diferença morrer sem ter refletido nem por um instante ou ter morrido após uma vida de reflexões.
Talvez seja o meu velho preconceito contra as facilidades. Talvez meu pensar, que tão preconceituosamento abomina preconceitos, seja apenas um veículo do arraigado preconceito que diz ser digno e íntegro o caminho difícil e sordidamente prazeroso caminho mais fácil, que diz ser a peleja a única fonte de prazer digno de ser sentido sem culpa.
Acho importante começar esse texto me livrando de hipocrisias, então começo admitindo: sou hipócrita. Como qualquer outra pessoa, já julguei o outro por algo que também fiz. Na maioria das vezes achamos absurdo alguém agir de determinada maneira e tiramos conclusões que não deveríamos sobre aquele…
Acredito que somos pequenos pedaços do mundo capazes de percebê-lo e abstraí-lo, e que a ocorrência de pedacinhos de cosmos como nós não acontece em todo canto do universo ― de fato, até hoje não encontramos outro canto onde isso tenha acontecido. Mas ser uma porção pensante de um todo não significa ser o propósito de sua existência, ou sequer que haja um propósito.
E, se não posso por meios racionais verificar a existência de um ou mais propósitos primeiros, concebidos e deliberadamente executados por uma ou mais entidades exteriores aos pedaços de cosmos meus iguais, então, na prática, para mim eles não existem. Esta é uma questão interessante e passível de discussão, mas não me permito contar com algo de que não tenho sequer indícios concretos.
Por isso adoto o agnosticismo nas discussões e o ateísmo na prática.