É cansativo falar sobre os mesmos detalhes durante todos esses anos. Mas eu só percebi o cansaço hoje, ao olhar para os meus dedos trêmulos e perceber os calos, conseqüência das diversas folhas escritas por mim, repetindo e repetindo apenas uma palavra: “volte”. Porque, em resumo de tudo o que eu disse, escrevi e senti, essa palavra gritava nas entrelinhas. Eu me culpo por isso. Enquanto a vida passava, eu esperava tudo acontecer para lamentar. Eu olhava para trás. De costas para a vida, inversa e contrária a qualquer brilho que parecesse novidade. De olhos fechados para o mundo, até que alguém chamou meu nome. Abri os olhos, olhei para frente, me recomecei. Desde hoje.
Hoje, eu tirei a caneta que prendia alguns fios do meu cabelo, costume causado pelo calor carioca, e resolvi escrever essas palavras com ela.
Hoje, eu desenterrei o meu vocabulário despretensioso, abafado pelo passado, e resolvi caminhar entre ele.
Hoje, abri as janelas dessa casa que há tempos estava tão escura quanto a minha alma, e deixei a luz entrar.
Luz me traz a ilusão de paz. A paz está tão distante. Assim como a minha fé.
Todos sabem quem eu sou, menos eu. Ainda me surpreendo com os meus atos irracionais. Planejei todo o meu recomeço, do que pensar até o que dizer. E não recomecei. Desisti aos 48 minutos do segundo tempo. Não nasci para ser pássaro, não nasci para voar. Não nasci para mudar – seja me mudar, mudar alguém, ou até mudar um conceito -. Não nasci para morrer de overdose, como alguns dos heróis de Cazuza. Nasci para ser e continuar sendo, da maneira mais caótica possível. E peço perdão por isso. Não a você, que deve estar perdido na própria vida, tentando encontrar algum objetivo inexistente nessas minhas palavras. Peço perdão a mim, essa pobre tola, que ainda aguarda e acredita em um recomeço. Recomeços não existem. Carregue um exemplo: Um fumante que para de fumar, não deixou de ser fumante, apenas parou de fumar. É o real valor das coisas. Eu, a nostálgica sem passado, entre outros adjetivos, jamais deixarei de ter essa fisionomia cansada, essas memórias presas no peito, essa vida esquecida. Posso parar de absorver o passado e ignorar o presente, mas a nostalgia permanecerá em meu sangue.
A gente não muda, apenas fingimos a mudança. A gente não acredita, apenas fingimos uma crença. É a lei do comodismo. Eu finjo que mudo, você finge que acredita, nós fingimos que somos maiores que nós mesmos, mas somos apenas seres humanos enclausurados em uma existência desprezível. A vida existe, mas ninguém está vivo. E dessa vida, a morte é a única certeza – a única mudança.
Se você é,
você nasce sendo
você cresce sendo
você morre sendo.
Que seja.
As paredes brancas me devoram. Nada sacia a saudade que me obriga a vagar pela extensão da noite. No escuro, os olhos brilham, e qualquer claridade parece a luz no fim do túnel. Vagando pela escuridão, te enxerguei. Você brilhava, reluzia, ofuscava, iludia. Me pegou pelos braços e me levou para a luz. Eu dançava sem me movimentar, estava perdida na busca de uma explicação razoável para aquela dança desconexa e para a felicidade que transbordava em mim. Eu questionava, falava, gritava, mas nenhuma palavra saia dos meus lábios. Parei a música, parei a dança. Descobri porque você não me respondia. Não havia pergunta. Seus lábios estavam ocupados calando os meus. Ou o amor, ou a verdade poderiam sair da sua boca. Jamais os dois. Amor não faz sentido, então pedi a verdade. O empurrei bruscamente, afastando seus lábios dos meus, destruindo tudo o que existia. Esperei sua voz entrar em meus ouvidos com qualquer resposta – ou ilusão fajuta – que me convencesse. Mas não ouvi. Não ouvi pronúncia, resposta ou ilusão. Você se virou e foi. Não levou nenhum pedaço de mim, nem ao menos a saudade. Eu não fiz falta. Mas a sua ausência ecoou na escuridão.
Procurei teus bilhetes pela minha casa e não encontrei. Mas quando olhei no reflexo da tv, vi teu coração tatuado sobre o meu. É que prestando atenção, o meu coração reflete no teu. Falo do teu de verdade, com sangue bombeando e sem tinta alguma. Descobri que ele existe. Há sangue derramado nos teus bilhetes, cartas e rabiscos. Tudo cuspido num prato de hotel. Caiu sangue nas palavras. Caiu sentimento na tinta. Caiu amor nas músicas. Tu caiu em mim. Procurei teus sentimentos pelas palavras e não encontrei. Em todas as letras legendadas no plágio de uma bela melodia, não havia ninguém. Alzira, Muggy, Sophia, Aline, Sabrina… São resultados da tua busca incansável por alguém a mais, que ainda possa te salvar. Entrei na tua busca, e foi te procurando que eu me perdi. Mas foi naquele reflexo de tv desligada que me – e te – encontrei. Nos encontrei. Juntos e separados, dentro e fora da tv. Tu não é o coração tatuado. Tu não é o reflexo da tv. Tu é só o Tavares dentro do Esteban.
Tic-tac.
Nos abraçávamos durante tardes inteiras, como se o mundo fosse acabar. Essa é a melhor lembrança daqueles anos. Eu nunca abraçava ninguém. Sem apertos de mão, sem beijinhos no rosto, sem oi-tudo-bem-novidades, sem distribuir sorrisos ou piscadelas. Eu não demonstrava afeto porque nunca havia sentido. Mas ela mudou tudo.
Tic-tac.
A presença dela arrepiava-me. Algo mudava no ar quando ela chegava, tornando tudo mais doce com seu perfume. Um dia desses reconheci o tal perfume nas boêmias ruas cariocas, quando a fragrância penetrou minhas narinas. Fechei os olhos e relembrei cada momento. As mesas azuis da escola, as anotações aleatórias no caderno, meu olhar permanente no relógio esperando o sinal de término das aulas…
Tic-tac.
Ao ouvir o estridente barulho do relógio, eu corria para o pátio para esperá-la. Naquele dia, apesar da frieza presente no clima e em mim, a presentearia com um simples poema de minha autoria. Coloquei meu coração nas entrelinhas, beijei o papel e esperei a destinatária. A tarde passou revelando o rosa do fim do por-do-sol e as lágrimas em meus olhos. Ela não veio.
Tic-tac.
Passei as tardes seguintes esperando a moça com o poema nas mãos. Confesso que durante todas as noites antes de dormir, eu rezava por sua presença. Mas tudo mudou. Hoje não tenho fé para rezar, inspiração para escrever, nome para destinatar. Ela não veio.
Uma noite perdida, uma vida perdida. Sabes que sempre fui um exagero, de acréscimos absurdos. Há uma dose de drama escorrendo entre minhas veias, misturando-se ao sangue e pulsando dentro de mim. Mas meu excesso não está evidente. A realidade aproxima-se da fantasia, o veneno torna-se anestesia. Venenos, venenos, venenos… Desencontros com o destino marcaram minha memória, que provinha da inabalável expectativa de que algo bom estará por vir. Lembro-me da primeira sessão de terapia este ano. Cortes nos pulsos, torpor no corpo, confusão na mente e nenhum coração. A ideia de suicídio era latejante e pertinente. O destino revoltou-se, percebendo que minha própria trapaça daria fim à tortura proposta. Mortos não sofrem. Resolveu dar-me um gosto do que era felicidade, na qual agarrei-me e segui caminhando. Quando acomodei-me com a sensação, o destino puxou meu tapete. Caí do topo, cheguei ao fim do poço e outras metáforas. “Um pesadelo e não há como acordar” faz o máximo sentido. A virada brusca sacudiu-me, expulsando-me da farsa. Sonhei em sonhar.
- Me belisca?
As pernas trêmulas são passistas, carregando o resto do meu corpo na harmonia de uma dança esquizofrênica. O coração é a bateria, ritmada e pulsante num tum-tum prestes a sair pela boca. A mente é telespectadora, vibrando à cada batida, sem interferir nas ações do cego coração. Meu amado é o mestre-sala, sambando entre os sentimentos conturbados que não apreciaram o carnaval. Eu sou a porta-bandeira desse desfile fajuto e descontrolado, enfeitando-o com mentiras. Na avenida, a paixão desfila, trazendo suspiros à boca e lágrimas aos olhos.
Oh, passarinho, por que não me levas para sentir o vento no rosto, o azul do céu, o cheiro das flores? Por que não me abraças com tuas penas, aquecendo minhas mãos frias? Por que não me presenteias com a vida que carregas?
Oh, passarinho, tenho tanto medo de tocar-lhe. Cada segundo é um anseio para que não voe para lugares inalcançáveis. Compreendo que sempre que vais, retorna ao aconchego de meu jardim, mas nunca tenho certeza de tua volta. Tua ausência desperta-me um desespero acanhado pela esperança. E espero, espero, espero… Por um instante minha memória falha, e esqueço teu rosto e teu canto. Mas então enxergo-lhe claramente, voando entre as árvores, voltando e trazendo um pedaço do céu no bico.
Sinto-me tão leve ao teu lado, passarinho. Sinto-me capaz de ser pequena como tu pareces, ou grande como és por dentro. Para mim, és passarinho pela alma que enxergo em ti. Alma pura, leve e sonhadora. Tens alma de poeta, porque todo poeta carrega um passarinho dentro de si, esperando a liberdade para abrir asas e percorrer entre os ventos. Espero-lhe em meu jardim, passarinho. Espero meu pedaço do céu.
Escrevo-lhe para que leia minhas palavras e sinta minha voz em teu ouvido, num sussurro breve como segredo de criança. Acalme-se, passarinho, sente-se na mais bela flor dos corriqueiros bosques por onde passas e me abra, me leia, me sinta. Sinta o cheiro da saudade e do vinho derramado no tapete, em mais um de meus tropeços. Receba meus sentimentos como beijo estalado no rosto.
O vazio que preenchia-me se foi, substituiu-se pela nostalgia. Ambos sabemos que a nostalgia é a pior droga e a pior droga sempre mata. Distrações não me satisfazem e meu amor inventado não tira os pés do chão. Estou farta de bem-me-quer-mal-me-quer, cansada de buscar um farol entre toda a escuridão. As idealizações não bastam, a dose de alegria forçada torna-se cada vez mais exigida. Afoguei-me nas mágoas e feridas implícitas.
Veja bem, passarinho, cada passo de uma vez. Aguardo a saída do labirinto que batizei com o codinome vida. Preencha-me ou transbordo de vazio. Voe comigo, passarinho. Leve-me aos céus.