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Mémorias de viagens sempre foram um dos melhores recursos para registrar experiências e sensações vividas em outros lugares. São únicas, pessoais e intransferíveis. E, não raro, a melhor e mais eficaz divulgação de uma região, pois é através desses relatos individuais que se constrói o imaginário coletivo.
O músico e designer mineiro Fabiano Fonseca está transformando suas memórias subjetivas em um projeto extremamente belo, rico e interessante: o Sonic PostCards, pequenos recortes sonoros do cotidiano das regiões em que visita, trabalha e vive. Uma forma única de sentir e absorver seu entorno através dos sons e ruídos, muitas vezes ignorados pela velocidade das coisas mas sempre presentes ao nosso redor.
Abaixo, o seu delicado olhar (e ouvido) para a pequena cidade de Beinasco, na Itália.
A CAPITAL DO NORTE
Texto e Imagens: Patricia Galves Derolle*
Não é à toa que a China é considerada um gigante . Tudo a seu respeito tem proporções consideráveis, desde sua geografia até o ego de seus governantes. É um país de contrastes, onde o muito antigo encontra o mais moderno e ambos convivem cordialmente. Por estes e tantos outros adjetivos resolvi desvendar uma parte dos mistérios desta terra. Aqui conto minha viagem para Pequim: a capital do norte.
Cheguei a Pequim 2 dias depois do desastre no Japão. Alguns tremores foram sentidos em Xangai e outros poucos em Pequim, mas nada de grave aconteceu na China, que, mesmo não tendo bons relacionamentos com o Japão, enviou ajuda humanitária especializada para lá. Os jornais locais transmitiram todo o desenrolar da situação e fizeram questão de enfatizar a ajuda chinesa aos nipônicos.
A grande maioria dos canais pertence à rede estatal CCTV, que controla todas as programações. O canal de notícias desta mesma rede, além de ser em mandarim, também é transmitido em inglês. Os canais estrangeiros, como HBO, CNN, BBC, entre outros, têm atraso de ao menos 5 minutos da programação original, por terem que passar por censura, ou seja, se estes mesmos canais falarem mal da China ou se forem contra algo que a China acredita, a censura se ocupa da retaliação. Esta falta de informação, ou informação desviada, faz com que o sentimento nacionalista chinês seja elevado à décima potência.
Embora Pequim tenha sido o palco das Olimpíadas de 2008, ainda é muito difícil se comunicar em inglês. As placas de trânsito, bem como os lugares turísticos, são bilíngues, muitos menus de restaurantes também, mas a população ainda encontra dificuldade em entender e se expressar no idioma estrangeiro. Quando conseguem ultrapassar esta barreira, falam com frases prontas e decoradas, como se tivessem estudado um curso intensivo de inglês “made in China”. Claro que isto não se aplica a todos os lugares de Pequim. Longe disso está a rua Wangfujing, o centro de compras chique de Pequim. Lá se pode encontrar tudo o que está na moda, com preços mais altos até mesmo que na Europa, atendendo às novas classes média e alta.
Na direção oposta, estão o Pearl Market e o Silk Market. Nestes mercados lotados de estrangeiros, encontra-se todos os tipos de bugigangas, desde canetas Mont Blanc falsas a videogames Wu (sim, o Wii falso se chama Wu lá), de paletós Giorgio Armani a bolsas Dolce and Gabanna. É o paraíso dos pechinchadores, ou o inferno na terra daqueles que não gostam de negociar. Para se conseguir um bom preço, ou um preço justo, é necessário negociar, e muito. Os paulistanos que estão lendo este relato sabem do que estou falando, pois o cenário é o mesmo da Galeria Pajé, na nossa querida São Paulo.
O outro lado da China que me levou a realizar esta viagem foi a sua impressionante história, hoje observada em diferentes pontos de Pequim. Como é sabido, ao norte da cidade pode-se visitar uma parte da Grande Muralha, no centro estão a Cidade Proibida, a Praça Tian’anmen e o Museu de História Nacional, e, espalhados, estão todos os outros museus e galerias de arte, bem como os templos budistas e maoístas, tudo organizado em harmonia com os princípios do Feng shui.
A Grande Muralha é uma aula de história viva. A sua parte mais conservada foi a que visitei, com pedras de calcário originais, postas a mão uma a uma, formando caminhos e escadas que contornam a superfície da montanha. As torres entre os caminhos eram utilizadas como área de vigilância e transmitiam sinais de fumaça, entre outras formas, para alertar as torres vizinhas de algum perigo. A Muralha é de tirar o fôlego, bem como subir suas rampas inclinadíssimas com o vento que faz lá em cima. Diz a lenda que quem consegue subir é um herói. Talvez eu seja uma meia-heroína, já que tive ajuda do teleférico no começo, mas depois juro que subi tudo sozinha! Era impressionante ver os turistas chineses, já idosos, subirem a muralha sem reclamar. Eles iam devagar, sem apoiar nas beiradas, passo a passo. Via-se no rosto deles o orgulho de estar visitando uma parte histórica de seu país.
A Cidade Proibida é outro lugar impressionante. Era a residência do imperador e de suas 3 mil concubinas na dinastia Ming; é um complexo que servia sobretudo como centro político da época. Várias construções interessantes estão localizadas lá; contudo, em minha opinião, a mais esplêndida é a Galeria da Suprema Harmonia.
Além de ser muito bem decorada por dentro, era o lugar mais importante da Cidade Proibida, pois era lá que o imperador encontrava as pessoas mais respeitáveis. A Galeria possui dez estatuetas em seu telhado, demonstrando que é uma construção de alto escalão. A quantidade de estatuetas nos telhados das construções mostrava quão importante o respectivo lugar era.
A Cidade possui diversos portões de entrada, mas o principal é o Portão do Céu, e é nele que se encontra a famosa foto do Mao Tse Tung. Já do outro lado da larga avenida, encontra-se a maior praça do mundo: a Tian’anmen. Rodeada pelo Parlamento chinês, pelo Museu de História Nacional e pelo Memorial do Mao, é cheia de turistas (chineses e estrangeiros) e policiais. Para entrar nesta praça pública, é necessário passar por guardas devidamente uniformizados e por detectores de metais, além de colocar a bolsa em uma esteira de raio-x.
Foi nesta praça que, pela primeira vez, senti-me uma verdadeira estrangeira. Camponeses e pessoas de outras províncias da China me viam como uma pessoa estranha/diferente, pois eu não era asiática. Eles apontavam, olhavam de perto, riam e eu não entendia nada. Meu guia, o imigrante mongol Tony, disse que eles eram pessoas bem simples, que nunca viram estrangeiros na vida, nem mesmo na televisão. A experiência foi esquisita, mas boa, e que me fez refletir sobre as influências ocidentais no mundo, ou, pelo menos, em partes do mundo.
Depois da visita ao Museu de História Nacional, comecei a entender o exacerbado nacionalismo chinês. A história, pelo menos no museu, é contada pela ótica chinesa comunista, que expõe claramente os heróis chineses, a influência de Marx e Engels, um grandioso Lênin, bem como os motivos de se orgulhar de um país como a República Popular da China. Lá, as chamadas “nações imperialistas” não têm vez, são más. Ver os chineses lerem todos aqueles textos com olhos atentos, concordarem e tirarem fotos com todas as estátuas do Mao foi uma experiência indescritível.
Na mesma semana em que estive em Pequim, o Primeiro-Ministro chinês Wen Jiabao anunciou ser inevitável a China se abrir politicamente, pois a lógica do mundo estava mudando, mesmo em seu próprio país. Entretanto, algumas semanas depois, este mesmo governo prendeu a artista e ativista social Ai Weiwei.
Em relação à cena artística de Pequim, visitei o bairro chamado 798 Art Zone, que antigamente funcionava como um complexo industrial e hoje passou a abrigar diversas galerias, estúdios fotográficos e lojas artesanais. É um lugar alternativo que combina tudo o que é novo e moderno, um lugar que dita influências na moda e nas artes chinesa e mundial frequentado por pessoas cool. Por ser um lugar tão vivo, parece que Pequim respira tranquila lá, sem censura e sem vigilância.
A China é um país gigante que acredita em seus ideais, tem enraizado em si tradições milenares e é um ator internacional forte e competitivo. É uma das maiores economias do mundo, mas, ao mesmo tempo, possui problemas de direitos humanos e meio ambiente. É um lugar onde os paradoxos vivem harmoniosamente, em um caos organizado. E Pequim é o palco político e artístico de toda a China, peças essenciais do país. Xie xie, Beijing!
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* Patricia é formada em Relações Internacionais pela Universidade Belas Artes de São Paulo. Trabalhou no Ministério das Relações Exteriores em São Paulo, no Consulado Brasileiro em Genebra, Suíça e na Missão Brasileira na ONU, também em Genebra. Atualmente é analista de tecnologia na União Internacional de Transportes Terrestres, na mesma cidade. Mora na Suíça desde 2009. Seu e-mail é patygd@terra.com.br.
O pequeno mas latente mundo do Place Branding está começando a sair da toca e mostrar à que veio. Uma disciplina ainda muito confundida com propaganda política, onde grandes agências – as maiores responsáveis pela criação desses projetos – ainda se utilizam de técnicas comuns de comunicação para o desenvolvimento desses projetos e, principalmente, lida com a construção de uma marca de um país ou de uma região com o mesmo instrumental para a criação de uma marca de sabão em pó. Mas parece que aos poucos algo vai se transformando. Talvez a informação de que outros métodos e pensamentos são necessários esteja ficando mais evidentes e mais óbvios para todos os envolvidos. Pequenos cursos estão começando a surgir e orgãos oficiais estão se atentando para que não basta pagar para um grande nome da publicidade local cuidar de algo tão valioso, mas ainda muito sucateado.
Um caso interessante ocorrido esta semana foi a publicação do mini-artigo de Tânia Savaget com o título ‘O branding para países, estados, cidades – Como seria no Rio? A hora é agora‘ no Blue Bus, tradicional site sobre notícias do mundo da propaganda, lido por 14 de 10 publicitários do nosso Brasil varonil. Como a Tátil foi a vencedora – com muito mérito – do concurso da marca das Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro, acabou se tornando o escritório com maior propriedade para falar sobre o assunto no Brasil. Mas é sempre bom lembrar que o processo de construção da marca, por mais belo que tenha sido – conforme o vídeo abaixo -, se resume apenas à uma marca que, apesar do evento ser de extrema importância para um processo de branding, é bastanate efêmero e está longe da complexidade de um projeto de marca para um país ou cidade.
Mas, então como pensar de forma consistente um objeto tão complexo como um país? Muito tem se feito mas pouco com relevância de fato. Pensar um projeto de uma marca não é mais apenas qual tipografia usar ou que ela deva representar – apesar de ser uma fase importante do processo – e sim o que está por trás deste projeto todo e qual o objetivo a se atingir. Normalmente ao se pensar uma marca de país se cria algo apenas para a promoção do setor turístico de determinada região. Os outros setores ficam só, perdidos num mar sem identidade.
A grande vedete deste ano é o novo projeto de marca para o Peru, nosso vizinho sulamericano. O Peru já tinha uma marca usada para o setor turístico, grande fonte de renda para o país, mas percebeu que com uma marca que transmitisse valores antigos e para um setor simplesmente não era mais viável, afinal a identidade de um país é de seu conjunto e não apenas para um determinado segmento. A FutureBrand de londres foi a responsável pela tarefa. Com a nova marca da Austrália e do arquipélago de Santa Lúcia no currículo e além de serem os responsáveis por um dos principais índices de classificação dos esforços de branding de países, mostraram neste novo projeto que de fato estão entendendo com profundidade como lidar com algo tão extenso e complicado quanto uma identidade nacional.
A marca Peru veio acompanhada de claros objetivos e com quem quer falar. Ao invés da grande maioria focar sua comunicação para a promoção do turismo, o Peru quer também atrair investimentos internacionais e usar como ferramenta principal de promoção dos seus produtos no exterior. Ou seja, a ideia é que a marca seja onipresente em tudo o que for relativo ao país, desde ações promocionais no Facebook até a fita para embalar seus produtos regionais. Até então, apenas a Suíça conseguiu colocar sua marca nacional no imaginário mundial. Se o Peru vai conseguir, é uma questão de tempo. Mas o primeiro passo foi dado da forma mais correta possível.
Para dar suporte ao lançamento da nova marca, o governo lançou o Marca Peru, um site onde todas as questões que envolvem a criação, o desenvolvimento, as pesquisas e os objetivos são detalhados de forma extremamente clara e envolvente. É um belo exemplo de organização e até de respeito com a sociedade peruana como um todo, a grande financiadora do projeto.
Abaixo, algumas imagens e o vídeo promocional da Marca Peru.
MEIN BERLIN
Texto e Imagens: Patricia Galves Derolle*
Viajar para Berlim era um sonho. Ansiava mais minha viagem para lá do que para Roma. Não sei por que dentro de mim tenho esta vontade de descobrir os mistérios da Alemanha, mas tenho. E é muito difícil escrever sobre esta cidade, pois gostaria que este texto mostrasse com humildes palavras a sensação de estar em uma grande metrópole que foi e continua sendo importante para o mundo. Enfim, como gosto muito de um desafio, vou tentar expor aqui as minhas impressões do lugar. Aproveitem a leitura.
Berlim é mesmo tudo o que eu imaginava: uma cidade com muitas cicatrizes do passado e um ar futurístico que só ela mesma poderia ter. Ainda se ouve por lá as expressões “Berlim Oriental” e “Berlim Ocidental”, marcas deixadas por um infeliz muro construído e que nunca serão apagadas da história. Aliás, que eles preferem que não sejam mesmo apagadas, pois para eles o passado deve ser sempre lembrado a fim de que não se repita jamais os mesmos erros no futuro: nie mehr, ou nunca mais, também são palavras bem presentes no vocabulário. Admiro a mentalidade bastante distinta deste povo que encara com maturidade os problemas, possui uma vontade imensa de superar seus próprios limites e é de uma precisão invejável. Quando digo precisão, quero dizer pontualidade e organização. São claramente estereótipos, mas que decerto definem bem o alemão.
Não tem como escrever um texto sobre Berlim e não falar da história que correu pelas veias de concreto da cidade. E ela percorre com mais intensidade em todos os prédios antigos, como o Charlottenburg Schloss, o complexo de museus – Museuminsel – e o Bundestag. Enquanto os primeiros traduzem a arquitetura mais fina e admirada da época, o último foi o símbolo da queda de Hitler, invadido e tomado pelos russos, os quais picharam todo o interior do prédio com nomes, datas e frases de liberdade. Estas marcas demonstradas pela arquitetura ou as feridas nas paredes te transportam para um passado paradoxal, no qual em uns prédios pode-se admirar toda a ascensão alemã, a literatura de Goethe e as músicas de Bach e em outros o triste e sombrio episódio da Segunda Guerra Mundial.
O muro ainda existe. Está lá, claro que em uma proporção menor, às margens do rio Spree, em frente à Estação de trem principal. Hoje ele serve de tela para obras de arte em forma de grafite. Alguns gostam, outros não. Eu acho original: em Berlim tudo é atípico, e essa street art traz um tom de revolta dos cidadãos para com os acontecimentos históricos.
Em Berlim existem também arranha-céus, grandiosos, imponentes e modernos, bem ali na Potsdamer Platz. Lojas de departamento de todos os tipos, que oferecem algo diferente em cada andar, também são bastante presentes em todos os cantos da cidade. A KaDeWe (Kaufhaus des Westens) que é a maior e a mais famosa loja de departamento da Europa, foi construída em 1905, por Adolf Jandorf. E como tudo em Berlim sofreu na era Nacional Socialista, com a KaDeWe não foi diferente: em 1933 um grupo bancário exigiu a saída dos então donos judeus e os substituiu por pessoas da “raça ariana”; em 1943 a KaDewe foi parcialmente destruída devido à queda de um avião americano, mas, como tudo sempre acaba bem, em novembro de 1989, com a queda do muro, a loja bateu recorde em compras. Se Hitler soubesse…
A história da KaDeWe talvez represente a trajetória de muitos berlinenses, que sofreram nas mãos de um ditador, mas que no fim superaram todos os obstáculos. E é ótimo ver essa Berlim do futuro, recuperada, a Land der Ideen, que começou engatinhando com o estilo curioso do Bauhaus e atualmente lidera em tecnologia de ponta. E é em Berlim onde tudo começa, essa mesma Berlim que por um lado tem cicatrizes cravadas em seu DNA e por outro é magica e que engloba tudo o que uma cidade precisa: eficiência e modernidade, com muita e muita história.
Hier, schreibe ich ein kleinen Tribut für meinen lieblings Stadt in der Welt. Ich liebe Berlin.
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* Patricia é formada em Relações Internacionais pela Universidade Belas Artes de São Paulo. Trabalhou no Ministério das Relações Exteriores em São Paulo, no Consulado Brasileiro em Genebra, Suíça e na Missão Brasileira na ONU, também em Genebra. Atualmente é analista de tecnologia na União Internacional de Transportes Terrestres, na mesma cidade. Mora na Suíça desde 2009. Seu e-mail é patygd@terra.com.br.
Quando se fala de Nation Branding, Place Branding, Marketing Territorial ou qualquer outro neologismo para tentar organizar dentro de uma área do conhecimento um assunto tão complexo como a manutenção da imagem de uma região, sua reidentificação, seu posicionamento perante seus “concorrentes” e, consequentemente, seu desenvolvimento econômico e social como objetivo final, muito se erra ao imaginar que um esforço deste porte seja resolvido apenas pela comunicação pois, diriam os incautos, afinal de contas estamos falando de branding. Nation Branding ou o quer que seja.
Talvez este seja um dos motivos pelos quais grande pensadores e consultores da área estão – pouco a pouco – abandonando a palavra branding de seus vocabulários. Uma disciplina natimorta – diriam alguns – pois ela não dá conta da complexidade material e imaterial de um país ou de um lugar. Talvez o branding aplicado à países, estados, cidades, bairros, ruas, etc ainda não esteja morto como profetizam, mas já é consenso que é apenas a expressão final de algo muito maior, ou seja, um projeto de reidentificação, planejamento, gestão e governança onde o branding seja apenas a ponta final.
Aqui na América do Sul apenas o Chile tenha entendido um pouco mais profundamente o papel do branding em suas ações de posicionamento como um país inovador na região, principalmente após o projeto Start Up Chile onde vemos o branding apenas como construção da comunicação de um projeto de atração de talentos, empreendedores e investimentos com o claro objetivo do país se tornar o principal e mais relevante hub de inovação e tecnologia da América Latina.
A ideia é muito simples: em 2011 eles querem atrair cerca de 300 equipes com projetos inovadores para serem aplicados e desenvolvidos no Chile. Em contra partida, o governo chileno te dá 40 mil doláres para iniciar o projeto, um espaço de trabalho e um visto de 1 ano de trabalho. Em 2010, 25 projetos foram iniciados e já estão em desenvolvimento.
Ou seja, um esforço real e eficaz de Nation Branding não pode e nem deve se basear apenas no branding.
Abaixo, o vídeo de divulgação do projeto.
Dizem por aí que agora é a vez do Brasil.
Nunca antes na história desse país tanto se falou e se acreditou em nós. Pelo menos através de outros olhos, os dos estrangeiros. Apesar de abismos sociais dignos de um 8º mundo e absurdos saídos de uma ficção científica qualquer, o Brasil parece estar tentando botar a casa em ordem. E, de certa forma, isso está reverberando por outras bandas. Talvez seja pela estagnação européia ou pela crise interminável nos Estados Unidos, mas de fato o Brasil é o novo eldorado dos colonizadores 2.0. Um interesse sem precedentes por nós, meros sul-americanos sem pecados, parece dominar o chamado mundo sem fronteiras. Uma espécie de pulga atrás da orelha, se perguntando: afinal de contas, o que acontece lá embaixo da linha do equador?
Inevitavelmente o Mundial de Futebol de 2014 e as Olimpíadas de 2016, além de outros detalhes sem importância, são os grandes responsáveis pelo nosso protagonismo mundial, mas também sabemos que eventos esportivos, apesar de globais, sozinhos não são o suficientes para manter uma audiência por muito tempo. Precisa ter lastro, algo que mantenha uma certa relevância. Não sabemos ainda se nossa ribalta é efêmera, mas existe algo em nosso ar e em nossa água que começa a fazer sentido além-mar. A Wallpaper celebra a nossa cultura, nosso design e nossas cidades. A Monocle festeja nossa diplomacia. O Le Monde desvenda nossa história. A The Economist preveu nossa decolada e nosso protagonismo numa América Latina cada vez mais forte, apesar de algumas democracias frágeis. Enfim, todos falam e todos querem o Brasil. Mas o que querem todos? Um pedaço do bolo, claro. Não é novidade que o Brasil de 2011 realmente deu alguns passos em direção à algo maior, ao contrário do resto do planeta, exceto a China, obviamente. O indíce de confiança aumentou e o Brasil, apesar de tudo, se apresenta como um país um pouco mais sério. E seriedade – mesmo na mais profunda alegria - é o mínimo que se espera de qualquer região que pretende construir uma imagem de relevância.
Me lembro de uma palestra onde alguém disse que o Brasil sempre foi conhecido como o país dos 3 S’s: Samba, Sex, Soccer. Desnecessária a tradução. Dizem que a diretriz do Governo Federal para o Ministério das Relações Exteriores e para a APEX – orgãos responsáveis pela promoção da imagem nacional no exterior -, para a construção de nossa nova imagem é à partir do anagrama TOTAL: Tecnologia, Organização, Trabalho, Autenticidade e Lei. Dizem também que ordem não combina com progresso. Mas, num momento raro de ufanismo e otimismo, quem sabe realmente não chegaremos lá? Nos resta saber a nós, brasileiros, onde é lá.
Bom, alguém acredita que já estamos lá. Os pragmáticos ingleses do Financial Times chegaram primeiro e já estão contando para todos os lados que agora o lugar é aqui. Nada de China, Índia e Rússia, RIC’s que sem o nosso B não tem sonoridade nem bossa alguma. Com módicos £4,000 (libras!) anuais você, investidor internacional, pode saber tudo o que a baiana tem e aprender o caminho das pedras para faturar alguns milhões por aqui. Lançado em janeiro de 2011, Brazil Confidential é o novo serviço da Financial Times que consiste em uma asisnatura anual (aquelas libras na linha anterior) para ter informações privilegiadas, análises e insights sobre – segunda a publicação – o mais excitante mercado emergente do mundo.
Já em dezembro de 2010, nossos irmãos da América do Norte começaram a se incomodar com o nosso braulho. O celebrado 60 Minutes da CBS dedicou alguns bons minutos de sua programação à tentar descobrir se somos um país sério pois, afinal de contas – segundo eles – tivemos o político mais popular do mundo e estamos vertiginosamente em direção a ser a 5ª maior potência econômica mundial. E para não ficar no achismo, Eike Batista, Eduardo Bueno – o historiador – e Lula foram os escolhidos para contar essa pequena história de uma revolução econômica e social em curso, que levará o Brasil à outros níveis.
Mais uma vez somos a cereja do bolo. Uma horda estrangeira está chegando, buscando insacialvelmente um pedaço do nosso quitute econômico. Cabe a nós divdir esse bolo antes da chegada e, quem sabe, deixar a cereja para eles.
A hora de pensar, construir e fazer um país sério é agora. Um país sério, mas sem esquecer o carnaval, o futebol e o samba afinal, Deus é brasileiro.
Abaixo o vídeo do 60 Minutes sobre a epopéia brasileira.
Vilém Flusser, linguísta e filósofo da comunicação e do design, afirmou no seu ‘Língua e Realidade’ (1963) que conhecer várias línguas é transitar por vários mundos e, consequentemente, por realidades distintas. Ou seja, para conhecer e viver pronfudamente uma nova cultura e entender os hábitos de uma outra sociedade, nada mais óbvio do que falar sua língua, um dos grandes pilares da formação da identidade de um povo.
Quando Flusser escreveu sobre transitar por diversas realidades ao falar várias línguas, estava claro que ele estava pensando sobre como o aprender uma nova língua é viver em sua essência uma outra cultura. E, como já é mais do que sabido, a melhor forma de apredender a língua local é viver a cultura local, coisas tão indissociáveis quanto fundamentais.
Muito mais que um simples comercial para uma escola de línguas, os vídeos abaixos traduzem de forma extremamente bela e contemporânea essa sutíl relação entre língua e cultura.
Por volta de 2002, numa internet onde as redes sociais engatinhavam e as informações tinham que ser de fato garimpadas, caí meio que por acaso no site da fotógrafa ucrâniana Elena Filatova, que tinha com hobbie viajar de moto, sozinha, por áreas abandonadas e esquecidas de seu país, fotografando o que via e publicando em seu site. Um desses lugares foi Pripyat, uma pequena cidade construída em 1970 ao largo da usina de Chernobyl. Na época em que a cidade foi retratada pela fotógrafa, Pripyat era um lugar esquecido e abandonado, devido ao enorme índice de radiação existente na região, localizada dentro de uma área chamada zona de alienação pelo governo ucraniano. Ou seja, uma cidade fantasma.
Ao ver as fotos de Elena, fui absorvido por uma sensação estranha, uma mistura de curiosidade e tristeza por aquelas imagens silenciosas e repletas de significados contraditórios.
A União Soviética sempre me cativou de alguma forma. Muito menos pelo seu sistema político e ideológico mas sim pela sua estética, a concepção e construção de suas imagens e, principalmente, pelo seu lado humano não divulgado, quase que desconhecido mas bastante imaginado. Aquela intransponível barreira cultural, as especulações feitas pelos ocidentais e, principalmente, pelo seu legado histórico fez de mim um grande observador daquela região. Os erros cometidos durante sua existência como uma república socialista tinha um certo charme mambembe, apesar de nunca ignorar suas consequências políticas, humanas e sociais. Mas era inevitável o fascínio que todo aquele projeto de nação, de sociedade e, por que não, de uma nova ordem mundial que era emanada, mesmo dentro de uma distopia e sempre com a consciência de sua vulnerabilidade, de sua falibilidade como algo factível.
Mas imagens de Elena eram diferentes. Apesar de uma sombria beleza, revelou, 16 anos depois, o fracasso de uma utopia, do tal projeto de uma nova sociedade baseada num sistema natimorto e mequetrefe que era o comunismo ou, para ser um pouco mais exato, o tal do socialismo real. Até então, niguém tinha ido à aquela região, onde as radiações ainda são extremamente maléficas a qualquer ser vivo e teve seu solo e água condenados por mais de 2500 anos.
Durante seus 16 anos de existência, Pripyat foi a menina dos olhos do sistema soviético. Construída no meio do nada para servir de moradia para os funcionários da usina e de lazer e educação para seus filhos e familiares, a pequena cidade era o modelo a ser seguido e aplicado em todas as cidades socialistas até então. Era a perfeitra aplicação da doutrina urbanística comunista: moradia, saúde, trabalho, educação e lazer igualitária, uma cidade pensada para as pessoas, com amplos parques, áreas de lazer, escolas. Ruas largas, extremamente floridas e grandes edifícios de moradia coletiva foram construídos. Era o oposto daquela imagem das cidades cinzentas, escuras e frias que se tinha na época. Muitos soviéticos aspiravam morar em Pripyat. Era o degrau máximo daquela sociedade, que deveria ser expandida para todas as cidades que faziam parte do bloco.
Mas em 1986 tudo isso mudou. Localizada apenas à 25km de Chenobyl, a cidade foi a primeira a ser afetada após a explosão de um dos reatores da usina. Como todo o acidente foi encoberto pelo governo soviético, a população de Pripyat só foi evacuada da área de risco dois dias depois da catástrofe. Mas o estrago já estava feito. Quase toda a população de cerca de 50.000 pessoas foi afetada de alguma forma pela radiação. As que sobreviveram foram obrigadas a abandonar todos seus pertences e suas vidas. Foram embora apenas com a roupa do corpo. As imagens de Elena mostram esse exato momento, como se aquele lugar tivesse sido congelado pelo tempo: a mesa de café posta, as bonecas abandonadas nas casas, os livros escolares abertos nas salas de aula, etc.
Hoje Pripyat virou um improvável mas concorrido roteiro turístico. Vários pacotes – incentivados pelo governo da Ucrânia – permitem passar horas e até dias na região, visitar os edifícios tomados pela insistente vegetação e tentar ouvir o ensurdecedor silêncio que deve reinar por aquelas bandas. Um repórter da Revista Trip fez um relato interessante de um desses roteiros.
Ao ver pela primeira vez as imagens de Pripyat, um filme imaginário me veio à cabeça: como eram e como viviam essas pessoas? Qual eram suas rotinas? O que faziam antes do acidente e como se comportaram ao saber que teriam que abandonar tudo, sem saber porque e para onde?
O filme ficou só na vontade, mas o silêncio das imagens de Elena provocou um exercício de pensar qual seria a trilha sonora desse filme imaginário. Vasculhando os bits do passado, me lembrei que de fato tinha feito essa trilha. Abaixo disponibilizei a trilha completa – cerca de 1h10m - e a respectiva ordem das músicas.
As músicas foram organizadas em uma ordem imaginária dos acontecimentos: a inauguração da cidade e a euforia da promessa de uma organização social moderna e vibrante; a vida cotidiana de seus moradores, o passeio no parque, a saída para o trabalho, a ída para a escola, as festas e os bailes nos bares e clubes; o acidente, a sensação de algo estranho acontecendo, a desinformação geral e a angústia pelo destino desconhecido; o caos geral, a evacuação silenciosa e a vida deixada para trás e, por fim, o abandono, a geração quase espontânea de uma cidade-fantasma aos 16 anos, os pertences pessoais à espera de seus donos e a natureza fazendo seu papel de, aos poucos, eliminar um sonho constrúido mas fadado ao fracasso.
Enfim, um livre exercício de imaginar como seria a trilha sonora de um dos momentos mais controversos da história da humanidade.
Abaixo, uma seleção das imagens de Elena Filatova que inspiraram essa seleção musical. Recomendo ver as imagens enquanto se escuta a trilha para tentar “sonorizar” os ambientes retratados.
As fotos que estão publicadas nesse post foram escolhidas mais pelo impacto inicial que tive ao vê-las em 2002 e pelo seu ineditismo como registro fotográfico do que pela qualidade técnica ou artística. Para ver fotos atuais e de melhor qualidade da cidade de Pripyat e da Usina de Chernobyl, clique aqui.
[Audio clip: view full post to listen]
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Playlist:
01. Dimitri Shostakovich / Chamber Symphony for Strings, OP. 110A – Allegro Molto (Attacca)
02. Threnody Ensemble / Tharoman (Former Valerie White) Part II
03. The Cinematic Orchestra / All That You Give
04. Henry Cowell / II High Color
05. Maurice Pavel / Gaspard de la Nuit (Le Gibet)
06. Dimitri Shostakovich / Chamber Symphony for Strings, OP 110A – Largo
07. Harold Budd with Zeitgeist / Pantomime
08. Karlheinz Stockhausen / 53 20
09. Nathaniel Merriweather / Strokers Ace
10. Harold Budd with Zeitgeist / Breathless
11. Henry Cowell / Hero Sun
12. Morton Feldman / Only
13. Harold Budd / The Room (Fila Brazilla Mix)
14. Karlheinz Stockhausen / 29 53
15. Henry Cowell / Exulation
16. Morton Feldman / Voice, Violin, Piano
17. John Cage / In the Name of the Holocaust
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Foto: Vivo (Ben)
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As fotos publicadas nesse post são de autoria de Elena Filatova, exceto às imagens de arquivo e as devidamente creditadas aos seus autores.
No início dessa semana o presidente Lula (há menos de 20 dias do final do seu mandato) reconheceu publicamente a Palestina como Estado independente e com as fronteiras de 1967, antes da antes da Guerra dos Seis Dias. Ou seja, com uma quantidade de território consideralvemente maior do que a dos dias de hoje, que se resume basicamente a Faixa de Gaza e a região da Cisjordânia. À partir desse reconhecimento brasileiro, qual é de fato será seu efeito na comunidade internancional? Bem pouco, provavelmente. O Brasil acredita que o reconhecimento ajudará no processo de paz com Israel, mas é bem possível que nada mude com essa declaração brasileira. Os mais polêmicos e conspiradores vão achar que é mais uma ação anti-americana e esquerdista do governo Lula, que apoia governos ditatoriais, corruptos e terroristas, etc, etc. Os otimistas vão dizer que é uma tentativa de ajudar num processo tão complicado quanto uma briga de família. E os pragmáticos vão afirmar que é mais uma jogada da diplomacia brasileira em busca de relevância no circuito político internacional. Mas não é isso o que nos interessa nesse momento. Deixemos essa questão para analistas internacionais e afins. O que nos interessa aqui é o aspecto cultural dessa história toda.
Afinal, quem são os Palestinos? Sabemos que são árabes, mas como é o dia-a-dia em suas cidades sitiadas e praticamente esquecidas do mundo ocidental dito civilizado? O que comem, o que escutam, o que leem, o que conversam, o que falam, o que pensam?
Foram essas mesmas perguntas que motivaram o designer holandês Annelys de Vet a investigar um pouco mais à fundo o tema para criar o Subjective Atlas of Palestine, um compêndio – teoricamente – desprovido de julgamentos ideológicos, históricos e etnocentristas. A ideia foi basicamente compilar a rotina dessas pessoas através dos seus hábitos alimentares, culturais, informativos, ou seja, cotidianos. O resultado é um belo livro, riquíssimo em imagens e informações que podemos identificar – independente de questões políticas e religiosas – a essência desse povo que sempre nós é apresentado nos extremos: ou o maior vilão ou a grande vítima.
Se Annelys conseguiu ser isento na sua pesquisa, eu tenho minhas dúvidas, mas isso não desmerece em hipótese alguma o rico e completo retrato de uma sociedade milenar em situações extremamente corriqueiras.
O livro está disponível para download no site do projeto. Vale a pena também ver os outros atlas do designer: o da Sérvia e da Holanda.
APENAS UM OLÁ
Texto e Imagens: Gabriel Prehn Britto*
“Sa-ba-dii”.
Foi ao pronunciar pela primeira vez o cumprimento local que percebi que Luang Prabang, no Laos, era um lugar especial: eu estava diante de um guarda de fronteira sorridente, no aeroporto da cidade, e ele estava me ensinado a dizer “olá” na sua língua.
Não sei você, mas eu nunca havia visto um guarda de fronteira sorridente.
Luang Prabang, é uma das cidades mais bem preservadas do Sudeste Asiático. É cortada pelo Rio Mekong, foi a capital real do país e hoje tem 26 mil habitantes e dezenas de templos budistas com monges que fazem um passeio matinal über-fotografado pelos turistas.
Porém analisando friamente, nenhuma atração turística de lá é imperdível. Não há um templo fantástico. O antigo palácio real é bonito, mas parece uma casa de fazenda com telhado diferente. A própria rua principal, com suas construções preservadas que deram à cidade o título de Patrimônio Cultural da Unesco, não é nada que encha os olhos. O artesanato não é melhor ou pior do que você encontra em outros lugares e a gastronomia perde para a cambojana.
No entanto, Luang Prabang é imperdível. E o maior responsável por isso é justamente o “sabadii” que seus habitantes repetem para você em todos os lugares, sempre acompanhado de um largo sorriso.
O clima budista, as ruas tranquilas, os morros e montanhas verdes ao redor, as árvores por todos os cantos, o misticismo do Mekong, os monges, os templos (dezenas deles), as casas baixas, as pessoas simples, as comemorações do ano-novo laosiano (com guerra de água nas ruas), o café gelado para aliviar o calor, o dormir e levantar cedo, as crianças brincando, o outro lado do Mekong. Tudo isso ajuda o turista a se encantar por Luang Prabang. Mas sem o “sabadii”, não seria a mesma coisa.
O “sabadii” toca fundo. Faz sentir vontade de abraçar, de rir. De raspar a cabeça, colocar um robe cor de laranja e virar monge. De ajoelhar diante de uma imagem de Buda (mesmo sem saber se é permitido). Faz acordar cedo em plenas férias para ver as cenas lindas da Coleta de Almas. Esfria o calor laosiano. Transforma café preto gelado em uma bebida inesquecível. Nos faz subir um morro enorme, num calor de 45 graus, para ver a paisagem lá de cima. Faz ter vontade de trocar a passagem e ficar mais uns dias na cidade. Faz você se sentir um morador, em casa. Faz você ter vontade largar tudo e realmente virar um morador no Laos.
O “sabadii” deveria ser tombado como patrimônio da humanidade. Junto com Luang Prabang, ele é mais lindo do que qualquer maravilha do mundo.
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* Gabriel Prehn Britto é publicitário metido com internet, blogueiro, viajante (menos do que gostaria) e viciado em iPhone. Autor, dono e culpado pelo site/blog O Que Eu Fiz Nas Férias. Sonha em ser rico e poder colocar um mapa-múndi na parede para atirar dardos e viajar para onde eles caírem. Seu e-mail é gabebritto@hotmail.com
A ANGOLA BRASILEIRA
Texto e Imagens: Gustavo Santos*
Salvador não é bem um lugar tão diferente assim. Na verdade é destino quase certo à turistas estrangeiros que querem conhecer – in loco - todo o calor e a alma do brasileiro e, de certa forma, o berço do Brasil como nação. Mas, para mim, Salvador sempre foi tão distante quanto o Tajiquistão, apesar de nutrir uma curiosidade antropológica e obssessiva por praticamente todas as regiões e culturas do mundo. Mas, de fato, sonhava mais em visitar o tal Tajiquistão ou qualquer outro país com o sulfixo ão em conflito permanente da Ásia Central do que passar uma temporada em Salvador. Talvez se fosse eu algum cidadão dessas terras longínquas, teria de fato algum interesse por Salvador. Mas, sendo brasileiro, esse interesse fica difícil.
Salvador sempre representou, pelo menos pela sua cultura mainstream, o oposto de tudo que acreditava. Mas, por questões profissionais, fui obrigado a ir em pleno carnaval de 2009. O resultado é que, muito por culpa de certas, óbvias e inevitáveis belezas naturais e particularidades locais, Salvador se mostrou um pouco mais interessante do que imaginava, mas mesmo assim, não conseguiu mudar muito minha percepção.
Mas vamos ao relato.
Salvador! Terra de todos os Santos. África brasileira. Essa foi a primeira impressão que tive ao chegar à capital baiana. Não conheço Angola muito menos sua capital Luanda, mas no meu imaginário acredito que seja algo bem próximo disso, em todos os sentidos: desde sua cultura e suas belezas até suas mazelas. Infelizmente Salvador não é uma cidade deslumbrante quanto imaginava. Ou o que me faziam imaginar, apesar do meu inseparável senso comum sempre lutar contra.
Tenho como referência de cidades litorâneas Rio de Janeiro, Lisboa, Barcelona, etc. Sempre imaginei Salvador algo como uma Rio de Janeiro envelhecida ou talvez uma Lisboa – mais pobre, claro – pela sua tradição colonial, seus morros e elevadores. Mas não. O que vi foi uma Salvador mal cuidada, quase abandonada e despreparada para receber uma quantidade colossal de turistas, sua principal fonte de renda. A Salvador que vi era feia, que não preserva sua história arquitetônica e que praticamente se vende para grandes empresas que, ao invés de investirem na conservação e melhoria urbana, patrocinam de forma estupidamente efêmera e predadora postes e orelhões em formatos de côcos, atabaques e bambus.
Como fui à trabalho e sabia que iria ficar preso cerca de 20 horas por dia no mesmo lugar, usei o escasso tempo que tinha para tentar conhecer o mínimo da cidade e tentar tirar essa imagem estranha que tive ao chegar. Então, nada mais natural que ir conhecer o centro velho e suas peculiaridades. Num enebriante calor de quase 45 graus, me aventurei pelas estreitas avenidas da cidade em busca de um taxi. Encontrei um de um senhor simpático e falastrão, devoto de todos os santos e orixás possíveis, que, ironicamente, me levou direto ao inferno dos turistas que é o tal do centro velho.
Assustado mas curioso, fui arrastado pela multidão em silêncio na hora do rush até o Elevador Lacerda, que é o caminho mais “fácil” para o Pelourinho. Por módicos 0,05 centavos de real você gasta 30 segundos em um elevador apertado e sem luz que parece a Estação da Sé em horário de pico e com blecaute. Ao chegar na entrada do tal do Pelouro, você é atacado por hordas e hordas de vendedores que te oferecem como brindes colares de côco e pulserinhas do Senhor do Bonfim para que, numa tentativa frustrada, você não consiga dizer não aos 40 reais que vão lhe pedir em troca de colares ditos de prata com imagens da região. Impossível dizer não. Mesmo que o não é tudo o que você mais queira dizer.
Uma curiosidade: há vários códigos locais entre os vendedores: num momento ímpar de benevolência, te avisam que se você usar a tal da pulseira do Senhor do Bonfim, nenhum outro vendedor vai pular em cima de você. É uma espécie de pulseira VIP do mercado informal, que quando você a mostra para os outros vendedores que correm para te abordar, automaticamente desistem de você ao ver seu braço com uma pulseira fucsia. Funciona bem. Devem pensar que o primeiro já lhe vendeu todo o estoque de berimbaus de marcassita do ano, e que você não é mais útil. Outro momento de extrema gentileza entre nossos amigos é que todos, sem excessão, lhe dão recomedações dizendo que é melhor não seguir por este ou aquele caminho. Impossível se sentir a vontade em uma cidade em que você é literalmente marcado através das acesas pulseirinhas do nosso Senhor do Bonfim e recomendado a não andar por esta ou aquela rua.
Já o Pelouro é, como toda cidade vista até então, muito menos que eu imaginava. Várias casinhas de um colorido triste, com igrejas em quase ruínas, com vários, vários, muitos e milhares vendedores de correntinhas de prata e afoxés em geral. Esse foi o momento que mais tive medo em minha aventura, pois quase fui “convencido” a fazer um tererê em meus poucos cabelos. O Pelourinho em si, que nada mais é um tronco onde os negros eram espancados e chicoteados, está lá. Intacto. Muito mais bem preservado do que todas as 365 igrejas da cidade (sendo que eu só vi umas 15), todas fechadas pois, afinal de contas, é carnaval. Meio que não combina.
Logo fui ao Mercado Modelo. Achei que fosse um mercado de iguarias da culinária local. Nada. Ratoeira para turista. E das fortes. Uma mega feira hippie de artesanatos duvidosos. Nada realmente novo (ou antigo), interessante e relevante. Nada da cultura local, apenas lojas de chapéus Panamás feitos no sertão da Bahia e mais afoxés. Procurei lojas de umbanda e orixás mas nem isso encontrei. Apenas algumas imagens estranhas. Acho que turistas não gostam desse sincretismo regional. Talvez esta parte não revelada seja a mais interessante de Salvador. Talvez essa Salvador esteja escondida, preservada do turistas comum, o que de fato é uma pena.
Isso tudo foi sentido e visto em menos de 4 horas, ou seja, frequentei a superfície. Talvez Salvador seja mais que isso. Talvez não. Talvez não conheça mais que isso, afinal estava lá pelo carnaval, mas não como um folião, e sim à trabalho.
Mas foi a Salvador que vi no Carnaval que de fato me impressionou. Aquilo sim era algo que não imaginava. E meio que explicava e perdoava tudo. Para aquele formigueiro de pessoas que estavam lá pura e exclusivamente por esse evento, Salvador poderia ser como fosse, nada importava. Aqueles 7 dias eram sentidos como se fossem os últimos de suas vidas, então tudo era ao extremo: a quantidade de gente, o volume da música, os litros de bebidas, o paganismo desenfreado, o nilismo involuntário. Nada mais era importante na vida. Somente aquele momento. Mas não para mim. Mas de fato, para quem se delicia com esse universo, o carnaval é uma espécie de rendenção, uma absolvição e um desapego do bem e do mal, que parece (e deve) ser a melhor coisa do mundo. Definitivamente não era para mim. Aquilo me assustava. Mas era interessante de se ver. Até o segundo dia, apenas. O que era uma experiência absurdamente interessante de se observar, começa a te incomodar porque, além da infinita e contante música em decibéis estratosféricos, a cidade simplesmente não funciona. Ao ponto de ser impossível de sair do Hotel ou de qualquer lugar que esteja à partir das 15hs.
Depois de uma homérica busca, finalmente consegui um taxi que estivesse disposto a me levar ao aeroporto em plena sexta-feira de carnaval, mas sem antes ser questionado e julgado impiedosamente pelo nobre motorista por cometer o crime de sair da cidade numa sexta-feira de carnaval, além de ser coagido de todas formas possíveis e imagináveis a ficar e aproveitar o melhor momento da cidade, devo admitir que uma leve tristeza caiu sobre mim, tentando entender o porque do meu pouco entusiasmo em ficar na cidade, já que algumas dezenas de milhares de pessoas se planejaram o ano inteiro para estar exatamente no local do qual estava saindo, quase que fugido. Senti que essa minha leve tristeza também ficaria na cidade pós-carnaval, onde tudo tentaria voltar ao normal após a exarcebação de um hedonismo sem precedentes. Uma certa nostalgia de uma Salvador que não vivi, mas que foi tão registrada em músicas, literatura, cinema, fotografias e gravadas no meu imaginário, me fez ser um pouco mais compreensivo e resiliente com essa cidade de extremos, que apesar de uma alegria berrante, tem uma tristeza inerente a cada rua e casa mal conservada.
Salvador fixou na minha memória tal como uma Ouro Preto descuidada, uma Lisboa africana no Brasil. Mas algo meio indescritível ficou impregnado. Uma imagem forte – não boa nem ruim – apenas forte. Tal como a passagem de um texto do abolicionista pernambucano Joaquim Nabuco, que aqui cito em um contexto completamente diferente do original, mas que tem uma poética e uma clareza que consegue descrever aquilo que não consegui entender: “… ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte.”(1)
Não sei se vou conhecer algum dia outra Salvador, mas por enquanto, esta é a que ficou.
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NOTAS
(1) A citação faz parte do texto “Noites do Norte” onde Joaquim Nabuco (1849-1910), em uma assustadora contemporaneidade, atesta o inevitável destino da sociedade brasileira à escravidão: Abaixo, o trecho na íntegra:
“A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte… É ela o suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do norte.”
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* Gustavo Santos é designer com formação e especialização em Relações Internacionais pela Universidade Belas Artes de São Paulo. Desenvolve projetos de comunicação e design há 18 anos e teve seus trabalhos publicados e exibidos em festivais e mostras no Brasil, Colômbia, Estados Unidos, França, Holanda e Rússia. É editor e curador da TimeSheet Magazine, revista eletrônica voltada para a discussão e a produção de arte e design contemporâneos e deste site, isotipo.labs, centro de discussão e pesquisa sobre Nation e Place Branding, além de questões de identidade cultural e imagem nacional. E-mail: gustavo@isotipo.com.br
Em setembro de 2010 fui convidado a ministrar uma palestra para os alunos do último período do lendário curso de design gráfico na Universidade Estadual de Minas Gerais a convite do professor Cláudio Santos. Essa palestra fez parte de uma série de conversas entre profissionais do mercado com os alunos da disciplina de Design e Novas Mídias, onde o foco era mais trocar experiências distintas da prática do design do que mostrar novas teorias ou algo do tipo. Como a minha trajetória de designer era, de certa forma, errática do ponto de vista tradicional, a conversa seria interessante pois poderia apresentar aos alunos, através da minha história, as enormes possibilidades que o design oferece além do clássico destino da disciplina de dar forma à função.
Foram quase 6 horas de conversa, dividida entre dois turnos, onde apresentei desde da minha iniciação como um “designer informal”, até questionamentos que venho feito a tempos a partir da ideia da commoditização do deisgn, onde o uso de ferramentas e softwares parecem ser mais importantes para uma grande maioria dos novos designers do que simplesmente o parar e pensar qual o objetivo, o desígnio da profissão.
Durante muito tempo venho questionando o design puro e simples, subjulgado como uma disciplina secundária, engolida e canibalizada pelas grandes agências de comunicação que a utiliza mais como uma ferramenta de replicação de campanhas publicitárias do que objeto fundamental na construção e consolidação de uma ideia, e até dos próprios designers, que devido a um fordismo sem precedentes do mercado, acabam sendo obrigados a se especializarem em softwares de 3D ou de edição de imagens, abandonando assim sua função primária de pensador e criador de algo resistente ao tempo e relevante para as marcas ou até mesmo para a sociedade como um todo. Claro que existem vários estúdios de design – aqui mesmo no Brasil – onde essa antropofagia desproporcional não é utilizada, mas mesmo assim um projeto de design puro e simples ainda tem seu valor pouco reconhecido, tanto financeiramente quanto como peça fundamental para a construção de qualquer projeto definitivo.
Com essas provocações iniciais, tentei apresentar meu início como um designer “informal” e de como sempre insisti em olhar e sentir a profissão por diversos outros meios, além dessa nova história que cada vez mais me aprofundo e me apaixono que é construção da imagem de países, cidades e lugares através de um design mais pensador e planejador do que apenas executor.
Abaixo disponibilizei o PDF do keynote apresentado para os alunos. Talvez ele sozinho não funcione para contar tudo aquilo que conversamos por lá, mas ilustra bem o que construí no meu imaginário como ‘designer’, desde a minha iniciação no exercício de observar – o que considero a ferramenta mais importante para quem quiser se atrever a submergir na profissão – através da música e seus fabulosos vinis, à inevitável influência do lugar de onde você nasceu na construção do seu imaginário visual e filosófico, contando um pouco a minha passagem pelas “grandes” agências de propaganda onde a promessa de trabalhar com design se transformou em uma produção em massa acéfala, não esquecendo as rupturas e pausas compulsórias (e necessárias) da vida, a alguns exemplos de trabalhos executados durante esse período até a descoberta de novas possibilidades e a reinvenção da profissão através de novos conceitos e formatos de trabalho, conciliando – principalmente – pensamento e estratégia com pessoas de disciplinas distintas para construir projetos cada vez mais concisos e resistente ao implacável tempo.
É bom deixar claro que boa parte das peças mostradas nessa apresentação cumprem o simples papel de ilustrar um argumento ou discurso pertinente ao assunto em questão do que colocá-los como de minha autoria. Muitos desses trabalhos apresentados foram feitos em equipes da qual fiz parte e, alguns, sequer teve alguma participação minha, mas de uma forma ou outra estive envolvido.
Muitos desses trabalhos os apresento mais por representar tudo aquilo que NÃO acredito como um trabalho de design do que como uma referência ou um portfólio de trabalho.
IMPRESSÕES DA ÁFRICA (1)
Texto e Imagens: Cláudio Santos*
Em maio de 2010, depois de 5 anos sem praticamente nos vermos ou falarmos, um antigo amigo me procura e pergunta como estava meu tempo. Exito em responder, pois há muito tempo venho tendo muito pouco tempo para cumprir todas as tarefas que eu mesmo e a própria vida me colocam. Esse telefonema acaba sendo motivo para um encontro. A conversa era sobre uma proposta de criar um espetáculo de música e imagem ao vivo, que falasse das cidades de Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, para um evento que aconteceria em Joanesburgo, na África do Sul, em plena copa do mundo de 2010. De início a ideia me pareceu irreal, distante e desconectada, pois teríamos aproxidamante 1 mês para desenvolver o espetáculo.
De qualquer forma, apresentamos uma proposta para a Belotur, mais com o espírito de reatar os laços de amizade e menos no fato de acreditar que isso se tornaria realidade. Passados 5 dias do envio da proposta, um SMS enviado pelo cliente confirma nossa participação no evento – Welcome on board…
O que antes parecia irreal, se confirma como realidade. Começamos a produzir a viagem junto ao desenvolvimento do espetáculo. O desafio era criar uma identidade gráfica e sonora, além de uma conexão e um fio condutor entre as 3 futuras cidades sede da copa do mundo de 2014 da região sudeste brasileira. A mim cabia criar e manipular ao vivo as imagens e animações que produziríamos exclusivamente para a performance.
Os preparativos e o imaginário
Era necessário também providenciar cartão de vacina, passagens e toda burocracia necessária para uma viagem internacional. Como a viagem aconteceu após o início da copa, tínhamos poucas opções de passagens e hospedagens. Era preciso também compatibilziar os compromissos pessoais, familiares e profissionais já assumidos anteriormente. Sob essa conjunção de fatores, acabei tendo que viajar sozinho. A única opção era ir de Belo Horizonte para Lisboa, Londres e Joanesburgo. Atravessar a linha do equador em direção ao hemisfério norte e volta ao hemisfério sul até um paralelo muito próximo ao da própria Belo Horizonte.
A viagem passa a ter ares exóticos e inusitados. Aceito a condição, imaginando que estes 2 dias de viagem seriam bons para uma reflexão pessoal e uma oportunidade de conhecer mais um aeroporto, no caso, Heatrow em Londres.
A produção do espetáculo começou a ganhar consistência a partir de um livro que havia lido há alguns anos atrás: ‘Pindorama Revisitada: Cultura e Sociedade em tempos de virada de Nicolau Sevcenko’ (2). A vaga lembrança do que tinha lido e registrado na memória, era a proposta do autor em representar a identidade brasileira através da criação de um museu de todos, onde cada cidadão levaria um objeto pessoal e o colocaria em pleno Jardim Botânico no Rio de Janeiro. Além disso, ainda me marcaram as ideias de colecionismo e da manifestação do exótico, por parte dos viajantes que vieram nos primórdios da colonização brasileira.
Nas noites mal dormidas e viradas durante a pré-podução do trabalho, recriei no meu imaginário uma África que assitia na Sessão da Tarde e a que via na série Daktari, com Land Rovers e caçadores de roupa safari na cor càqui. Me vinha na memória também os filmes de tribos africanas que faziam rituais estranhos e que sempre traziam uma atmosfera de medo e perigo. Ao mesmo tempo os notíciarios atuais mostravam um empresário brasileiro sequestrado ao pisar no aeroporto e os correspondentes esportivos da rádio CBN, falavam de uma África caótica e ao mesmo tempo desenvolvida sob a ótica do progresso em função das lojas e shoppings disponíveis para os passeios e compras.
Primeiras impressões e a chegada em Joanesburgo
Foi com essa imagem mental que embarquei sozinho rumo ao desconhecido. Chegando em Lisboa tive a sensação de que os portugueses ainda guardam uma lembrança do Brasil como colônia. Os anúncios das revistas de bordo da TAP vendem nossas atrações turísticas como se fossem deles. Já em Londres, o aeroporto é um shopping de produtos africanos e souvenirs da copa, reforçando também a ideia de uma forte ligação de poder entre os 2 países. Chegando em Joanesburgo, o aeroporto já trazia estampada a identidade visual da copa. A Coca- Cola nos recebia com tapetes vermelhos e com os gráficos de sua campanha mundial. Nelson Mandela era um forte ícone, presente em várias imagens alusivas ao evento. O hall central do aeroporto era ponto de encontro de pessoas do mundo inteiro misturadas com taxistas que disputavam em seu dialeto, cada pessoa que chegava.
Fiquei por mais de 1 hora esperando os colegas me buscarem no carro que alugamos. O volante do lado direito reforçava a forte influência inglesa no cotidiano dos africanos. Era muito interessante ver vários campos de golf e rugby compondo a paisagem até chegar no apartamento que alugamos. Por falta de opções de hospedagem próximas ao local do evento, nosso produtor descobriu que era muito comum alugar apartamentos mobiliados. Mesmo um pouco desconfiados conseguimos um apartamento maravilhoso, com vista para um campo de golf, a 15 minutos do centro de convenções. Fomos recebidos por um jovem Sul Africano que nos ofertou 7 garrafas de bons vinhos locais. Essa foi a primeira conexão com a gentileza e receptividade deles. Ali montamos nossa base de produção e foi onde ficamos por 3 dias imersos na finalização do espetáculo.
Nos momentos que saíamos para comer e andar no comércio local deu para perceber uma cidade cheia de carros e de poluição. Era também ao andar pelas grandes auto-pistas que ligam distritos e regiões que percebíamos como a cidade se caracterizou para o evento. Bandeiras do mundo todo e banners com a logo da copa estava sempre presentes.
Dos Shoppings a Soweto
Foi por nossas incursões aos shoppings em Sandton City, que percebi o poder das grandes marcas num evento deste porte. Em praticamente todos lugares a Sony estava presente anunciado um futuro em 3D. De pequenos stands, passando por vitrines de lojas, culminando no coração da cidade – Mandela Square – com o Sony Experience. Um domo que exibia imagens desta copa já gravado em 3D, tudo comandado por um programa de auditório ao vivo, com transmissão também em 3D. Além de uma grande sala de exibição onde assístiamos o futuro das imagens esportivas com óculos, num grande display de LED.
Me interessava também aproximar mais da realidade do povo africano e do design vernacular. Resolvemos ir para Soweto, considerada uma das maiores favelas do mundo. No caminho me chamou atenção a relação deles com os cabelos, o que era demonstrado em várias pinturas na parede em frente aos diversos salões de beleza. Chegando próximo Casa de Nelson Mandela, era nítida também a semelhança com nossas periferias. Foi a primeira experiência de um contato mais direto com a história e com os Africanos. Assistimos Brasil e Portugal num tradicional buteco de Soweto.
A Casa Brasil e o Pindorama Remix (3)
Chegou o dia da apresentação na Casa Brasil. Levamos todos os equipamentos e instrumentos até o centro de convenções de Sandton City. Este prédio era o local e encontro de todos os países. O belo projeto expográfico e cenográfico, concebido por Gringo Cardia nos colocava sob uma grande responsabilidade em apresentar a noite do Sudeste. O espetáculo ocuparia um auditório para 300 pessoas. Além disso, o Brasil estava representado em vários ambientes, onde cada cidade sede tinha seu stand específico. A cultura e a indústria podiam ser vistas ao andarmos por dentro de grandes cubos. A tecnologia brasileira estava sendo apresentada através de 14 projetos patrocinados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia em um local específico. A diversidade brasileira era apreciada ao entramos em um túnel imersivo. O espaço de convívio era um grande bar temático, regado a Brahma e guaraná antarctica.
A equipe de montagem era toda local e muito profissional. Se comunicavam em seus dialetos. A apresentação consistia em 3 projeções simultâneas e manipuladas ao vivo, junto com a música. Aproximadamente 150 pessoas de vários lugares do mundo e muitos africanos estiveram presentes. Após o espetáculo ainda tínhamos a incubência de comandar uma festa com imagens e sons do Brasil. Deu tudo certo e nos divertimos noite adentro. Nos restava mais 2 dias na cidade e nossa ideia agora era a de cumprir o papel de turista.
Reserva Natural e Museu do Apartheid
No dia seguinte, após a missão cumprida e mesmo com todo cansaço, resolvemos nos aventurar em um safari improvisado. Descobrimos pelos mapas uma reserva natural próxima da cidade e partimos até lá. Depois de algumas horas, começamos um passeio ao ar livre. Andamos por uma paisagem seca, com tons do verde pastel, amarelo e marrom, que me trouxeram uma breve referência com a Serra do Cipó. A savana africana lembra o cerrado brasileiro e vice-versa. Vimos alguns grupos de bichos bem ao longe. O passeio foi renovador e agora faltava apenas saber mais sobre Nelson Mandela no Museu do Aparthaid. Seguimos até lá e vivenciei uma grande experiência.
O museu é enorme e logo no início nos é proporcionado o sentimento de separação. Entramos por caminhos diferentes e voltamos a nos encontrar num longo corredor que se afunila. No interior do museu temos acesso a história do povo africano e a todo processo da colonização e dominação inglesa, até o decreto e as leis que separavam os brancos dos negros. Na sequência tive contato com todo processo de luta liderado por Mandela, com imagens fortes das manifestações e agressões. Sai de lá imaginando que o processo de qualquer transformação depende do esforço de cada um de nós.
O retorno e o gueto africano em Lisboa
Por fim, retornei por Lisboa e acabei ficando mais 3 dias por lá. Fomos assistir mais um jogo do Brasil num bar de esquina que se chamava Maracanã. Após a vitória do Brasil, acabamos conhecendo 2 africanos que também estavam lá. Após algumas cervejas nos conectamos pelo fato deles já terem vindo uma vez ao Brasil, especificamente para um festival de Cinema em Cataguases, interior de Minas Gerais. Como participo da Fábrica do Futuro, que organiza o evento e tem sede lá, acabamos criando uma relação mais próxima e combinamos de nos encontrar para assistir o jogo de Portugal e Holanda num gueto africano frequentado por eles. No dia seguinte, no horário combinado, fomos até um universo paralelo em plena Lisboa. Uma galeria com pequenas lojas e salões de beleza, com pessoas de vários locais da África. Descemos para o sub-solo e num buteco saboreamos uma típica comida da República do Congo. Portugal perdeu o jogo e eu me despedi dessa viagem com a certeza de ter vivido uma grande aventura.
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NOTAS
(1) O título do artigo é inspirado no livro Impressões da África (1911), de Raymond Roussel, que teve grande importância na reformulação do caminho artístico de Marcel Duchamp. Conforme Rosalind Krauss, critica e historiadora de arte, o espaço literário de Impressões sobre a África é habitado por pessoas que mecanizaram a rotina de criação artística. O ponto importante é que, ao fim de seu processo de criação de obras alicerçado em mecânicas insólitas, estas máquinas terminam por produzir resultados “artísticos” inteiramente desligados do indivíduo que dá origem à arte, isto é, aquele que põe a máquina em funcionamento. Com isto, questiona-se a existência necessária de um vínculo entre o indivíduo criador e sua produção e a importância que, na civilização ocidental, possuia a marca de um ser na obra por ele produzida para que esta tivesse reconhecida sua autenticidade. As inquietações provocadas em Duchamp por este espetáculo deram-lhe muitas idéias para iniciar uma verdadeira revolução que iria abalar a tradicional conceituação do que seria uma obra de Arte. // http://contoseafinslucianesilva.blogspot.com/2010/07/impressoes-da-africa-de-raymond-roussel.html
(2) Pindorama Revisitada: Cultura e Sociedade em tempos de virada de Nicolau Sevcenko. Lançando mão de diferentes fontes e referências, o autor articula recursos da história, da cultura, do urbanismo, da literatura e das artes e mostra como o imaginário idílico assinalou de forma marcante diferentes momentos da cultura brasileira. O historiador também retoma e organiza algumas de suas importantes reflexões sobre os mistérios da paisagem brasileira, o colonialismo, a escravidão e o barroco no Brasil. A obra faz ainda um passeio por diversas cidades, cujos meandros da vida cultural são revelados por meio de histórias extraordinárias.
(3) Pindorama Remix consiste na atuação do grupo F.A.Q, que é composto por músicos e Vj’s na programação musical e visual da Casa Brasil na noite do dia 24 de junho de 2010 em Joanesburgo – África do Sul, criando, produzindo e executando uma performance multimídia, sobre as cidades de Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro. O espaço Casa Brasil 2014, de 2.900 metros quadrados, foi montado no Centro de Convenções de Joanesburgo, África do Sul. Além da tradição no futebol, o espaço priorizou também atrativos turísticos, culturais, gastronômicos, econômicos e tecnológicos brasileiros.
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* Cláudio Santos, formado em Comunicação pela PUC MG em 1993. É CTS – Certified Tecnology Specialist pela Infocomm International 2008. Um dos fundadores do FAQ/feitoamaos, projeto coletivo de live images que se apresentou em performances no Brasil, França, Holanda e África do Sul. Realizou CD-roms, vídeos, instalações multimídia e interativas que foram premiadas no Brasil e no exterior. Diretor do núcleo de Mídias Interativas da Voltz. Coordenador do Núcleo Multimídia da Fábrica do Futuro – Residência Criativa do Audiovisual. Coordenador de Design do REPIA – Residência de Pesquisa Interdisciplinar Avançada, programas que integram a rede de projetos do Programa VIVOLAB e professor da Escola de Design da UEMG. claudio@voltz.com.br // www.voltz.com.br
MARROCOS, O OPOSTO SUÍÇO
Texto e Imagens: Patricia Galves Derolle*
Férias! Era a hora de decidir qual o melhor destino para nossa viagem de uma semana. Ficamos em dúvida entre os roteiros (Croácia-Eslovênia-Itália): Dubrovnik-Split-Ljubljana-Veneza e (Marrocos): Casablanca-Fez-Marrakech. Como estamos na Europa, achamos melhor deixar o velho continente um pouco de lado e nos aventurarmos pelo norte da África, desconhecido por nós dois. Fiquei um pouco receosa e, ao mesmo tempo, ansiosa em sair de Genebra, onde moro atualmente. Genebra é uma cidade calma, tranquila, sem agitação e com pessoas extremamente individualistas, aqui cada um cuida do seu próprio nariz. Tenho uma teoria que diz que o lugar onde você está morando influencia muito as impressões do lugar para onde você visitará, por exemplo: se você mora em São Paulo e viaja para Madri, você não vai achar essa cidade tão legal, você vai achar legal, mas não tão legal assim. Em contrapartida, se você morasse em Moscou, onde é muito frio e a comida é bem diferente, Madri seria o paraíso gastronômico, climático, com pessoas mais alegres e onde tudo é colorido. Enfim, essa minha teoria estava prestes a se tornar realidade, pois iria sair de um país limpo e sem baratas (morro de medo deste inútil inseto) para outro que, provavelmente, seria o oposto e mais um pouco. Lemos o guia do Lonely Planet, os sites relacionados, e cada vez mais ficava ressabiada. TODOS os informativos falavam que depois de alguns dias no Marrocos, você COM CERTEZA teria problemas intestinais (para ser eufêmica). Que era para tomar cuidado porque geralmente os turistas são enganados em diversas situações. Bom, até aí, tudo bem. Somos brasileiros e, infelizmente, entendemos essa tal “malandragem”.
O dia de pegar o avião chegou. Tudo certo com a passagem, hotel e passeios intermediários. Organização é tudo nessas horas. Último voo do aeroporto de Genebra – sim, o aeroporto aqui fecha à meia-noite. É, no mínimo, engraçado ouvir que o aeroporto fecha, mas deixemos Genebra para outra vez. Todos a bordo, Marrocos nos espera! Tentativas de leitura (Triste fim de Policarpo Quaresma – nada melhor para matar a saudade do Brasil) ou de dormir, são em vão neste voo, pois já nos deparamos com um mini-Marrocos. O avião mal chega a sua altitude correta e todos já estavam de pé, conversando alto ou brigando com o “aeromoço”. Só se ouvia: Monsieur/Madame, attendez, s’il vous plaît! Entre os “espere um pouco, por favor!” um senhor saiu de seu assento para ir ao toalete, e logo veio o serviço de bordo. Quando ele voltou o carrinho atrapalhava sua passagem, mas os “aeromoços” não o deixavam passar. Para quê! Virou briga para o avião inteiro! Todo mundo discutindo, tentando achar uma solução para o problema. Era só o excelentíssimo empregado da companhia aérea afastar um pouquinho o carrinho para o senhor passar, mas não, tudo tem que ser um pouco mais complicado que isso. Foi daí que pensamos: se é assim aqui no avião, imagina lá…
Chegamos! Primeira vez a colocar o pé na África. Calor, muito calor, mesmo sendo tarde da noite! Táxi, cadê os táxis do Terminal II do aeroporto Mohammed V? Até que avistamos uma BMW velha, literalmente caindo os pedaços, sem taxímetro e com portas que mal fechavam.
- Quanto é a corrida até o centro, senhor? – perguntei em francês.
- 500 dirhams (em torno de 50 euros) – o taxista responde.
- Mas o nosso hotel disse que o trajeto até lá custa 200, meu senhor! – retruquei.
- Não, a senhora está enganada. Já é de noite e o preço dobra! – ele exclama.
- Mas se o valor dobra, seriam 400! Enfim, deixa para lá! Vamos pegar outro táxi. Shukran (obrigada em árabe).
- Tá, tá, tudo bem. 250 dirhams e não se fala mais nisso.
Entramos no táxi, falei para meu namorado colocar o cinto de segurança, porque vai saber né! Na tentativa de colocar, o motorista fala:
- Aqui não precisa! Nem eu uso! E esse cinto aí, ó, está emperrado!
Pegamos, portanto, o hell cab, e chegamos depois de 20 minutos no hotel. Na manhã seguinte, pegamos o trem rápido da Gare (estação de trem) Casa-Voyageurs para Fez. Paisagens lindas e desérticas e um casal marroquino ao lado que não parava de falar. Mas tudo bem, pas de problème. Deu para ler um pouco, dormir um pouco e depois de 3h30 chegamos. Negociações com os taxistas para pagar o preço mais justo e, enfim, o segundo hotel (Dar Fes Medina). Um senhor marroquino nos atendeu, nos mostrou o quarto, nos ofereceu chá de hortelã e biscoitos típicos de Fez. Ah! Agora sim! Era tudo o que nós precisávamos. Nada de barulho, apenas mosaicos lindos da Dar (casa sem jardim). Instalamo-nos e fomos passear.
Escolhemos fazer um passeio guiado, pois tínhamos pouco tempo lá. O nosso guia, que não se chamava Mohammed nem Ahmed, nos levou a um passeio pela cidade, mas fora da Medina (cidade velha cercada por muros). Muito lindo, vistas maravilhosas: o quarteirão judeu, o Blue Gate, o Forte da parte norte. Depois do passeio, cansados, fomos para o hotel. Às 3h da manhã fomos acordados pela chamada para a reza. Às 5h da manhã também. Como ficamos praticamente dentro da Medina, a Mesquita do bairro ficava muito perto, então escutamos direitinho o chamado: ALLAHU AKBAR (Deus é grandioso!)! ALLAHU AKBAR! Seguido de trechos do Corão. É lindo, espetacular e extremamente depaysant, como se diria em francês. Só de pensar que eles realmente acordam para agradecer a Deus é algo que não tem preço.
Já de manhã, fizemos a visita dentro da Medina, uma das maiores do Marrocos, onde tem os Souqs (mercados), as farmácias, as cooperativas de trabalho artesanal, os Museus e a Medras (escola teológica). Terminamos o passeio em um restaurante, que ficava um pouco escondido, embora tudo na Medina fique escondido. É surpreendente que becos e ruelas estreitos dão em Riads (casas grandes com jardim): são construções belíssimas, com mosaicos maravilhosos. Enfim, comemos. Não escolhi nada demais, nem quis me arriscar nos tajines ou couscous locais, pois já estava com a pulga atrás da orelha com os possíveis problemas intestinais. Comi um filé de frango com salada marroquina (porções de legumes variados, como berinjela, abobrinha, batata, cenoura, etc. com os temperos deles, claro!). Estava maravilhoso, uma delícia. Doce ilusão… Fizemos o check-out do hotel, corremos para a Gare e voltamos para Casablanca, onde ficaríamos dois dias. No caminho, que dor de estômago! A dor não passava, o trem balançava e tudo me irritava. Ao descer do trem, mais negociações com os taxistas e, de novo, em Casablanca. Passei muito mal à noite e fiquei um dia de molho no hotel. Tomei muito cuidado com comida e água, mas não deu muito certo. Dei sorte em ter passado mal em Casablanca, pois entre as cidades que visitamos é a que tem menos pontos turísticos. No outro dia, estava um pouco melhor. Fomos visitar a 3ª maior mesquita do mundo: a mesquita Hassan II. Gigante, linda, espetacular! Pagamos alguns dirhams, tiramos nossos sapatos e voilà: ! Mármore, vidro murano, portas de titânio e cedro marroquino em diversos lugares da mesquita.
Ansiosíssima para ir a Marrakech, logo depois da visita pegamos o trem para lá. Atraso de 1h25 do trem e quando o mesmo chegou não tinha lugar para se sentar. Conclusão: viajar em pé! Demos sorte que depois de 15 minutos duas pessoas, uma de frente para outra (!), na JANELINHA (!!), saíram e deram lugar para nós. Ar condicionado? Respondo com uma gargalhada e um NÃO! Calor de 36 graus e um ventinho que saía de alguma janela perdida no vagão. Sauna no trem! Pessoas pingando de calor e as mulheres marroquinas vestidas do pé a cabeça, só com seus olhos mostrando. Melhor ler para passar o tempo.
Em Marrakech, depois de 4h, mais calor do que nas outras cidades, devido ao fato de estar mais perto do deserto. Negociação, táxi, hotel, chá de hortelã. Deixamos as bagagens e fomos direto para a atração principal: Place Djama el Fna. Meu lugar favorito do Marrocos até agora! Lá é diferente de todos os lugares que já visitei. O encantador de serpentes com sua flauta, o homem com o macaco no pescoço, as tatuadoras de hena, o cheiro de suco de laranja espremido na hora. É uma mélange de sons, cores e acho que de sabores. Não aguentei e deixei cair uma lágrima dos meus olhos. Isso é a África, isso é o Marrocos e eu estou aqui! Parece que estava em um filme (queria dizer Tintin, meu BD favorito, mas ele nunca foi para o Marrocos), mas enfim, em alguma aventura por esse mundo. Todos os inconvenientes da viagem sumiram bem ali. A Praça é agitada, cheia de gente, motos passando pelas calçadas – ou seja, o oposto da Suíça. É uma “Rambla” de Barcelona, só que na África.
Visitamos a cidade sozinhos. Quando nos perdíamos nas ruelas da Medina sempre tinha um menininho que te guiava até onde você gostaria de ir, claro, em troca de alguns dirhams, afinal para eles isso é business:
- Are you lost? I guide you!
- You americans? – No!
- Français? – Non!
- España? – No!
- Belgique? – Non!
- Deutsch? – Nein !
- What are you then? – Brazilians!
- Oh! A friend country. We love football. Pelé, the best !
- This way, this way. Now, you give me money.
Era o jeito. Não existe, pelo menos que eu saiba, um mapa que cobrisse todas as áreas da Medina. Depois de 3 dias neste lugar “incroyable”, sem comer comida marroquina e depois de algumas compras temos que voltar para Casablanca e pegar o voo de volta para a Suíça. Estávamos um pouco cansados de tanta negociação, tumulto e perguntas. A Suíça nos chamava. O voo com o mesmo cenário mini-Marrocos da ida e uma menininha hiperativa que não parava de chorar ao nosso lado se repetia.
Agora, a pergunta que fica: voltaria para o Marrocos? SIM! Mas só para Marrakech, ensha’allah!
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* Patricia é formada em Relações Internacionais pela Universidade Belas Artes de São Paulo. Trabalhou no Ministério das Relações Exteriores em São Paulo, no Consulado Brasileiro em Genebra, Suíça e na Missão Brasileira na ONU, também em Genebra. Atualmente é analista de tecnologia na União Internacional de Transportes Terrestres, na mesma cidade. Mora na Suíça desde 2009. Seu e-mail é patygd@terra.com.br.
Jano / Rio de Jano (divulgação)
Pense numa situação cotidiana: o café da manhã diário na padaria da esquina. Na mesa ao lado, dois italianos, em um ítalo-português novelesco, discutem sobre coisas trivais da vida, tal como a renovação do passaporte de um deles. Apesar de ser impossível não ouvir a conversa alheia – devido ao volume da voz – tentava prestar atenção em coisas mais importantes como, por exemplo, a quantidade de açúcar em meu café. Mas não dava. O tom da conversa era muito alto. Italianos, diriam alguns.
Mas a conversa esquenta quando eles percebem que na próxima segunda-feira, dia 11 de outubro, é meio-feriado, – a famosa emenda - já que o dia 12 é recesso nacional. Festa católica, dia da Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil. Diante da constatação de uma segunda-feira inexistente, um deles afirma categoricamente: segunda é feriado para quem é vagabundo. Na sequência, sem pestanejar, o segundo emplaca: ma qui è un país di vagabunti! Assim mesmo, na lata, em alto e bom som e num italiano digno de Tony Ramos.
Então, longe de qualquer juízo de valor, essa simples constatação de um estrangeiro em terras brasileiras, rodeados de brasileiros, dita de forma tão assertiva, nos mostra um lado interessante que mesmo esse Brasil tão celebrado como o novo eldorado de uma Europa estagnada, que estampa semana sim semana não a capa da influente The Economist, temos um pequeno e considerável problema que nos persegue à alguns séculos: como somos vistos por nossos interlocutores. E como não controlamos essa percepção.
A declaração, preenchida de preconceitos não-pensados mas solidificaos no imagninário deste italiano comum, representa essa não-história contada por nós, além, é claro, da ajuda dos indefectíveis clichês e esteriótipos que permeiam o insconsciente coletivo mundial. Antes de questionar se de fato somos vagabundos ou então assumir de uma vez por todas essa nossa verve meio joie de vivre, ou até mesmo como disse Simon Anholt em uma palestra sobre a Marca Brasil no início desse ano São Paulo, a nossa one word equity, ‘Joy’, precisamos parar para entender o por quê esse italiano simples e comum, tomando um café numa manhã de sexta-feira úmida, tem uma concepção tão sólida e generalizada do povo brasileiro.
Etmologicamente, o gentílico brasileiro difere um pouco dos outros substantivos locativos tais como ino (argentino, argelino), ense (israelense), ês (finlandês, francês) ou ano (africano, cubano). O sufixo eiro normalmente é usado em substantivos e adjetivos que designam profissões, tal como mineiro, engenheiro, carpinteiro, pedreiro, ferreiro, lixeiro, etc. Historicamente, o brasileiro era aquele colono português bastardo enviado ao Brasil para trabalhar na exploração das riquezas nacionais – principalmente o pau-brasil – e sua comercialização com as metrópoles. Brasileiro, simples assim. Ou seja, desde o nosso nascimento como nação, fomos categorizado como um povo constituído no trabalho. Apesar de uma formação complexa devida a nossa saborosa miscigenação, ainda é muito difícil para outras culturas entenderem plenamente essa dicotomia trabalho/diversão que o brasilero tanto utiliza.
Ao mesmo tempo que somos uma nação extremamente trabalhadora, presistente e determinada, sabemos muito bem conciliar as peculiaridades e as delícias de pausas como o Carnval, por exemplo, quando praticamente o país literalmente desliga seus motores produtivos para uma festa pagã, independente do que possa estar acontecendo nesse período. Existe uma anedota popular que dá conta de uma entrevista à um jornal de grande porte com uma mulher simples sobre a crise mundial de 2008 onde o repórter a pergunta: e a crise? como a senhora está lidando com ela? A mulher, marotamente, responde: crise? depois de março a gente pensa nela.
É essa capacidade de trasnformação e adaptação, muitas vezes conhecida como o jeitinho brasileiro, que consolidou no imaginário mundial essa nossa imagem tão surpreendentemente forte. Herança colonial de um país explorado e, principalmente, sem cultura da construção de algo duradouro entre seus líderes. É o famoso país dos 3 S’s: Sun, Samba e Soccer. E é esse país que o italiano médio, assim como o cidadão global médio, conhece, percebe e enxerga. E não adianta capa da The Economist, ou Wallpaper ou até mesmo Monocle para mudar essa imagem. Mesmo com as novas diretrizes do Planalto Central para que tanto a diplomacia política quanto a comercial trabalhem para transformar os 3 S’s para TOTAL (acrônimo para Tecnologia, Obediência, Trabalho, Autenticidade e Legislação), temos um trabalho significativo pela frente para mudar uma percepção secular. Mas, milagrosamente, temos duas grandes oportunidades para uma possível mudança em menos de 6 anos: a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Mas, como de praxe, já começamos mal, principalmente com o episódio da marca da Copa de 2014. E, novamente, não fomos nós que falamos.
Enquanto o Brasil definitivamente não parar para resgatar e recuperar suas várias identidades nacionais, trabalhar seriamente em políticas públicas de transformação social – principalmente na área da educação básica – e começar de fato a contar a sua história, os outros sempre vão contá-la pela gente, o que acontece há um pouco mais de 500 anos. Melhoramos um pouco durante esse período, é verdade, mas sempre somos lembrados que ainda não aprendemos o básico. Então, a reação passiva e divertida de todos brasileiros ao ouvir um italiano nos chamar de país de vagabundos não nos parece tão absurda assim.
Há algo de novo acontecendo nas águas geladas do Báltico. Os três países que formam essa microrregião (Estônia, Letônia e Lituânia) sempre foram coadjuvantes na história recente da humanidade, consenquência da inquestionável dominação social, militar e da homogenização cultural imposta pela União Soviética por mais de 70 anos. Hoje, quase 20 anos depois de independência e 6 após a entrada dos três países na União Européia, os pequenos bálticos lutam agora para transformar a imagem herdada pela era soviética de corrupção, prostituição, pobreza e decadência, além da consolidação de uma identidade nacional forte e distintas entre si. Então, nada mais natural do que se aventurar por projetos de branding para tentar esta difícil transformação. E cada um dos países se lançaram à esses esforços, ora bem sucedidos, ora de tão tímidos e conservadores que ainda continuam a causar confusão na cabeça de seus interlocutores.
Mas existem bons argumentos. Após a entrada dos países na União Européia em 2004, a economia e qualidade de vida da região aumentou exponencialmente, muito graças à mão de obra barata e qualificada da região, mas o turismo e o investimento internacional, além do reconhecimento de seus produtos, não apareceram como deviam. Localizados em uma região estratégica, rica em natureza e com um grande passado a ser descoberto, os países então passam a investir em projetos de valorização da identidade nacional e promoção internacional de seus valores intangíveis, cada um com suas peculiaridades.
Dos três países, definitivamente a Lituânia é o que mais investe em promoção internacional e no que eles próprios chamam de “estratégias criativas para o desenvolvimento da imagem econômica do país”. Para isso, tiveram ajuda dos especialistas da Saffron Brand Consultants, um grupo internacional de branding capitaneado por Wally Ollins. A estratégia criada pela consultoria, extremamente rica, complexa e completa, defende que a imagem econômica do país é indissociável de sua imagem como um todo. Então, como argumento inicial que norteu todo o projeto, a Lituânia não deveria mais ser percebida apenas como um dos três países do Báltico e sim como o país mais atrativo para investimentos do nordeste da Europa pelo seu tamanho (é o maior dos três países), pela infraestrutura superior, pela ética nos negócios, pela notável criatividade cultural e por sua localização privilegiada, no meio do caminho entre a Europa ocidental e oriental, além da vizinha Rússia. Então aqui temos um projeto de branding que extrapola a simples promoção turística de sua região. A Lituânia quer ser mais do que isso. Quer ser uma espécie de novo eldorado para os negócios globalizados numa região ainda pouco explorada.
Outro artifício importante para a consolidação de uma imagem positiva para o país foi a valorização dos produtos e serviços produzidos internamente e pensados como potenciais “embaixadores” para a valorização da marca nacional mundo afora. Apesar de uma identidade visual extremamente destoante de toda a comunicação, o Made in Lithuania é uma ferramenta online onde está concentrado todas as informações relevantes sobre a produção local passível de exportação. É o conceito de Country of Origin aplicado na prática.
Abaixo, um vídeo de apresentação sobre o país que, apesar do foco explícito em atração de investimentos e novos negócios, se utiliza de uma linguagem gráfica e um tom de voz extremamente contemporâneo, beirando quase o pop, analogia interessante para um país que, apesar de mais de mil anos de tradição e história, vive seu tempo.
A Letônia escolheu um caminho mais curto e objetivo para se diferenciar de suas duas irmãs. Condenada à mesma herança soviética dos outros dois países, a Letônia frequentemente sofre com sua instabilidade econômica, princiaplemte pós-crise global de 2008. Mas uma de suas grandes características é a capacidade de seu povo enfrentar problemas milenares com bom humor e resiliência. Esse então foi o mote para o mais recente esforço de promoção internacional criado pelo país. Como foco claro na experiência e na atração de turistas para sua região, a ação desenvolvida pelo país na Expo 2010 Shangai, batizada de Technology of Happiness, nada mais é que um grande tubo de vento multicolorido onde as pessoas são convidadas a experimentar a sensação de “voar de felicidade”. Simples assim. E em 4 meses de exposição, é um dos pavilhões mais concorridos de toda a Expo.
Apesar de ser altamente questionável pelo seu efeito efêmero, a ação proposta pelo país tem revelado uma interessante e pouco racional faceta de um projeto de Nation Branding: a das ações falarem mais do que as palavras. Com pouco discurso, com uma linguagem extremamente moderna e colorida e com a possibilidade de vivenciar uma experiência única, o país está conseguindo transformar a velha imagem soviética de um povo fechado, triste e cinzento em uma nação única e vibrante. Segundo o site oficial do país no evento, o ineditismo da ação já começa a render bons frutos para o país, em forma de procura por investimentos internos.
Já a Estônia, o menor dos três países, optou por um projeto tímido, conciso, quase silencioso. Lançado em 2001, o projeto Branding Estonia tinha como objetivo básico se distanciar de seu passado soviético e se aproximar dos primos escandinavos, já que a língua estoniana tem parentescos bem próximos com o finlandês, para se autoafirmarem como um país moderno. Auto entitulado de “a Nordic country with a twist“, o projeto estoniano tenta criar uma percepção de credibilidade tanto do país quanto do seu povo, que invariavelmente tem sua imagem manchada por casos de corrupção e prostituição. A experiência da Estônia tenta usar os aprendizados obtidos pela Irlanda, um país também pequeno, ofuscado muitas vezes por uma grande potência (caso da Inglaterra), mas com grandes qualidades econômicas e culturais.
A grande ressalva em construir a Estônia como um país nóridco com uma certa “ginga” foi a fraca linguagem visual e o simplório tom de voz escolhidos para comunicar um país com grandes problemas de percepção. Apesar de uma marca promocional com contornos contemporâneos, um certo ruído gráfico em sua identidade visual – principalmente mostrado no vídeo e no site da maior ação promocional do país, a Estônia Expo Center-, mostra uma fraqueza em sua execução, remetendo à uma imagem antiga e ultrapassada, que não condiz com o discurso de contemporaneiade que o documento Estonia Style brandbook tanto defende. Talvez a efemeridade em focar apenas na questão turística aliado a uma identidade visual dessonante seja o grande ponto fraco desse projeto.
Apesar das especificidades de cada projeto de branding desenvolvidos para os três países, o grande desafio na verdade, além de atrair turistas e investimentos - o que não é mais um dos grandes problemas após a entrada na União Européia – é a consolidação e a diferenciação de cada identidade nacional. Pesquisando um pouco mais a fundo, é possível identificar oceanos de diferenças culturais entres os três países tão próximos e que por muitas décadas foram subjulgados por uma cultura homogenizante. Mas para o interlocutor mais desatento, diferenciar Estônia, Letônia e Lituania pode ser uma tarefa tão difícil quanto aprender um de seus idiomas. A identidade nacional é o valor intangível mais precioso que qualquer nação pode ter. Saber explorá-la de uma forma original e desvinculada de clichês e esteriótipos é o grande desafio. Para chegar a um resultado satisfatório e sustentável a longo prazo – assim como os irlandeses conseguiram magistralmente se desvincular culturalmente da Inglaterra através de suas marcas, seus hábitos, suas lendas e de seu povo – os países bálticos vão precisar se mostrar cada vez mais diferentes e originais para seus parceiros internacionais, não necessariamente só para os turistas. Substrato para essa diferenciação existe aos montes.
Um dos grandes projetos da Embratur para a divulgação do país durante a Copa da África do Sul de 2010 foi a criação da Casa Brasil / Brasil Sensational Experience, um espaço de 2900 metros quadrados e 8 ambientes temáticos construído em Joanesburgo, África do Sul, com o objetivo de mostrar um Brasil moderno e continental, onde foram apresentadas várias facetas da cultura, da tecnologia, da econômia, do turismo e da identidade nacional.
Dos vários eventos que aconteceram durante os quase 30 dias em que o espaço ficou aberto ao público da Copa do Mundo, a divulgação das cidades-sede da Copa de 2014 através de performances artísticas, multimídias e sensoriais foi um dos mais concorridas. Para representar as cidades da região Sudeste onde acontecerão jogos do mundial em 2014 – Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo - o coletivo multimídia mineiro F.A.Q foi convidado a reinterpretar essas cidades através de uma experiência audiovisual inovadora. Entitulado de Pindorama Remix, a apresentação foi feita no dia 24 de julho para uma platéia de mais de 200 pessoas onde imagens e músicas icônicas e originais da região foram reprocessadas e executadas ao vivo.
Como parte da argumentação e da construção do projeto, a isotipo.labs foi convidada a escrever um breve texto/artigo defendendo a importância do uso de novas tecnologias para a divulgação e consolidação de uma cultura nacional contemporânea, desvinculada de esteriótipos e clichês já tão empregnados no imaginário mundial e onde as várias identidades brasileiras seriam enaltecidas.
Abaixo, a íntegra do artigo usado como argumentação para o projeto. Para imagens de bastidores do evento, acesse o Flickr da Voltz Design, um dos integrantes do coletivo F.A.Q
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Em busca das identidades do Brasil
Talvez o Brasil esteja vivendo o melhor momento em toda sua história para a consolidação positiva de sua imagem e de suas diversas identidades, longe dos clichês e estereótipos já estabelecidos no imaginário mundial. A ideia de um país festeiro, terra do futebol e do samba, onde a alegria sem causa é a palavra de ordem, conserva uma imagem nacional que, apesar de também ser verdadeira, acaba por ser generalizante, ofuscando outras áreas produtivas e culturais, inovações e diversas atividades que produzimos por aqui. O Brasil hoje é um país moderno, forte, que busca reconhecimento e relevância mundial através de suas ações políticas e nos seus produtos e serviços, mas ainda é na cultura e no seu povo a maior fonte de produção para emanar essa imagem tão desejada.
Sede dos dois principais eventos mundais, a Copa de 2014 e as Olímpiadas de 2016, o Brasil terá a oportunidade única de mostrar quem de fato é, através da nossa cultura – uma monumental miscigenização que formou esse povo novo que é o brasileiro-, que nos torna únicos no cenário internacional. Alguns importantes esforços já estão sendo feitos para revelar e imprimir a nova alma brasileira através, principalmente, da arte e da tecnologia, mas sem se esquecer de suas raízes históricas e tradições culturais, tão importantes para a nossa formação como sociedade e nação. O projeto Pindorama Remix é um desses exemplos. Com o desafio de apresentar as três maiores cidades da região Sudeste -, o coletivo artístico multimídia F.A.Q tem a importante missão de mostrar a diversidade e pluraridade dessas várias “identidades” brasileiras através de uma performance onde a especificidade de cada região é destacada
A inusitada e não-convencional linguagem áudiovisual do F.A.Q, onde símbolos e ícones da região sudeste serão interpretados, processados e manipuladas ao vivo, associada ao caráter tecnológico e ao ineditismo de sua apresentação – uma clara analogia as características inovadoras das cidades representadas – em um evento como a Casa Brasil durante a Copa da África do Sul, frequentado por um público de distintas nacionalidades, será uma importante ferramenta para a promoção e divulgação de um Brasil cada vez mais contemporâneo, aberto ao mundo mas sempre valorizando aquilo que lhe é mais importante: a cultura nacional, desvinculada de maneirismos arcaicos e ultrapassados.
Gustavo Santos é designer com especialização em Relações Internacionais pela Universidade Belas Artes de São Paulo, editor e curador da TimeSheet Magazine, revista eletrônica voltada para a discussão e a produção de arte e design contemporâneos e do site isotipo.labs, centro de discussão e pesquisa sobre Nation e Place Branding, além de questões de identidade cultural e imagem nacional. Publicou o livro Nation Branding: Construindo a Imagem das Nações pela isotipo.labs.
Apesar de todos os esforços institucionais que os países se utilizam para tentar construir uma imagem positiva no imaginário coletivo mundial, nada é mais poderoso e eficaz do que a chamada experiência emocional. Ela é única, exclusiva e ninguém pode comprar, alterar ou transformar essa sensação que temos e sentimos quando chegamos em algum lugar desconhecido. Conseguir atingir a esse nível de intimidade emocional com um interlocutor é a principal fonte de sucesso para que qualquer projeto de Nation Branding, raramente alcançado pelos projetos tradicionais de comunicação produzidos pelos departamento de turismo dos países . Não existe logomarca, slogan ou ações promocionais que substituam o relato de um visitante que vivenciou de fato a riqueza e singularidade da cultura e da identidade daquele país. E quando toda essa experência é transmutada em uma singela e bela homenagem sobre aquilo tudo que foi vivido em terras estrangeiras, todos saem ganhando, do leitor ao futuro visitante.
Foi mais ou menos isso que os designers Fabiano Fonseca e Eduardo Recife fizeram. Um generoso e delicado olhar para esse país já tão retratado. Mas o que se diferencia aqui de todos os relatos já produzidos é uma Índia particular, única, tão íntima que pode até ser chamada de querida, assim como o título da obra. My Dear India é muito mais do que um livro de fotos de uma prosáica viagem de turismo. É uma espécie de agradecimento à aquele país por toda experiência vivida. E, agora, compartilhada.
O belo projeto, com coordenação editorial de Alessandra Maria Soares da Voltz Design junto com os autores, não está disponível em livrarias, mas pode ser adquirida diretamente com os artistas.
O designer japonês Kenichi Tanaka, num exercício interessante de auto-reflexão, desenvolveu uma tese de como seu país era visto pelos olhos estrangeiros. Para isso, criou um vídeo onde dados tradicionais como o alto índice de desenvolvimento humano ou o segundo maior PIB do mundo são associados a certas peculiaridades típicas daquela sociedade, como os olhos pequenos, a tímidez de seu povo e o fascínio quase descontrolado de suas mulheres por dietas e marcas ao mesmo tempo que são apaixonados por fast food. O resultado, abaixo, é um divertido e belo retrato da sociedade japonesa, mesmo que carregado de humor e uma certa exarcebação de clichês.
A isotipo.labs inaugura, com o livro Nation Branding: Construindo a Imagem das Nações, o projeto de uma mini-editora experimental focada em temas já bastante discutidos nesse site como branding de países, cidades e regiões, identidade cultural, gov 2.0, urbanismo e cidadania e discussões sobre o papel do design e do branding no desenvolvimento econômico e social das regiões onde essas ferramentas são aplicadas. A ideia é muito simples: buscar conteúdo em língua portuguesa sobre esses temas e disponibilizá-lo tanto na versão digital gratuíta quanto em versão impressa – vendidos sob demanda – tentando assim iniciar uma bibliografia em língua portuguesa sobre esses temas, que cada vez são mais evidentes nas discussões nacionais e internacionais, mas com conteúdos quase nulos em terras brasileiras.
O primeiro lançamento desse projeto, Nation Branding: Construindo a Imagem das Nações, é um breve panorama sobre o tema, voltando desde a fundação dos Estados modernos, no séc XVI, até suas aplicações práticas nesse conturbado século XXI. Escrito por Gustavo Santos, designer com espcialização em Relações Internacionais, o livro, concebido a partir de uma monografia para o curso de Relações Internacionais e como prévia para uma tese de mestrado, tem como objetivo apresentar o tema tanto para estudiosos do universo das Ciências Políticas e Sociais quanto para profissionais de comunicação de uma forma suscinta, clara e inédita, já que ainda não existe literatura em língua portuguesa sobre o assunto. Para maiores informações sobre o conteúdo do livro, clique aqui, e para saber mais sobre o autor, clique aqui.
Em breve, o conteúdo da primeira publicação da isotipo.labs poderá ser lido na íntegra aqui no site ou pelo Issuu. Para os interessados em uma cópia impressa, basta acessar o Blurb, e fazer seu pedido online.
O estúdio de design californiano Stolen ficou impressionado com as estatísticas nada favoráveis das nações do continente africano. Números impressionantes como a expectativa de vida de 31 anos de Moçambique oua informação de que a cada 63 habitantes de Botsuana, 37 são portadores do vírus da AIDS, serviram de inspiração para uma série de camisetas onde esses dados de vários países daquele continente são divulgados a partir de um belo trabalho de data vizualization. O projeto, chamado de StatAttak, colocou a venda essas camisetas com o objetivo de doar 20% de todo o valor arrecadado para um grupo de voluntários que vão construir um orfanato em Moçambique, país que inspirou todo o projeto. Segundo o site, ao invés de entregar esse dinehiro para terceiros, os designers vão pessoalmente até ao país para entregar o valor da doação e acompanhar de perto o projeto. Bonito e interessante.
Abaixo, mais algumas imagens do projeto.
Istambul sempre inspirou e instigou o imaginário da humanidade, desde quando ainda era Constantinopla, centro cultural e religioso do mundo daquele período, além de ponte para as rotas comerciais que ligavam o oriente ao ocidente. A queda de Constantinopla, em 1453, quando o império romando no oriente foi destruído e se estabeleceu o Império Otomano, é considerado por muitos historiadores como o fim de fato da Idade Média na Europa e uma de suas principais consequências seria a procura pelos navegadores espanhois e portugueses por uma rota alternativa ao oriente, culminando assim na “descoberta” das américas. Até mesmo o arquiteto franco-suíço Le Corbusier, no seu relato A Viagem do Oriente, diário de viagem redigido em 1911 pelo então jovem estudante de artes, afirma que sua viagem por Istambul foi seminal para a sua formação pessoal e profissional.
Hoje a Turquia é um dos únicos países de maioria mulçamana que mantém um governo secular e laico e que cada vez mais tem se aproximado do ocidente, mas sem deixar suas tradições milenares de lado, e Istambul é o maior espelho dessas transformações. A cidade é considerada umas das mais vibrantes atualmente, tanto pela sua cultura quanto para os negócios. Apesar de sua inegável modernização, a cidade ainda faz parte de um país pobre e que sua exuberante modernidade contrasta radicalmente com o arcaico e quase medieval interior turco. Talvez essa seja um dos grandes entraves na compelxa discussão do país para integrar a União Européia, que acontece desde 2005 e tem como principais opositores a Áustria e a França.
Mas se depender da imagem que a Turquia está emanando para o mundo, talvez esse cenário se transforme. Em novembro de 2009, o projeto de discussão e investigação sobre o futuro das cidades, Urban Age, organizado pela London School of Economics e pelo Deutsche Bank’s Alfred Herrhausen Society, realizou a conferência Istambul: A Cidade das Interseções, sobre os desafios e o futuro da 5ª maior cidade do planeta. Durante 3 dias, os principais pensadores sobre urbanismo, sociedade e cidades se reuniram para discutir as possibilidades, os desafios, e, principalmente, o momento de profunda transformação que a cidade está vivendo. Saskia Sassen, professora de Sociologia da Universidade de Columbia e criadora do conceito de Cidade Global, uma das convidadas mais ilustres do evento, afirma que o momento em que a cidade vive atualmente é um dos mais importantes e promissores em seus quase 3 mil anos de história, e que basta apenas que os governantes saibam aproveitar da face positiva da inevitável globalização. A revista inglesa Monocle produziu um belo resumo da conferência, que pode ser assistido em vídeo pelo seu site. O relatório final e maiores inofrmações sobre a conferência estão disponíveis para download no site do projeto.
E parece que de fato o governo local está tentando aproveitar esse movimento positivo. Istambul foi escolhida pela União Européia como a Capital da Europa da Cultura de 2010, um grande esforço de Public Diplomacy onde a cidade se transforma no foco da atenção mundial, tanto para as questões culturais quanto para a posibilidade de se estabelecer novos negócios e parcerias internacionais. Para isso, Istambul desenvolveu várias ações de divulgação e consolidação da sua imagem nacional, tudo dentro de um sólido conceito: Istambul Inspirations. A marca, uma feliz mistura de elementos clássicos a uma estrutura contemporânea, mostra claramente essa peculiar dualidade ocidente/oriente, o que torna a cidade única e mágica. Abaixo, um vídeo sobre as inspirações que a cidade exerce sobre o imaginário coletivo, desde suas clássicas mesquitas e belas imagens do Canal do Bósforo, mas claro, sem esquecer os tais elementos contemporâneos o que torna a cidade mais interessante ainda.
Diariamente, no caminho para o trabalho, passo em frente a uma região popular e em considerável transformação devido as obras do metrô. Cada dia vejo algo novo, mesmo que seja em microsegundos, dentro do carro. Mas o que sempre me impressiona é uma pequena loja de porta de metal aberta para a rua, onde em um letreiro escrito à mão pode-se ler: Serviços em Advocacia. Dentro da loja encontra-se apenas uma escrivaninha, uma antiga máquina de escrever sobre à mesa, pilhas e pilhas de papel, duas cadeiras a espera de um cliente e um senhor negro de terno mal cortado. Ao mesmo tempo que essa cena não condiz com os suntosos e encarpetados escritórios de advocacia do nosso imaginário, essa simplória loja faz muito mais sentido no tipo de sociedade em que vivemos do que possamos imaginar.
O Brasil é um país calcado em burocracias tão complexas que deixaria Franz Kakfa assustado. E, infelizmente, essa é uma das imagens que o Brasil exporta para o mundo, principalmente quando falamos em negócios internacionais. Em países com bolsões de pobreza gigantescos como o Brasil, a burocracia serve como uma espécie de mantenedora de uma hierarquia imaginária, onde o caos de formulários e números segrega as pessoas, dando poder e função a pessoas ordinárias para que essas continuem a rodar o programa no qual nem mesmo elas sabem para que servem.
O fotógrafo holandês Jan Banning viajou por vários países como China, Estados Unidos, Bolivia, Libéria, India, Yemen, Russia e outros onde fotografou a burocracia local, confirmando que essa segregação ainda faz sentido, infelizmente . O resultado, o quer pode ser visto em algumas imagens abaixo, é de uma crueza extremamente assustadora e familiar e, por que não, bela.
A loja de advocacia do senhor negro no Largo do Batata, em São Paulo, observando mais atentamente, na verdade não destoa tanto de nossa realidade, pelo menos não por enquanto.
Como seria o branding da Dinamarca se o cineasta Lars von Trier, um dos criadores do conceiro Dogma 95 de se produzir cinema fora dos padrões hollywoodianos, fosse o responsável pela concepção da imagem nacional e pela produção de filmes institucionais para o país? É o que a The Onion - site especializado em um jornalismo fantasioso mas de extrema qualidade – se perguntou e resolveu investigar. O resultado está no vídeo abaixo.
Provavelmente as autoridades dinamarquesas não vão gostar nem um pouco dessa brincadeira e várias manifestações de repúdio ao site vão surgir, mas é uma questão inevitável de se analisar. A imagem de uma Dinamarca extremamente bem organizada, socialmente estruturada e perfeitamente construída em valores políticos e democráticos, que invariavelmente está sempre nos primeiros lugares tanto nos rankings internacionais de percepção quanto nos índices de desenvolvimento social e humano da ONU, não raro também é percebida por atitudes extremas de desvio social, o que, claro, aconetece em qualquer sociedade, mas que contrasta radicalmente com essa imagem constrúida de uma civilidade perfeita do povo dinamarquês. E Lars von Trier é um dos maiores divulgadores dessa imagem distorcida de sua sociedade. Então, por mais que a piada possa parecer de mau gosto, é indiscutível que a imagem construída por Lars von Trier em seus filmes, mesmo quando o assunto não é necessariamente sobre a sociedade dinamarquesa, reflete um pouco a percepção que o mundo tem da Dinamarca, mesmo que seja um pouco ficcional.
Denmark Introduces Harrowing New Tourism Ads Directed By Lars Von Trier
Cada vez mais são os pequenos países que mais investem na construção e divulgação de sua identidade nacional, talvez seja pela sua pequena participação no cenário internacional, devido ao seu terrítorio restrito, ou na tentativa de mudar alguma imagem estabelecida que não seja aquela que o país queira mostrar ao mundo. Esse é o caso do Principado de Liechtenstein, pequena nação encravada entre Suíça, Itália, Alemanha e Áustria.
O pequeno principado sempre foi conhecido pelos seus baixos impostos, o que o levou a um crescimemnto econômico vertiginoso, mas contribuindo para uma imagem internacional associada a de um paraíso fiscal perfeito para a lavagem de dinheiro de grandes grupos criminosos e de sua grande tolerância em relação a esse tema. Além de mudanças políticas na gestão de grandes fortunas, o país recorreu ao consultor Wolff Ollins para o redesenho de uma nova identidade visual da região, onde os elementos mais fundamentais daquela sociedade deveriam ser exarcebados. Segundo o site do consultor, o projeto, que foi desenvolvido em 2004, trouxe grandes mudanças na percepção de investidores, ao mesmo tempo que colocou o país no mapa do turismo e dos negócios mundiais.
Se de fato essas transformações aconteceram, é preciso pesquisar em alguns índices de percepção e fazer análises comparativas dos números nacionais. Mas o fato é que a nova comunicação oficial do principado realmente traz algo novo para a região.
Abaixo, algumas imagens da nova identidade de visual e suas derivações.
Para maiores informações sobre o projeto, acesse o portal do país e a apresentação desenvolvida pelo escritório de Wolff Ollins.
Post inspirado via @patriciasdc
Post originalmente publicado em: December 8, 2009
Durante quase três anos mergulhei nesta nova disciplina chamada Nation Branding como objeto de pesquisa para o curso de Relações Internacionais e para um projeto de mestrado. Até então, pouco se ouvia falar sobre o assunto e a principal associação feita tanto por leigos quanto por pessoas vinculadas ao universo das Relações internacionais e da Comunicação era que Nation Branding se resumia a uma simples e prosáica propaganda política. Já imaginava que esta não seria a resposta, então resolvi me aprofundar, o que me levou, além do projeto acadêmico, a criação desse site para a discussão e pesquisa de ações ligadas ao tema.
Depois de dezenas de livros, publicações, seminários, artigos, discussões, conversas, críticas e observações de experiências práticas, a resposta não poderia ser outra. O caminho da construção ou reconstrução da imagem de países, cidades, regiões ou lugares é um processo extremamente complexo e demorado, envolvendo disciplinas tão diversas como Antropologia Cultural, Ciência Política e Comunicação além da confluência de vários setores de uma sociedade como ministérios, secretarias de governos, sindicatos patronais, associações civis e a iniciativa privada.
Resumir um projeto de Nation Branding como propaganda política é de uma superficialidade sem precedentes. E para tentar argumentar contra esse senso comum, lastreado em teorias de diversas áreas do conhecimento, resolvi desenvolver uma visão geral do assunto, sobrevoando desde suas referências históricas até os resultados e as consequências de suas aplicações nas sociedades contemporânesa. O resultado é uma introdução ao tema, inexistente em língua portuguesa, que irá guiar minhas pesquisas para projeto de mestrado, onde irei me aprofundar um pouco mais.
Abaixo, disponibilizei a apresentação usada como apoio para a defesa do tema. Em breve estará disponível também uma versão digital para download do trabalho escrito, que será editado em formato de livro através do projeto embrionário de uma mini-editora com o selo isotipo.labs, destinada a vasculhar esse tema e seus subconceitos como Public Diplomacy, Place Branding, Gov 2.0, Sociedade 2.0, Soft Power, DesignCities, Economia Criativa, etc.
Post originalmente publicado em: December 1, 2009
Cada vez mais o recurso de data vizualization é usado para demonstrar graficamente desde complexas informações de gastos governamentais até prosaicos dados do dia a dia. Desta vez é o designer norueguês Ole Østring que resolveu mensurar sua última viagem de verão pela Europa, resultando em belos gráficos baseados nas distâncias viajadas, custos da viagem, meios de transporte utilizados, etc. Østring foi tão a fundo na ideia de compilar as informações de suas férias que até criou uma ferramenta onde é possível navegar pelo poster, que acabou sendo a mídia escolhida pelo designer para apresentar esses dados.
O resultado e outras imagems desse experimento de data visualization pode ser visto aqui.
Post originalmente publicado em: November 26, 2009
Pedro Miguel Cruz é um designer especialziado em vizualização de dados, ferramenta indispensável nos dias de hoje para a tradução da complexa quantidade de informação que circula pelo mundo em uma linguagem palatável, interessante visualmente e de fácil acesso. É a nova e ascendente disciplina chamada Aesthetics Information, onde cada vez mais as informações duras estão se transformando em belos gráficos, democratizando assim o acesso a conteúdos antes restritos aos círculos de estatísticos e matemáticos.
Para entender até onde a visualização de dados pode ajudar a entender a força de uma mensagem, Pedro dedica seu projeto de mestrado na visualização de dados contidos em livros, como por exemplo Os Lusíadas, de Luis de Camões. O resultado é uma bela série de gráficos onde se é possível ver a frequência de certas palavras usadas pelo autor. Veja um pouco do resultado aqui.
Mas o que nos interessou de fato no trabalho de Pedro é o motion onde podemos ver o declínio dos impérios desde 1800 até os dias atuais. A forma utilizada por Pedro para mostrar o colapso das grandes potências mundiais deveria ser usado nas escolas e universidades para auxiliar no entedimento dos acontecimentos históricos. Os pioneiros em data vizualization, a GapMinder, usa uma linguagem similar a de Pedro para traduzir conceitos complexos como a relação entre o Índice de Desenvolvimento Humano e PIB mundia, muito utilizado pela ONU em suas apresentações e relatórios.
Abaixo, o vídeo de Pedro sobre o colapso dos impérios mundiais desde 1800.
(Via @Bruno Veloso)
Post originalmente publicado em: November 26, 2009
O TEDxSP ocorrido no último dia 14 de novembro definitivamente foi um divisor de águas na vida das quase 800 pessoas presentes naquele quente e caloroso auditório no antigo bairro da Mooca, em São Paulo. Ainda não tive estômago para digerir tudo que foi dito e pensado por lá, mas o impacto causado foi inquestionável. Assim que a digestão for feita e quando conseguir racionalizar tudo o que foi sentido por lá, irei postar por aqui, mas por enquanto é possível assistir na íntegra as palestras daquele 14 de novembro no site oficial do evento. A cada semana , um novo vídeo é disponibilizado por lá. Vale a pena ver e rever.
Mas enquanto tento organizar o pouco tempo para os novos temas que estão na fila como o post sobre o D[X]I, jornal de design da Universidade de Valencia, Espanha, que será distribuido com exclusividade no Brasil pela isotipo.labs e Polar Studio, ou o grandioso projeto de resgate da identidade argentina desenvolvida pelo estúdio de design portenho No Brand e até mesmo pensatas da reconstrução da Islândia após a última crise mundial ou sobre o fabuloso trabalho do designer Holandês Annelys de Vet, The Subjective Atlas of Palestine, uma grande compilação da rica cultura palestina, livre de qualquer julgamento político ou moral.
Bom, muita coisa para dizer com pouco tempo para escreever. Mas, parafraseando o TED, boas ideais (e projetos) merecem ser espalhados, mesmo que demore um pouquinho.
Post originalmente publicado em: November 13, 2009
Começa amanhã o TEDx São Paulo, edição brasileira do cobiçado e desejado TED, um encontro de pensadores que tem algo a dizer e que merecem que suas ideias sejam espalhadas. A versão brasileira terá mais de 700 pensadores – entre platéia e palestrantes – de diversas áreas de conhecimento para discutir o complexo mas necessário tema “O que o Brasil tem a oferecer ao mundo agora?” Na versão original, que existe desde 1984, várias “celebridades” como Bill Clinton, Al Gore, Gordon Brown, Stephan Sagmeister, etc já divulgaram suas ideias e suas experiências em palestras de até 15 minutos.
Na edição de São Paulo, mais de 30 pensadores brasileiros vão mostrar suas propostas para colocar o Brasil de vez na linha de frente do pensamento mundial. Desde biólogos e engenheiros quimícos até designers e banqueiros, todos, de uma forma ou de outra, envolvidos na criação de boas ideias para o desenvolvimento do Brasil. Uma ótima oportunidade para aprender a escutar com quem tem o que dizer.
A isotipo.labs orgulhosamente estará lá, entre esses 700 privilegiados, e tentarei transmitir por aqui todas as minhas impressões, já que o evento irá registrar tudo e disponibilizar via web em breve.
Post originalmente publicado em: November 3, 2009
A Eslovênia é um pequeno país escondido entre Áustria, Hungria, Croácia e Itália. Pouco se sabe sobre ele a não ser que fez parte da antiga Iuguslávia. Fora isso, o país não tem nenhum destaque no imaginário das pessoas. Nem um produto característico, nenhum compositor famoso, nenhuma batalha memorável, nada. Provavelmente deve ser um lindo lugar para se conhecer pois mantém um grande acervo de obras romanas e uma bela arquitetura medieval, mas isso quase toda a Europa também possui.
Então, como construir sua imagem e se tornar conhecida pelo mundo? Como atrair turistas e tornar seus produtos desejados? Os eslovenos estão tentando. Lançaram um site, vários vídeos pela internet e um logo onde descobriram um interessante trocadilho entre Eu Sinto a Eslôvenia e Eu Amo a Eslovênia. A logomarca ainda não diz muito sobre a identidade do país, mas foi uma saída original para vender um sentimento nacional.
Basta esperar agora para ver qual resultado deste esforço, mas ao menos é um grande passo para um projeto de criação da imagem nacional. Ainda mais agora que o Mar Adriático está virando pólo turístico de alto-luxo para milionários de todo mundo.
Post originalmente publicado em : October 31, 2009
A história de Kosovo, a última nação que se tem notícia a declarar independência – apesar de ainda não ser reconhecida por todos os países – é o mínimo instigante. Sempre foi, de uma forma ou de outra, ocupada pelos seus vizinhos. Após o fim a antiga Iuguslávia e a criação de vários estados independentes, Kosovo ainda ficou presa sobre o domínio sérvio, que ensaiou uma tentativa de limpeza étinica na sua população de maioria albanesa-mulçumana sob o comando de Sloboan Milosevic. Com sua recém conquistada independência, Kosovo tenta juntar seus cacos após anos de histórias de violência. Não vai ser fácil mudar a imagem de uma região devastada pela guerra e a idéia de celeiro de criminosos internacionais inescrupolosos, tal como mostrado no cinema.
Mas Kosovo tem um outro lado interesante: é o país do mundo com a maior população jovem da Europa, com uma idade média de 25,9 anos, o que sugere uma idéia de esperança na reconstrução tanto política quanto social daquela região. E foi esse o mote que a Saatchi & Saatchi de Israel se apropriou para criar o filme que inicia um belo esforço de Nation Branding de Kosovo. Assista ao filme acima e reflita sobre o efeito e o poder que as imagens tem sobre a percepção do país. Nada pretensioso, nada mentiroso. Apenas um desejo jovem e coletivo de tentar resconstruir sua própria história e identidade.
Este é o juri que decidiu os vencedores do 2º Prêmio Minas Design, promovido pelo CMD, Centro Minas Design, em Belo Horizonte. Da esquerda para a direita: Célia Regina, pesquisadora e colaboradora do CETEC, Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais, um orgão da Secretária de Ciência e Tecnologia do Estado de Minas Gerais; Ives Fontoura, Professor e crítico de design da PUC do Paraná e da Universidade Tuiti, Gustavo Santos, designer da G2 Brasil e pesquisador da isotipo.labs e Newton Gama Junior, designer de produtos especializado em eletro-domésticos.
Não aparece na foto o quinto jurado, Pedro Kaechele, presidente da Inox Color, indústria inédita no Brasil no processo de coloração do inox.
Participar de um jurí extremamente heterogêneo foi uma experiência enriquecedora. As discussões surgidas no processo de avaliação com visões antagônicas tornou a seleção criteriosa e relevante. Desde a visão pragmática de um industrial até as observações pertinentes de um teórico e de uma pesquisadora da área de tecnologia metalúrgica fez com o que era para ser uma simples análise de trabalhos pensados e concebidos com inox colorido se transformou em uma calorosa discussão sobre a forma e função do design.
Fora que é muito intressante ver a produção de trabalhos baseados apenas em conceitos e não apenas pensando nos quesitos comerciais. Desde a apresentação das idéias, a execução dos produtos até as especificações técnicas para a viabilização do projeto. Mas a velha máxima ainda se confirma: os estudantes sempre trazem coisas mais instigantes do que os profissionais. Talvez pela liberdade, pela possibilidade de ter um pouco mais de tempo ou pelo frescor e pela falta de vícios da profissão. Ou talvez por que são melhores mesmo, simples assim.
Originalmente publicado em: October 24, 2009
Primeiro confesso que tenho andado sumido dessas bandas, mas por motivos nobres e acadêmicos: estou na véspera da entrega da minha tese, então, tudo anda um pouco fora de ordem.
Mas a vida continua e os temas ligados a comunicação e a imagem dos países estão cada vez mais em voga. Neste post falei um pouco sobre os países e suas marcas para a promoção internacional. Se já é difícil sintetizar em imagem idéias e conceitos tão complexos que forma a identidade de um país, imagina então resumir tudo isso em algumas palavras. Na imagem ainda nos resta o artifício conceitual da analogia e da subjetividade visual de cada região. Agora nas palavras esses subterfúgios não funcionam muito bem. Aqui o que vale é a objetividade e a clareza das idéias. Como resumir toda a complexa estrutura cultural e social da Índia, um país quase continental com tradições milenares mas ao mesmo tempo se esforçando para construir uma imagem de Estado contemporâneo e moderno? Nada simples. E como tudo o que é simples é infinitamente mais difícil, essa tarefa se torna extremamente árdua.
Abaixo temos uma série de slogans de países colhidos pelo Ricardo Freire do blog Viagem na Viagem durante a ABAV, a feira da Associação Brasileira de Agências de Viagens, que aconteceu na última semana no Rio de Janiero. Tanto a inspiração para este post como as fotos aqui publicadas são totalmente creditadas ao Ricardo Freire.
Tem para todo o tipo. Desde as mais econômicas e comuns como o do Uruguai e do Panamá até os mais audáciosos como o de Aruba e da Colômbia, que neste caso específico teve a coragem de brincar com um tema tão caro ao país que é a violência. O Brasil mantém o seu Sensacional! que particulamente gosto muito, assim como a sua marca, mas perigosamente parecida com o campeão deste ranking que é o da Índia, que conseguiu resmuir toda aquela diversidade cultural descrita lá em cima em uma simples palavra: Incrível!. O lindo filme que vem para sustentar a campanha torna isso ainda mais claro.
Mas o que ainda os países não entenderam no seu processo de promoção internacional é a necessidade de uma coesão de sua comunicação para melhorar sua percepção. Enquanto os países assinarem de forma diferente em cada setor onde se apresentam, a sua imagem vai continuar distorcida. Pequenos detalhes básicos como a uniformização da tipografia até o uso das cores para representar suas idéias ainda são ignorados. Imagine se uma Coca-Cola assinar seu slogan em uma tipografia radicalmente diferente daquela usada em toda sua comunicação há anos? Fatalmente uma desconexão com o consumidor irá ocorrer. O mesmo pode acontecer com os países. Neste quesito, o Brasil está se mantendo firme na sua comunicação internacional, sempre associando a marca internacional quando for assinar junto ao slogan.
Bom, vamos ao slogans. E, também garimpado pelo Ricardo Freire, segue o filme de sustentação do slogan Incredible! da Índia.
Vai até o dia 19 de outubro de 2009 as inscrições para o 2º Prêmio Minas Design, um projeto do Governo de Minas Gerais através do orgão de fomento do design mineiro Centro Minas Design, vinculado a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Estado, no qual a isotipo.labs foi convidada a fazer parte do júri e ajudar na seleção dos projetos inscritos.
Bianual, o prêmio deste ano tem como tema o “Design Aplicado ao Aço Inox Colorido” com o objetivo de revelar projetos de qualidade para alavancar o desenvolvimneto da economia de Minas Gerais e, consequentemente, o design mineiro. A idéia é bacana e é uma boa plataforma para a já iniciada construção da marca do Governo de Minas, que vem se destacando em ações de branding e Public Diplomacy principalmente depois do lançamento do Blog oficial do Governo, uma tentativa de desmitificar o conceito de que a informação vinda dos poderes públicos não precisam ser velhas, confusas e indigestas e sim modernas e simples, aliadas a um belo layout e de temas extremamentes jovens e contemporâneos.
A idéia de fomentar a produção artística e profissional local através destes tipos de premiações colabora infinitamente para a construção da imagem de uma sociedade criativa e valorizada e de um governo participativo e incentivador, onde temas até então esquecidos ou ignorados pelo poder público como o design agora são tratados como propulsores da economia e do desenvolvimento. Só o fato de existir um orgão especializado em fomentar e registrar a produção do design local representa um avanço imensurável para o Estado.
A premiação será no dia 03 de novembro, em Belo Horizonte. Para maiores informações sobre as inscrições, o regulamento e sobre o prêmio, acesse o site do Centro Minas Design. Aguarde mais informações por aqui mesmo e, durante a seleção das peças e da premiação, irei tentar transmitir tudo por aqui.
Existem várias discussões acadêmicas, e outras nem tanto, dos significados dos termos mais usado no design como marca, logomarca, logotipo, brand, brandmark, logotipia, etc. Muitos dizem que a marca é o conjunto dos valores de uma empresa, corporação, instituição, país, etc, e a logomarca seria a representação gráfica destes valores e por aí vai. Como vivemos em tempos do tal branding, resolvemos convencionar o uso de marca para representar tanto estes valores quanto sua representação gráfica. Esta discussão vai longe e, provavelmente, não chegará a lugar algum.
Mas não é essa a discussão que nos interessa no momento e sim como os países representam toda sua complexidade de valores, idéias, sentimentos e desejos através de uma simples logomarca, ou marca, ou logo, seja lá qual for a nomeclatura adequada. Aqui temos uma selação interessante de alguns países e de suas representações gráficas para tentar analisar através de sua iconografia como os países são vistos.
Como qualquer outra marca algumas estão velhas, paradas no tempo, sem movimento. Outras são vibrantes, contemporâneas, jovens mas a grande maioria empaca nos clichês de sua cultura e de suas tradições inventadas. Mas todas fazem parte de um esforço de construção de suas identidades através de ferramentas de design e comunicação, o que prova ainda mais que este é um caminho inevitavel a ser percorrido pelos países. Vamos as marcas:
A marca do Perú se conceitua em suas tradições pré-colombianas, desde as cores e formas utilizadas até os ícones – a escritura rupestre e a ave tipicamente tropical. É uma marca velha, que transmite valores antigos que subjetivamente nos remete a cenas de aventura e lazer. Certamente este é objetivo desta marca: tentar atrair turistas para seus sítios históricos e arqueológicos. E talvez esta seja o único grande diferencial que o país possa transmitir por agora.
Com as mesmas tradições pré-colombianas do Perú, o México também se baseia em alguns elementos que remetem a sua história e herança, mas com uma grande contemporaneidade ignorada pelo Perú. Talvez seja o uso de uma tipografia moderna e austera, que mesmo extremamente colorida e preenchida de simbolismos históricos, não a deixa velha. O não uso de ícones fora da tipografia também a deixa com um ar moderno. Bom exemplo da associação de elementos de sua tradição histórica e cultural com um grande tom atual. Representa bem a idéia de que o México, apesar de seu rico passado e de sua cultura secular, vive o seu tempo de forma vibrante e moderna. Ponto para o México.
Mais uma marca que se constrói a partir de seu legado histórico e cultural. O uso da técnica milenar do Sumiê para representar a alma japonesa foi um bom artifício de design, mas não apresenta uma Japão muito contemporâneo e extremamente tecnológico como o vemos. Provavemente o uso de uma caligrafia para a marca tenta mostrar que apesar do japão ser um país extremamente moderno, seus valores mais antigos ainda estão preservados, como um caloroso ‘Seja Bem Vindo ao Japão’ artesanal e paciente.
Marca enigmática esta. País de um riquíssimo legado histórico e cultural, terra de um dos maiores impérios já visto sobre a Terra, conhecido pela alta gastronomia e paisagens alucinantes, a Itália decidiu usar para representar graficamente seu país uma marca com uma tipografia totalmente sem personalidade, um ícone que provavelmente seja o mapa do país a um i que parece o ícone de informações turísticas. Não diz nada. Nem bonita é.
Outra marca que vai fundo no raso. A Irlanda é muito mais do que Leprechauns e cervejas sabor Café. Mas a marca não revela nada. As cores estão lá, junto com o ícone nacional, mas a idéia de uma um país distante e estranho é mais forte. Também nem bonita é.
Bom exemplo da tentativa de modernizar uma imagem desgastada por questões conflituosas como religião, ditadura, etc. A indonésia, maior nação mulçumana do planeta é, ao mesmo tempo, um grande centro turístico devido ao seu arquipélogo de praias paradisíacas e monumentos religiosos milenares. Mas, ao mesmo tempo, é uma das piores ditaduras baseadas em um monoteísmo assassino e com duras restrições a liberdade individual. Mas a marca Indonésia não mostra esse lado. Mostra um país festivo, alegre, colorido que ajudam a construir a imagem de uma nação feliz e receptiva. O interessante contraste de tipografias consegue realçar a tradição festiva e litorânea do país enquanto a usada no slogan demonstra um espírito contemporâneo. Sairam-se bem os indonésios.
A maior barreira que a imagem da Alemanha ainda não conseguiu transpor é de sua extrema racionalidade e frieza. Pesquisas feitas para mensurar a percepção da imagem da Alemanha produzida como substrato para um novo projeto de branding, personifica o país como um engenheiro de 40 anos, sério frio e um pouco mal humorado. A tentiva na trasnformação é mostrar uma Alemanha jovem, vibrante e moderna, uma terra não só de ótimos engenheiros mas também um lugar de idéias, de inspiração. Não sei se essa marca já é uma tentiva de representar esta nova plataforma, mas se for, certamente não conseguiram. A marca ainda continua dura e racional, mesmo com as tipografias arredondadas e orgânicas. O ícone parece mais uma nova marca de eletrodomésticos do que a de um país extremamente cool e inspirador. A alma germânica funcionalista, mesmo que seja um grande diferencial, ainda não conseguiu se desvencilhar da sua imagem nacional.
Essa já é um clássico. Toda a alma francesa está representada nesta marca. O agitação das noites parisienses, o espirítito iluminista e libertário, a metáfora da França como um mulher. Tá tudo lá. Um país certo de suas convicções e de seus valores. Uma marca forte para um país inesquecível. A marca da França é a representação de uma experiência.
Marca singela e suscinta. Toda a tradição milenar, que é a principal referência do Egito, é lembrada de forma quase prosáica na simbologia de um sol sendo amparada por mãos delicadas. Já a tipografia é moderna e elegante. Uma tipografia de seu tempo. Um contraste não muito harmônico esteticamente mas que consegue, de forma sútil, unir a tradição e modernidade.
Releitura da clássica maple leaf que é o ícone máximo do Canadá. Tipografias modernas e austeras deixam claro a idéia de contemporaneidade do país, sem nenhuma referência ao passado do país. Marca simples e eficaz, certificando a credibilidade que o país já possui a muito tempo.
O grande Império Britânico do século XVIII optou por uma marca quase juvenil para se apresentar ao mundo. Seguindo as premissas do Cool Britannia de Tony Blair, a marca tenta esboçar uma juventude latente, quase urgente, ao representar a bandeira como uma espécie de pintura de tons expressionistas. A tipografia austera tenta manter a seriedade britânica, mas a iconografia da bandeira mostra que a Inglaterra é uma jovem senhora. Conceitualemente tá tudo alí, bem representado e de acordo com os objetivos de branding do país e deixar a Inglaterra cada vez mais jovem, sendo um pólo que emana inspiração cultural. Mas podia ser mais bonitinha, mais, digamos, moderninha, hipster, cool.
Ao contrário do que dizem nos círculos do design brasilero, acho linda essa marca utilizada para a promoção do Brasil no exterior, desenhada por Kiko Farkas da Máquina Estúdio . Não é a marca do Governo Federal - esta sim horrível - e sim a promocional, muito usada pelo setor de turismo. A grande polêmica que envolveu o projeto desta marca, o que talvez a mitificou como uma marca controversa, é o pequeno detalhe da cor vermelha no canto esquerdo, associada ao PT, partido do presidente Lula que provavelmente foi o último a aprová-la. Na realidade nunca saberemos se é uma singela homenagem ao partido ou uma clássica imposição de ‘cliente’, mas que o vermelho não existe nas cores oficiais do Brasil, isso é um fato. No mais, o designer conseguiu criar uma marca contemporânea e jovem, que mostra um Brasil moderno e cool, o que é já uma vitória.
Esta acabou de sair do forno. Após anos de discussão, a contratação de Simon Anholt como consultor de branding e, claro, alguns milhões de dólares gastos, a Austrália apresenta sua nova identidade visual para o mundo. Mas, analisando bem superficialmente, nada de novo é apresentado. O sol implacável dos outbacks, as cores das terras e, claro, o ícone máximo – o canguru – nos diz que tudo continua o mesmo pelos lados de lá. Toda a efervescência cultural, política e econômica, a modernidade de suas cidades e de sua população foram esquecidades nesta nova fase do país. Não é por menos que polêmicas e mais polêmicas se instauraram no país após a divulgação de sua nova marca.
Elegante e quase feminina, a marca do Sri Lanka aposta na sutileza oriental para seduzir e tentar transmitir seus valores. A mão que segura uma delicada flor-de-lótus, simbolo máximo do país, transmite cuidado e receptividade. As tipografias serifadas, porém extremamente contemporâneas, sugerem um país zeloso dos seu passado e sua herança mas de olho no futuro. Marca bonita e eficiente.
Marca tão curiosa quanto a língua turca. Um dos primeiros países orientais de maioria mulçumana a se modernizarem e adotarem preceitos ocidenais, optou por uma marca que talvez represente aquilo que todos tem no seu imaginário quando se fala em Turquia: um país exótico, lindo, distante e misterioso. E a marca conseguiu transmitir essas idéias.
A coqueluxe dos designers. A austeridade e sobreidade personificada. Nenhuma marca é mais moderna do que ela. Suíca, a marca sinônimo de bom gosto, simplicidade e eficácia. Ninguém nunca conseguiu dizer tanto com tão pouco. A cruz vermelha suiça é reconhecida quase que automaticamente em todos os cantos do planeta como sinônimo de uma sociedade séria, bem organizada, justa, limpa e correta. Dificilmente outro país consiga ser tão coerente tanto na sua imagem quanto nas suas ações. Não precisa de mais comentários.
Artigo livremente inspirado daqui.
foto: osterno de souza
Existe um projeto circulando nas altas rodas dos que pensam a cidade São Paulo que, uma vez bem estruturado e planejado, pode ajudar a melhorar uma pouco a claustrofóbica imagem da São Paulo. A idéia é bem simples: tirar todos os muros dos luagres públicos da cidade como estações de trem, parques, Jóckey Club, USP, etc, com o objetivo de deixar a cidade respirar um pouco melhor, tornando-a mais transparente. A idéia é ousada, complexa e polêmica, mas uma forma interessante de transformar uma cidade baseada na fria racionalidade e no funcionalismo do transporte individual e na segurança particular em uma área de uso coletivo onde tudo pode ser visto e vivido.
As fotos que ilustram este post mostra uma simulação de como seria a Marginal Pinheiros sem o muro que separa a via expressa da raia olímpica. O contraste é absurdo, tornando uma região totalmente degradada que privilegia o transporte individual em uma área limpa e agradável. É até possível vislumbrar ali uma utópica ciclovia em plena Marginal Pinheiros.
As informações vieram do Twitter do ex-coordenador das sub-prefeituras de São Paulo Andrea Matarazzo. E as fotos vieram daqui.
foto/montagem:osterno de souza
Dois interessantes momentos do Brasil na mídia internacional que valem ser vistos/lidos e refletidos sobre a construção e a percepção da nossa imagem pelo mundo. O primeiro é o programa da BBC Fast Track in São Paulo, uma visão geral da cidade de São Paulo e sua comparação com o Rio de Janeiro, irmã mais pobre mas infinitamente mais bonita, segundo o apresentador Rajan Datan. O segundo é uma matéria na Forbes sobre as 10 cidades mais felizes do mundo, ranking baseado no índice Branding Cities Index 2009, produzido por Simon Anholt em parceria com GFK Custom Research.
No programa da BBC, o bem humorado apresentador apresenta uma São Paulo dinâmica, vibrante, coração pulsante da economia brasileira e comparada a grandes metrópoles como Nova York e Londres, a não ser por alguns pequenos detalhes: a sua ‘feiura’ e os altos índices de violência. Mesmo assim, Rajan tem uma boa impressão de São Paulo, graças principalmente a grande vida cultural paulistana e a lei Cidade Limpa, que baniu a publicidade na cidade o que, segundo o apresentador, compensa parcialmente o alto índice de poluição nas ruas de São Paulo. Fora os clichês típicos de um inglês em terras brasileiras, principalmente quando ele compara São Paulo com o Rio de Janiero, onde apenas as imagens de mulatas, festas, rodas-de-samba e futebol dominam a tela, o resultado é positivo para a cidade. Mas, infelizmente, a percepção das altas taxas do crime no Brasil ainda são as protagonistas no imaginário internacional.
Para assistir o vídeo da matéria da BBC, clique aqui.
Já na matéria da Forbes.com, a qualificação do Rio de Janeiro como a cidade com a população mais feliz do mundo mostra quanto é complexa a tentativa de mensurar os valores e as percepções da sociedade brasileira e, consequentemente, suas cidades.
Segundo Anholt, o inconsciente coletivo mundial associa o Rio de Janeiro ao bom humor, Ao estilo ‘bon vivant’ , o paradisíaco cenrário carioca e, obviamente, ao caranaval a clássica idéia de felicidade. Nem mesmo a violência latente da cidade consegue tirar a imagem de um carioca feliz. Mas o próprio Simon Anholt confessa que traços de felicidades não são o suficientes para deixar rastros na história de uma cidade ou país, ao contrário da economia e política, mas também concorda que é importante para as cidades que dependem do fluxo contínuo de turistas, imigração de talentos e convenções.
Ou seja, a imagem do Brasil continua a mesma: recheada de clichês, notas de violência, feiura e poluição, mas com toques de vanguardismos urbanísticos como a Cidade Limpa, mas ainda estruturada numa idéia de paraíso tropical com pessoas felizes independente da realidade contidiana. Isso talvez não seja de todo mal, mas não o suficiente para mostrar a potencialidade de um país continental.
Para ler a matéria completa da Forbes com as outras cidades além do Rio de Janeiro, clique aqui.
Muito tem se falado em Governo 2.0 e Public Diplomacy, conceitos novos que os governos estão adotando desesperadamente com a revolução que a internet e novas tecnologias de comunição na qual estamos vivendo. Aquele governo fechado, que esconde suas ações, criam e aprovam leis e acordos no silêncio da madrugada, sem a participação da sociedade, está cada vez mais fadada a virar artigo em livros de História. Com a adoção desses novos paradigmas, que tem como objetivos básicos promover o interesse nacional através da transparência, informação e, principalmente, da participação, os governos se aproximam cada vez da sociedade tentando assim construir uma sociedade mais justa. Mesmo que ainda seja o início de uma possível e longínqua transformação da democracia tal como a conhecemos hoje, vários setores da sociedade civil estão realmente engajados neste tema, pressionando os governos a se adaptarem aos novos tempos.
O maior exemplo recente deste envolvimento civil foi o Gov 2.0 Summit, um painel de discussões realizado em Washington, DC semana passada onde os CEO’s da maiores empresas de tecnologia e principais teóricos do assunto se encontraram para discutir a inevitável fusão das novas tecnologias com ações governamentais. Dia 29 de setembro outro importante seminário ‘Gov 2.0: The Collaborative Opportunities of Open Government‘, este via web, irá discutir as boas consequências sociais de um governo aberto à sociedade através das novas tecnologias. Ou seja, estamos entrando em uma via sem volta onde o uso de novas tecnologias e vários canais de comunicação com a sociedade será parte fundamental para se construir uma boa imagem dos países tanto para a sua população quanto para o exterior. O Estado que não conseguir se estabelecer dentros destes novos preceitos pode acabar sendo reconhecido como um governo pouco disposto ao diálogo e, na pior das hipóteses, de autoritário. Um bom exemplo deste conflito em terras brasileiras foi quando o governo Lula lançou o Blog do Planalto, um canal de informação oficial das ações do governo mas sem a possibilidade da sociedade interagir com os posts publicados, o que, por definicão, vai completamente contra os conceitos de transparência e participação do mundo 2.0. Tanto que foi necessário a criação de um clone do Blog do Planalto para a participação da sociedade.
Mas a grande surpresa dessa mobilização vem aqui mesmo do Brasil: a rede social Cidade Democrática, colaborando ainda mais para construção da imagem de um país criativo e inovador. O sistema funciona da seguinte forma: você se cadastra e começa a participar apontando problemas ou sugerindo soluções para sua rua, bairro, cidade, estado e até mesmo para o país. É um espaço para discussão de problemas locais, sem a participação do governo, para que a a própria sociedade discuta e desenvolva soluções para seus problemas se mobilizando e, consequentemente, pressionando o governo a olhar para pequenos problemas que, muitas vezes, não tem interesse político algum mas que afetam diretamente a vida das pessoas. É a própria sociedade discutindo seus problemas com o objetivo maior do bem comum, coletivo, utilizando um aplicativo brasileiro e colaborativo.
Uma boa atitude do governo seria acompanhar os projetos propostos no site e as discussões em torno dos problemas para se aproximar ainda mais da sociedade, já que esta não é a mesma que só se manifestava apenas nos dias de eleição. Uma sociedade criativamente perfeita seria aquela onde tanto o governo quanto sua população seriam 2.0. E isso talvez não esteja tão longe assim.
Para mais informações sobre Governo 2.0 e Public Diplomacy, veja um vídeo com Tim O’Reilly, criador do termo.
Logo pela manhã, eis que surge um ótimo exemplo da incoerência e da esquizofrenia que é a percepção da imagem do Brasil para o mundo, até mesmo nos círculos mais bem informados. Venture Beat é um site norte-americano especialziado em tecnologia e inovação. Desde as mais complexas tecnologias até os mais simples e revolucionários aplicativos para web são citados pelo site diariamente em forma de notícias. Em um artigo de 14 de setembro de 2009, o destaque do site foi para uma resenha do sistema de buscas brasileiro Busk, do qual a isotipo.labs é um usuário apaixonado. O texto, extremamente elogioso, coloca o sistema como um grande e possível concorrente ao gigante Google, devido a sua lógica de filtragem mais customizada e a possibilidade de compartilhar suas informações e seus bookmarks com seus amigos. A idéia de fato é revolucionária, mesclando o conceito de busca por palavra-chave com os agregadores de RSS, além de uma contrapartida social necessária onde cada busca realizada pelo sistema, 1g de alimento é doado para instituições de caridades.
A repercusão da notícia espalhada por um site deste porte coloca o Brasil em uma posição a muito tempo almejada: a de criadores de tecnologias altamente criativas e não apenas mais um produtor de commodities e mão-de-obra barata.
Até aí, ótimo. Ponto para o Brasil. E parabéns para o Busk pelo merecido destaque. O problema é que, fora casos isolados como este, a percepção brasileira ainda está enraizada em esteriótipos e clichês – mesmo que seja nos pequenos detalhes – que nada ajuda o Brasil a estabelecer uma imagem de sociedade criativa e de um país moderno.
No mesmo Venture Beat, um outro artigo da mesma data, 14 de setembro, faz uma precisa análise da presença das redes sociais no Brasil, principalmente a concorrência entre o Orkut e Google. Segundo o artigo, o gigante da Google ainda domina o público brasileiro com 22.7 milhões de usuários mas se estagna em sua posição enquanto o Facebook, nos módicos 1.3 milhão de usuários, cresce vertiginosamente. É uma questão de tempo para o Facebook tomar o lugar do Orkut. Mas não é o artigo em si que nos interessa, apesar de valer a leitura, e sim um pequeno detalhe ao lado direito do texto que provavelmente passará desapercebido por grande parte dos leitores: a prosáica foto de uma ‘mulata’, (des) vestida de plumas de pavões e faisões reais em pleno desfile de uma escola de samba qualquer.
Simon Anholt, consultor de Nation Branding inglês, criador dos termos Nation Branding, Public Diplomacy, Identidade Competitiva entre outros, pioneiro na pesquisa teórica e acadêmica sobre o assunto e autor grandes projetos de construção de imagens das nações em vários países em todos os continentes, divulga em seu site uma ferramenta interessante onde se observa como os países e cidades veem e são vistos por seus pares no cenário internacional. Baseado em uma pesquisa muito mais completa e abrangente, o Nation Branding Index, relatório anual desenvolvido em parceria com a empresa de consultoria GfK Custom Research, onde a partir de 6 itens básicos (população, produtos, governança, turismo, cultura, imigração e investimentos) é possível mensurar a imagem projetada destes países (apenas 50 pesquisados) para seus parceiros e ‘concorrentes’ mundiais. Este ranking é usado como balisador para governos analisarem sua auto-imagem e iniciarem o desenvolvimento de projetos de reconstrução de suas imagens.
O aplicativo disponível no site de Simon Anholt possibilita uma prévia dos resultados deste relatório anual onde é possível cruzar dados entre países em cada uma das 6 categorias utilizadas como metodologia da pesquisa. O resultado é apresentado apenas em números, sem nenhuma análise do resultado. Para esta informação é preciso ter acesso ao relatório completo produzido pelo consultor.
Funciona assim: você escolhe um país ou cidade para ser classificada e outro país que o classifica, por exemplo: no quesito cultura, o Reino Unido classica o Brasil no 17º lugar num total de 50, já o Brasil tem uma percepção da cultura inglesa de 9º lugar num total de 50 países.
Sem a profundidade merecida para argumentar estes resultados – citando apenas que 20 mil pessoas foram ouvidas em 20 países para a geração destes resultados, mas confiando na credibilidade de Anholt – a ferramenta é um divertida experiência onde é possível, mesmo que seja por alto, enxergar como os países e cidades são vistos pelos olhos de seus ‘concorrentes’.
Para acessar a ferramenta, clique aqui.
Istambul sempre inspirou e instigou o imaginário da humanidade, desde quando ainda era Constantinopla, centro cultural e religioso do mundo daquele período, além de ponte para as rotas comerciais que ligavam o oriente ao ocidente. A queda de Constantinopla, em 1453, quando o império romando no oriente foi destruído e se estabeleceu o Império Otomano, é considerado por muitos historiadores como o fim de fato da Idade Média na Europa e uma de suas principais consequências seria a procura pelos navegadores espanhois e portugueses por uma rota alternativa ao oriente, culminando assim na “descoberta” das américas. Até mesmo o arquiteto franco-suíço Le Corbusier, no seu relato A Viagem do Oriente, diário de viagem redigido em 1911 pelo então jovem estudante de artes, afirma que sua viagem por Istambul foi seminal para a sua formação pessoal e profissional.
Hoje a Turquia é um dos únicos países de maioria mulçamana que mantém um governo secular e laico e que cada vez mais tem se aproximado do ocidente, mas sem deixar suas tradições milenares de lado, e Istambul é o maior espelho dessas transformações. A cidade é considerada umas das mais vibrantes atualmente, tanto pela sua cultura quanto para os negócios. Apesar de sua inegável modernização, a cidade ainda faz parte de um país pobre e que sua exuberante modernidade contrasta radicalmente com o arcaico e quase medieval interior turco. Talvez essa seja um dos grandes entraves na compelxa discussão do país para integrar a União Européia, que acontece desde 2005 e tem como principais opositores a Áustria e a França.
Mas se depender da imagem que a Turquia está emanando para o mundo, talvez esse cenário se transforme. Em novembro de 2009, o projeto de discussão e investigação sobre o futuro das cidades, o Urban Age, organizado pela London School of Economics e pelo Deutsche Bank’s Alfred Herrhausen Society, realizou a conferência em Istambul: A Cidade das Interseções, sobre os desafios e o futuro da 5ª maior cidade do planeta. Durante 3 dias, os principais pensadores sobre urbanismo, sociedade e cidades se reuniram para discutir as possibilidades, os desafios, e, principalmente, o momento de profunda transformação que a cidade está vivendo. Saskia Sassen, professora de Sociologia da Universidade de Columbia e criadora do conceito de Cidade Global, uma das convidadas mais ilustres do evento, afirma que o momento que a cidade vive atualmente é um dos mais importantes e promissores em seus quase 3 mil anos de história, e que basta apenas que os governantes saibam aproveitar da face positiva da inevitável globalização. A revista inglesa Monocle produziu um belo resumo da conferência, que pode ser assistido em vídeo pelo seu site. O relatório final e maiores inofrmações sobre a conferência está disponível para download no site do projeto.
E parece que o governo local está tentando aproveitar esse movimento positivo. Istambul foi escolhida pela União Européia como a Capital da Europa da Cultura de 2010, um grande esforço de Public Diplomacy onde a cidade se transforma no foco da atenção mundial, tanto para as questões culturais quanto para a posibilidade de se estabelecer negócios e parcerias internacionais. Para isso, Istambul desenvolveu várias ações de divulgação e consolidação da sua imagem nacional, tudo dentro de um sólido conceito: Istambul Inspirations. A marca, uma feliz mistura de elementos clássicos a uma estrutura contemporânea, mostra claramente essa peculiar dualidade ocidente/oriente, o que torna a cidade única e mágica. Abaixo, um vídeo sobre as inspirações que a cidade exerce sobre o imaginário coletivo, desde suas clássicas mesquitas e belas imagens do canal do Bósforo, mas claro, sem esquecer os tais elementos contemporâneos o que torna a cidade mais interessante ainda.
Interessante o projeto de rebranding da cidade de Melbourne, Austrália, lançado este ano. Mais do que a criação de um novo logo que substitui o antigo – em uso por mais de 15 anos – o novo projeto tem como objetivo re-apresentar a cidade para o cenário internacional como um lugar vibrante, moderno e inovador tanto para o turismo e negócios internacionais como para restabelecer a auto-estima de sua população. Para isso, contratou a gigante Landor para a tarefa. O resultado é uma identidade extremamente contemporânea, vibrante e jovem, carregada de idéias modernas, de uma cidade rica, internacional criativa e aberta a diversidade cultural. A idéia do conselho curador é que esta marca dure bem mais do que a anteior, apesar que tanta contemporaneidade pode comprometer sua longevidade, caso não exista coerência e comprometimento do governo local em manter os valores inseridos na marca como um projeto de construção a longo prazo e não apenas uma ação da atual gestão.
Com um custo aproximado em $ 210.000, o projeto desenvolvido pela Landor não contempla apenas o novo logo e suas derivações e sim todo um plano estratégico de construção de marca baseado nos novos conceitos de Governança 2.0 e Public Diplomacy. Junto com a nova identidade foi lançado também um belo site extremamente completo, onde desde informações sobre taxas e impostos, passando por oportunidades de negócios e emprego, informações para turistas até políticas para o incetivo de street art, tudo em 9 línguas, afirmando ainda mais a idéia de cidade globalizada e aberta ao diálogo internacional.
Apesar de vários protestos de pequenos grupos locais que afirmam que a nova identidade de Melbourne não passa de uma mudança coméstica e que o valor gasto deveria ser investido em questões sociais emergenciais, a inicativa de rebranding da cidade mostra a capacidade do governo local de vislumbrar que a necessidade da aproximação com a sociedade local e internacional através de uma comunicação eficiente, transparente e contemporânea é a base para uma nova democracia e que,
inevitavelmente, atrairá novos investimentos em forma de turismo, negócios, profissionais qualificados, etc. Talvez o retorno deste investimento em desenvolvimento social e econômico não venha tão rapidamente como estes pequenos grupos contrários a idéia esperavam, mas, certamente, quando vier, será bem mais sustentável e eficiente.
Uma pequena crítica: para que o conceito de GOV 2.0 e Public Diplomacy fosse mais explorado, faltou algum tipo de canal interartivo com a população, seja em forma de comentários em seções específicas do site ou de sugestões de uso do recurso público. Talvez isso tornasse esta mudança menos coméstica e mais efetiva.
Abaixo, o motion design da nova identidade da cidade de Melbourne, produzida pela Landor Associates.
Tim O’Reilly, o jornalista que cunhou o termo Web 2.0, também é o responsável pela nomeclatura que define todas as transformações que os governos estão passando após o inveitável advento da tecnologia.
Neste vídeo, gentilmente traduzido para o português pela WebCitzen, Tim explica como esse novo conceito de governança e transparência é a nova vedete entre os principais líderes mundiais. Vale a pena assistir e acompanhar essa revolução pela qual a democracia passa.
O escritório de consultoria em Nation Branding, East West Communications publicou este mês o East West Global Index 2009, o primeiro ranking global de Nation Branding que abrange os 192 países reconhecidos pela ONU mais 8 territórios autônomos. Até então, existia apenas o índice Anholt-GFK, ranking produzido pelo consultor Simon Anholt, pioneiro no tema Nation Branding, que, a partir dos critérios como população, governança, exportações, turismo, cultura, investimentos e migração, classifca os 50 países com a melhor imagem e percepção fora de seu território.
Desenvolvido a partir de uma metodologia complexa e até mesmo questionável, o índice avalia a imagem internacional dos países e como são vistos pela mídia internacional. Entre abril e junho de 2008, a East West Communications analisou mais de 5 milhões de menções nos 38 maiores sites de buscas de todo o mundo.
Segundo o ranking, dos 10 primeiros colocados, apenas quatro são países ocidentais (Austrália em 5º, Mônaco em 8º, Canadá em 9º e Reino Unido em 10º lugar). Os primeiros lugares ficaram com Cingapura, Honk Kong, Malásia, Taiwan, seguido por Emirados Árabes e Qatar, todos países em pleno crescimento econômico. Segundo o método utilizado pela East West Communications, os países asiáticos são os que tem a melhor representação na mídia internacional, onde temas como crescimento econômico, liberalização comercial, turismo, arquitetura, planejamento urbano são mais citados do que corrupção, violência, emigração, desrespeito aos direitos humanos entre outros tão caros aos países como Afeganistão e Iraque, respectivamente penúltimo e último lugar no ranking.
Já o Brasil figura surpreendentemente na 17ª posição, a frente da Finlândia, Alemanha, Suiça, e grande maioria dos países da União Européia e Estados Unidos, que se posiciona na 37ª posição. Mesmo sem esforço nenhum de Nation Branding e com casos de corrupção e violência que atravessam oceanos, o Brasil ainda consegue manter sua imagem de paraíso tropical, terra do carnaval e do samba para o mundo, que muitas vezes só atrai um turismo predador e investimentos especulativos. Mas a chance do Brasil reconstruir sua marca de um país moderno, global, rico tanto em cultura como em capacidade produtiva depende apenas de um planejamento real e a longo prazo de consolidação de uma construção de marca eficiente e que fuja dos esteriótipos tão comuns a nossa imagem.
Para ver o ranking completo e saber mais sobre a metodologia usada, acesse o site da East West Communications.
O jovem designer baseado em Honk Kong Toby Ng desenvolveu uma série de 20 posters para tentar explicar, estatisticamente, como é o mundo em que vivemos atualmente. Como o planeta é um sistema complexo de números e dados, Toby o resumiu em uma versão fictícia onde nosso mundo seria uma vila com 100 habitantes. O resultado são estes lindos posters que explica de forma direta e simples este caos cultural que é o Planeta Terra. Cada vez mais designers se juntam a estátisticos e matemáticos para tentar tornar mais palatável, acessível e interessante os chatos e indecifráveis gráficos, dados e planilhas que assombram a vida de leigos. É a era da Aesthetics Information, movimento que cresce a cada dia, formando uma nova geração de Information Desginers.
Mais imagens dos posters de Toby Ng.
O prédio mais alto do mundo, o Burj Dubai em Dubai, Emirados Árabes Unidos, está prestes a ser concluído nos altos de seus 518 metros já construídos e na especativa que chegue aos
800 metros ao final das obras, previstas para setembro de 2009. Ficando atrás apenas do The Chicago Spire, projeto do arquiteto espanhol Santiago Calatrava, a torre foi projetada pelo arquiteto norte-americano Adrian Smith e criada para ser um marco na arquitetura mundial ao desafiar questões estruturais e financeiras estratosféricas, o edifício, localizado em uma região com mais de 2 km², será a grande estrela do emirado, que cada vez mais tenta chamar a atenção do mundo para suas obras faraônicas de alto investimento direto do governo de Dubai. Investimento esse que tem como retorno a imagem de um veradeiro oásis no meio de uma região desértica e árida como é o Oriente Médio.
Dubai é uma rara excessão na região, já que sua economia não se baseia exclusivamente na extração do petróleo, que corresponde apenas a 5,1% da fonte de riqueza local, mas nos investmentos gerados a partir de uma política econômica extremamente liberal, como a Zona Franca de Jebel Ali, o 13º maior porto do mundo, e aos grandes incetivos fiscais e comerciais cedidos as empresas globais que se instalaram em Dubai.
Assim que concluído, seus primeiros 37 andares serão decorados por Giorgio Armani e também o primeiro hotel da grife no mundo. Fincado no meio do deserto, o Burj Dubai atrairá ainda mais os olhos do mundo para a cidade, que cada vez mais cresce no mapa dos grandes mercados de luxo global.
Abaixo, mais fotos do projeto e para ver (e ler) mais sobre o Burj Dubai, clique aqui .
Em época de Olimpíadas, nunca o foco esteve tão direcionado para a China como agora, o gigante asiático que cresce a passadas largas baseado em um modelo político-econômico controverso, onde o controle da sociedade e dos meios de produção é a chave para o crescimento vertiginoso.
Mas, o que é essa China que tanto lemos e vemos sobre? Sua poluição descontrolada, seus novos-ricos cada vez mais vorazes, sua fome insaciável pelo desenvolvimento a qualquer custo e que ameaça gigantes antes intocados com Estados Unidos e União Européia? Que imagem tem essa nova China, que a pouco mais de 50 anos milhões de pessoas morreram de fome em prol do discurso de revolução cultural coletivista e que hoje, a fusão de um Estado comunista, reacionário e ditatorial mas baseadas em doutrinas de um capitalismo extremamente agressivo e predador, cria um mosaico extremamente ambíguo em um mundo onde a postura do politicamente correto, mesmo que só na retórica, é a tônica de vez. O que significa Made in China hoje no mercado global de marcas e países?
Atualmente o termo Made in China já não tem a mesma reação negativa como tempos atrás. A China do século XXI possui uma excelência industrial e tecnológica que mantém a qualidade exigida pelos consumidores globais. Made in China está muito mais associado a um produto de baixo preço do que necessariamente de baixa qualidade, apesar dos artigos de 1,99 ainda lutarem contra essa tendência. Para um hiperconsumidor, para citar Gilles Lipovetsky, a procedência de um produto não é mais um determinante de qualidade desse produto, e sim a marca que este produto carrega.
Então é insignifcante para um hiperconsumidor se uma bolsa ou um tênis foram produzidos na China ou Indonésia se tiverem a chancela de uma Louis Vuitton ou Nike. Ótimo então para as grandes marcas, que procuram sempre um pólo industrial de mão-de-obra barata e que consigam produzir em escala global. Mas o quanto de fato é interessante para a China esta atuação meramente coadjuvante de produtora em um mercado global cada vez mais competitivo? Até mesmo a China terceriza sua produção em países com mão-de-obra ainda mais baratas, como a Indonésia, Vietnã, Bangladesh, Tailândia. A reviravolta da China é tentar virar um pólo não só de produçãoo barata de grandes empresas ocidentais e sim de estabelecer um padrão de qualidade para seus próprios produtos e serviços, assim como fez o Japão pouco mais de 20 anos. Estabelecer então o que vários teóricos chamam de COO (Country of Origin) para sua produção é um dos maiores desafios que a China enfrenta para tentar mudar sua imagem de vilão sem escrúpulos no mercado global.
Para a China não é o suficente produzir em série quase toda a produção mundial e ser reconhecida como um país que passa por cima de qualquer preceito de direitos civis, humanos, ambientais e comerciais. Atitudes de dumping, violações de direitos humanos, desprezo pelo meio-ambiente, censura, controle da mídia entre outras “pequenos pecados ocidentais” ainda são mais visíveis do que a alta tecnologia chinesa para construção de edifícios e seu avanço na nanotecnologia.
E as Olímpiadas de 2008 parece ser o melhor palco para que essa mudança de imagem possa acontecer. Mas depende muito mais de ações concretas do país do que apenas transformações comésticas. Ainda está longe o dia onde pegaremos um produto com o selo Made in China e automaticamente iremos associar a uma imagem de qualidade inquestionável. Até lá, Made In China ainda vai nos remeter a imagens ambíguas de artificialidade e crescimento descontrolado.
Profile
Summary
Experience
- Oct 2008 - PresentPartner / Creative Director / Polar StudioPr Branding + Design + Content
- Jul 2006 - PresentResearcher / Isotipo.LabsResearch and thinking for academics, authorial and experimental projects on branding nation, global cities, design cities discussions, urban spaces, international issues and design.
- Mar 2012 - PresentTeacher / Centro Universitário Belas Artes de São PauloTeaching 'Nation Branding, Place Branding and Territorial Marketing' short course. http://bit.ly/yZjGWO
- Oct 2008 - PresentEditor / TimeSheet MagazineA electronic magazine about art, design, photography, typography, illustration, etc
- Sept 2010 - PresentCreative Director / 55/BrandsThinking, planning and creating an innovating branding projects.
- Feb 2007 - PresentDesigner / G2 BrasilWork in identity materials for help global brands building their image.
- Jul 2006 - PresentDesigner / Tempo DesignDevelopment and graphic project with Ricardo Van Steen for MGUIA Fashion Magazine and Triton Trade Newspaper.
- Jan 2006 - PresentDesigner / Giovanni + DRAFTFCBWorked on branding development for a new identity for Kaiser Beer.
- Aug 2002 - PresentDesigner / F/Nazca Saatchi & SaatchiWorked with POP materials development for brands liked Inbev (Skol, Brahma, Carlsberg), Rainha, Unibanco, SOS Mata Atlântica among others.
- Mar 2002 - PresentWeb Designer Substitute / Lapis RaroWeb Designer substitute to build web sites for companies like Motel Green Park, Banco Mercantil do Brasil, among others.
- Mar 1997 - PresentDesigner / Voltz DesignWorked with development of graphic and electronic materials for cultural and fashion industries like Ronaldo Fraga, FID - Festival Internacional de Teatro, Festival de Música Avançada Eletronika, Motor Music products like flyers, cd covers, posters, store identity, Lei Básica among others.
- Mar 1995 - PresentProducer and designer / Estado de Minas S/AWorked with translation for offline to online version of Minas Gerais biggest newspaper. Production, copywrite and implementation for a first regional online radio.
Education
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2011 - 2011HUB Escola de InvernoShort Course in MetaDesign and Future City: Sustainability, Culture and TechnologyActivities: Urban Planning, Urban Thinking, Design Thinking
-
2011 - 2011Rede CEMECShort Course in Creative Cities: Economy and Culture in Urban SpaceActivities: Urban Planning, Urban Thinking, Place Branding
-
2010 - 2010Centro Universitário Mariantônia • USPShort Course in Vilém Flusser: arte, técnica e atualidadeActivities: Seminar about the work of Czech-born philosopher Vilém Flusser and his reflections on the image technique, philosophy of design, communication and photography, as well as discussions on post-history and language and reality.
-
2002 - 2009Belas Artes de São PauloBachelor in International Relations
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2008 - 2008Oficina Tipográfica São PauloSeminar in TypographyActivities: Basics on Manual Typographic
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1995 - 1999Graphic DesignGraphic and Industrial Design
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1997 - 1997IBM São PauloSeminar in NET COMMERCEActivities: Practices on IBM Net Commerce Tool, to develop systems to web commerce.
Additional Information
Updates
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oficinas e cursos | oficina municipal http://t.co/7DIDL0SP
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Criador de raking dos países afirma que imagem do Brasil pode piorar depois da Copa http://t.co/rObJJgaY
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Liquid Brand Exchange » Naibu http://t.co/GMEkl4a6
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Design Thinking, inovação em negócios. Baixe o PDF gratuitamente e aprenda maneiras de inovar na sua empresa http://t.co/BoHRNIGL
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Entre os dias 02 e 16 de abril vou dar um curso livre de Place Branding e Identidade Cultural na faculdade Belas Artes.…http://t.co/9wniVGs4
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E que tudo va pro inferno (@ Filial) http://t.co/fBnw7OZ4
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@runeroniek eae ladrãozinho? fugiu mesmo com os nossos 500 reais, né. tsc tsc tsc. que feio !!!!!2 months ago from web | Reply, Retweet, Favorite
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@runeroniek E aí. Luiz? Esqueceu da gente? Não vai mesmo honrar com a sua palavra? é isso mesmo?7 months ago from web | Reply, Retweet, Favorite
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testes do #hajasaude acontendendo agora em Lins de Vasconcelos, Rio de Janeiro @visaomundial_br7 months ago from web | Reply, Retweet, Favorite
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@runeroniek E aí Luiz? E o nosso depósito? Já foi feito? Vc sumiu novamente. Não respondeu meus e-mails. Aguardo seu retorno.8 months ago from web | Reply, Retweet, Favorite
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I'm at SESC Pompéia (R. Clélia, 93, São Paulo) http://t.co/NrJ6obQv
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Rooibos peppermint lemonade @ The Gourmet Tea http://t.co/X3bnhMeC
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E então @runeroniek. Precisamos do seu retorno. Pf, responda nossos e-mails e veja se vc realmente vai conseguir cumprir o nosso compromisso8 months ago from web | Reply, Retweet, Favorite
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I'm at Polar Studio (Rua Mateus Grou, 57/172, Pinheiros, São Paulo) http://4sq.com/oRwvdP
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I'm at House of Sneakers (Rua Harmonia, 446, São Paulo) http://4sq.com/oSbGfJ
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Miranda July - The Future: http://t.co/pHRJkEg
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Copa pode expor realidade e prejudicar imagem do Brasil, diz criador de ranking http://t.co/wrbbQG0
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Le Blon [1969] by {u'mbid': u'68949c00-ab33-47e3-85cf-20b752274654', u'#text': u'The City Of Westminster String Band'}3 years ago
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