25 anos, São Paulo.
“The Philadelphia Story”, de 1940, é o último de quatro filmes que Cary Grant e Katharine Hepburn fariam juntos. Curiosamente, foi o maior sucesso dos dois e o que livrou Katharine Hepburn da fama de veneno de bilheteria. Dirigidos novamente por George Cukor (de “Sylvia Scarlett” e, um dos meus favoritos, “Holiday”) o elenco conta também com James Stewart, aparentemente deslocado, mas, por isso mesmo, excelente.
O filme se passa nos dias que antecedem o segundo casamento da socialite Tracy (Hepburn), quando não bastando a falta de carisma e charme do noivo, tudo se complica um pouco mais com a chegada de seu ex-marido Dexter (Grant) e um repórter de tablóide, Mike (Stewart). Mike, na verdade, é um escritor digno, mas precisa trabalhar onde trabalha para poder se sustentar, muito diferente de Tracy que vive em extrema riqueza. Tracy, por sua vez, não consegue admitir as fraquezas dos outros e exige uma conduta irrepreensível de cada um. Foi justamente por isso que ela se separou de Dexter.
Há em “The Philadelphia Story” uma certa temática de arrogância. Mike acha que Tracy leva uma vida privilegiada na alta sociedade, enquanto que Tracy acha que Mike é um esnobe intelectual. Apenas Dexter está pronto para aceitar as pessoas como elas realmente são, com falhas, preconceitos e tudo. E, apenas quando Tracy percebe que ela mesma é humana e que não está livre de cometer erros, é que ela pode compreender Dexter e voltar para o seu verdadeiro amor.
O filme todo parece orquestrado pelo personagem de Cary Grant, como se tudo acabasse exatamente da forma que ele queria, mas trata-se, na verdade, de um amadurecimento; Tracy realmente aprende a amar como deveria e isso só ocorre com algum sofrimento.
Uma curiosidade, Cary Grant doou todo o seu cachê deste filme para a British War Relief Society, uma organização humanitária com base nos Estados Unidos que enviava roupas, alimentos e remédios às pessoas na Grã-Bretanha durante a Segunda Guerra.
Fui ensinada a não escrever críticas na primeira pessoa, mas discordo da regra. Além de ser impossível escrever sobre algo que vivenciamos subjetivamente de forma totalmente objetiva, acredito que falar de certas experiências pessoais ao ver um filme facilita a compreensão do próprio. Uma resenha é mais útil quando o crítico, em vez de simplesmente descrever a ficha técnica e a sinopse, admite que dormiu durante o filme todo, pois assim sabemos que o filme ao menos tem potencial soporífico.
Pois bem, eu não dormi durante “The Howards of Virginia”, mas resolvi aparar as unhas enquanto assistia. Das duas uma, ou sou uma péssima profissional e não dedico atenção suficiente à obra ou a minha falta de atenção já é justamente parte da crítica. Se o filme fosse bom, eu seria capaz de matar qualquer um que me atrapalhasse, mas como não era o caso, fui percebendo ao longo do filme que minhas unhas estavam muito longas e que isso é ruim em tempos de telas touch-screen. O comprimento das minhas unhas está bem melhor agora, obrigada.
“The Howards of Virginia”, de 1940, é um filme de época, passado um pouco antes e durante a guerra de independência dos Estados Unidos. Baseado em um romance, há muitos letreiros informando dos acontecimentos históricos e pouca adaptação cinematográfica de cada um desses eventos, o que torna o filme um pouco decepcionante. Há uma guerra acontecendo, mas vemos pouco ou quase nada dela. Perto do final, o filme parece tomar um rumo trágico um tanto previsível, com direito até a sonho premonitório, mas tudo acaba duvidosamente bem, e até agora não sei se isso é bom ou não. Fracasso de bilheteria, “The Howards of Virginia” fez com que Cary Grant nunca mais aceitasse fazer outro filme de época. Ele abriu uma exceção para “The Pride and the Passion”, em 1957, com Sofia Loren, porque estava completamente apaixonado por ela. Este também fracassou, mas pelo menos tinha a Sofia Loren.
Escrito por Leo McCarey, “My Favorite Wife”, de 1940, tenta repetir o sucesso de “The Awful Truth”, reunindo novamente Cary Grant e Irene Dunne. Desaparecida por sete anos e declarada morta em um naufrágio, Ellen (Irene Dunne) retorna à casa para reencontrar os filhos que já não se recordam dela e seu marido Nick (Cary Grant) recém-casado com outra mulher.
É difícil assistir ao filme sem lembrar da tentativa de refilmagem feita em 1962, com Marilyn Monroe e Dean Martin, “Something’s Got to Give”. O filme foi o último de Marilyn Monroe e, apesar de não ter sido concluído, há algumas cenas muito bonitas disponíveis no documentário “Marilyn Monroe: The Final Days”. Nestas cenas, há na atuação de Marilyn Monroe uma tristeza que não existe na performance de Irene Dunne; a tristeza de uma mulher completamente deslocada, quase que expulsa da própria vida, misturada a uma doçura de quem poderia ser aceita novamente sem qualquer tipo de rancor - tais traços combinados formavam uma espécie de benevolência que era característica dela, evidente ainda mais em “The Misfits”, de John Huston. Irene Dunne é, sem dúvida, uma grande atriz, tecnicamente melhor do que Marilyn Monroe, é claro, mas havia em Marilyn uma vulnerabilidade que a tornava realmente memorável.
Em “My Favorite Wife”, Cary Grant cumpre uma função parecida com a de “Bringing Up Baby”; ele fica, por uma grande parte do tempo, sem jeito e sem palavras, apenas reagindo aos esquemas de Irene Dunne para forçá-lo a contar a verdade para a atual esposa. É mais fácil (e mais agradável) acreditar em um Cary Grant mais ativo, mais esperto. Apesar dele ser adorável de qualquer forma, ele é ainda mais encantador quando dá sinais, dos mais sutis aos mais evidentes, de seus sentimentos e torna-se mais decidido, menos confuso.
No filme está também Randolph Scott, como o companheiro de Irene Dunne nos sete anos em que ela ficou presa em uma ilha deserta, o que alimenta o ciúmes e a confusão temporária de Cary Grant. É estranho observar os dois em cena pois muitos são os rumores entre Randolph Scott e Cary Grant. Fato é que eles moraram juntos por anos. Alguns afirmam que eles mantinham relações sexuais, outros dizem que isso é um absurdo. Se eram apenas amigos ou não, o próprio Cary Grant, em entrevista com Peter Bogdanovich, disse que não tinha nada contra os gays, mas que ele simplesmente não era um deles - algo que me faz pensar no episódio de Seinfeld em que suspeitam de sua amizade com George.
Em alguns casos, os rumores se confirmam e se tornam fatos concretos, como com Rock Hudson, por exemplo. Em outros, permanecem apenas como rumores. Há, é claro, uma tendência de transformar tudo aquilo que é admirável ou simples em algo corrupto, complexo, como acusar John Wayne de racista ou xenofóbico (e não, ele não era).
Em “Kill Bill Vol.2”, quando Bill surpreende a Noiva no ensaio de seu casamento e pede para conhecer seu futuro marido, dizendo “eu gosto de saber com quem minhas garotas se casam” é em referência ao filme dirigido por Howard Hawks, “His Girl Friday”, de 1940. Esta não é a única similaridade. Rosalind Russell é Hildy, uma jornalista talentosa atrás de uma nova vida, longe do jornalismo e do seu ex-chefe (e ex-marido) Walter, interpretado por Cary Grant. Para tal, ela planeja se casar com Bruce, personagem de Ralph Bellamy (ele de novo), e se mudar para Albany, onde poderá cuidar das tarefas domésticas do lar e ter bebês. Mas, ao saber do casamento, Walter faz de tudo para atrapalhar o relacionamento de Hildy com Bruce e, ao mesmo tempo, seduzi-la de volta ao jornalismo, sua verdadeira paixão.
Em “Kill Bill”, a personagem da Uma Thurman foge para viver como uma pessoa comum e não uma exímia matadora de aluguel, mas Bill faz com que ela reconheça sua verdadeira essência ao abraçar a vingança que ele mesmo provocou. Tal vingança prova que ele estava certo, ela jamais poderia se casar com Tommy e trabalhar em sua loja de discos como uma qualquer; ela era, de fato, uma assassina por natureza e jamais poderia fugir disso. Em “His Girl Friday”, Walter faz com que Hildy cubra uma última história para o jornal, o que provoca uma série de situações que permitem com que seu verdadeiro talento se manifeste e, assim, eles acabam se aproximando; porque são, afinal, irremediavelmente iguais.
Howard Hawks fez “His Girl Friday” para tentar superar “The Awful Truth” do Leo McCarey. É, sem dúvida alguma, um filme maravilhoso, mas eu ainda prefiro “The Awful Truth”. A situação é parecida; uma mulher que precisa basicamente escolher entre o Cary Grant e o Ralph Bellamy. Um representa uma vida divertida, agitada, até perigosa; o outro representa a calma, a inocência, uma vida acomodada. Há em “His Girl Friday”, porém, mais forte do que em “The Awful Truth”, a questão da natureza da mulher em particular. Rosalind Russell é naturalmente um “homem da imprensa” (seu papel era, na peça que deu origem ao filme, masculino) e por mais que ela deseje calma e acomodação, sua personalidade simplesmente não permite tal circunstância; ela precisa estar onde está a notícia, ela precisa fazer parte dela. Ela não pode negar a própria natureza, ela tem de escolher o Cary Grant.
Hildy é uma mulher forte, mas crível, como não se vê nos filmes atuais. No final do filme, quando Walter se despede dela e, depois, atende o telefonema de Bruce, preso pela terceira vez graças às tramóias de Walter, ela começa a chorar - não porque suas chances com Bruce foram mesmo arruinadas, mas porque ela tinha pensado que Walter estava mesmo se despedindo dela e que não tinha mais nada planejado para atrapalhar seu casamento com Bruce. É a primeira vez que Walter vê Hildy chorando, e gosto de imaginar que tenha sido a única.
Agora sim. George Cukor, Katharine Hepburn e Cary Grant se reúnem novamente em “Holiday”, de 1938, e o resultado é muito, mas muito melhor do que o obtido com “Sylvia Scarlett”. Distribuído no Brasil sob o título peculiar de “Boêmio Encantador”, Cary Grant interpreta Johnny, um homem de origens pobres, mas que trabalha desde os dez anos com o intuito de se aposentar aos trinta para assim aproveitar a vida enquanto ainda é jovem. Durante as primeiras férias de sua vida, ele se apaixona por Julia e pretende se casar com ela. Mas, retornando das férias, ele descobre que ela é extremamente rica e que ela, contrariando seus desejos, tem planos específicos para a sua carreira. Se sentindo deslocado na mansão de Julia, Johnny logo se identifica com sua irmã Linda, interpretada por Katharine Hepburn, que se apresenta como a ovelha negra da família.
Linda é uma artista frustrada pelo pai, um banqueiro que vive conforme os padrões da alta sociedade. Ela não vai à igreja aos domingos, detesta as grandes festas que o pai promove, e é famosa pelo seu temperamento difícil. Seu irmão Ned também vive infeliz sob as regras do pai. Com um dom natural para a música, mas forçado a abandonar sua paixão, ele se entrega ao alcoolismo para esquecer seus pesares. Apenas Julia parece contente com o modo de vida que seu pai conquistou para sua família e ela exigirá o mesmo de Johnny. Johnny, por sua vez, é completamente franco, diz que não vê sentido em ter muito dinheiro, apenas o suficiente para viver, chama a mansão de quatro andares da família de museu e, sempre que se sente nervoso, dá uma pirueta ou uma cambalhota. Linda compreende Johnny como ninguém e logo se apaixona por ele, mas teme, é claro, atrapalhar o casamento de sua irmã.
“Holiday” é um filme bonito, com um amor proibido tão angustiante (e tão compreensível), mas que trata principalmente das escolhas que fazemos em vida, se optamos por perseguir nossas paixões, por mais inseguras que sejam, ou se optamos por nos acomodar em um modo de vida mais estável e conformado. Para ambas escolhas, há conseqüências; as dificuldades de se conseguir prover a vida que desejamos para nós mesmos ou, então, o peso de carregar diariamente todos os nossos anseios frustrados e ter de conviver com eles. O filme não diz que uma escolha é certa e a outra é errada; Julia faz a que melhor lhe cabe. Linda faz a sua (e ela escolhe, obviamente, a pirueta).
Posso cometer um sacrilégio? Não gosto tanto assim de “Bringing Up Baby”. Hoje em dia, quando mencionam Cary Grant, além dos filmes dirigidos por Hitchcock, é um dos primeiros a ser lembrado, mas eu simplesmente não gosto muito de “Bringing Up Baby”. Dirigido por Howard Hawks em 1938, é uma comédia sobre um zoólogo (Cary Grant) sendo importunado de todas as formas possíveis pela personagem da Katherine Hepburn e o seu leopardo de estimação.
Acho que o que me incomoda no filme é o fato do Cary Grant representar um personagem quase monótono, que não sabe se divertir até encontrar a Katherine Hepburn. Se em “The Awful Truth”, Irene Dunne tem de escolher entre a vida sossegada no interior representada pelo personagem simplório do Ralph Bellamy e a vida agitada e divertida de Nova Iorque representada pelo próprio Cary Grant, em “Bringing Up Baby” o Cary Grant representa a vida tediosa de um estudioso controlado pela noiva e pelo trabalho, e este é o verdadeiro sacrilégio para mim. Se fosse ao contrário, se fosse o Cary Grant o personagem maluco e a Katherine Hepburn a personagem “normal” (não que ela não representa malucas adoravelmente) acho que eu sentiria menos desconforto.
Há, é claro, desconfortos que vêm para o bem. Em “Suspicion”, Cary Grant interpreta um vilão (muito antes de Leone chamar Henry Fonda, o típico mocinho, para fazer o malvado em “Once Upon a Time in the West”). Mas, no caso de “Bringing Up Baby”, o desconforto de ver o Cary Grant em um papel tão diferente da sua persona mais comum só diminui, para mim, o prazer da experiência. As cenas em que o Cary Grant não consegue falar, porque a Katherine Hepburn simplesmente não deixa, são muito engraçadas, mas, por Deus, é o Cary Grant, poucas pessoas na história do cinema falavam tão bem quanto ele ou tornavam as falas tão engraçadas, deixem que ele fale, ou arrumem outro ator.
“Bringing Up Baby” é quase como “Blade Runner”, um fracasso em sua época, mas um fenômeno com o tempo. Por causa de “Bringing Up Baby”, Howard Hawks foi demitido de seu próximo filme na RKO (que seria “Gunga Din”) e Katherine Hepburn, quase como o que Nicole Kidman é hoje em dia, foi considerada como “box office poison” (“Sylvia Scarlett”, também com Katherine Hepburn e Cary Grant, também foi um fracasso de bilheteria). É compreensível se levarmos em conta que em 1938, Cary Grant não era um qualquer e vê-lo como secundário possa ter irritado as pessoas na época, da mesma forma que me irrita hoje. Mesmo assim, não é um filme ruim como “Sylvia Scarlett”, vale a pena ver, mas não se enganem, não é tudo isso.
“The Awful Truth”, de 1937, não é somente uma das minhas comédias favoritas ou um dos meus filmes favoritos com o Cary Grant, mas um dos meus filmes favoritos de todos os tempos. Indicado a cinco Oscars e vencedor de Melhor Diretor para Leo McCarey, é um filme simples, mas genial, sobre um casal em processo de divórcio.
Quando o casamento de Jerry e Lucy (Cary Grant e Irene Dunne) é ameaçado por suspeitas de infidelidade, eles resolvem se divorciar. No tribunal, eles brigam pela custódia de Mr. Smith, cachorro do casal. Após uma certa artimanha de Lucy, o juiz estabelece que Mr. Smith fique com ela, mas concede a Jerry o direito de visitá-lo ocasionalmente. Durante uma de suas visitas, Jerry encontra Lucy com outro homem, um caipira de Oklahoma, interpretado por Ralph Bellamy, com quem ela decide se casar assim que o seu divórcio for concluído. Jerry, então, também começa a sair com outras mulheres, na esperança de que possa seguir com sua vida também. Mas a cada encontro do antigo casal, apesar deles nunca dizerem, fica claro que eles ainda se amam.
O verdadeiro tema (e estilo) do filme é o subtexto. As piadas não são óbvias e muitas vezes elas só se completam com algum esforço imaginativo do espectador para entender o que determinado olhar, gesto ou comentário realmente significam – não que seja difícil, mas uma pessoa que assista ao filme distraída, ou alguém que simplesmente não preste muita atenção em determinadas expressões ou entonações, não conseguirá ver graça nos diálogos. Não é um bom filme para quem tem Síndrome de Asperger.
Além disso, o subtexto coloca todo o filme em ação. Quando Lucy chega em casa com outro homem e ela explica que o seu carro quebrou no meio da estrada e que eles tiveram de passar a noite em uma pousada, Jerry pressupõe que eles são amantes e que estavam juntos. Ele nunca os acusa claramente disso, apenas sugere, e tudo isso leva os dois ao tribunal. Da mesma forma que insinuações ferem a reputação de Lucy com a mãe do caipira, sua futura sogra, insinuações também ferem a reputação de Jerry com a família de sua noiva, quando Lucy se passa por sua irmã em uma cena divertida.
No filme, e na vida real, as pessoas dificilmente dizem o que querem dizer e o que realmente sentem. Em “The Awful Truth”, tudo ocorre graças a suposições, insinuações; ninguém nunca diz claramente o que pensa e, assim, todos entendem o que querem, quando entendem. O único a compreender o absurdo disto é o caipira, chateado por ver Lucy e Jerry brigando, ele pergunta se ela ainda sente alguma coisa por ele, ela fica surpresa e pergunta se ele não viu o modo como ela tinha tratado Jerry e ele responde, “por isso mesmo.”
Em nenhum momento do filme o casal diz “eu te amo”. No final, da mesma forma que tudo começou, eles também se entendem por subtexto. Mas o espectador, se tiver sorte, vai saber interpretar corretamente.
P.S.: Outra coisa que o filme não diz, mas que fica bastante claro; cachorros são legais, gatos são demônios.
De 1939, “Gunga Din” é uma aventura divertida passada na Índia colonial. Cary Grant e Victor McLaglen interpretam dois sargentos britânicos que querem evitar que seu companheiro e amigo, interpretado por Douglas Fairbanks Jr., abandone o exército para se casar (no ano seguinte, Cary Grant faria “His Girl Friday”, dirigido por Howard Hawks, que, apesar da ambientação diferente, possui trama parecida). Mas as coisas se complicam quando o personagem de Cary Grant é raptado por um culto fanático e os outros dois sargentos precisam resgatá-lo.
Dirigido por George Stevens, diretor vencedor do Oscar por “A Place in the Sun” e “Giant”, o filme tem bastante cena de luta, trocas de tiros, explosões, pessoas caindo dramaticamente de telhados ou janelas, etc.. É, de certa forma, um precursor de Indiana Jones, com direito até às cobras. É difícil de acreditar que ninguém tenha se machucado durante as gravações porque as coisas parecem devidamente caóticas e não havia tanta obsessão por segurança em sets de filmagem como há hoje em dia. Em geral, os planos são comuns, mas há algumas câmeras surpreendentes aqui e ali, como, por exemplo, a que acompanha os cavalos assim que os sargentos partem ao resgate do Cary Grant ou a câmera que segue o ponto de vista da baioneta de um soldado montado até atingir o inimigo no chão. Nestes momentos, o filme parece vinte, trinta anos mais novo.
Apesar do título do filme se referir a um personagem indiano (inspirado em um poema de Rudyard Kipling) que, no filme, avisa as tropas britânicas da emboscada dos fanáticos escondido nas montanhas (tal cena é parodiada por Peter Sellers em “The Party”), é fácil perceber que a verdadeira estrela do filme é o Cary Grant. Já em um bom momento de sua carreira, a câmera permanece nele, seu personagem é, de longe, o mais carismático, o mais engraçado e, claro, o mais bonito. Há piada, inclusive, com seu nome real, quando ficam sabendo que o primeiro nome do “Sargento Cutter” é “Archibald”; Cary Grant faz cara de “é, Archibald, e daí?” É também um papel diferente dos que Cary Grant ficou famoso por interpretar, como milionários ou médicos, sempre impecáveis. O Sargento Cutter é um oficial britânico com tendências a bebedeiras e brigas. É um Cary Grant sem gel no cabelo. O cabelo até bagunça! E como bagunça bonito, meu Deus.
Escrever, ou comentar, sobre filmes ruins é relativamente fácil e, até certo ponto, divertido. Você tem uma certa permissão para abusar de metáforas não muito coerentes ou de hipérboles ligeiramente injustas. Mas falar sobre filmes bons é que é difícil de verdade, pois a mera qualidade estabelece uma necessidade de descrever com precisão o porquê do filme ser tão bom, e de dizer algo que esteja, se possível, à altura da obra ou, ao menos, prestando serviço a ela.
Tenho a impressão de que é mais fácil reconhecer e explicar aquilo que é ruim do que reconhecer e explicar aquilo que é bom. Talvez porque somos tomados por um arrebatamento que torna difícil de se analisar objetivamente. Para um rosto bonito, há infinitas proporções que absorvermos como quem ouve uma música em um idioma desconhecido. Apreciamos, mas não entendemos. Enquanto que a feiúra é facilmente compreensível, seus traços são facilmente apontáveis. (Há exceções, é claro. Algumas pessoas são tão feias, mas tão feias, que provocam tanto arrebatamento quanto uma pessoa maravilhosa. Sempre achei o Klaus Kinski, por exemplo, de uma inexplicável e divina feiúra. Mas estou mudando de assunto.)
Falar, portanto, de um dos melhores filmes de um dos melhores diretores (e com um dos melhores atores, é claro) é bastante difícil. De 1939, “Only Angels Have Wings”, dirigido pelo Howard Hawks, lida com vários assuntos; amizade, confiança, honra, sacrifício, etc., tudo com a aviação como tema de fundo. Cary Grant interpreta um piloto e gerente de uma pequena companhia aérea na cidade portuária de Barranca. Seus pilotos têm a difícil tarefa de voar sob quaisquer condições, cruzando as montanhas dos Andes, para levar correspondência, auxílio médico para lugares isolados, ou o que mais for necessário. Não há espaço para o medo e, quando um piloto se acidenta, também não pode haver espaço para o pesar porque logo outro vôo precisa ser realizado.
É neste ambiente que a personagem de Jean Arthur chega, onde ela logo presencia o acidente de um dos aviões da companhia e fica chocada com a frieza com que os pilotos lidam com a morte do colega, comendo e bebendo como se nada tivesse acontecido. Ela não entende que tal comportamento é necessário para poderem continuar trabalhando, ou mesmo vivendo. O personagem do Cary Grant explica a ela que todo seu sofrimento não vai desfazer o que aconteceu e a coloca praticamente de castigo até que ela se sinta melhor e pare de aborrecer todo mundo. Conversando com outro piloto, ela pergunta porque ele gosta tanto de voar, ele diz que consegue pensar em um milhão de motivos, nenhum que faça muito sentido, e ela, então, se lembra do pai, um trapezista que não usava rede de segurança e que acabou morrendo por isso. Como se recordasse de que algumas paixões têm de ser irremediavelmente levadas às últimas conseqüências, ela retorna ao bar e começa a tocar uma música animada no piano acompanhada da banda local, como se esquecesse também do acidente.
Há, no filme, a belíssima noção de que se vivemos em um mundo perigoso, em que corremos riscos constantes e precisamos, além de simplesmente sobreviver, tratar das nossas próprias feridas e das nossas próprias memórias, devemos pelo menos viver pelos outros, aliviar as cargas do outros, pois sabemos o quanto que a nossa é pesada. Se alguém morre, é preciso engolir o próprio sofrimento para não acentuar o sofrimento dos outros. O conflito disto está no fato que tal comportamento, por mais que esteja voltado para o bem dos outros, acaba provocando um distanciamento ou mesmo uma aparente dureza que afasta as pessoa, que causa ainda mais sofrimento. Tal é a complexidade que não percebemos de cara, mas que garante a qualidade do filme, do roteiro, de seus personagens, que faz com que eles sejam mais críveis.
Cary Grant explica à Jean Arthur que ele não pode pedir que ela fique com ele, que ele jamais pediria isso a uma mulher. Por quê? Porque ele não pode submeter ninguém que ele ame ao sofrimento de vê-lo se arriscando diariamente. É algo que ele faz para o bem, apesar de provocar um mal, pois Jean Arthur quer que ele a peça para ficar e ela só vai ficar se ele baixar a guarda, se ele se mostrar vulnerável, e pedir para ela ficar. Mas não se preocupem, ele dá um jeito de pedir que ela fique, sem perder a pose.
Qualquer um que não conheça Nelson Rodrigues muito bem acaba concordando com a opinião geral, propagada desde a década de 60, de que ele era um pervertido, um depravado, e que suas obras lidam basicamente som sexo e nada mais. Lendo meia dúzias de suas crônicas, ou nem tanto, já é possível perceber que trata-se justamente do oposto; que Nelson Rodrigues era, na verdade, moralista e que escrevia sobre sexo não porque o ato fosse banal ou comum, mas porque era tão precioso, tão importante que se tornava até perigoso se não o respeitássemos como tal. Os riscos do sexo não residem somente no campo da saúde, da integridade física da pessoa, mas na integridade emocional ou mesmo moral. Além disso, não há apenas o dano que você mesmo se provoca, mas o dano que você provoca aos outros. O sexo, mesmo quando as pessoas que estejam praticando não saibam disso, é sempre uma promessa.
“She Done Him Wrong”, de 1933, é o segundo filme com a Mae West que eu vejo na vida. Foi, na verdade, o primeiro que ela fez com o Cary Grant. Posso dizer que eu não conhecia muito de Mae West antes de começar este projeto, apenas as frases mais famosas como, “isso é uma arma no seu bolso ou você está feliz em me ver?” Achava então, na minha santa ignorância, que Mae West era basicamente o mesmo que pensam do Nelson Rodrigues, ou seja, sexo e nada mais. Mas estou começando a ver que não é bem assim. Talvez eu esteja enganada e devesse assistir mais filmes com ela (aliás, não são apenas filmes “com” ela porque Mae West também é roteirista, trata-se, então, de filmes “dela”) para entender um pouco melhor. Mas se é possível notar a veia moralista de Nelson Rodrigues em menos de meia dúzia de crônicas, talvez dê para perceber algo de significativo em dois filmes da mesma autora.
No filme, a personagem de Mae West tem nada menos do que cinco “pretendentes”. O dono do bar no qual ela se apresenta, o amigo invejoso do dono, um ex que foge da cadeia para ir atrás dela, um russo e o Cary Grant. Todos, com exceção do Cary Grant, são criminosos ou fazem ameaças caso ela não os favoreça ou ambos. Durante o filme, duas pessoas tentam matá-la, um dos pretendentes porque se descobriu traído e uma mulher que foi traída graças a ela. Tais sãos perigos da libertinagem, do sexo. Claro, o filme mostra tais perigos de forma exagerada, mas um exagero diluído tem ao menos um pingo de verdade. Um dos personagens diz à Mae West que ela não pode provocar todos os homens e não querer conseqüências depois. Exatamente. A liberdade de conduta, a liberdade do sexo tem conseqüências que nem sempre levamos em conta. Na vida real, o risco não é tanto homicídio (apesar de acontecer) mas um puro, simples e desnecessário coração partido.
No fim do filme, depois que todos são presos, resta o Cary Grant. Não vou revelar detalhes de como a trama se desenvolve até este momento, mas há uma cena bonita em que o Cary Grant começa a retirar todos os anéis de diamante que Mae West recebeu de presente dos seus pretendentes, deixa sua mão nua e, então, coloca nela um anel de noivado, dizendo que será seu carcereiro por um longo tempo, já que ela é uma menina tão malvada. E, assim, é possível ser “malvada” sem nenhum problema. E, assim, eu também quero ser presa.
Não tenho muita certeza se a versão de 1933 de “Alice in Wonderland” conta como dose diária de Cary Grant. No filme, ele faz a voz de uma tartaruga (que mais parece uma vaca com casco) e sua cena dura uns dois minutos, no máximo. Percebi que não era o próprio Cary Grant fantasiado de tartaruga porque a pobre criatura tinha quase que a mesma altura de Alice. Menos mal. Assim não preciso imaginar um Cary Grant ainda não muito famoso vestido com uma fantasia horrenda de tartaruga, mas apenas um Cary Grant bem arrumado em um estúdio de gravação dublando uma tartaruga horrenda, like a good sport.
Apesar do elenco de estrelas (já reconhecidas na época e não apenas em ascensão) como, por exemplo, Gary Cooper de Cavaleiro Branco e até W. C. Fields como Humpty Dumpty, o filme foi um fracasso de bilheteria na época. Não é à toa. Obviamente que um filme baseado em “Alice no País das Maravilhas” vai ter elementos estranhos, fantásticos, mas nesta versão parece ter surgido toda a raison d’être para a obra do David Lynch ou para as experiências com ácido na década de 60. Até aquilo que poderia ser minimamente fofo, acaba representado de uma forma bizarra, com caracterizações medonhas e fantasias de inspirar pesadelos. Não é coisa para crianças.
Começo hoje a campanha pela aposentadoria do Steve Martin. Steve Martin (como Spielberg e tantos outros) já foi legal, aliás, muito legal, mas a idade nem sempre faz maravilhas. Por que estou falando de Steve Martin no dia do Cary Grant? Primeiro, porque todo dia é dia de Cary Grant, eu preciso variar um pouco de assunto. Segundo, porque me diverti muito assistindo “Topper”, de 1937, para depois descobrir que estão produzindo uma refilmagem do filme com o Steve Martin. As refilmagens de “A Pantera Cor-de-Rosa” já não foram castigo suficiente?
“Topper” conta a história de um banqueiro de meia-idade que vive uma vida regrada e monótona, até ser assombrado por um casal de fantasmas, interpretado por Cary Grant e Constance Bennett, que irá ensiná-lo a se divertir um pouco mais. Para um filme de 1937, os efeitos especiais são até que bastante eficazes. Os fantasmas podem ficar visíveis ou invisíveis quando bem querem e podem até mesmo comer, beber e fumar. Fazer com que objetos se movam aparentemente sozinhos, portanto, é fácil. Uma cena, em especial, me surpreendeu; quando um chip dog é erguido do chão e não dá para perceber cabos ou outras traquitanas.
Há alguns momentos mais sérios que, mesmo o filme sendo uma comédia, poderiam ser mais explorados. Os personagens da Constance Bennett e do Cary Grant morrem por imprudência, por passarem a noite dançando e bebendo. Após o acidente de carro que sofrem, já mortos, eles começam a conversar; percebem que não estão indo para o paraíso, talvez porque nunca fizeram uma boa ação (eles também nunca fizeram nada de ruim, mas isto não é suficiente). Decidem, portanto, fazer por Topper a boa ação que precisam para garantir a entrada no paraíso, ao ensiná-lo a aproveitar a vida. Mas fazem do banqueiro um imprudente tal como eles e, quando o próprio Topper se acidenta e diz preferir estar morto, o casal não sabe explicar muito bem porque ele deve escolher a vida e porque ela é melhor do que a morte. É um desperdício de momento. É um filme divertido de se ver, mas se Frank Capra, por exemplo, assumisse a direção naquele momento todos sairiam chorando do filme, certos de que viver é melhor.
Talvez sejam os hormônios, mas meus olhos lacrimejaram um pouquinho quando Jean Harlow, esperando a improvável visita do Cary Grant, se sentou ao piano e começou a cantarolar tristemente “Did I Remember? (To Tell You I Adore You)”. Filme de 1936, “Suzy” tem Dorothy Parker como um de seus roteiristas e tal cena é realmente digna do seu universo; a garota que espera por alguém que nunca chega, por alguém que não se preocupa em telefonar, que não se interessa em escrever.
Como alguns dos contos de Dorothy Parker, “Suzy” também tem a guerra como pano de fundo, mas o foco está no sofrimento, na generosidade e na lealdade da personagem da Jean Harlow. Tentando fazer sucesso nas casas de show de Londres, Suzy conhece um engenheiro e inventor que a pede em casamento, mas ele é baleado por uma espiã às vésperas da guerra. Acreditando que ele fora morto e com medo de ser incriminada, ela foge para Paris. Lá, ela se casa com um famoso piloto da aeronáutica, interpretado por Cary Grant, que é logo enviado para a guerra. Suzy, então, passa os dias cuidando do sogro, inventando cartas ao pai que o filho nunca escreveu, e aguardando o seu retorno – até descobrir não só que o noivo londrino está vivo como também que o atual marido tem um caso com a mesma espiã que atirou no engenheiro.
Diferente de outro filme que é infinitamente melhor, mas que também tem a guerra como cenário, e também tem um triângulo amoroso, “Casablanca” dá mais atenção ao suspense da trama, o que torna o romance ainda mais urgente. Não há este cuidado em “Suzy”. Há, é verdade, uma cena até que bacana com uma perseguição de aviões, tirada das próprias filmagens de Howard Hughes, mas é uma cena breve.
Mesmo assim, há ainda um outro detalhe interessante no filme, algo de “Dark Knight” ou de “The Man Who Shot Liberty Vallance”, pois Suzy tenta cobrir as indiscrições do marido e conservar sua imagem, já que ele representa um símbolo nacional e é respeitado inclusive pelos inimigos. Em alguns casos, a aparência importa e vai muito além dos interesses pessoais.
Em Hollywood, até meados de 1934, não havia a menor censura com relação ao conteúdo dos filmes. “I’m No Angel”, de 1933, é um exemplo divertido do tipo de liberdade que havia até então. Não há nada de realmente explícito no filme, não há nudez ou violência, mas praticamente tudo que Mae West fala (ou geme) tem conotação sexual. Além disso, sua personagem coleciona presentes caros de homens diversos (para cada homem, ela mantém o respectivo retrato junto da estátua do animal que melhor representá-lo, um gambá, uma cobra, e assim por diante, compondo um verdadeiro zoológico amoroso) e ainda orienta as outras mulheres a tomar o máximo possível dos homens, dando sempre o mínimo.
O filme seria completamente imoral se a personagem da Mae West não cruzasse com o personagem do Cary Grant. A reputação em risco não é a de boa moça, mas a de mulher vivida e que não seria boba de se apaixonar de verdade por ninguém. Reputação que, graças ao Cary Grant, ela não se preocupa mais tanto assim em perder. No final das contas, a mensagem do filme é esta: Há coisas que podem interessar muito mais do que dinheiro, jóias, casacos de pele ou inúmeros pretendentes; o Cary Grant.
Nas “Crônicas de Nárnia”, C. S. Lewis descreve a experiência de visitar um lugar que pareceria tão mais real que toda a experiência de vida até aquele momento se tornaria opaca em comparação; as luzes seriam mais brilhantes, as cores seriam mais fortes, e objetos comuns seriam mais sólidos, mais presentes. Quando vi Marlene Dietrich pela primeira vez, em “O Anjo Azul”, fiquei com a impressão de que ela era um pouco mais real do que a realidade, que as suas expressões e os seus movimentos, por mínimos que fossem, tinham mais consistência, mais efeito do que tudo que eu já tinha visto. Isto também se aplica à atuação dela em “Blonde Venus”.
De 1932, dirigido por Josef von Sternberg, mesmo diretor de “O Anjo Azul”, o filme tem uma fotografia lindíssima e alguns números musicais obrigatórios (é daqui que surgiu a inspiração para a cena da Uma Thurman como Hera Venenosa, no lamentável “Batman & Robin”, em que ela aparece vestida de gorila). Marlene Dietrich interpreta uma cantora de cabaret que abandona a profissão após se casar e ter um filho, mas o seu marido adoece e ela se vê forçada a voltar a se apresentar para ganhar dinheiro. No cabaret, ela conhece um milionário, interpretado pelo Cary Grant, que se apaixona por ela e a oferece dinheiro. Com o dinheiro, ela embarca o marido em um navio para ir fazer um longo e caro tratamento e, enquanto isso, passa a viver, não sem culpa, com o milionário. Quando o marido retorna, ela tenta voltar para ele, mas, ao descobrir a verdade, ele não consegue aceitá-la, só que ele não vai deixá-la partir levando o seu filho com ela.
Há algo no filme que lembra “Anna Karenina”, a infidelidade que coloca em risco não só o matrimônio, mas a própria maternidade e, logo, a própria identidade, a própria integridade da mulher. Não se preocupem, ela não se atira nos trilhos do trem, mas perdendo a função de mãe, ela se limita a seduzir homens para conseguir favores, sucesso e vive amargamente, se desfazendo em um suicídio mais lento.
Creio que “Blonde Venus” seja uma retratação. Se “O Anjo Azul” mostra, sob o ponto de vista masculino, a mulher como o verdadeiro demônio, capaz de destruir a vida de um homem sábio e honesto, “Blonde Venus” mostra, sob o ponto de vista feminino, que a felicidade plena da mulher ocorre não quando ela conquista (ou destrói) um homem, mas quando ela é esposa e, mais importante, mãe.
“Sylvia Scarlett” é o primeiro de três filmes que Cary Grant faria com Katharine Hepburn e é também, historicamente, um dos maiores fracassos da década de 30. O filme tem alguns bons momentos mas é, em geral, uma adaptação literária muito desconjuntada.
Feito em 1935, talvez seja o precursor de todos aqueles filmes em que mulheres se passam por homens (tem também um beijo rápido de mulher com mulher). No começo do filme, a personagem da Katharine Hepburn parece ser uma moça honesta e vítima dos escrúpulos do pai, mas ela logo topa fazer parte de seus esquemas ao se disfarçar de homem para escapar da polícia com ele. É aí que eles encontram o Cary Grant, um outro golpista (fazendo um sotaque cockney terrível) e os três se juntam para golpes mais elaborados e lucrativos.
Daí você imagina que o Cary Grant se aproximaria da Katharine Hepburn, sem saber que ela é mulher, mas sentindo mesmo assim uma confusa atração, que culminaria na revelação de que ela é, de fato, uma mulher e, então, eles poderiam ficar juntos e todos ficariam satisfeitos. Não é o que acontece. No meio do filme, eles resolvem se tornar artistas mambembes. E, tão de repente quanto, os interesses românticos mudam completamente, não de uma forma agradável.
É um filme ruim, em que o Cary Grant não recebe a devida atenção e dá para perceber que trata-se de desperdício. Katharine Hepburn já atua como atuaria com mais idade, com a mesma profundidade, a mesma vulnerabilidade que a tornaria tão reconhecida, mas é ainda mais enervante… Como ela pôde não escolher o Cary Grant? Como permitiram isso? E o que havia de errado com o George Cukor, futuro vencedor do Oscar por “My Fair Lady”, quando ele dirigiu o filme?
Acho o Cary Grant o apogeu do homem. Não há outro ator, vivo ou morto, que me provoque tantos suspiros. Eu ter nascido no mesmo ano de sua morte é a tragédia da minha vida, mas sigo com seus filmes, suas fotografias e sonho com um plano em que nos conheceremos e que ganharei, no mínimo, um soquinho carinhoso no queixo, “Oh, Ieda…”
Mas por que o Cary Grant é o apogeu do homem? Entre outras coisas, pela beleza, é claro, mas por uma beleza que quase não existe mais: — uma beleza realmente masculina. Hoje em dia, muitos homens considerados bonitos possuem características femininas, têm cílios longos, bochechas rosadas e lábios vermelhos e carnudos. Além disso, muito desta beleza está relacionada a uma certa vulnerabilidade, a uma atitude frágil e uma sensibilidade exagerada. Cary Grant não era um bruto, mas também não era uma moça. Hoje em dia, os homens são moças que apanhariam de heroínas de Jane Austen. São fracos, inseguros, medrosos, preguiçosos…
Cary Grant era alto, atlético, rápido; vinha do vaudeville, então sabia dançar, cair, dar piruetas ou simplesmente se mover com graça, sabia controlar o próprio corpo. Ele era engraçado. Ele é engraçado. Como é importante um homem que sabe fazer rir. Um homem que sabe fazer rir é muito mais atraente, para uma mulher, do que o dinheiro ou mesmo a aparência, porque promete uma vida que, mesmo nos piores momentos, será divertida e, assim, as eventuais dificuldades parecem mais tratáveis.
E como era inteligente, articulado, charmoso…Enfim.
Há muitos filmes com o Cary Grant que eu ainda não vi. Então estava pensando em fazer o seguinte: Assistir um por dia e falar sobre o filme aqui. Vou dar prioridade aos filmes que ainda não vi, mas planejo rever (e escrever sobre) alguns dos meus favoritos também. Ele fez 74 filmes. Não sei quantos vou conseguir assistir ou mesmo ter acesso, mas vou seguindo até perder a vontade, o que eu acho improvável.
Não cometo o erro de zombar de novas tecnologias no cinema. Toda nova tecnologia é uma ferramenta extra. Se o resultado é ruim, é culpa do modo com que a ferramenta foi utilizada, e não da própria ferramenta. Se os primeiros filmes sonoros eram precários, não era por culpa do advento do som, mas da capacidade e do domínio então limitados do equipamento. Por isso, não menosprezo o 3D. Acho que estamos no começo e que muitos filmes não só não souberam explorar suas melhores características como fizeram justamente o oposto do que deveriam.
“A Caverna dos Sonhos Esquecidos”, documentário em 3D do Werner Herzog, é a redenção do 3D. Meses atrás, Herzog esteve em São Paulo e declarou, como muitos, odiar a tecnologia. Mas há um motivo para tal ferramenta neste filme. A caverna retratada contém pinturas rupestres de mais de trinta mil anos e que só podem ser “sentidas” da mesma forma em que foram concebidas, tridimensionalmente. Há, portanto, um propósito narrativo, uma razão estilística, na ferramenta do 3D, e não simplesmente objetos aleatórios sendo lançados contra a platéia.
Herzog descobriu isto: O verdadeiro potencial do 3D não é a capacidade de atirar coisas para fora da tela, mas de atrair e convidar o espectador para dentro dela, a capacidade de se criar uma profundidade de campo que faria Orson Welles chorar.
Mas, claro, estamos no começo. Às vezes, o filme sofre com a escuridão dos próprios óculos 3D, os cantos da tela perdem definição em nome da profundidade central, mas é só o começo. E é um começo magnífico.
Novamente, trabalhei na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e, neste ano, um diretor italiano chamado Guido Chiesa veio apresentar o filme “Io Sono Con Te” ou “Estou com Você,” sobre Maria, mãe de Jesus. Não pude ver o filme, mas acompanhei o debate após a sessão, e gostei do que o diretor disse sobre cristianismo e, principalmente, sobre o papel da mulher no cristianismo. Resolvi mandar um email para ele e recebi uma resposta muito simpática hoje de manhã. Não tenho mais o email que enviei para ele porque redigi em seu próprio site oficial. Mas segue a resposta dele:
Dear Ieda
I came looking for you before leaving but you weren’t there.
Thank you for your moving words. I often feel that all I’m doing is worthless, but messages like yours give me the strenght to keep going on.I’m aware of Chesterton work: he was a very deep and original thinker. People believe that they can live without God, but we’re all are deeply caught in a religious way of thinking. In the sense, that we all need to believe into something (“to be linked to something”: that’s the original meaning of religion in Latin). But I’m less concerned about the future of religion in modern society, rather than the state of Christianity today: Christians are very much in danger of transforming themselves into another spiritual sect, where the meaning of Incarnation - the flesh, the blood - gets lost into some kind of mysticism with no relation to our human experience.It might sound corny, but I dare to say: only women - mothers creating life - could save us. They know what the word love means: love before any kind of culture, rules, education, thinking. Love, just simply it.Hope to meet you one day and I pray God to protect you.
Ciao, Guido
François Truffaut and Jean-Pierre Léaud in front of a poster for
The 400 Blows at The Cannes Film Festival in 1959.
Cary Grant being all knight in shining armor and saving Ingrid Bergman in Notorious
Frank, ever restless, had a need to be doing something. I never saw him sitting alone. He filled his time with endless activities. Some of the games he played were wildly exciting, a lifestyle that many envied. Others found his pursuits rather frantic. I wonder if there was ever time for a moment of quiet within. -Bob Willoughby
Nobody else looked so good and so intelligent at the same time.
—David Thomson via Cary Grant: A Celebration of Style
Women are not in love with me but with the picture of me on the screen. I am merely the canvas on which women paint their dreams. - Rudolph Valentino
Gary Oldman as George Smiley in TINKER TAILOR SOLDIER SPY
Photo by Jack English
Frank Sinatra and Shirley MacLaine in the studio to record tracks for their film Can-Can (1960)