Cada palavra aqui datilografada contém uma substância: uma fibra do meu cerne que é exposta ao público interessado. Folheio as páginas, já amassadas de tanto desespero, em busca de algo que me faça sentir; entender o que de fato passa aqui, dentro desse corpo que jaz em inércia consumido por chamas vivas. Tudo começa com uma explosão, que se amansa aos bocados, mas que vez ou outra supita à garganta: vem como uma maresia e sufoca-me em seguida. Esse sentimento... Esse sentimento que menosprezo passa-me à cabeça por variadas vezes ao dia, faz de mim oco de tudo e cheio de nada.
O menino que ali me olha em retrospecto me ama. Ele penteia os cabelos de forma apaziguada e fixa as pupilas nas minhas feridas não cicatrizadas. Tento entendê-lo, dou-o a chance de dizer o que se passa em sua mente, mas ele tropeça nas palavras, inventa mentiras que me enlouquecem. Seus lábios são um risco, azuis de tamanho frio – não sei se por fora ou por dentro. Mas ali ele está, com a pele clara, finíssima, tentando me encontrar no olhar que eu retribuo. Toda a desesperança entre nós não passa de um devaneio ilógico; uma vontade súbita de que a vida acabe logo e que o nada simplesmente exista.
Estamos vivendo do infinito nesses dias de fantasia. Acreditamos na magnitude das nossas almas e na repulsão dos nossos corpos. Encaixamo-nos e vivemos substancialmente de forma mútua; dependemos do contanto da nossa epiderme. Acho que afinal de contas ele está me chamando. Questiona-me com o olhar se não irei sentar-me ao seu lado na fila de espera desse hospital moribundo. O vômito desesperado vem-me à garganta, entala primeiramente próximo aos pulmões, sufoca-me a priori. Tento segurar a ânsia, mas o medo tem tomado o controle das minhas células em instantes.
Há uma sensação que está surgindo nas minhas costas: são como remédios que são distribuídos lentamente por pequenos tubos de naturalidade. Eles se movem paulatinamente, pintam em minha pele desenhos que por ora desconheço. A sensação se esvai, corre em direção ao ralo do meu inconsciente e deixa claro que voltará em alguma hora. Tudo é um silêncio. Não há sonoridade que ousa transpassar a minha mente ainda não curada. São apenas suas palavras que surgem aos poucos, benignas, ditas ao pé do ouvido: elas pedem que eu me acalme, dizem que estou bem e que agora estamos juntos, não mais separados pelo destino.
Levanto a cabeça e ali estão em reflexo: dois meninos com os olhos cansados, um com a pele clara demais, delicada demais, com os cabelos penteados, e o outro, machucado demais, com fios obscuros a atrapalhar a visão, mas com uma luz a irradiar através da pele. O indivíduo que ali me olha em questionamento me é irreconhecível; sinto que já vivi com ele de forma demasiada, mas não o reconheço. Ele me condena pelo passado que tive e pelo futuro que não terei. Questiono-lhe o que já fizera e qual mudança teria feito no âmago em que lhe é oferecido. Ele não me responde.
Há um vazio que começa a irradiar através do meu peito. Talvez sejam gorduras demais, carboidratos demais. O menino acolá do meu lado me afaga. Continua a dizer juras de amor eterno, mas eu não o escuto. Eu o desejo de sangue e alma, mas é que explodo em mim. Cada frame do meu interior em angústia constante pede por glorificação, mas tudo que recebe é um não em sonora inrrecepção. Cegue-me e corte-me a consciência. Viva em mim como vivo em ti. Tudo o que me vem a seguir é explosão. Irradiação metafórica de desejo carnal em inconciliável inexistência. Abrace-me enquanto necessito porque por hoje estou indo embora. Encontre-me na saída que o espelho ali me encara em demasiada substância. Acalente-me entre os dedos porque eu não quero ser engolido enquanto me despeço desses ladrilhos sujos de sangue; acalme-me enquanto caminho na avenida principal da cidade; que seja em mim a sua vontade para que me preencha de verdades.