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Gabriele Fidalgo

Take me to the station and put me on a train.
I've got no expectations to pass through here again.

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  • March 11, 06:45 PM

    Eu sou. Você é também.






    Estamos numa boa pescando pessoas no mar. Mas, mesmo assim, petulantemente, faço uma pausa na ponta, antes de pular. No mar, no rio, na cachoeira de água gelada, na praia, no precipício. Não se trata de morte, sabe? É algo para agora, algo para sentir agora, até a ponta de todos os pêlos, e depois escrever contando atrás de um cartão postal para um parente distante. Para qualquer um que queira saber. Que tenha alguma curiosidade entre a boca e o umbigo de agarrar o que tem no mundo. Sim, pois essa de engolir o mundo de uma vez só - como eu já descobri impossível pelas maneiras mais ousadas -, não tem funcionalidade pois assim só se tem o peso e a borda. O que você, que lê isso, parece querer é o que há por dentro do mundo. Texturas, calçadas, botecos, provocações, amizades, amores avassaladores, brigas, carinhos, pessoas. Gente. Isso. É gente o que você quer. Me arrisco a dizer pois te vejo ultrapassando a décima linha, numa densidade de saber que o que eu digo é tão forte e real, que às vezes parece até não existir; é subjetivo, abstrato, psicodélico.É aquele abraço que você procura quando está diante de uma prateleira alta de Cds vendidos como luxo. É como você sente ao encontrar-se em seu silêncio que é só seu e é bonito por isso. É mais: É esse jardim onde você quer rolar e brincar com o cachorro e descobrir que os dias existem para o que você quiser; Essa liberdade que não presta conta, que abre e não pede licença; Que faz e não pede desculpas; Não carrega culpa; Não acusa ninguém. Esse show de música rural, de rock antigo, de samba novo. É o que você quiser através do que tiver coragem para descobrir.
    Eu sei. Nós temos essa vontade de dar as mãos porque estamos perto. Perto do ar, do não-limite de conhecer água e terra na gente. Há uma vida aqui e um mundo inteiro para aceitar como matéria não substancial, incontrolável, possível. Há um coração cheio de gente aqui. E eu estou falando do mais selvagem sentido da vida.





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  • March 10, 08:31 PM
  • March 07, 05:16 PM

    Minha dança




    Com um pouco de você eu danço em meu corpo aqui. Com um pouco dos teus olhos, uma dose dos teus lábios, uma mancha de tuas verdades eu tenho altura para subir na mesa. Com um tanto das coisas que fizemos juntos, tenho essas subjetividades que me provocam até que eu as deixe livres como querem. Meu bem, você compreende esse pecado que é expressar você em paredes, mundos, fundos, loucuras abstratas que escapam antes que eu as fotografe? Perguntas não precisam de respostas como eu preciso de textos alcoólicos para afogar minha intensidade que não afunda sem viver cada pedaço. E cada detalhe, entenda, é um degrau a mais para a minha altitude de perigos e olhares que arrisco. Ouso agora o seu pescoço, provoco agora a sua mente, liberto as notas mais difíceis, porque eu danço uma música que ainda não existe. Isso seria apenas um mal entendido, se não tivesse se repetido tantas vezes. Como há fuga se tudo o que eu faço é ir além e ultrapassar? Novas respostas antes das mesmas perguntas. É uma perda de tempo lembrar que palavras foram comigo para eu voltar mais forte.
    Desisti de ideais em contos e crônicas sobre amores que se vão ou sobre vontades que ficam. Desamarrei minha alma e passei, apenas, a soltar letra por letra; elas sozinhas sabem o que dizem. E assim eu fico na continuidade de imensidões internas que se expandem através de danças e músicas que ainda não existem.
    Meu sentido é esse.





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  • March 01, 04:17 PM

    Cores de Plástico







    Não sei mais como dizer o quanto eu não quero isso plastificado. Em quantas cores eu já me desbotei na tentativa de ir mais longe, encontrar uma escada sem degraus de mim e de alguém, procurando chãos aos céus de nós. Porque não sei. Não sei quais palavras usar; eu não tenho novas maneiras de descrever explosões, implosões, exteriores, interiores.
    Uma bomba na minha boca, todos já sabem. Eu posso comprovar pois está na dor de quem inflama e vira coisa derretida, pedaço, capa. Escapa e cai pela janela, a altura e o cabaré com sofá de couro. Minha cara pintada, unhas ainda marcadas com aqueles dedos moços e tristezas engarrafadas também largadas ao lado esquerdo. É impossível não saber. Não me saber de cores, versos e ventos ao avesso. Nas segundas-feiras tortas de saia rodada e sussurros para dentro. Saio um pouquinho de mim, ofereço um beijo aguardado e o vejo correr. Aquele menino fazer cara de quem quer mais calda de chocolate no bolo, uma cereja descomportada no prato, mais uma vela para assoprar antes de crescer. Tantas coisas, tantas cores desbotadas para nascer domingo antes da quarta ser uma flor comigo. Como se não houvesse mais espaço - e sempre há. Só não sei onde vai dar. Onde vou me dar de fundos e profundidões arrancadas. Vendo esse mundo me encarar bonito, me apertar, me enrolar, me queixar uma falta de algo assim, sei lá. E quando jogo as pétalas na chuva sou sereno apressado, talvez arco-íres para tempo fechado; mania de clarear. E as tais ‘garrafas de ficar mais um pouco’ vão sempre deixando, me deixando mais um pouco, por engano.
    Olhos se revoltam e todas as ruas estreitas de pecados e difamações vão me dando motivos para correr. E esse andar minucioso é o princípio do choro no banho.
    Sempre me nasce, amanhã é outro eu mais, assim, banhada. Porque esse agora é o cheiro da cor queimada nas minhas entranhas.





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  • February 27, 02:45 PM

    O tempo também desbota, Janeiro de 2010




    Ontem fez um mês.
    Foi apenas uma constatação ao observar o ruivo do meu cabelo um pouco mais desbotado. Sei lá, uma verdade escrita no espelho com batom. Aquele batom que pintava meus lábios para noites estreladas de fogo e Martini. Para subir em cima da mesa ou descer da mesa falando a minha língua de intuições e ambições amplamente expressadas. Sentimentos que sempre fluíram com água mineral ou vodca, suco de abacaxi ou whisky. Emoções que aconteceram no alto ou no chão, salto ou sola do pé, choro ou música para dançar.
    O Amor não deixa sobreviventes, como dizia Nelson Rodrigues, mas o que acontece com o que não chegou a ser num íntimo de querer acontecer, é o que se vê em dias dezoito. E dias dezoito, pelo que sei, são pontualíssimos e sinceros como o momento entre o espelho e eu. Toda aquela verdade ali bem viva, bem hemorrágica, bem alerta: 30 dias se passaram, querida.
    A nostalgia toda disso, na verdade, foram as cores. Um laranja que se misturava a um amarelo de luz baixa e paredes juntas, lugar pequeno, o tom da garrafa, carro de noite escura, olhares para querer dormir e acordar. São estas luzes de engarrafamento às 23 horas de uma quinta-feira que não dormiam, que não iam, que ficavam em mim e no momento de ser sentimento de mundo. E, como eu disse, abraços me subiam pelas pernas e quando chegavam ao joelho, choravam horas de fuga contida em mãos apertadas. Algo que me dizia: vê lá, o tom cinza de fogo desbotado no sereno.
    ‘O que ta acontecendo com a sua cara de me querer por perto e me colocar longe no não saber última palavra, último dia prá’lgum lugar?’ E na resposta um sopro ao contrário, um afago de travesseiro calado, de metrô vazio e madrugada sem fogo.
    Dezoito.
    Depois me levantar no pulo de ter percebido que não caí. Foi susto, apenas. A gente aqui, mas ali a gente largado, separado, bagunçado. Entre esse lá e cá houve um sentimento de me tornar mais profunda. Mas o fundo, o fundo foi você olhando para mim, por alguns minutos, para dizer um quê sem céu ou chão.




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  • February 25, 05:54 PM

    A minha continuidade

    Pra que dizer que foi um erro estúpido ou delicado se desse acontecimento sou múltipla atividade?
    Desde me encontrar saltando pedras, desde me deixar receber a chuva para lavar meus ombros; interferências de olhares culposos. Sou minha resposta ou alguém me valha pela qualidade do jeito. Então me deixa ser, porque nunca vi tão inteiro alguém adentrar os muros e invadir tudo o que há de vasto. Prolongar corpo e mente, acalentar sono em cama, carpete e abraço. Ser o clichê da coisa bonita de se ter além dos olhos. Para além também da boca e dos poros, que me seduz, é verdade, mas que sozinho não me motiva. Continuo por meio do que fica entre avenidas e estádios de futebol, roteiros e mesas de som, altos andares de prédios e bares subterrâneos. É verdade, eu sei. Estou falando menos. Parece que algo influi para o fogo dos meus próprios desejos que são também mãos de afetos para antes e depois.
    Continuidade é meu melhor momento de dizer que eu vi, eu vi o começo e estava lá.

  • February 24, 10:45 AM

    Lições





    E aqui eu cheguei perfumada e penteada. Disfarcei olhos profundos e encobri cicatrizes; tenho uma marca no braço para não ter que te explicar nada. Tá tudo claro, e mais clara eu cheguei antes do carnaval.
    Estavam todos esperando alguma coisa acontecer, um beijo desses de torcer a cabeça, uma mão para apertar a bochecha e ser simpática. Acho que acertei na forma como entrei, acho que superei as expectativas daquela minha ansiedade de não ser uma letra de música para ouvir gritada; talvez eu tenha me saído bem na voz e na cintura comportada.
    Mas, como todo movimento de cherry bomb, algum momento para o laço estourar e a borboleta em cima do meu peito voar. Nada programado. Cheguei em passos lentos de conversar o que for proposto. Eu ali no barzinho ao lado, um café no copo, 50 centavos pelo melhor gole negro, forte e quente. Acima de mim umas coisas tolas como que me perguntando até quando eu vou manter o cabelo penteado e as bochechas coradas. Foge do meu controle, e eu não tenho mesmo controle algum disso que você amassa com os dedos, tentando me convencer a te contar alguma coisa que não saiba; te ensinar a dizer a verdade. E, bebê, isso eu fiz naquele papinho de ser você mesmo e não se preocupar. Sua idade, sua carência, seu medo de perder a partida distraído com seus meios de se rebelar. Sua revoltinha para guardar em capas que envolvem contrabaixos e não possuem som algum. Talvez você saiba. Talvez você saiba que não se trata de alguma coisa para saber comigo. Eu cheguei aqui simpática e penteada com uma bolsa grande que parecia capaz de te proteger. Foi o que você disse quando me viu atravessar mais uma das muitas ruas que eu já atravessei, enquanto alguém me observava chegar à calçada. Mas eu vou mais além. Você não tem idéia do que eu encontro do outro lado, de quantas vezes já dobrei a esquina, de como eu me sinto quando parto.
    Eu e minha bolsa grande te mandamos um abraço, mas dizemos que nunca tivemos essa pretensão de adotar uma criança grande. Eu e meus cabelos que facilmente bagunçam com o vento, mandamos um recado direto sem pretensões de te explicar algo: Está vendo essa marca na minha cara? É uma boca vermelha para não dizer nada, simplesmente não dizer mais nada.
    Eu já havia dito antes: eu quero a companhia do que é mais forte e marcado, do cigarro que é mais velho que eu.

  • February 23, 06:18 PM

    número 23


    Esse maço de Marlboro e um copo vazio. Voltei aos inícios de dentro dos finais, expostos pelos términos, abertos como fruta sem caroço.
    Essa parede branca à minha frente, esse dia de suor em todos os lugares, essas músicas de beber em goles gordos, essa vida de viver inícios e conclusões impostas, esse remédio para realidade, essa arte de me arrancar a utopia.
    Volto para as digitais que não me dizem mais nada, não me assustam, não me chocam em mais nada. Cachaça de amargura após a frase de curto circuito botar fim no meu carinho gordo. E isso faz mais sentido ao ser dito de longe das barricadas e bloqueios nas ruas, armados pela gente de coração de carvão. Eu queimo sem fim nas pedras. No musgo encontro minha raiz, agarrada na terra crua, no líquido primário.
    Esse segundo cigarro é um pedido não ouvido, cruza a avenida dos largos passos e me distrai. Me enche e me esvazia, me sente por inteiro, entra em mim sem votos de crueldade e superficialidade. Eu sei que sou a caverna que instiga lâmpada em noite, que arrebenta muros descalços, que chama alguma coisa de meu. A fumaça do cigarro inebria meus poros cansados de choro entardecido, coisa pouca que mata hora. Coração num copo e na puta que pariu. Eu brindo com as últimas das mortais perfeições.



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  • February 19, 04:40 PM

    Cidades Submersas




    Talheres comprados em Paris numa viagem de última hora enquanto uma tia falava sobre a felicidade do meu grande amor. Digo, amor para estas horas, grande e contado nos dedos para somar 21 anos. Nesse espaço de coisa e acontecimento ele sorri um verbo curto e difícil de ser lido em voz alta. Por algum motivo, eu repetia tal coisa de todas as formas. Seria capaz de construir uma casa para morarmos utilizando apenas a estrutura de tais letras. E nessa brincadeira de saber de cada detalhe e ver exposto dentro do peito, é que eu ouço até hoje as notícias que ela tinha sobre ele. Tua mãe, teu pai, teu trabalho, teu quarto, tua namorada. Ela repetiu para que eu soubesse que não se tratava de um arrepio.
    E ele dizia, segundo ela, que havia encontrado o amor para perder o ar. Para estas horas, contado nos próprios dedos, somando a idade ímpar. Me veio à mente todas as besteiras e receios que ele dividiu comigo, todos os caprichos e idéias sórdidas. Me veio, esbofeteando o rosto, sons de rua e ônibus cruzando o nosso caminho.
    Numa viagem rápida, entre trens e travessas, encontrei coisas dele boiando nas poças de chuva. Uma melancolia sem fim, dia de cinza no inverno, agora, mais branco e enxovalhado que qualquer lã abandonada no baú. Talheres espalhados numa mesa sem maçã para cortar e mostrar-lhe a semente. Nenhum jeito de beijar com fruta mordida. Nenhuma poupa, além da minha, para adoçar e beber. Era só aquilo e eu o tinha em outro país, com cores quentes de verão vulgar e raios de vanguarda para vangloriar a sombra.



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  • February 17, 10:54 AM

    Imperfeições honestas e belezas hipócritas




    ‘Me dê sorriso, me dê a mão; muita coisa.
    São muitas coisas e eu vou abrindo devagarzinho.’




    Um músico sem instrumento, letra, ritmo me faz olhar pela janela e acariciar as coisas cinzas e as coisas verdes vivas. A rua me pede um abraço e eu dou, a calçada me pede colo e eu acolho a imperfeição que há junto. Eu amo essa imperfeição. Gosto da beleza de vidro e também da rigidez de pedra, que se cair quebra, que se cair espatifalha. De saber que há uma força maior do que a habitual, de aceitar que tudo é além do que se vê.
    E aqui estou eu, comigo, numa música que não quer fazer dançar, que não sai das mãos do músico de palco alto demais. Este homem é um reflexo de espelho que só conhece moldura, que não divide a vaidade com o mundo real. Me atrai pela falha, me seduz pela dificuldade em arredondar sorriso. Sabe? Eu aqui nessa janela posso tudo porque canto a balada do louco sem massacrar voz e porque tenho uns verbos para rasgar. Sem a amplitude da inspiração o moço é vagão sem trilho e correia. É um buraco opaco que me chama a atenção por não conhecer outras cores de existir. Me faz lembrar de quando havia afeto nas autocríticas do Querido Tom. De como eu gostava de saber suas maneiras de errar e de acertar e a vontade de ousar sem méritos, apenas tentando. Eram pintas, ombros, os sonhos acordados com balde d’água que não o arrancavam o horizonte. Sentia as certezas para serem tentativas racionais. Tom adorava refletir sobre as cores da cidade e o blues de tudo o que é profundo.
    Hoje, na minha janela branca e grande, avisto marcas de Tom nos postes sem ligações para dentro de mim. O que havia e ainda há, por uma certa insistência involuntária, dentro de mim, não corre mais por veias de calçadas que me pedem colo, nem por exposições de imperfeições que acaricio. O que aconteceu é seio de instâncias que vivem dentro de mim e não fogem, simplesmente, porque não há para onde correr.
    Vejo estas caras de muros e viadutos no centro da cidade. E o músico sem ritmo e letra, morto, não representa um pedaço de vidro quebrado, honestamente, do que foi Tom acordado.
    Olho através da janela sem grades. Há um mundo de coisas tortas sem culpa e outras de quintais limpos com cheiro de mentiras deslavadas. Eu fico com as caras sujas e reais das avenidas. Querido Tom era um lobo de coração mole.




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  • February 15, 07:37 PM

    Isto não é um Monólogo


    Tenho coisas para serem ditas, imensidões possíveis e palpáveis.

    São rascunhos de coisas nas quais acredito e que digo/ouso mostrar aqui com um toque de crítica, de ironia, de profundidade. Trata-se de lugares, pessoas e vivências vindas de todas as partes.
    Engana-se quem pensa que falo sobre mim. Tenho urgências absurdas por multidões e falo sobre tudo que se movimenta. Sou minha própria pesquisa e uso minhas experiências para compreender o que há além do que se vê.
    Essa semana foi muito especial. O Movimento de idéias pede apenas um instante para respirar, se localizar e, enfim, se expressar.


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  • February 12, 05:00 PM

    O Tempo da Cor Branca

    ‘She's not a girl who misses much
    Do do do do do do, oh yeah
    She's well acquainted with the touch of the velvet hand
    Like a lizard on a window pane.

    The Beatles



    Era uma quinta-feira e chovia como se os céus brigassem com algo, como se a terra afundasse enquanto nós dois subíamos como um elevador de precipitações e sentimentos metaforizados. Chovia ardentemente dentro de mim, naqueles teus olhos de vendaval, nas mãos caladas e confusas, nos ombros de escudo para o teu próprio peito. Meu amor. Meu amor de umas horas despencadas pelos céus, por línguas antigas, ruas cruzadas por emancipações e pela precoce inocência mutilada. Meu carinho de dias em velas sobre a toalha branca de palavras abertas. Meu afeto de mãos dadas e sorrisos de Avenida movimentada. Estar às três da tarde viva, estar às três da tarde acordada, estar às três da tarde num sentido de vaidade conjunta por sermos a coisa mais bonita daquela cidade. Fecharam as portas dos bares, lotaram as camas dormidas, esvaziaram os estacionamentos chuvosos de Dezembro, recortaram nossas fotografias para colar boca na boca, peito no peito.
    Mas saudade, meu amigo, saudade é uma verdade desgraçada que cai com a chuva de uma sexta abafada, nublada, cinza. O fim da saudade, os últimos dois segundos, é a glória de transformar melancolia em feísmo; fazer arte com quebra-cabeça.
    E sexta, dia de verdade a tapa, é invadir armário de lembranças com vontade em punho para arrombar cartas queimadas pelo fogo das minhas pernas de correr sem negar que isso é, também, tentativa.
    O tempo não existe. Ontem você veio, hoje você foi.




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  • February 10, 07:00 AM

    Atrás de um Cartão Postal




    Se eu pudesse ter te conhecido hoje e tivesse nos olhos toda a dor de desamores curados, iria mais longe. Para mais longe do que conheci cega com meus olhos de utopia tua. Se eu pudesse ter te encontrado agora, e o ontem não soubesse teu nome, seguiria os caminhos das tuas mãos. Eu abriria qualquer livro, escancaria qualquer porta e me permitiria gostar daquela realidade. Se eu não tivesse a presunção das coisas malditas conseguiria te dizer alguma inocência sem culpa. Se você fosse amanhã e o hoje não tivesse o corte da saudade de você, eu gemeria coisas menores.
    Porque nem eu sei como eu aguento o tranco brusco e violento de lembrar
    como uma menina que desmistifica a puta que eu fui para você.








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  • February 22, 02:50 PM

    Camurça









    Você, sentado na última mesa do bar, aquele encostado no fundo, onde a sua vista existe sobre tudo e longe de possíveis lábios. Você desejava rasgar a pele para sentir algo além do conhaque, que não te colocava em cima ou em baixo; não lhe tornava torpor. Nunca torpor.
    De longe eu via sua cara de duas da manhã sem nada para aquecer, sem nada para te colocar deitado. E você implorava isso com seu jeito torto de ficar sozinho, pedindo atenção. Um vira lata abandonado, uma criança sem colo, malas sem zíper, lábios fugindo do seu desespero estampado em camisa cinza. Tinha uma dose virando em você, olhos tornando-se seus naquele momento, tinha a sua cara de estar sozinho olhando a minha. Ah, minha expressão de estar vindo de longe para te encontrar na ponta do último abismo.
    Eu, meus pulsos, meus pulos de abismo em abismo, minhas culpas esfarrapadas e sujas, uma dose virando em mim também; no primeiro banco do bar.
    Paredes verdes para esconder seus olhos, minhas mãos escapando, estava tudo tão longe. Será que você saberia me encontrar na rua, no trabalho, no show, atravessando estrelas? Minha blusa cor de rosa iria te falar sim ou não? Chão de passos molhados. Chovia mais do que o normal, luzes sensuais envolvendo insetos. Não havia nem música no bar. Apenas um banheiro com uma porta cheia de escritos, bêbados elegantes e sobrancelhas erguidas. Minha saia de camurça passeava sozinha até que alguém conhecido chegasse. Uma amiga havia dito que iria se o cara dela não estivesse na cama. Pelo jeito ele chegou mais cedo do trabalho e ela se ocupou de amor e lençol. Eu estava sozinha. A noite de paredes verdes seria só minha.
    Seus olhos refletidos no espelho tirado delicadamente da minha bolsa. Seus lábios refletidos no espelho em minhas mãos para ver teu jeito de ficar sozinho. Não precisava ser tão bonito. Seu corpo de ver a noite passar escorria por minhas pernas através do reflexo de um espelho pequeno. ‘Your Love is mine’, eu sussurrava no seu ouvido em pensamento.




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    Novembro
  • February 04, 08:14 PM

    Happy Birthday,


    my dear Alice Cooper




    sem biografias ou declarações.


  • February 03, 08:12 AM

    Quando construí castelos de areia para suportar o sal, não mencionei a força usada para subir e descer tantas vezes.



    'De todas as pessoas no mundo, algumas com tantos porquês e palavras que se espelham como espuma rala; fumaça de cigarro velho. Tantas as caras e o tanto faz vago e retraído, vazio. Já me cansam demais as bocas murchas de não saber o que pensar sobre a vida.
    Arroto de volta ingressos de shows em que é permitido fantasia, lavo com pedras o muro das conversas desagradáveis. São paredes, muros, arrotos. Só que dessa vez não alardearei tragédia para provocar cuidado de olhar chapado.
    Que a verdade é vidro.'


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  • February 22, 02:51 PM

    Meu peito é de sal de fruta. Fervendo no copo d'água.


    O que acontece, existe por si só. Nada precisa ter o sentido de uma carta inteira, amada, entregue, compreendida, só porque eu, eu e a minha vontade de viver a vida, não podemos esperar mais do que cinco minutos até que faça efeito o grito saído da boca, com todas as expectativas. Eu acordo e me desnudo como num desamarrar de laço forte que me aperta cada vez menos, ao me movimentar. Sei o que digo, o que faço tá na minha cara e no meu jeito de sentir. E quando o muro encobre o meu rosto, por um dia, uma semana que seja, eu tenho as pernas para correr, porque estou vivendo. O mais, no meu desejo de ser mais, é a fonte da vida pra acordar no alto e sentir profundo.


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  • February 09, 03:53 PM

    Choveu o Seco

    Parece que eu estava descabelada em meio a mentiras provadas através de digitais em copos quebráveis. Eu não sabia, eu não acreditava; aquela minha verdade bagunçada nos olhos e na boca iria se partir num piso novo. Cheiro de novidade na casa, cheiro de janela aberta pra fumaça sair. Aquilo tudo de jeito e vontade, de colo e ombro pra gente se juntar, pra me ver partida antes mesmo de quebrar, como se eu fosse a beleza e a transparência para se soltar. O chão seria o limite, pois do céu já havia provado. O inferno para aquecer pernas de quem chora por bem ou por mal. Lábios marcados em nucas de um abraço cheio como copo com chopp. Deixando tudo para acabar, tudo para gritar, o mundo vir me buscar com o sorriso de querer ficar e eu dizia baixinho que já estava lá. Mas ele não estava lá. Desculpe a sinceridade bem esclarecida, ele não estava lá.
    Doeu ver listras e roteiros de sofá de couro em lugares que eu não conhecia. Doeu ver gestos e brechas de mãos em maneiras de tentar falar alguma coisa que me fizesse provar, assim como a minha digital e o meu olho d’água naquele lugar. Desconhecido em páginas e jornais para uma semana depois. Distâncias inauguradas com festa e bexigas de oxigênio sem falta de ar. Meu beijo para dar se foi, havia ido através de loucuras amarradas ao meu cabelo solto. Solto e bagunçado de vendaval na sombra.


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  • February 22, 02:25 PM

    Libertar, Respirar, Partir, Ultrapassar




    Me arrebenta a cara por ser interna e derrubar faíscas por aí. Me bate a coisa dura e forte que trago nas costas e no sorriso. Ou me deixa livre na escolha de não acatar conserto. Meu queixo é um suporte para fotografia móvel, não tenho ritmo de decorar afirmação. É sim ou é não. Minha verdade é esta grama em frente à varanda branca de tarde e chuva. Vem, vem chovendo na constância de tempo e noite. Madrugada vindo pelas minhas pernas, pêlos cortados na raiz do meu ventre de dizer verdade. A certeza é essa intensidade no chão.
    Me arremata além dessas estrelas que conto, que vejo, que sussurro e ninguém vê. Um pouco do que amo vem me dar a mão. Pulsos abertos e, pelo meu tempo, estou bem na hora de alagar mostrando a cara de firme opinião. Pois o que há no peito não é choro, não é dor. É essa força de libertar a alma de grades e correções. Não me interprete mal, meu bem. É só um jeito torto de existir em linhas curvas de contraste sobre a vida. Essa coisa, esse universo, dimensão de caos e acaso na minha mão. E não giro ao umbigo, não rodopio em instantes de pessoas em mim, sou o lado de fora e o que você não vê nas pupilas de quem já chorou. Meu sono é vasto contentamento de sonhos e músicas que não param de tocar. E se eu sou uma melodia, minha gente, sou a graça de não ser certa para ensinar. Mas isso, se eu digo, é pecado não consumado e exposto em flores pela casa. Paredes da cor do vento que me surgem como palavras para derramar aqui e naquela vontade de arrancar realidade, seja como for, da manhã.
    Eu não me agüento nessa decência de segurar riso ou dor. Eu não te agüento nessa melancolia de se dobrar em partes impublicáveis. Em trechinhos de sobe e desce e língua de vagar. Não te suporto em caos lento e reflexo no que não te abala, mas te recorta em pedaços de invisibilidade. Você existe e eu nem sei mais. Não te acompanho nessa preguiça de não filosofar ou não lutar pelo amanhã. Porque enquanto eu me desembalo, vocês cospem a burrice de esperar, na testa. E ver esse tal tempo passar, é o absurdo de se remediar com muro alto e parcimônia.
    Mas viver, viver mesmo, é arregaçar os verbos para dizer, mostrar alguma coisa em tanta instância de vida calada. Aborto da confusão de não revolucionar caminho. Não ver sentido em ser sim ou não.
    Eu sou um Sim bem grande escrito na minha cara com vontade de me arrebentarem a alma e o tufão.



    'Suja o pé na lama e venha conversar comigo.'
  • February 09, 03:52 PM

    meio segundo


    Eu não quero fumar. Você não é um trago mal dado, uma ferida exposta, um remédio para cólica. Você é espaço e não nó em mim. Você é espasmo, carro na estrada, ônibus vazio, idéia provável.
    Eu te falei sobre despedidas e mudanças. Eu te encostei no meu peito e te fiz respirar. Coloquei meu rosto em sua insegurança para te acalmar. Sua inspiração esburacada o deitou longe de mim. E o que me dá só faz parte da vontade de me ver acontecer além do seu lado da cama. Você caiu e deixou cheiro onde haviam minhas próprias maneiras de dormir e acordar.
    Fotografias te matam aos domingos e a minha nostalgia acende fogueiras de segundas-feiras intermináveis. Escândalos, projetos de sonho e vinil. E se não choro, meu bem, é para você não acordar.
    Quando ligou o carro fui ver se a marcha era aquela coisa triste em sua mão. Duplo sentido que te fazia sorrir enquanto dirigia. Mas dessa vez você só ofegou. Morria na estrada, numa sensação de vida que você temia, sempre temeu, renega. Sua solidão é um casaco apertado demais para vestir no inverno. Esse verão foi a coisa mais fria de não ter seu abraço para me juntar.
    Você é daqui a ali, uma rua de terra que eu não sei onde dá. Não tem farol, poste, buzina. Você vai sozinho de um jeito que eu não vejo mais daqui. Não acompanho com olhos de mulher que já deu trago, ferida, cólica. Me dei um remédio que funciona na colher de não sentir culpa pela sua parte da cama ter afundado. Você era aquele monte roupa no chão.
    Quando saí do carro, aflita de despedida que fingia mais um dia. E esse mais um dia qualquer era você saindo da minha frente com um sorriso sem graça de quem não vê mais graça em ter e nunca viu sentir em ser. Mas isso, isso a gente não vê. É uma coisa junta que não te agrada, um amor forte que te prepara pra vida e você não quer. Não eu, cama, chão, mas você.
    Quase feliz na mesa do bar pra falar que tem pêlos no saco e língua na boca. Desistência de tocar o chão, implicância que o que é, é só terra pra se afundar.
    E agora, músicas de despedidas; daquelas que você me sugeriu num álbum de 88. Eu nasci e você já ouvia mundo, mesmo que o mundo te fosse um rock nacional anos 80 descoberto através da TV. Sua idade é a beleza que eu vi primeiro. Antes, antes de ter sido a sua menina, quando eu ainda era para você a visão de um passado delicado. E isso não tem gosto ou cheiro, mas me faz pensar no que seria antes de eu chegar.
    Agora, se eu não te fumo, não te tomo em goles, em remédios a gota, em músicas de carnaval, escrevo como um disco ouvido pela primeira vez. Este mesmo, você sabe. Eu quase te encontrei atrás da loja de Cds, na esquina onde você caiu sem dó.


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  • February 09, 04:17 PM

    Domingo, 24 de Janeiro de 2010



    Eu vou te encontrar nos muros cobertos de folhas, lugares adormecidos pelo tempo. Eu vou te encontrar em outras passagens dessa vida, quando tiver mais coisa pra dizer. Eu vou te encontrar nas torres de 130 andares, por trás das malhas de vidro. Caindo no esquecimento, no futuro que eu não sei se haverá.
    Vou te escutar nas finas antenas de metal. Vou ver teus desenhos no jornal, um rosto distante se apagando no meio da multidão.


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    'Desenhos no Jornal' de Sá, Rodrix e Guarabira.
  • February 22, 02:27 PM

    Liberdade é mais importante que ter asas e mais importante que espaço. Ser livre por dentro é ser livre de qualquer maneira.











    Me deixa falar sobre tudo o que já disse antes. Repetir os verbos e as intransições que o meu coração declama. Me deixa dizer tudo o que sinto até que eu tenha que criar um novo sentido. Provocar palavras como quem empurra um carro novo do abismo, sujar as mãos com verdades inteiras no percurso.
    Me deixa ficar bêbada e vomitar as frases brancas e curtas que usam para foder inocentes histórias de amor. Histórias de amor ao avesso. Xingar as mentiras cruas que enfiaram na minha boca enquanto eu dormia. Dormia com o nariz espremido no travesseiro, os pés virados para cima e os lábios afogados em silêncio.

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  • February 03, 10:11 AM

    Heartbreaker, your time has come.







    Venha me pegar, pequeno bandido. Porque eu já cansei de esperar do outro lado do muro, que você venha roubar a tranquilidade pagã das minhas manhãs calmas. Meu espirito e toda a minha lucidez me obrigam a pensar em você como naqueles filmes estrangeiros que só passam depois das 11, reprisados na madrugada frívola de carnaval. Venha me buscar porque a noite vem contrária. Porque meu corpo e o teu olhar de malfeitor seduzem as unhas pintadas de vermelho, levam-me direto para as tuas costas, direto para você. E se ainda é cedo para respirar ou ameaçar falta de educação, que o tempo acabe no último minuto; que não reste nada além de horas que já se esgotaram. Venha agora. Venha para aquecer a extremidade física do meu querer determinado, que tanto esteve machucado, que tanto buscou ser algo além de puro e preciso sentimento incontrolável. Venha me pegar, me botar no lugar onde tua loucura é a racionalidade dos que possuem frio. Porque o valor, o peso e a densidade dos cortes nas minhas pernas, proporciam a temperatura capaz de te manter em pé. Porque não somos aliados às inconstâncias vagarosas que só caem quando o tempo é bom. E ainda costumam dizer que nos apressamos para mergulhar em mares fundos, quando as pedras estão na margem. Mas se é o perigo que te faz me ouvir, se é o risco que liberta meu tormento não mais atormentado, destruo uma por uma as razões para ficarmos onde estamos.
    Venha me pegar, desdobrar, me revirar. Porque não existem porquês possíveis de serem respondidos. É apenas o teu corpo e o meu na palma da mão do mundo. E, mesmo assim, alucinados e vagabundos, estamos em extinção.


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    Fevereiro de 2009.
  • January 19, 09:01 PM
    Elisa não pode mais enfiar os pés no esgoto, acumulando sujeira entre os dedos, para feder lembrança do que já passou.


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  • January 16, 07:33 PM

    leveza densa

    'Pelas pernas.
    Me sobem abraços pelas pernas e quando chegam nos joelhos choram. Sou uma flor que boia em águas de amores e bruscas separações. Se me toca, me vê a pétala. Mas arrisca o miolo após o espinho que, do caule, só o que faz é assustar sua pele?
    Boio sobre a coxa, mas aconteço no centro, sustento o intenso. Não tenho gravidade, mas afundo na profundidade do tudo'


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