caroline.barrueco@gmail.com
11 969539637
falei sobre minhas espectativas, planos, rotinas, sensações, sentimentos. tirei e mandei uma foto.
adoraria, pelo romantismo, que o processo fosse mais analógico, mas não confiaria essa carta, fechada por dois anos, a mim mesma, nem a outra pessoa. então usei o site http://www.futureme.org/
tentar expulsar qualquer outra espécie de dentro das suas colônias, aceitando somente animais subordinados e vegetação decorativa sempre me pareceu um comportamento bastante alien, mas recentemente percebi que as formigas e as abelhas também fazem isso. por mais que os humanos me pareçam diferentes dos outros animais, está difícil listar características objetivas que sejam exclusivas do ser humano.
depois de engolidos e digeridos pela colônia humanóide, as poucas espécies sobreviventes, agora já cinza ou marrons, estão adaptadas para a vida urbana.
esses foram os animais que vi durante um dia na cidade de são paulo
ter 4.5 graus de miopia na prática significava ser totalmente dependente de um acessório para poder interagir de forma confiante no mundo, mas me dei conta que eu não estava familiarizada com o mundo que os meus olhos de fato enxergavam. só quando tomava banho.
aí quando percebi que iria perder isso pra sempre, senti uma vontade de agarrar a minha miopia, para poder, pelo menos, lembrar depois. passei 36 horas sem óculos, consegui fazer quase tudo, me senti mergulhada e ao mesmo tempo sobrevoando o mundo. tive que pedir ajuda algumas vezes, tive que evitar atividades que exigissem leitura a distância. tive certeza que se os seres humanos vivessem na selva e se a seleção natural ainda estivesse em vigor, eu já estaria morta.
foco: a partir de 8 centímetros e até 29 centímetros, em locais bem iluminados; depois dos 29 centímetros perda de foco constante e gradual até o fim.
o que eu mais gostava de não conseguir focar quase nada eram os pontos de luz a noite, que se transformavam em lindas esferas perfeitas e translúcidas que se misturavam e se sobrepunham umas as outras.
tentei representar nesse vídeo. (do 0:47 ao 1:00)
e na manhã seguinte meus olhos foram queimados com um lazer que botou o mundo em foco.
saint-denis, periferia de paris. era madrugada, percebi uma música saindo da sala ao lado do meu quarto, e, assim que um rapaz passou por mim, perguntei se podia entrar lá. ele disse que sim.
a sala estava cheia de uma luz fria, de pessoas usando trajes de gala sentadas pelos cantos e de crianças correndo. fui até o fim de um corredor e encontrei algumas mulheres bebendo e conversando alto. fui instantaneamente bem recebida, me deram cerveja e uma marmita de comida, a Marie (que depois descobri que faz parte da seleção francesa de badminton) me contou que eu estava dentro da celebração do luto do seu tio.
perguntei se não tinha nenhum problema, já que eu não era da família e nem conhecia o falecido, e ela respondeu que não, e que a namorada do primo dela também estava lá e também era branca. dei uma disfarçada para não comer o rabo de peixe que estava no meu prato e disse que no brasil todo mundo é branco e preto ao mesmo tempo. um menino me perguntou qual é a minha cor preferida, eu disse que é a cor da minha calça (que é verde-claro brilhante), a dele é vermelho. fiquei la conversando por mais algum tempo, me senti muito bem, ninguém parecia estar triste com a morte do tio. também quero que meu funeral seja uma festa.
quero viver num mundo em que é possível confiar nas pessoas.
e gosto de arriscar, acredito que estando vulnerável as surpresas acontecem, e só por serem imprevisíveis já são melhores do que o que se pode esperar regularmente.
contexto: um festival imenso e comunista, no meio da alemanha. 80 mil pessoas. minha barraca estava do outro lado e eu queria pegar alguns objetos para fazer uma coleta para o banco mundial da genitalia.
estava anoitecendo e o melhor seria conseguir uma bicicleta, pensei em pegar alguma que estivesse por ali, mas não encontrei nenhuma sem cadeado. vi uma moça sentada com uma bicicleta na frente e uma atrás:
- essa bicicleta é tua?
-não.
-e essa?
-sim.
- meu camping fica muito longe, tu me empresta ela para eu ir até lá pegar algumas coisas que eu esqueci?
- depende. .. quem é você?
- meu nome é caroline, eu sou brasileira e estou aqui com um coletivo que faz festas, nossa apresentação foi sexta.
- hum.. você pode deixar alguma garantia?
- eu não tenho dinheiro aqui, pode ficar com a minha câmera.
- uau, ganhei uma câmera. ok, seja gentil com o panda.
- ta bom, pode tirar algumas fotos se quiser. espera, como nos encontraremos?
- nós vamos continuar aqui por um tempo.
- ok.
realmente os dois únicos objetos que eu levava eram a câmera e uma capa de chuva fechada numa bolsinha. peguei a bicicleta que era uma daquelas pesadas montainbikes com um urso panda amarrado na frente e fui até o acampamento. detestei andar naquela bicicleta. na volta senti bastante ansieade, (sensação muito rara para mim) porque demorei muito mais do que esperava e ficava pensando que a mulher poderia ter sumido.
quando cheguei já era noite, estava frio e ela não estava mais lá, sentei no tronco onde nos encontramos e esperei. aos poucos eu me dei conta que tinha feito uma troca realmente muito estúpida, que a minha câmera é o objeto material mais valioso que eu tenho, e meu instrumento de trabalho, que vale mais que a bicicleta, e que eu nem gostei daquela bicicleta.
além disso, eu mal lembrava da cara da mulher, eu não tinha perguntado absolutamente nada pra ela e ela nem tinha sido tão simpática, na verdade tudo levava a crer que ela iria ficar com a minha câmera. eu fui completamente desatenta na hora da troca e não percebi nada disso. fiquei muito tempo parada, esperando e me sentindo mal.
também pensei que eu precisava, no mínimo, aprender algo com essa situação, e que provavelmente seria:
* ser mais inteligente – uma tarefa difícil porque exige que se modifique a forma com que o cérebro funciona, mas vou tentar ativamente.
* estar mais atenta.eu estava dormindo sentada quando a mulher reapareceu, eu já não esperava nada disso então foi muito melhor. levantei e dei um abraço nela, (depois descobri que ela é dinamarquesa e por isso ficou um pouco dura nesse momento)
ela contou que se chama Nikita e esperou muito, mas estava tão chapada e faminta que decidiu voltar para o camping e comer. eu a acompanhei até sua barraca, fomos conversando e nos perdemos no caminho. de tudo que ela falou o que eu achei mais interessante é que ela iria participar de um festival chamado Freaks of Nature, na próxima semana.
aqui estão as fotos que ela tirou:
da pra ver o glitter azul na camiseta dele ainda
passamos a tarde sentados na grama de um parque no meio de um grande festival de arte contemporânea. um senhor se aproximou, elogiou nosso happening e se apresentou como um artista renomado. todo o tempo ele passou com um bambu na não, que era usado para bater nas pessoas, no meio de frases de sabedoria oriental. passamos horas conversando, aprendi bastante com ele. em um momento fui desafiada a atacá-lo, mas a conversa seguiu como se não fosse nada até que eu peguei um punhado de glitter azul e joguei na cara dele.
ele engasgou e agradeceu, foi altamente emocionante jogar glitter na cara de um velhinho oriental. além disso trocamos contatos e depois eu descobri que ele é, na verdade, professor de tai-chi chuan , e que inventou toda uma persona. incrível.
eu pensava que estava entretida e feliz enquanto folheava todos os livros de arte de uma livraria só com livros de arte, até que reparei no livro Steal This Book, da Abbie Hoffman e aí tudo mudou de perspectiva, tive sensações muito maiores e que me interessam muito mais. planejei um pouco, fiquei cuidando o momento em que a vendedora estivesse conversando com outro cara, e botei o livro na bolsa. o livro steal this book custaria 14,95 euros, mais de 30 reais. depois pensei se muita gente de fato compra, e qual porcentagem dele é roubada.
não posso esquecer de sacudir os meus químicos periodicamente.
(Vídeo-registro da performance do coletivo artístico Voodoohop no festival fusion, na Alemanha, 2013)
Captação, edição e finalização
(vídeo de divulgação do crowdfunding para financiar a turnê da Voodoohop na europa, 2012)
captação, edição e finalização
(vídeoclipe da música No Canto da Cidade, do DJ Psilosamples, 2012)
captação, edição e finalização
(vídeo da festa promovida pelo coletivo voodoohop, no morro do vidigal, rio de janeiro, 2012)
captação, edição e finalização
(clipe do coletivo voodoohop no bloco cru, rio de janeiro, 2012)
captação, edição e finalização
(cobertura da entrevista do diretor Zé Celso Martinez para a revista Trip, são paulo, 2011)
captação
(vídeo-divulgação do Acampamento Ersilia, parte da exposição De Dentro e de Fora, uma parceria da galeria Choque Cultural com o MASP, são paulo, 2011)
captação, edição e finalização