Mereço estar aqui agora. Sofrendo a morte que sempre desejei. Estou só como sempre quis. Ainda me rendo a teu amor aos teus prantos, vejo-lhe todas as noites a derramar mares de dores dentro de ti. Deixe-me estar com sua alma, venha visitar aqui, o lugar do nada. O nada que estou e que sou.
Henri Amaral
No leito do hospital. Nunca esperei ter essa morte clichê. São exatas nove horas e vinte e sete minutos, estou sendo levada para o centro cirúrgico, querem levar mais um pedaço desse meu corpo. Câncer por minha culpa. As agências de modelo jamais aceitariam uma branquela pálida. Sem protetor no corpo. Sem protetor da morte.
Enquanto olhava para cima, buscava uma razão. Todos aqueles médicos me olhando, vendo-me como mais uma celebridade morta pelo narcisismo alheio.
Já não me olho no espelho há quase dois meses, essa mancha dominou meu belo rosto. Apenas revejo fitas e mais fitas das quais participei. Ah, como era bela…
Quando me dei conta o médico sacudia-me. Não toque em meus lindos braços! Olhei para os braços. Eram restos de pele e manchas. Não me pertencia mais àqueles membros enxutos de 40 e poucos anos atrás. A juventude não é eterna, muito menos a vida. O médico apenas dizia: Qual familiar irá acompanhá-la? Família? Isto nunca me pertenceu. Jamais pensei em ter filhos. Perder aquela cinturinha que me custou tantos dias de fome. Homens? Aos montes! Ricos de preferência. Mas agora nenhum deles quer uma velha imunda, como eu.
Neste corredor do hospital, alguns rostos velhos me reconhecem e se surpreendem. Consigo sentir o prazer daquelas velhas em me ver assim. Esta é minha quarta e, receio dizer, talvez última cirurgia. As manchas encobrem meu ser, assim como fiz com minha ganância.
Minha mãe morreu em um leito de hospital, mas não pude vê-la, muito menos ir ao enterro. Estava em um desfile Channel, aquele que você jamais perderia em sua vida.
Nunca pensei em como morrer. Agora que estou aqui com todos estes homens tentando encontrar esperança em algo concluído, penso em como morrer. Talvez suicídio, é belo, assim como eu. Talvez homicídio, é curioso. Mas talvez não morrer. A morte sempre me pareceu distante.
E hoje morro do jeito que nunca pensei: sozinha, feia, velha e no leito de um hospital.
Sofia Machado
Não quero que me prenda mais!
Eu voltei, voltei! Meu Deus, por que voltei? Matar não me adiantou de nada. Continuo vivo na terra, sem me enxergarem, mas vivo novamente. Minh’alma vaga pelo mundo. Assim como meu coração vagou.
Agora tenho de suportar toda a dor que me consumiu. De que me adiantou o suicídio se ainda estou aqui? Poderia estar vivo e amar, amar, amar. Não posso mais amar. Acabei para todo o sempre real.
Presentemente, admito que amei alguém. A vejo, é para lá que vou quando não vago. Deixe-lhe, a quero de volta… Ao crepúsculo de cada tempo a vejo adormecer em rios de lágrimas. Afoga-se na dor, assim como me afoguei na morte. A quero de volta…
Hoje, apenas dou meu amor sem corpo, de alma.
Henri Amaral.
Fui teu bastardo. Ingênuo bastardo. Nasci do ódio, traição, desejo, paixão, sexo, momento. Quero que sinta-se culpado pelo resto de seus dias na terra e no inferno. Passei fome, mas não só de comida. Passei fome de amor. Passei dias sem comer e sem amor. Passei a vida sem existir. Passei. Acabei.
Acabei aqui na água. Quando era criança adorava ao mar, mesmo nunca pisando nele. As fotos dele me traziam alegria, parecia que vinha felicidade nas ondas e nelas iam embora a tristeza. As fotos do mar faziam-me feliz. Já você? Fez crescer horror dentro de mim.
Fui rejeitado pela vida. Rejeitado pelo ventre de minha própria mãe. Acabei em água. Pedi apenas que Deus me protegesse e parecia que era mudo para Deus, só afundei na água. Queria, ah como queria, ter tido amor.
Desgosto em viver foi o que tive. Nunca quis mulheres para a vida toda. Só tive momentos de paixão, assim como meu fruto. Transei com milhares de mulheres e me embebedei todas as noites. Fiz isso à procura da felicidade. Encontrei? Sim, claro. Felicidade em momentos. Não para a vida. Acabou em água.
Sai do meu corpo. O vejo lá afundando. Maldito corpo! Que me impregnou durante a vida. Não o quero mais. Deixo todo o sexo e prazeres inúteis da vida com ele. Levo comigo apenas o amor. O amor que nunca tive.
Henri Amaral
7:30 e já acordei pensando em alma gêmea. Fui para a redação, chegando lá “Google it” e apenas sites à procura da sua alma gêmea. Algumas acreditam que seja amor reencarnado, de outras vidas. Outras “o amor subsiste em outros planos e em outras vidas. É eterno”. Seria infinito durante a vida, e depois? Sinceramente, cansei de pensar nisso. O melhor que faço para essa mulher é fazê-la acreditar em sua própria fé. Foi assim então que respondi.
“Olá Solange,
Fiquei sem palavras ao ler. Alma gêmea é um encontro perfeito entre duas almas..."
Calma! Parei de escrever novamente. A alma gêmea é uma utopia do amor? Mas não sei se existe. Não tenho mais família na cidade e apenas colegas, isso seria suficiente? Ou alma gêmea engloba prazer? Não sei... Não sei. Apenas continuei respondendo àquela maldita mulher que me deixou ambígua.
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Lembro hoje dessa história e dou risada. Misto de passado e presente, mas já estou aqui no futuro. Hoje posso dizer que alma gêmea com algum parceiro não existe, assim como político completamente honesto.
Com meus 69 anos e diversas bolsas Gucci ao lado, sou feliz. Não que seja materialista, apenas foi assim que me realizei. Tive muitos homens durante a vida. As pessoas ao meu redor sempre me pressionaram pelos 30 anos e ser solteira. Aceitei ao casamento. Alguns duraram 15 anos ou 15 dias, mas foi eterno enquanto durou. E quanto a mim? Descobri que alma gêmea é consigo mesmo. O amor ao próprio.
Carolina Cancela.
E como pude? Como? Deixar que todo amor florescesse e apodrecesse. Culpa que tenho de tanto amor e sofro pelo o que há de vir.
Se pudesse parar. Mas como? É mais forte que eu. Que meu ser.
E lhes peço perdão pelo amor que criei. Perdão seria pouco! Pediria clemência, remissão.
Tenho-me como imundice completa.
Talvez todo esse amor não resulte em nada mais, por eu não querer ou pela sua metamorfose eterna. Meu único medo é que essa metamorfose resulte em ódio.
Aquele cursor maldito não para de piscar na minha frente, não para, não para. Há três dias preciso mandar algo para o jornal e nada me serve como inspiração. Afinal, quem me mandou trabalhar em uma revista voltada para o publico feminino? Muita futilidade. Aqui nesse setor eu respondo as perguntas, já recebi das mais ridículas às mais interessantes, mas censuradas pela chefona.
Esses dias resolvi ir a uma balada com a minha única salvação, a única amiga não casada. Ela namora, mas me acompanha. No final da noite conheci um cara que nem ao certo sei o seu nome. Bebi demais. Que seja, ele foi até meu apartamento e passamos a noite juntos. Foi bom, mas esquecível. Foi ai que me lembrei dele e resolvi fazer aquele maldito cursor parar de piscar.
Recebi uma pergunta que me dizia: Olá, tenho 23 e sou fã da revista. Gostaria de saber se alma gêmea existe? Ah, e eu vou lá saber se isso existe. Devem achar que trabalho como macumbeira, sou apenas uma jornalista mal remunerada. Quando ia começar a escrever já era hora de voltar pra casa. Guardei a inspiração pro outro dia.
Em casa, larguei tudo na mesa e corri pro banho. Depois me preparei mentalmente para a monotonia de todas as noites.
Pode parecer meio grosseiro, mas é algo natural. Depois daqueles filmes de mulheres lindas de 35 anos que são tão ricas e esticadas que parecem ter 25, e aparecem com homens maravilhosos, bolsas da Gucci e Starbucks a todo instante, você se sente um lixo. Amo e odeio a esses filmes ao mesmo tempo. Quero ser igual a elas, mas não posso. Bom, voltando a parte do grosseiro, nesses filmes elas transam feito cachorras no cio, e é impossível negar que não haja inveja. Cheguei em casa, coloquei meu amado Mozart no último volume, abaixei as luzes e fiz um encontro sensual comigo mesma. Sim, me masturbei, e tratei-me mal, pior do que qualquer homem, ou mulher poderia tratar. Senti-me um lixo, e dei-me conta do quanto preciso de alguém, mesmo que seja apenas sexo. Hoje, com meus 29 anos, solteira, formada em Psicologia e Jornalismo, acho que já é hora ter algo sério.
Desde meus 14 anos, quando dei meu primeiro beijo, nunca quis nada sério. Dos meus namorados o relacionamento mais sério durou 3 meses, e não foi lá aquelas coisas de conhecer família e ter aliança, apenas namorico. Nunca tive uma sogra. Nunca fui nora. Não me sinto fracassada por isso. As maiorias das minhas amigas, que tem mais ou menos a minha idade, são casadas ou são noivas. Acho uma babaquice namorar, noivar e casar, pra mim tudo é um tédio no final. Mas desde esse encontro comigo mesma, estou precisando de alguém. Faz mais de 3 meses que não me relaciono com alguém, ando ocupada. Trabalho demais.
Tive médico hoje de manhã. Ginecologista. Essa palavra me causa medo e tesão. Meu médio é gay, mas olhei para ele com um olhar diferente hoje. Tentei, vamos dizer que, seduzi-lo. Se deu certo? Foi uma péssima idéia. Ele falou que mesmo se fosse hetero jamais me daria bola porque a minha vagina está mais mal cuidada do que de uma vaca. Tá, ta... Não foi bem isso que ele disse. Apenas recebi um olhar de “Hello, sou gay!”, e me pediu para voltar apenas daqui 6 meses. Esse, francamente, não é o homem dos meus sonhos.
Minha busca continua...
E hoje ouvi falar de Jesus. Estava no metro, aquelas mesmas pessoas exaustas da rotina, dentre todas, uma me irritou, mas logo depois me chamou a atenção. Era uma daquelas senhoras evangélicas. Cabelos compridos, saias longas e Jesus na língua e no coração.
É um preconceito meu, mas esse tipo de gente é influenciável. Entre o barulho do vagão e as palavras delas, Jesus era o que mais dizia. Jesus salvação, Jesus sofredor, Jesus humano, Jesus.
Dizia-me como era o caminho para o céu, deveria me apoiar nele que me faria subir degrau por degrau. Na hora me deu vontade de falar: Só porque a senhora leu um livro de ficção, acha que pode chegar aos céus assim. Mas ai, eu seria ignorante. Segurei-me mais um pouco. Mais uma estação. A mulher ainda continuava a falar no bendito Jesus. Foi quando ela me deu um sorriso, mas foi tão sincero, tinha tanto convicção naquele sorriso que parei de ouvi-la e comecei a olhar ruga por ruga do seu rosto. Olhei as meias, o sapato, tudo nela. Ela era tão feliz apenas por falar de Jesus para os outros. Aquele sorriso era verdadeiro demais para ela não ser feliz. Foi ai que pensei: será que ela já teve alguma decepção na vida? Será que duvidava de Jesus e hoje acredita por medo da morte? Será que a influenciaram a isso? Pode ter sido tanta coisa. Mas uma coisa era certa: Hoje eu ouvi falar, e muito, de Jesus.
E se todo o amor incumbido em mim
Fosse jogado ao mar
E voltasse, repentinamente,
Sentiria-me feliz?
Será que se todo esse amor
Que não há quem o queira
Ou quem já quis
Fosse embora, sentiria falta?
Todo esse amor...
Tolo todo esse amor...
Amor tolo.
Mas que dói, e como.
Morreria por esse amor
Que nem sei mesmo se é amor
De tanta dúvida que tenho
Se, verdadeiramente, ele possa existir.
Carolina Cancela.
Primeiro é a infância, onde somos prósperos com a vida. Não existiram dramas, traumas antes disso. Por isso que sentimos tanto a sua ausência. Logo após a adolescência. O terror de todos os tempos. Onde se dá conta que na infância foram criados medos e são refletidos no presente. E depois dessa maré horrenda, se chega na idade adulta. Onde todo tipo de trauma é guardado e a pessoa se considera viver na real existência. E, finalmente, a velhice. Idade onde se busca Deus ou o desespero. Onde as crenças começam a surgir. Onde o homem perde ou ganha sentido da vida. Onde vive ou morre por dentro. Assim. Nossas vidas se resumem em traumas e perdas, de todos os sentidos, do material ao espiritual. Portanto, "a vida é uma coisa miserável. Decidi passar a vida pensando nisso”.
Carolina Cancela
Talvez eu seja um nada. Talvez eu seja um tudo. Talvez. Nas teses sem fundo de razão os homens creem que tem as verdades às mãos. Sofro por ver os homens nascerem perdidos com sua mente. O medo deixa o homem forte. Forte de dor. Forte. Percebi que o homem sempre foi bicho. Selvagem. Horrendo. Zaratustra, sob meu ver, estava com metade da razão. Buscou a solidão destes corpos sujos que nos pertencem. Imundos! Se pudesse, libertava-me agora do mundo de todos os homens. Deixarei tudo aqui. Apenas levo a minha mente, nem mesmo quero ao coração. Posso ser como Branca de Neve, Alice ou a Bela e/ou Fera, apenas imaginação. Não sei. Nem ao menos quem sou. Enquanto isso vivo por aqui apenas a desejar a sair do mundo dos homens, que também nem sei ao certo quem são.
Carolina Cancela
Já pensou quando se descobre que você é apenas fruto da imaginação de outra pessoa? Quando se descobre que a vida inteira você acreditava que existia, mas não passa de um sonho? E ainda por cima que tudo o que se faz é controlada por essa pessoa? É mais agoniante do que viver sem sentido, creio eu. Não quero ser um fantoche de um alguém, não me importa quem. Mas nem posso saber se sou ou não fantoche de alguém, se nem sei se existo.
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