E então, menino,
Não é que enfim entendi?
Não somos tão diferentes assim:
Sofremos do mesmo mal.
Tua condição
Cabe também a mim.
Mas ultrapassaste-me no bom senso
E quando penso ter aceito
A condição que nos une, errados
Por mais uma vez a razão é perdida
Quando em outros lábios,
(Como os teus)
Encontro o oblívio.
Some things you never get used to
Even though you’re feeling like another man
Um grunhido antecede o despertar completo, vez ou outra acompanhado de movimentos mais amplos. O chão pressente o encontro com os pés, mas eles continuam no máximo a se esfregar debaixo das cobertas.
Antes que os pés toquem o chão e o dia comece, há o toque de outro corpo, semi-adormecido ao lado, o corpo que geralmente ocupa aquela mesma cama. O território não é seu, por mais que seus cabelos perdidos diga o contrário.
Why you put your empty arms around me?
A cena se repete como em sonhos dos quais se acorda dentro de outros sonhos. A fita sempre trava nos mesmo frames. Mas o mais correto seria comparar a situação a ensaios de uma peça de teatro cujo diretor temperamental teima em trocar os atores. Menos um. Menos este eu-lírico, que pode tanto ser um eu quanto tantos outros. Uma coisa nesta vida é certa: você nunca é especial o bastante para viver uma experiência inédita.
The thrill is gone
I can see it in your eyes
Em The Freewheelin’ Bob Dylan, o trovador moderno caminha aconchegado em seu par. Você observa a capa do disco e é como se sentisse o vento gelado queimando o seu rosto, um abraço que não está vazio. Aquela imagem, a captura daquele momento, tudo tão familiar. Você já esteve naquele mesmo lugar, sendo aquelas mesmas pessoas. Talvez mais de uma vez. Talvez uma vez só. Nunca? Não sinta-se tão superior. Ninguém será.
Who could hang a name on you?
When you change with every new day
Still I’m gonna miss you
Os pés do eu-lírico tocam o chão, a planta espalhando-se rumo ao equilíbrio. Luz e sombra no quarto com os toques discretos do dia lá fora, no caminho para o banheiro, um suspiro se esconde atrás de um bocejo.
Os jovens caminhando juntos, protegendo-se do frio, fazem parte de uma outra vida.
But don’t think twice, it’s alright
Escondo-me nas frestas
Enquanto espalho-me em festas
Sob a máscara de lábios de rubi.
Olhos apequenados, sorvendo tudo o que vivi
Risos escancarados, cansados de tanto dizer sim.
Escondo-me no movimento das mãos
Passeando pelas linhas que dizem dizer de mim.
Entrego-me nos vãos que jamais dizem nãos,
Sabedoria cega da carne trêmula que sorri
Rios destemperados que a flâmula do corpo verteu.
Escondo-me no tato que me percorre
Pensando no quanto sofre quem não se encontra assim.
Entristeço-me quando me ocorre não ser eu,
Solidão fria que tanto a vida prometeu a mim.
Esquivo-me seguindo o fato de que tudo morre.
Escondo-me dos ternos olhares,
Enquanto perco-me em tênues toques tentadores.
Entregariam-me os olhos a gritar os interiores,
Entristeceriam-me a eles respostas dissabores,
Esquivo-me então no silêncio das pálpebras à prova de dores.
Queria fazer filmes para registrar como a noite se mostrou daquela vez, como a lua se exibia e como o vento soprava. Como as pupilas se dilatavam e contraíam, como as garrafas e os copos se acumulavam. Como aquele banco parecia solitário. Como foi a última parada, como a noite se resumiu e como a luz do dia entrava pela janela. Como estava a manhã e como a tarde acabava.
Mas só mesmo com palavras se afirmaria que aquela foi a última vez que aquilo aconteceria.
Ilunga (tshiluba) – uma pessoa que está disposta a perdoar qualquer maltrato pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez.
Os olhos permaneceram deitados sobre o ponto final enquanto a mente saiu rumo a divagações. Visitou lugares abandonados, colocou retratos em movimento, tirou a poeira dos discos encostados, voltou trazendo o gosto amargo à boca.
Fechou os olhos, tirou os óculos e tentou esfregar o cansaço com os dedos. O telefone vai ficar onde está. Talvez haja sabedoria nas palavras que ecoam pelas gargantas do Congo.
O dia começou com uma mentira. Continuar com a verdade: inviável.
Ônibus, passar o tempo. A volta, sem gaguejar, a voz com traços de indignação. Simulação, dissimulação, insubordinação. O sono era muito, a cama era o fim.
A noite começaria com uma mentira. Qual o mal em fechar as cortinas e encerrar a peça?
Sem mentiras.
Um bar, mais pessoas do que originalmente se esperava. Conheço, conheço, um mar de desconheços. Mais e mais os bares fecham cedo. Gostava da época em que a peregrinação etílica se dava por conta própria, não por razões alheias.
Um grupo, alguns. Uma dupla. Mais de 1000 caracteres antes mesmo de passarem a ser limitados a 140. Garrafas e abomináveis copos plásticos. Risadas e a proteção do álcool contra o vento frio.
O dia vem e todos têm de se esconder nos subterrâneos. Uma despedida desajeitada.
Acaba assim? Há público interessado…
Era só o piloto da série.