Queria fazer filmes para registrar como a noite se mostrou daquela vez, como a lua se exibia e como o vento soprava. Como as pupilas se dilatavam e contraíam, como as garrafas e os copos se acumulavam. Como aquele banco parecia solitário. Como foi a última parada, como a noite se resumiu e como a luz do dia entrava pela janela. Como estava a manhã e como a tarde acabava.
Mas só mesmo com palavras se afirmaria que aquela foi a última vez que aquilo aconteceria.
Ilunga (tshiluba) – uma pessoa que está disposta a perdoar qualquer maltrato pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez.
Os olhos permaneceram deitados sobre o ponto final enquanto a mente saiu rumo a divagações. Visitou lugares abandonados, colocou retratos em movimento, tirou a poeira dos discos encostados, voltou trazendo o gosto amargo à boca.
Fechou os olhos, tirou os óculos e tentou esfregar o cansaço com os dedos. O telefone vai ficar onde está. Talvez haja sabedoria nas palavras que ecoam pelas gargantas do Congo.
O dia começou com uma mentira. Continuar com a verdade: inviável.
Ônibus, passar o tempo. A volta, sem gaguejar, a voz com traços de indignação. Simulação, dissimulação, insubordinação. O sono era muito, a cama era o fim.
A noite começaria com uma mentira. Qual o mal em fechar as cortinas e encerrar a peça?
Sem mentiras.
Um bar, mais pessoas do que originalmente se esperava. Conheço, conheço, um mar de desconheços. Mais e mais os bares fecham cedo. Gostava da época em que a peregrinação etílica se dava por conta própria, não por razões alheias.
Um grupo, alguns. Uma dupla. Mais de 1000 caracteres antes mesmo de passarem a ser limitados a 140. Garrafas e abomináveis copos plásticos. Risadas e a proteção do álcool contra o vento frio.
O dia vem e todos têm de se esconder nos subterrâneos. Uma despedida desajeitada.
Acaba assim? Há público interessado…
Era só o piloto da série.
Escreveria sobre pessoas sem nome diante do inominável. Escreveria sobre o que o vento leva e sobre o que ele nem sempre traz. Escreveria sobre a juventude que corrói a pele até não ser mais. Escreveria sobre a alquimia moderna travestindo latão em ouro. Escreveria sobre o encontro dos olhos mirando as bocas para atingir os corpos. Escreveria sobre eu e tu, sem precisar de mais pronomes e casos pessoais retos. Escreveria sobre ser, não ser e talvez parecer. Escreveria sobre apenas estar.
Mas tudo o eu vejo é o beco. Vazio.
Vida em tubo de ensaio, tudo para ser representada. Ajusta-se a química das manhãs, a energia é gasta para girar os pedais que não levam a novo horizonte, moldam-se as noites para serem dormidas. As pílulas lhe trarão a felicidade de não querer mais, a insipidez da água denuncia.
E nada disso jamais aconteceu.