Aline Sant´Ana

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March 20, 12:54 AM
Divulgação.

Ano de 2011, indústria cultural saturada, complexo musical. Fica quase imperceptível apresentar uma nova banda num mercado que, via internet, cria, divulga e consome milhões faixas [quase que] na mesma freqüência do som. Pólos culturais surgem na mesma medida em que as bandas se deslocam de seus habitat. Mas ainda assim, o público-mãe, de onde as bandas se originam, interfere na produção artística daquele lugar. Ou não.

Se, atualmente, em Goiânia emana o tecnobrega da Banda Uó , do agito-boêmio da Lapa ecoa um som progressivo, que nenhum Samba de Raiz do Rio de Janeiro poderá negar – isso é carioca!

Imagina um arranjo techno wave remixado com uma batida (leve) de funk ao fundo? Junte todo esse psicodelismo musical numa letra que te convida a “curtir uma onda” da forma mais exquizita possível. O chiado, neste caso, vem de brinde. Não se assuste caso alguém refira o conteúdo citado ao nome DOO DOO DOO.Sem significado plausível de explicação à tripla repetição da sílaba DOO - aparentemente inglês - a banda carioca chega ao convés cultural da cidade afirmando, ou melhor, não-afirmando, toda característica regional das produções musicais. A não-afirmação, neste sentido, não é só pelo ritmo indefinido, ou pela letra cujas temáticas não pretendem fazer sentido. Mas, a forma e o contexto em que se insere, são, no mínimo, incomuns aos projetos independentes.

Divulgação
 No perfil criado no MelodyBox - uma rede social específica para divulgação de bandas - o Doo Doo Doo se descreve como um projeto de música pop experimental que, no meu curto entendimento, está mais para pop independente originado na “orgia musical” de uma grande cidade, do que para as tendências indies que a banda tenta sustentar.

Ainda que o trabalho e a divulgação sejam, de certo modo, independentes, o curto repertório da banda parece se encaixar nas tendências de músicas sinteticamente modificadas – como é o caso do próprio tecnobrega. Com apenas três (isso mesmo,três) demos lançadas pela própria banda na internet, o Doo Doo Doo, que se formou no final de 2010, sustenta sua credibilidade nos integrantes experientes, que possuem entre 28 e 30 anos de idade.

Capa do CD de divulgação da banda
Dudu Guedes (voz e guitarra), Pablo Lisboa (teclados) , Alberto Ludo Kury  (voz e teclados) e Marcelo Renovato (MPC e Samplers), além de terem participado de bandas anteriores, como o Cabaret Cru, o Bloco Cru, o Aquaria e a Sala do Sino, respectivamente, ainda integram outros projetos paralelos, fora do Rio de Janeiro. Mas nada se compara ao reconhecimento que “Maré exquizita”, “Negócio” e “Dia de jogo” tem recebido, ainda que timidamente, nas noites cariocas.

Com um repertório que mistura White Stripes, MGMT, CSS, Nirvana, chillwave e as três demos da banda, os shows que até o mês passado (set/2011) se resumiam à Lapa, agora atendem à Zona Sul do Rio e chegam a mais de seiscentas visualizações no YouTube.

 Ainda tendo ganhado destaque na capa do Caderno Cultura (out/2011), do jornal O GLOBO, a banda vem conquistando um público cada vez mais pop e alternativo, devido à performance “transcultural” apresentada, tanto na imagem, quanto na mistura musical a que se propõe. Até o simpático  camelo, símbolo da banda, tem sido alvo de  comentários na página do facebook,  cuja expectativa para o lançamento do álbum (2011), já contabiliza 3 mil “curtições”.  
Apesar dos “meninos” do Doo Doo Doo já serem um pouco maduros, as batidas e as letras das músicas expressam tudo o que há de mais novo, mais louco e mais incomum, sem compromisso com as classificações. Na letra de “Negócio”, os termos belê e leski ganham a mesma naturalidade do colé quando traduzido para o português formal como qual é. Neste caso, a banda é tão livre, que não coloca a necessidade de informar, para quem não é do Rio, que o belê é a aglutinação da palavra beleza; e o leski, uma mutação da gíria urbana carioca para a palavra moleque (moleque -> lek -> leski).


Não há como negar o perfil mercadológico da banda, que mesmo desapegada aos estereótipos regionais, ainda sustenta sua identidade local. Talvez, isso aconteça por que a busca pelas características culturais determinantes de cada lugar, uma vez encaixadas no formato mercadológico, as tornem ainda mais peculiaridades. Isso faz com que o 3doo´s, como já são chamados pelo fio-da-gema carioca, seja ainda mais único tocando pop alternativo do que um sambão de raiz.

March 19, 09:40 PM
Que as grandes mídias agem em função de interesses, que vão além do interesse público, não é novidade para quem acompanha com olhar crítico o conteúdo veiculado nos diferentes veículos de comunicação. Desta vez, porém, o que me incomodou foi a cobertura do Levante Estudantil que vem acontecendo desde junho, no Chile. A criação de uma personagem-ícone pela imprensa fez com que a beleza de Camila Vallejo, até então presidente da Federação de Estudantes da Universidade do Chile (FECH), fosse mais importante que o próprio movimento. Desde agosto o caso tem sido referenciado principalmente pelo nome de Camila que, sem culpa (será?) levou o título de Musa dos Movimentos Estudantis devido a sua beleza que, a princípio, qualquer estudante universitária poderia ter. A normalidade de Camila talvez tenha chamado a atenção dos Conglomerados da Comunicação, que impregnados pelo estigmatismo e pela regular criminalização dos Movimentos Sociais não acreditam que uma líder do Movimento possa, sim, ser bonita.

 Possivelmente, o fato de Camila ter aparência e vestimentas consideravelmente diplomáticas, não condiga com o perfil “revolucionária criminosa” - que há muito vemos estampadas nas notícias da Via Campesina, do MST, dos Ribeirinhos, entre tantos outros Movimentos em que a figura da mulher está dissociada da feminilidade material, que a própria mídia cria.  A estudante acabou virando ícone, exatamente por contradizer o perfil desleixado que uma mulher politicamente revolucionária - como a colocam - deva ter. Será mesmo por isso? Fico na pergunta.

Google Imagens
A figura que é valorizada em Camila faz com que as mulheres, jovens e militantes, sejam automaticamente colocadas num lugar de inferioridade – o que me perturba. O destaque da imagem remete a ideia de que a feminilidade representada em Camila é algo extraordinário para o contexto: Vejam só que incrível, uma bonita líder sindicalista.
Ao perceber a forma como a notícia do Levante Estudantil Chileno foi tratada, dentre os maiores portais da internet, impressionou-me, primeiramente, sua origem: as duas maiores agências de notícias do Brasil atualmente, AFP e Estado, liberaram os mesmos leads informativos, em que a titulação de MUSA sobrepunha a importância do Movimento. Imediatamente, sem muita intenção de analisar o caso (só por curiosidade mesmo), comparei as notícias destas agências com as notícias das três maiores agências independentes da América Latina (Carta Maior, a Adital e a IPS notícias).  Dos seis portais alimentados pela AFP e Estado, que tenho acompanhando (UOL, R7,G1, Folha, JB e VEJA), somente um trouxe informações relevantes ao movimento:

O governo chileno apresentou nesta segunda-feira (5) uma proposta para negociar a reforma educacional com os estudantes universitários e secundaristas que, há mais de três meses, promovem protestos nas ruas das principais cidades do Chile para exigir educação gratuita e de qualidade para todos.” (Yanakiew, Mônica, JB, em 05 set 2011)


Mas ainda assim, no decorrer da notícia, o vocativo musa persistia em acompanhar o nome de Camila, sem maiores descrições.  Já nas notícias da Carta Maior, o nome de Camila aparece imprescindivelmente acompanhado de suas falas no discurso público . Na Adital, por exemplo, o vínculo das informações com o acontecimento foi maior. Por ser uma agência cooperativa presente em todos os países da América Latina e Caribe, a notícia teve o depoimento de Camila, neste caso tratada como Líder da FECH. A IPS preferiu nem mencionar a líder estudantil, dando ênfase à repreensão política que os estudantes sofriam no Chile.

Se as primeiras referências à “musa do movimento estudantil” já me incomodaram, imagina quando a VEJA resolveu fazer um entrevista exclusiva com a estudante, para saber o que ela pensava do título recebido? Quando Camila veio ao Brasil, convidada pela UNE (União Nacional dos Estudantes), para fazer alianças com o Movimento Estudantil daqui, a revista preocupou-se em fazer uma análise da vida social da estudante em função do novo posto dado a ela.

Segundo a reportagem de Gabriel Castro para a revista, “apesar do visual moderno, reforçado pelo piercing no nariz, Camila ainda defende um discurso antigo”, fator que não a tornaria tão popular, já que “pessoalmente, a personalidade forte não provoca apenas admiração. Pelo contrário” (Gabriel Castro, portal VEJA, 31 ago 2011) . Vale destacar que Camila não deu nenhum depoimentooficial para a revista, apesar do título da matéria afirmar: “no Brasil, Camila Vallejo refuta título de ‘musa dos protestos’”.

Nos outros portais , sem nenhuma surpresa, o foco dado às manifestações resumia-se em Camila Vallejo e as melhorias no sistema da Educação – resenha que, convenhamos, não revela as verdadeiras causas políticas da mobilização, já que desconsideravam o fator histórico das mobilizações estudantis no Chile ocorrerem desde a Ditadura Pinochet.

Mesmo com toda a especulação envolvendo a musa, ainda não acredito que esse tipo veiculação da notícia seja um problema puramente deontológico. Insisto que a tentativa de usar Camila Vallejo como um ícone-jovem dos Movimentos Sociais seja uma estratégia político-midiática para enfraquecer as raízes dos movimentos.

É mais fácil, do ponto de vista midiático, desconstruir um indivíduo pela imagem do que pela sua essência. No caso de Camila, a imagem da moça-bonita é colocada inversamente proporcional ao seu posicionamento-político. Posicionamento que, aliás, só foi divulgado no momento em que as Manifestações terminaram em confronto com a polícia. Para isso a revista VEJA não mediu as palavras ao colocar que o “Movimento Estudantil no Chile, cuja líder comunista veio ao Brasil, aos poucos vira baderna” (Setti, Ricardo.Política & Cia, portal VEJA, 31 ago 2011).

É evidente a crítica abusiva que a revista, e também os outros meios de comunicação, tentaram fazer ao implantar a imagem de Camila contra seus próprios ideais. O fato de a estudante fazer parte do Partido Comunista soa, para os que defendem o sistema neoliberal (ao qual o movimento tanto rebate), como uma alusão direta à bagunça, à baderna, às rebeliões. Assim, a produção de sentidos vinculados à notícia permite entender que as Manifestações Estudantis são uma bobagem de jovens universitários que, liderados por uma menina bonita e baderneira, querem aparecer nos veículos de comunicação.

Estes destaques dados à Líder Estudantil só me convencem de que o Movimento foi ferido pela superficialidade que geralmente é vendida aos jovens.  E mais, o apelo de ter uma musa num Movimento Jovem só reforça costume das mídias de massas em querer estereotipar as classes.

 Sendo um Movimento Jovial, logo, tem-se o lugar perfeito para transformar Camila Vallejo na musa POP dos movimentos estudantis. Obviamente que essa POPularização midiática  desfoca o real intuito dos Movimentos, e ainda, descredibiliza as reivindicações para as transformações sociais. Aliás, onde elas estão mesmo?

As reivindicações sociais no discurso de Camila só puderam, enfim, serem conhecidas durante sua campanha para reeleição à presidente da FECH, no final de setembro. Antes disso, parecia que a musa não tinha voz. Era só uma baderneira bonita.  E outra vez os interesses político-midiáticos falaram por si.

Durante a campanha, o nome de Camila foi, de longe, mais divulgado do que do opositor, Gabriel Boric. Defensor da esquerda-autônoma, Boric, que defende um posicionamento livre de intenções partidárias, participou de todas as manifestações em que Camila esteve. Mas onde apareceu “o muso” do movimento estudantil?


Um fato curioso, porém, deu-se semana passada (07/12): mesmo com toda a visibilidade criada sobre Camila, Boric venceu as eleições para Presidente da FECH.  Então, recorri aos mesmos portais para conferir como a notícia iria ser tratada desta vez. Conforme esperado, novamente a maioria destacava que a “Musa dos protestos estudantis do Chile, Camila Vallejo, perdeu reeleição”. Apenas.


No corpo das notícias (repetidas) seguiam as mesmas descrições da estudante de geografia, de 23 anos, carismática, linda, e que perdeu as eleições para Boric. Onde estavam as falas de Camila? E as de Boric? Cadê os discursos e propostas de gestão? Nada.


Google Imagens
Do novo presidente da Federação de Estudantes da Universidade do Chile (FECH) pouco, ou nada se falou. O resultado das eleições só comprova a seriedade e a capacidade de discernimento dos Estudantes frente às máscaras midiáticas que surgem. Tanto que em nota de agradecimento no seu blog pessoal (gabrielboric.blogspot.com), Boric reafirmou que a sua eleição só comprova que “o movimento não morreu. Ele está vivo e revigorado, ainda que tentem desviá-lo do rumo” (Boric, Gabriel. Blog pessoal, 07 dez 2011). 
Camila Vallejo não se pronunciou, apesar de ter aparecido em várias fotos cumprimentando o adversário. Dois dias depois (09/12), seu blog (camilapresidenta.blogspot.com) saiu do ar. As notícias sobre Movimentos Estudantis nos grandes portais se concetraram no caso da USP ocorrido no início denovembro (08/11), cujas resoluções ainda estão na dependência do Ministério Público.


Assim, a colocação da notícia como tem sido só reforça a intencionalidade político-midiática em deturpar os movimentos sociais, visto que a proporção [e a freqüência] que têm tomado, encara as ordens do poder público – e por vezes, da própria mídia formal. Não só Camila, mas tantas outras musas e heróis sindicalistas foram criados pela mídia como símbolo dos movimentos. Uma vez que estes símbolos se desmancham, a identidade dos movimentos também. Felizmente, como vimos, os ideais das manifestações populares não pairam sobre a superficialidade dos argumentos construídos pela mídia. Assim como Camila continuará sendo bonita, dentro ou fora da liderança estudantil, as mobilizações continuarão acontecendo com ou sem Camila. Mas o que realmente importa é que o que se vê nas ruas. Lá, todos somos iguais. Nãos existem

 musas.



Comentário escrito em novembro de 2011. 
March 19, 08:23 PM
A semana que inicia novembro, antevéspera de feriado, será uma das semanas mais aguardadas enfurecidamente pelos 5 milhões de estudantes que realizaram, nos dias 22 e 23 de outubro, a prova do Enem2011. Estudantes indignados com os problemas na aplicação das provas, põem em dúvida a confiabilidade do sistema, já que não é a primeira vez que isto acontece. Em 2009, o sistema de avaliação implementado pelo Ministro da Educação, Fernando Haddad, apresentou as falhas também no período de aplicação.

Neste ano, o problema na aplicação das provas teria surgido a partir da denúncia de alguns alunos ao Ministério Público do Ceará sobre o vazamento de 14 questões, aplicadas no Colégio Christus, em Fortaleza, semanas antes da prova oficial.  Sem perder tempo, o Ministério da Educação e Cultura (MEC) se pronunciou, através de Haddad, impreterivelmente contra a ação do colégio, alegando que “o governo tem a convicção de que dois dos 36 cadernos de pré-testes do Enem foram reproduzidos e distribuídos aos alunos pelos professores do Colégio Christus, em Fortaleza.”

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Obviamente, é de bom tom que o Pôncio Pilatos da Educação encabece a crucificação do Christus, sem esclarecer antes, como estes cadernos foram parar lá.  A explicação de Pilatos, digo Haddad, sugere que o Novo Enem só não deu certo ainda por que existem pessoas corruptas no mundo. Aliás, a situação é um bom tema para redação do ano que vem: “Disserte, em 30 linhas, como fazer o seu sistema de indulgência política funcionar, sem base e sem estrutura, em até dois anos. Apresente pontos prós, contras e, principalmente, uma solução”.

Para deixar o caso ainda mais polêmico, os estudantes do Ensino Médio da maior parte do país (CE, GO, MG, PE, RS, RJ e SP), no auge da maturidade política, resolveram protestarnas ruas, no horário das aulas. Sem medo de levar faltas, ou reprovar por elas, os alunos difamaram diretamente Haddad e o seu sistema quase-perfeito de avaliação. Chateado com a atitude de seus meninos, acredito eu que, o Ministro cortará a média de todos os alunos e não aceitará as faltas por justificativa. Logo, se todos reprovarem, a culpa não será mais do Enem.

Ladainhas a parte, o fato é que o Ministério Público do Ceará não acreditou muito na diplomacia do inteligentíssimo Ministro e deu um prazo de até 72h, isto é, até segunda-feira (31), para que o Inep, autarquia do Ministério da Educação responsável pela organização das provas, esclareça o que aconteceu.

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Passado o final de semana com a cabeça fervendo, formulando o que dizer, Haddad terá que caprichar na explicação que deve ao MP e aos alunos de todo o Brasil. Se comprovada a fraude, o exame será novamente cancelado [como em 2009], mostrando a incredibilidade não só do sistema, mas das rédeas do Ministério da Educação.

O Inep terá que marcar novas datas para novos exames, e todo o calendário escolar dos Ensinos Médio e Superior será atrasado. Desta forma, o MEC estará provando que nem o próprio método de avaliação é eficiente, pois, ao contrário do que prega aos alunos, parece que o Ministério não aprende com os erros. Talvez seja a hora do Ministério da Educação rever a verdadeira utilidade deste sistema que, da forma como funciona, está causando mais confusão do que uma unificação.

 Quem sabe se o MEC criar um instituto próprio para gerenciar o sistema, assim como CESPE – UNB e a CESGRANRIO, por exemplo? Centralizar o controle das provas, sem os serviços terceirizados pode gerar maior autonomia, e quem sabe, maior segurança ao Ministério. O que não pode é ficar do jeito que está.
March 19, 08:02 PM

A pergunta que logo segue a notícia de uma censura, em pleno 2011, é “Por quê”? Aliás, quando me veio a notícia, o porquê logo se transformou em “por quem?” Acontece que em agosto deste ano,  a exibição do filme do diretor sérvio Srđan Spasojevic, cujo o nome nem os próprios censuradores sabem falar, foi proibido pelo Ministério da Justiça, a princípio, em todo o Brasil.


Google Imagens
A serbian Film, que traduzido para o português têm o criativo nome de “Um filme sérvio”, mostra a incoerente história de um ator pornô aposentado, que saiu dos sets de filmagem para formar uma família. O enredo, sem muita linearidade, traz entre escatologia e terror, cenas que, no máximo, fazem você ficar com nojinho e pena do ator que se sujeitou àquilo. 

Para a justiça brasileira, porém, as cenas de sexos, nojeira e a montagem de uma criança presenciando o horror-pornográfico entre os pais, representaram “a possível ocorrência de crime, que subverte a ordem natural e lógica do que é razoável". E de acordo com o Ministério Público Federal, "a exibição comercial da película em apreço constituiu a prática, em tese, do crime tipificado no art. 241-C da Lei 8.036/90", que logo foi determinada como suspensão pelos governos de Minas e, posteriormente, do Rio de Janeiro.


 Dois meses depois, milhões de cópias pirateadas, 2.000 visualizações no filmow, o filme foi liberado nos cinemas, e exibido na mesma semana de fofices como As aventuras de Tin Tin – o segredo de licorn e Winter, o golfinho. No Rio de Janeiro, no entanto, a censura seguiu. Até quarta-feira passada (26).


O lançamento do filme proibido, sem cenas cortadas, não foi tão empolgante como esperava a Petrini Films, responsável pela distribuição nos cinemas, inclusive no Rio de Janeiro.  Após 26 anos sem censurar um filme, a polêmica em volta do filme sérvio me faz pensar que se ninguém o tivesse censurado, ele teria passado despercebido, assim como Atividade Paranormal em Tóquio, que desmentindo a originalidade do primeiro, conseguiu ser a mais tosca e degradante continuação de uma trilogia horror-film de garagem.


A começar pela tentativa de estereotipar erroneamente uma história sérvia, degradando-a pelo cinema lixo que o filme representa, o aposto “Terror sem limites” caracteriza a estranha mania do mercado brasileiro cinematográfico em postular o nome do filme com algum chamamento espetaculoso, como se o povo, de forma geral, não fosse capaz de compreender ou de analisar por si só, a atratividade do filme.


Discutir essa questão agora me convence, cada vez mais que, assim como a desculpa “dos vazamentos” de CDs na internet, a censura do filme só contribuiu para a pirataria e a desvalorização de outros filmes realmente bons, lançados na mesma semana do filme sérvio, mas que não tiveram, tanta atenção de público. Até por que, quem não quer ver um filme proibido?


Aposto que as pessoas, assim como eu, foram correndo encontrar uma cópia pirateada só pra conferir o que poderia desconcertar tanto um ser humano de 16 anos, freqüentador assíduo de redtube e outras bugigangas da internet, a ponto de ser proibido. Como eu poderia imaginar, não foi  nada demais.


Para mim, a censura neste caso, só moveu o mercado cinematográfico de baixo escalão, pois até mesmo o diretor, Spasojevic, não entendeu o sentido da proibição: “Eu fiz o filme para chocar. Se o problema são as crianças, aumenta a faixa etária”, contesta.  Se foi estratégia ou não, não sei. O fato é que, sem querer rendeu muito para a pirataria, provando ainda que a censura alimenta o que ela mais tenta evitar – o crime.



(comentário escrito em setembro de 2011)



January 24, 07:26 PM
      Nunca ficou tão expresso pela ocasião dos fatos como nós, homens, somos tomados por nossas regras fajutas de civilização. Estas nos afastam, apesar do que dizem, da verdadeira essência de ser Humano. Comecei o texto bonitinho assim para tentar, primeiramente, me convencer de que nós seres humanos somos  presos a condição civilizatória na qual nos metemos para negar nossa origem animalesca (que no fundo é mais humana do que parece). Para ser mais precisa, a questão aqui se forma a partir de situações normais que, garanto eu, qualquer pessoa  que por acaso tenha encontrado esse blog já tenha passado.
   Escolho o público feminino, que pela obviedade das cirscunstâncias está mais presa às questões estético-sociais do que os machões-alfa ( se bem que pelo andar dos tempos, eles estão mais fru-frus do que elas). Duvido que você, mulher, num dia de sol, indo para a praia, linda, poderosa, não menos gostosa do que a Geise Arruda, se habilitaria a sair da sua contingência deusa-carioca-da-praia por um descuido da natureza, como uma unha quebrada por exemplo.
    Até que peguei leve. Para quem  vai para praia, de implante sintético louro, pêlos levemente aveludados pelo vol. 40, biquini tomara-que-entre verde-limão-cítrus e uma Ipanema combinando, as unhas não são nada meu bem! Unhas nesse caso, só de porcelana, isto é, não quebram com qualquer mediocridade do destino. Para tirar a mulher (ou o homem) da impunidade civilizatória e chique de ser urbano somente algo muito sem classe como uma dor-de-barriga, por exemplo. Até porque, pessoas civilizadas não cagam. Na verdade, pessoas civilizadas tomam chás desintoxicantes para se livrarem dos resíduos alimentares que as sustentam, que depois evaporam-se discretamente pelo suor embebecido no antitranspirante spray. Pessoas civilizadas, no estilo Geise, que usam o antitranspirante, definitivamente não abririam mão de seu classical style para uma barrocada, quem sabe, no carro mesmo. Isso é cruel. É desumano. E pior: não é civilizado.

      Imagina se a pessoa civilizada teria coragem de romper seus métodos de educação para satisfazer sua necessidade de, ora, HUMANA dentro do carro. A civilização não permite isso! A educação nos diz que a hora o e lugar de cagar é em casa. Você que aprenda a regular seu estômago. E se não conseguir, Activa nele!(15 dias ou o seu dinheiro de volta).

     Parece até bobeira um tema desses, mas você já se deu conta que a civilização nos mostra que sempre há um lugar, uma hora e um contexto para sermos nós mesmos. E mais, ela nos priva das escolhas entre querer ou não ser civilizado. Quando você está numa condição urbana,você já é involuntariamente urbano. E a sociedade te cobra isso. Quando a tua natureza fala mais alto, você a reprime em nome da tua contingência chiquè. Perdemos a coragem de ser natural, de ser humana. Me diz aí, quantas pessoas você conhece que teriam coragem de jogar um foda-se pro ar  e respeitarem a si mesmas? (eu mesma não teria). Sabe aquela frase batida de que ser diferente é normal ? Esqueçam ela. Normal é ser natural e ,se vocês quiserem, é ser digno. Parafraseando o mestre Aldir Blanc : Moça donzela não arrenega um bom cocô!
January 06, 06:35 PM

Não há nada que me deixe mais comovida como ver que o povo brasileiro está, enfim, tomando consciência. Quando falo de consciência uso o termo no geral, para educação, direitos, deveres e até consciência de futuro. Ora, quer coisa mais bonitinha do que um cidadão consciente fazer jus a sua sabedoria esteja ele onde estiver (inclusive na fila do supermercado)??? Obviamente não. Nós, classe baixa, que hoje é gentilmente chamada de classe MÉDIA baixa em desenvolvimento, "nunca antes na história desse país" pudemos nos mobilizar para, se quer, reclamar dentro de um estabelecimento privado -  pobrescoitados sem informação.
Havia também o contrário. Nós, da classe baixa, que nos mobilizávamos para lutar na cara dura pelos nossos direitos - pelo menos os nossos direitos de seres humanos - éramos taxados de barraqueiros quando, na exaltação de nossos pedidos, somos um pouco estúpidos (só falamos um pouco alto).
O fato é que agora, só agora, nós, moradores do subúrbio, das baixadas e adjacências, que temos um sacolão no lugar do supermercado, um posto de saúde no lugar de um hospital, um armarinho no lugar de...(tudo o que vende no supermercado, posto de gasolina, farmácia, auto-peças e afins), compreendemos que somos nós que sustentamos esse país.
É bonito pra caramba ver que o teu dinheiro dá pra fazer a compra do mês e ainda, quem sabe, trocar aquela Caloy mais antiga por uma de marchas. É legal poder sair do banco tendo pago todas as suas dívidas de cinco anos no SPC, e perceber que sobrou 5 reais. O mais legal ainda, é quando você ex-pobrecoitado-desinformado-barraqueiro entra numa loja para comprar a tua bicicleta Caloy 3 marchas zero-bala, e tem o seu crédito impedido pelo antigo nome sujo.
Obviamente, que você agora com o poder de dignidade (comprador) chegará ao gerente bunda-mole fiel escudeiro dos empresários exploradores e masoquistas da loja e dirá: "Eu conheço os meus direitos e não vou admitir ser chicoteado mais uma vez!"

Que lindo, senhor brasileiro, você acaba de falar em nome de TODAS as minorias! Com uma só frase, nós, com aquela cara de donos do mundo, falamos por uma geração quem em quatro séculos calou-se para o poder das raças, das religiões, das oligarquias, dos bens, do capital...e de tudo que nos fez inferiores aos outros. Com uma só frase , nós conseguimos atingir, pelo modo racional, tudo o que sempre quiseram nos esconder: nós somos iguais!
E entendemos ainda, que nossas oportunidades não se resumem só aos tempos de vacas de gordas. A nossa dignidade se fará enquanto houver vacas. Cabe a nós continuar sabendo como engordá-las.

January 04, 03:27 PM

Há três anos o meu ano começa do mesmo jeito: minha família fingindo que se ama enquanto se batem por um pedaço da coxa do pernil e ao mesmo tempo se ofendendo pela saída da dieta que um ou outro começara antes do natal. Quando aquela prima mais descolada e com um namorado tatuado vai embora, as tias velhas e que se dizem boazinhas começam a fuxicar sobre a possível gravidez que assola o obelisco espaço extra da barriga da menina. "Menina? que nada!", resmunga uma. "Aquela ali já não é mais menina há tempos!", envenena outra.
Não muito longe dali, está aquele tio que tenta ser simpático e ao mesmo tempo sabichão, ao ponto de discutir sobre a alienação do povo brasileiro, defendendo (evidentemente) o jornalismo da Rede Record e batendo palma pro Cabral. Vale lembrar que sempre (eu disse sempre), vem desse tio aquela BRILHANTE piada do "é pavê ou pra comer" ! Hahaha, engraçadinho.
Com esse tio, completam o círculo familiar superanimado, os seus avós, as irmãs, tias, primas e madrinhas de seus avós (nem imagine o tempo de existência dessas pessoas); seus irmãos, seus meio-irmãos, seus cunhados e adereços, e (não podia faltar) seu vizinho solteirão mais chegado.
E assim, todo mundo junto num pseudo churrasco-feijoada-ceia de natal, fazemos a festa.
 Ai ai, o retrato da família carioca brasileira !
Mas dessa vez resolvi não sair nesse retrato.
Assim como de três anos pra cá meu final de ano foi regado de mesmices, de três anos pra cá tomei uma completa abominação por hipocrisia. E assim espero continuar nos meus anos seguintes.

Não quero sair nesse retrato. Quero ser eu a tirar a foto. Pelo menos assim terei a maldade em dizer: "sorriam"!

October 18, 12:29 PM



A tua procura é líquida tanto quanto a tua convicção.
Ela vai por onde bem deseja, sem deixar que tu definas por si mesma.
A tua procura é livre, e de tão líquida, escoa por onde quer.
Tu não tens controle da tua procura.
Ela é líquida, e assim te engana.
Te enche, e finge que te sacia.
A tua procura é líquida e impertinente.
De tão líquida que a tua procura és, toma lugares inalcançáveis.
Toma o lugar do meu amor em ti.
E justamente por ser a tua procura líquida, é que ela te enche e depois vaza, escorre,esvazia-te sem que tu percebas.
Mas por sorte eu estou aqui, por que o meu amor não é liquido. Nem sólido. Nem gasoso.
O amor é aquilo, exatamente aquilo, que você gosta mas não sabe definir.
O meu amor é aquilo que te acompanha quando estás sozinha porque o meu amor já faz parte de ti.
Ele tomou o lugar da procura.



(Do outro)

October 18, 12:27 PM
                                                                  
Parece um desacato a boa conduta das meninas de dezenove anos, de aparência normal, estado metal equilibrado, e uma vida dentro do padrão internacional das vidinhas medíocres estipuladas para todas as meninas desta idade, dizer que eu não tenho namorado e nem quero ter um no momento.

Não sou lésbica, abstinente sexual, nem qualquer coisa que me faça ser inadimplente só porque não manifesto esta vontade. Sempre discorro do pensamento sobre a necessidade de estarmos acompanhados. A sociedade para mim é um complexo existencial, pois sem ela, acredito que seria melhor a vida, mas com ela admito que já está de bom tamanho.

Apesar de não reclamar a constante companhia – seja de família, amigos e afins – que possuo, reconheço que anseio por vezes (por muitas vezes) ficar só. Quando estou só, inclusive, me sinto até melhor. Muito melhor. Meu estado torna-se a áurea que naquele instante rompe a barreira do meu ser, para então dominá-lo e moldá-lo ao estado que e quero. E melhor disso tudo é que eu estou sozinha, logo, ninguém mais além do meu próprio senso, poderá me julgar.Comigo, posso ser má, boa, insana, sensata, ridícula, pervertida, mau-caráter, cruel, destruidora, sonhadora,  e por fim, real. Comigo eu sou eu mesma.

Será que é tão difícil assim compreender que não necessito do complemento de uma outra pessoa, principalmente para relacionamentos??? Não agora! Eu preciso me completar primeiro. Eu preciso ser eu, para depois ser de alguém. Preciso encontrar o que em mim, já não pode ser mudado. A procura pelo que falta será natural. Será uma procura líquida, pois escorrerá de mim sem que eu perceba e inundará o vazio daquilo (ou daquele) que falta.

Desculpe, mas eu estou cheia no momento.
October 18, 12:22 PM



O dia estava bonito. A brisa do amor e o tempero matinal combinaram perfeitamente com o sunshine que invadia o quarto, pela pequena janela. Não tinha vento e nem fazia muito calor. O dia estava apenas bonito.
Inspirado pelos detalhes de uma manhã sensualmente acolhedora, resolvi pensar no que me levava a tratá-la como tal. Pensei em música, comida, sexo, mulheres, bebida, amor. Pensei em todas as coisas que realmente me importo. Tirando o amor.

Enquanto pensava, a minha mente censurava aquela maneira de vida. Era de manhã cedo. Eu estava fisicamente mal, mas minha mente estava pura e feliz. Como uma manhã. Os pensamentos estavam trotando, soltos, livres, sem contextos. E pela primeira vez eu me senti limpo.

Deitado na cama, fitei a janela sem mesmo abrir os vidros. Dali, deitado, eu vi o mar. Vi as pessoas caminhando na areia. Vi o Sol batendo na água. Vi o céu. Vi tudo o que antes eu nem me atentava em ver. Parecia tudo muito novo para mim. Eram coisas diferentes, que aconteciam sobre freqüências oscilantes
Eu estava sentindo outras vibrações. As vibrações estavam isentas das lembranças. Aliás eu estava oco delas. Era uma manhã como toda manhã deveria ser. Sem lembranças. Apenas sentidos . Abrir os olhos e começar a viver. Sentido o tempo. O vento. O sol. Aprendo a olhar o mundo como se nunca o tivesse conhecido. Assim deveria ser todas as manhãs. Do jeito que esta foi.

Mas as manhãs passam e são quebradas pela tarde. Pelas preocupações. Pelos problemas. Pelas pessoas. Pela falta de sentido. Pela falta de amor. As tardes me trazem lembranças. E lembranças me trazem o passado. E o passado me traz a minha vida.

A manhã estava acabando e eu começava a lembrar. Era tudo o que eu não queria. Lembrei que no dia anterior eu abdicara à minha liberdade, o meu dinheiro e o meu amor por uma mulher. Lembrei também que naquele dia eu queria muito fazer tudo o que fiz, não necessariamente no tempo em que fiz.  Lembrei que eu tinha me dado conta que era cedo demais...para casar.

Fiquei feliz por uns instantes, por não lembrar se o tinha feito. A final, quem não lembra do próprio casamento? Se eu não lembro é porque não fiz. Mas as lembranças continuaram vindo. E a manhã ia terminando. Eu estava lembrando até como se escreve um bom conto. Estava lembrando como se descreve uma história. Estava tentando me recompor.

Casamento. Festa. Música. Mulher. Sexo. Bebida. Sexo. Bebida. Ressaca. Nesta ordem. Eu acabara de lembrar das coisas que compunham a minha vida, e que por instante, durante a bela manhã, eu julguei ser fruto dos meus prazeres intuitivos.

Tirando o casamento, o resto eu podia repetir muitas e muitas vezes. Até porque a minha vida era assim: sem sensações, apenas repetições, na tentativa de fazê-la mais adorável. E foi tentando que eu me casei. Me casei para fugir da rotina. Me casei para dar um sabor diferente aos momentos vividos.
Penso que me enganei. Se pudesse dar um gosto a todos os momentos da vida, diria que eles se resumem em três: as manhãs têm gosto de mel. As tardes têm gosto ardente. As noites têm gosto de leite. Hoje prefiro o sabor do mel.

October 18, 12:19 PM

                                                    

Durante estes dias, me incubi a tarefa de fazer da minha vida jornalística um processo gradual da minha evolução também como escritora. Às pataquadas das experiências que despertavam em mim o desejo de escrever, me envolvi na função exaustiva de dar o melhor de mim, sob pena da minha própria crítica desconstrutiva. Todo escritor é, antes disso, um leitor. Eu, ao contrário, me propus a ser primeiramente a escritora e depois a leitora. Escrevi sem planos, sem regras, sem métricas, sem alvo. Quando deparei por mim, estava passando para o papel a oralidade informal dos meus pensares e desencadeando, em suma, o meu dilaceramento linguístico.

- Ora, como pude ser tão horrível naquilo que considero ser a melhor coisa que faço? Julguei dar o meu melhor, na estimativa de me sentir melhor, e quem sabe, de me admirar por isso. Fracassei. Nem sei se ao menos posso passar adiante o meu imprestigiado trabalho. Foi com suor e tesão que escrevi – e que escrevo. Foi na tentativa de me proporcionar desejo, de me fazer ser desejada que escrevi o que escrevi, e do jeito que escrevi.

Não entendo, pois, porque em mim a obra foge tanto ao autor. Por que em mim, o sentido das palavras, quando exteriorizadas, se perdem e se modificam? Não entendo porque saio do contingente particular a que me propus. Não entendo porque é tão mais simples para outros me entenderem do que eu mesma. “De onde vem esse material com o qual, supõe-se, o leitor se envolverá? Por que  seu rumo dirá respeito também ao outro? Talvez porque o âmago da experiência humana venha da mesma fonte”, foi a resposta encontrada nas palavras de João Gilberto Noll, que assim como eu, não deve ter entendido o que escrevera tão brilhantemente quanto quem o lera.

Acredito, imediatamente após terminar de escrever este texto que as palavras costuradas aqui, da forma como foram, já não são tão parecidas com o que eu quis dizer. Sendo assim, lastimo a perda da autora que jaz em função da sua função. Acabei de pensar que os autores não existem. Eles são apenas transcritores das palavras. O sentido fica somente intrínseco a cada um.
October 18, 12:17 PM
   
Tudo começa com a difícil missão de explicar o desejo de escrever. Escrever é concretizar o dito desejo, mas não necessariamente, torná-lo real na medida em que se prolifera. O desafio então é ser fiel ao desejo pelo instante em que ele é criado. Assim consta a sensação, isto é, o produto do desejo num instante.
Parece louco relacionar tantos conceitos num só parágrafo: escrever, instante, sensação. Mas não existe, no entanto, outra performance adequada. A idéia aqui é negar o sentido da ordenação das palavras, justamente por admitir que elas são capazes de se autossustentar, não pelos sintagmas, mas sim pela sensação que proporcionam ao [momento] desejo.

Desconsideremos a ordem. Duas coisas, no entanto, permanecem inalteradas quanto ao seu sentido: momento e desejo. Para que ambos possam fazer parte do mesmo mundo, é preciso considerar aquilo que de especial faz com que o desejo seja, efetivamente, um desejo, e o momento seja, de fato, momento. Entende-se como sensação.

A problemática, então, é conceituar ou quem sabe, apenas nomear coisas tão abstratas, não só pelo fato de não serem concretas, mas abstratas por estarem fora de um entendimento comum. O que é a sensação para mim? Se escrevê-la pode ser que tu, leitor, não a compreendas.
O que é a sensação para você? Pode ser que nem mesmo tu a compreendas, caso a escreva e, momentos depois, a leia. A sensação, neste caso, não é verdadeira. A sensação torna-se uma versão contada do desejo sentido.

Por isso é tão importante negar a ordem com que a sensação [desejo] é descrita. Na verdade, ela é o que menos importa. Mas ainda sim, surge no homem (generalizado) a necessidade de pontuar essa coisa que nos impulsiona a escrever o que sentimos pelo desejo de expressar o momento.
Não nego que já o tinha pensado antes. Ou pelo menos pensei que tivesse pensado. O fato é que não fui genial o suficiente para chamá-lo Haicai. Não me atrevi a explicar o momento. Cai na mesmice de representar o momento póstumo. Já não era ele. Era uma versão.

Com isso, ao aceitar o Haicai e admitir a minha total incapacidade (comum) de não prescrevê-lo, admito que minha afirmação alcançará o nível de artigo acadêmico assim que for descoberta  uma forma de provar o que escrevo pelo que sinto. Enquanto isso não flui, continuo apenas a me apropriar da idéia do Haicai. Mas acrescento: o Haicai é a tentativa de não contarmos a versão do desejo. É a tentativa de materializar o desejo em si.

“O Haicai é DESEJO, na medida que circula, isto é, momento.”


October 13, 10:28 AM
A quem está destinado o direito de magoar? Ao magoador ou ao magoado? Ao magoador que viola as condições do livre dizer para atacar, ainda que só com palavras, o pensar ou o agir dos outros? Ou ao magoado que de tão sensível torna-se covarde aos comentários alheios, evitando a própria defesa em função disso?

O magoador rompe com as barreiras do bom senso, encarando com aspereza o legado do magoado. Nada justifica, ou dá condições para o magoador desfazer do outro como se fosse humanamente superior. Ninguém é superior. Ainda que me venham com a desculpa de que tudo depende do ponto de vista, continuo com a afirmação de que ninguém é humanamente superior.

Mas como não sou fã da convicção unilateral do pensamento, acredito que também tem culpa aquele que se deixa magoar como se fosse uma esponja absorvendo as imposições de verdades mundanas. Papo furado. Será mesmo que devemos acreditar em tudo que o mundo nos dita? Trazemos isso para nós?

A dica, em ambos os casos, é transcender aquilo que possa (nos) afetar. Palavras são abstratas quando ditas, concretas quando escritas, mas também são, sobretudo, plasmadas sobre a intenção que se dispõem. Articulá-las, então, vale tanto para o ataque quanto para a defesa. Para o ataque vale a entonação. Para a defesa, a interpretação.

Ninguém, é santo ou diabo quando se trata de sentimento. 
October 08, 01:15 PM

 A pessoa bem educada é a pessoa boa. Sempre discorro do pensamento de que a boa educação é aquela que nos afasta, enquanto humanos, dos nossos instintos naturais, ou se preferir, instintos primários. Para início de conversa parto da premissa que o homem é um selvagem evoluído vivendo sob a sombra da hipócrita floresta da sociedade. Sociedade, portanto, é uma invenção de vida em que nós homens, acreditamos nos fazer superior aos de quatro patas. Bobagem.



Junto com a tal invenção de sociedade vieram as regras acopladas num fantástico livro de recomendações para vivermos bem. O livro da Moral, chamamos. Neste há tudo o que de mais dicotômico possa existir, começando pelo certo e o errado, passando pelo convém e não convém, terminando pelo aceito e não aceito. Medidas são feitas neste manual, estipulações são credenciadas à vontade de Deus, e assim nós seguimos vivendo.

Mas que foi que definiu o certo, o errado, o feio, o bonito, o bem e o mal? Como posso dizer que alguém é feio, sem ter a certeza que todos assim o vêem? Como posso saber que alguém é mau , sem ter que julgar sua postura frente à sociedade? Postura essa que se modula pelas regras aquém inventadas.
Na reflexão das minhas atitudes vejo que muitas coisas que faço, que olho, que julgo, e até mesmo meus quereres foram, na verdade, modulados pelo pensamento comum da bondade social. Quem já não quis, por exemplo, chutar um pombo ou tacar uma pedra naquele passarinho cagão da praça? Quem já não quis tacar um ovo pela janela e acertar alguém que passasse na rua? Quem já não quis riscar as chaves o carro daquele professor FDP?

Duvido que ninguém nunca pensou em coisas deste nível. Ou até pior, muito pior. Acontece que nós, fomos acostumados a pensar bonitinho, a execrar os nossos pensamentos (que eu chamo de empíricos) para nos enquadrarmos aos exemplos de humanidade que o próprio homem inventou. E para dizer que somos “democráticos”, nos acostumamos a classificar a tipologia das vontades e pensamentos de PERSONALIDADE.

Porra nenhuma ! Me diz ai, qual é a sua PERSONALIDADE???? Nenhuma. Não temos personalidade, não seja babaca. Somos todos humanos, somos todos maus por natureza, e acostumados por sociedade, a sermos bons. Você não sabe o que é o perdão, porque você não é capaz de perdoar. Você não sabe o que é piedade, porque você não tem capacidade para ela. Não é a toa que essas coisas são atribuídas a Deus, aquele que pode tudo o que não podemos e que, de quebra, engole as nossas atrocidades porque é BOM.
O homem não é bom. O homem quer se vingar daquele que lhe rouba um parceiro. O homem quer quebrar a perna daquele que é melhor do que ele em algo. O homem não tem pena de mendigos na rua, o que importa é que ele tenha seu sundae do MC Donald´s ao final do expediente. O homem mata. O homem rouba. O homem peca. Os homens, Nós homens.


Fazemos maldades, ainda que só em pensamento, para nos eximirmos do peso que é ser um selvagem reprimido. Somos tão acostumados à educação da bondade, que, por vezes, esquecemos a nossa essência e somos feitos de bobos. Não seja educado.
*Este texto surgiu no momento em que eu resolvi ajudar um amigo com um trabalho, e ele se deu super bem com o texto que EU havia escrito. A minha vontade de vingar expirou-se aqui.
October 07, 08:14 AM
Durante estes dias, me incubi a tarefa de fazer da minha vida jornalística um processo gradual da minha evolução também como escritora. Às pataquadas das experiências que despertavam em mim o desejo de escrever, me envolvi na função exaustiva de dar o melhor de mim, sob pena da minha própria crítica desconstrutiva. Todo escritor é, antes disso, um leitor. Eu, ao contrário, me propus a ser primeiramente a escritora e depois a leitora. Escrevi sem planos, sem regras, sem métricas, sem alvo. Quando deparei por mim, estava passando para o papel a oralidade informal dos meus pensares e desencadeando, em suma, o meu dilaceramento linguístico.

- Ora, como pude ser tão horrível naquilo que considero ser a melhor coisa que faço? Julguei dar o meu melhor, na estimativa de me sentir melhor, e quem sabe, de me admirar por isso. Fracassei. Nem sei se ao menos posso passar adiante o meu imprestigiado trabalho. Foi com suor e tesão que escrevi – e que escrevo. Foi na tentativa de me proporcionar desejo, de me fazer ser desejada que escrevi o que escrevi, e do jeito que escrevi.

Não entendo, pois, porque em mim a obra foge tanto ao autor. Por que em mim, o sentido das palavras, quando exteriorizadas, se perdem e se modificam? Não entendo porque saio do contingente particular a que me propus. Não entendo porque é tão mais simples para outros me entenderem do que eu mesma. “De onde vem esse material com o qual, supõe-se, o leitor se envolverá? Por que seu rumo dirá respeito também ao outro? Talvez porque o âmago da experiência humana venha da mesma fonte”, foi a resposta encontrada nas palavras de João Gilberto Noll, que assim como eu, não deve ter entendido o que escrevera tão brilhantemente quanto quem o lera.

Acredito, imediatamente após terminar de escrever este texto que as palavras costuradas aqui, da forma como foram, já não são tão parecidas com o que eu quis dizer. Sendo assim, lastimo a perda da autora que jaz em função da sua função. Acabei de pensar que os autores não existem. Eles são apenas transcritores das palavras. O sentido fica somente intrínseco a cada um.

October 07, 08:10 AM
Coisa para poucos, saber ignorar uma pessoa ou situação se desligando completamente do sistema terreno, é a qualidade humana que eu mais admiro em alguém. Eu já havia discorrido sobre este tema em outro texto, mas preferi dedicar estes parágrafos especialmente a esta fantástica arte que é saber ignorar coisas ignoráveis.

Não é qualquer um que sabe ignorar. Tem que ter personalidade, objetividade, seriedade, e acima de tudo, cacique para agüentar as críticas depois. Ignorar é um ato, que na minha avaliação, é tão superior quanto o perdão. É muito bonito. Quando se ignora algo que mereça ser ignorado você está, numa só ação, se superiorizando e se impondo a uma determinada situação que te irrita. E melhor: você faz isso sem nem mesmo falar nada.

Quem poderá contestar? Para todos os efeitos você estava distraído e não prestara atenção. Pronto, está resolvido. Não se estressa, não magoa ninguém, e nem perde tempo com seres espiritualmente inferiores. Na verdade, quando se ignora alguém, você é automaticamente superior em todos os sentidos – espiritual, intelectual, carnal, coloquial, causal... Mesmo quando você é o IGNORADO, a façanha funciona da mesma forma. Retribua. Fica olho por olho, desdém por desdém.

É incrível como o fato de observar a relação dos humanos me condiciona, a cada dia mais, entender como devo agir. No campo da educação em sociedade, simplesmente, faço tudo o que me disseram desde pequena para NÃO fazer. Tenho sido individualista, possessiva, egoísta, hipócrita, extremista, e eventualmente, invejosa – só pra não dizer que não peco. E assim tenho vivido muito bem. Não (bem)comigo mesma, mas (bem)para aqueles que estão ao meu redor.

É isso que o mundo ensina. Te ensina a jogar no lixo tudo o que sua família te ensinou. Te ensina que os valores são uma farsa. Te ensina que você é um babaca por não ter percebido isto antes. Pior do que te ensinar, o mundo te convence disso, e quando você vê, já está perdido. Mas antes que este momento chegue tem aquela fase da saturação. E é nesta fase que, geralmente, tendemos a decidir no que queremos seguir/acreditar.

Eu cheguei nesta fase, mas antes mesmo que pudesse escolher para qual caminho seguir, descobri algo de muito valor: aprendi a ignorar. Ignorar é a melhor coisa que fazemos quando estamos a beira do precipício. Se tiver que morrer, você vai morrer. Se tiver que sobreviver milagrosamente, você sobreviverá. O negoço é não dar ouvidos àqueles que querem te salvar ou te empurrar. Apesar de tudo o que prometem, eles não sabem o que dizem, eles não sabem o que fazem, eles não sabem onde vão. Eles são apenas aquilo que você deve ignorar, porque eles não conhecem a suprema significância que é ser VOCÊ.

October 07, 08:08 AM

Não há nada mais revigorante do que um toque de realidade às coisas visivelmente impossíveis a nós. A realidade nos isenta a culpa por termos fracassado, antes mesmo de tentarmos. Eu, particularmente, sempre achei fantásticas as pessoas que têm o dom da realidade intuitiva na primeira avaliada de uma situação. Essas pessoas jamais sofrerão da babaquice aguda que me atormenta desde que eu nasci.

Sonhar é bom, gente. Não nego isso. Mas nos tempos em que vivemos, tempos em que a felicidade é medida na proporção das nossas realizações, me convenci que é melhor adequá-los ao formatinho A4, que é bom, barato e universal. Claro, por que viajar nos pensamentos se posso, ao invés disso, gastar o tempo em produção real do que eu quero? Eu tô falando de objetividade e pé-no-chão.

Sei que é difícil, inclusive para amantes dos sonhos impossíveis como eu, se desvincular dessa estranha mania de ainda acreditar numa carreira de sucesso e na casa da Manhatam. Pára com isso. Você não é melhor que ninguém. Você não vai, de repente, fazer faculdade, passar num concurso público em primeiro lugar, ser rico, ter uma apartamento de férias no exterior, e ser amado por todos os seus parentes pobres.

Em primeiro lugar, não existe felicidade instantânea e linear. Entre faculdade e concurso públiuco, existem muitos anos de curso perparatório, coxinha de frango e ônibus cheio. Segundo, não dá pra ter um apartamento de férias no exterior e parentes que te amem ao mesmo tempo. Não rola. No mínimo, tem que haver algum primo invejoso dizendo que você conseguiu a proeza vendendo o corpo, ou algo do tipo. Terceiro, o tempo que você perde pensando em qual concurso passará, quanto vai ganhar, como será a decoração do apê e qual carro esfregar na cara do seu primo invejoso, por que não pensar em coisas simples,que estão ao seu alcance?

Qual o problema em sonhar com um emprego classe média de segunda à sexta, pode ser público também, uma casa com quintal em Vila Isabel, fazer churrasquinho para a família? Garanto que a felicidade será, pelo menos no momento, a mesma e com simplicidade ao seu alcance. O que importa não é isso mesmo: o momento da felicidade?

Peraí, comecei o texto falando sobre realidade e terminei com felicidade e simplicidade na mesma frase? Desculpe caro leitor, ainda tem muito o que aprender esta blogueira sonhadora. Volte para o sonho do apartamento no exterior.


October 07, 08:06 AM

Todo e qualquer humano normal usa ou já usou a incolável desculpa da falta de tempo para fugir, negar, se desculpar ou, quem sabe, lamentar por não ter feito algo que deveria fazer. Tudo desculpa, óbvio. O ponto é que as pessoas que insistem em utilizar essa enfadonha desculpa se esquecem que TODO mundo também a utiliza, e que, logo, ninguém mais acredita nesse papo.

Tecnicamente, se formos nos preocupar em tentar entender porque usamos essa desculpa, nos depararemos com as facilidades atribuídas à ela. Deve-se também levar em consideração na tamanha credibilidade da desculpa, que nesta década, assim como o mundo, completa dois mil e dez anos positivos de existência. Esta é uma idade considerável, não acham?

De mais a mais, e desculpa da falta de tempo é simples, compacta e objetiva. Ela é quase um verbo intransitivo – não precisa de complemento. Afinal, é mais fácil acreditar que um político não saiba o artigo da Constituição Federal que pleitea seu cargo por falta de tempo, do que acreditar que ele não saiba isto por que é cara-de-pau e não se interessou por este detalhezinho.

Falou em falta de tempo, pronto, todo mundo acredita. Não adianta, cidadão, dizer que não procura saber sobre as decisões parlamentares porque o assunto é chato demais e não interessa a você. Ninguém vai acreditar.Diga logo que você não acompanha decisões políticas porque não tem tempo. É mais, rápido, certo e não sai de moda.

Mas, se por ventura, você decidir mudar um pouco o seu quadro de desculpas esfarrapadas, deixo uma listinha das top 5 em eficácia:

1ª a inconfundível “Esqueci” – ela é geralmente usada em situações mais formais, como no trabalho,na escola, na Igreja e em outras instituições onde as pessoas frequentam com assiduidade e que quase sempre devem fazer coisas das quais não fazem, ou ESQUECEM.

2ª a quase infalível “não tinha entendido direito” – essa, particularmente é a minha preferida. Ela faz um mix de sinismo e coragem como eu nunca vi igual. Poucas outras desculpas vão ser tão habilidosas como esta. Geralmente, utilizada nas mesmas situações que “Esqueci”, “não tinha entendido direito”é perfeita quando se quer mostrar que você não fez algo que deveria fazer, mas configura um ar de interesse pelo que era pra ter sido feito. É como se você tivesse tentado, mas não conseguido. Ela é sutil, e de forma alguma deixa você com aquela cara de irresponsável. A única falha do “não tinha entendido direito” é que, de certo modo, isso te dá um perfil de imbecil e imcopetente. Mas relaxe, qualquer coisa, diga que não tem tempo pra nada na vida.

3ª a genial “ não tinha o (recurso)” – Essa é tão boa quanto “não tinha entendido direito”, pois também dá um aspecto de interesse ao que deveria ser feito. Porém, quando não se tem o (recurso) para realizar determinada função, o impacto pela não realização é mais profundo, mais dramático, mais intenso. Quando você não faz algo porque não tinha tal coisa para fazê-lo, a sua culpa está exonerada. Você imediatamente passa do posto do culpadao(*ainda que amenizado) para a vítima. É no mínimo confortante saber que as pessoas não vão te culpar por você ser um irresponsável, e ainda irão sentir pena de você – quem sabe irão te ajudar. É uma das minhas preferidas também.

4ª a fofíssima “te liguei, mas você não estava” – Seguindo a linhas das duas anteriores, esta desculpa da ligação demonstra preocupação e responsabilidade com o que deve ser feito. No entanto, ela é um pouco falha. Atualmente, foi arquivada pelo uso do torpedo, e-mail, scrap ou tweet. Mas não se assuste, ela pode ainda ser adaptada e ser facilmente reutilizada caso agregada à desculpa abaixo.

5ª a inestimável “tô sem internet/crédito” ou se preferir, “tô com problemas no computador/ celular ”- Essa desculpa funciona, na verdade como mídializadora da “te liguei, mas você não estava”. Com ela, você pode associar todos o meios de comunicação existentes na sua vida, para justificar o fato de não ter conseguido entrar em contato com alguém, e quiçá realizar determinada tarefa. Mas tenha cuidado, ao utilizar essa desculpa você precisará ter muita, muita cara-de-pau, pois com a existência de créditos extras pré-pagos e da Lan house, a sua credibilidade entrou em baixa. Logo, você deverá fazer um discurso bem argumentado e persuasivo. Caso necessite, utilize-a sempre vinculada à n° 2 ou 3. Pode ajudar.

E não menos importante no ranking, não poderia faltar a clássica

“Não estava me sentindo bem”, “Estava doente”, “Estava com dor-de-cabeça”, entre outras ligadas à doença – Esta é tão valiosa e infalível quanto a da falta de tempo. É bem antiga também, e por isso, bem credibilitada. Aponto a “desculpa das doenças”(como a chamo carinhosamente) como a melhor de todas, por dois critérios: pela sua impessoalidade, e pelo seu poder de incontestação. A desculpa da doença não precisa necessariamente ser ligada a você. Pode ser seu cachorro, seu marido, seu irmão, uma tia, ou caso prefira, seu vizinho. Claro, que ela requer um pouco de sangue frio da sua parte, mas assim como as outras, é só uma desculpa. O que importa se isso envolver, mais tarde, a realidade?! Isso é só superstição. Além disso, ela engloba todo o poder de persuasão e compadecimento das pessoas, coisa que as outras desculpas não têm (nem mesmo a da falta de tempo). Logo, quando todos estão o suficientemente sensibilizados com a sua história triste, quem terá a CORAGEM de dizer que é mentira? É batata, e com certeza, a melhor de todas.
October 07, 08:04 AM

Esta semana aconteceu, em São Borja, a 25ª feira do Livro, mais conhecida como Felivro SB, onde pude “brincar” de jornalista. A experiência foi legal o suficiente para saber qual será o meu futuro como jornalista: eu serei aquela jornalista atrapalhada; aquela que geralmente leva coice da galera.

Pois é, esta não a minha primeira experiência como jornalista, mas é sem dúvida a mais séria e competitiva de todas. Eu me senti literalmente numa redação. Tive dead-line, matéria de última hora, pautas frias, pautas quentes, bafões e até cobertura ao estilo paparazzi. No critério matéria, foi tranquilo. Escrever não é, nem de longe, o meu problema. Quanto a reportagens, digamos que eu fui um tanto quanto imatura ao achar que pelo fato da cidade ser pequena, não haveria concorrência para noticiar determinado fato.

Aprendi que a concorrência não se estima em números, mas em presença. Se tiver uma única pessoa pleiteando a mesma coisa que você, acredite, ela é a sua MAIOR concorrência. Nunca menospreze uma concorrência, sendo ela numerosa ou não, concorrência é concorrência. Devemos sempre estar a um passo na frente , inclusive da nossa sombra.

Quanto às entrevistas, não tive muita surpresa. Digamos que a técnica para entrevistar veio de berço – a simpatia. Você pode não saber nada do que vai perguntar, pode não saber, inclusive, quem é exatamente o entrevistado, mas se você tiver simpatia, meu bem, você já ganha o pão de amanhã. A minha primeira experiência com uma pessoa realmente importante foi um tanto inusitada. Tentei, primeiramente, entrevistar uma escritora muita famosa aqui da região missionária por telefone. A escritora mora em Santa Maria, e eu, aqui de São Borja, liguei inúmeras vezes para marcar a entrevista. A princípio ela não se mostrou muito simpática não, mas a minha insistência a fez ceder aos holofotes do jornal.

Depois desta, entrevistei mais dois escritores famosos. Um, inclusive, marcou a entrevista na casa dele. Ao final do serviço ganhei até um livro, que não aceitei, logicamente. Óssios do ofício. Porém o mais gratificante foi saber que de alguma forma, eu tinha o poder sobre a imagem daqueles que entrevistei. Por um instante senti que as pessoas se preocupam conosco, jornalistas, pelo fato de termos o poder de “modelar” suas imagens para outras pessoas.

E foi exatamente isso que fiz. Na primeira entrevista, tive uma identificação e admiração muito forte com a história da entrevistada, o que resultou numa matéria de capa cujos comentários foram, entre aqueles que não a conheciam, os melhores possíveis: “ nossa que escritora fantástica ! Essa mulher é demais”, diziam alguns. De repente me dei conta de que as pessoas reproduziam a MINHA impressão sobre a mulher. Incrível.

No quesito cobertura do evento, foi a mesma coisa. As reportagens se davam instantaneamente aos acontecimentos, e quanto mais enfática eu falava, mais as pessoas sentiam a emoção do evento: “ eita, a feira hoje está animada”, comentou uma pessoa.

É, realmente me entreguei ao ofício. Nunca pensei que pudesse me enquadrar naquilo que antes considerava terrível – formar opiniões. Hoje, no entanto, percebo que a profissão não é tão endiabrada como a colocam. O jornalismo é, ao contrário, uma das profissões mais dignas que podem existir. É uma profissão que, sem perceber, necesitamos para viver em sociedade. Então, é melhor que o PODER da mídia esteja nas mãos de gente de bem, como eu, do que simplesmente inexistir, pela irrefutável desculpa de ser formadora de opiniões. Me diz ai, você consegue viver sem informação?

September 01, 08:51 AM
              Para os mais rodados na leitura cotidiana, o título acima não parece estranho, tirando o fato de estar afirmando o contrário do original “Existem várias formas de ser burro” – frase que ouvi esta semana mas não lembro bem aonde, só sei que achei no mínimo curioso. Sabe aqueles pensamentos que você sempre teve bem lá no fundo da sua consciência, mas que de tão acostumados à eles nem percebe que a idéia “genial” é sua, e se surpreende quando alguém reproduz a tal idéia? Então, aconteceu isso comigo.
                Eu não tenho paciência para ignorância alheia (como já devem ter percebido), ainda mais quando alguém insiste em compartilhar esse dom comigo. Mas é como dizem : as coisas que amamos temos que lutar pra conseguir, porém o que odiamos, vem a cavalo. No meu caso, vem de sedex 10...e todo dia. É im-pres-sio-nan-te. Acho que atraio gente que faz questão de ser burra. 
                Antes de prosseguir, devo deixar bem claro que estou a par de preconceitos culturais, lingüísticos, raciais ou econômicos. Estes fatores não interferem em nada no grau de ignorância de uma pessoa. Até porque, a ignorância é algo além da falta de oportunidades ou inteligência nata. A ignorância é quase uma opção religiosa. Você não nasce ignorante. Você tem que cultivá-la dia após dia      e trazê-la sempre em seu coração e, principalmente, na sua mente.
Pois bem, eu sempre pensei muito a respeito da ignorância. Na verdade, este tema sempre me intrigou pelo fato de eu não entender porque certas pessoas possuem a inesgotável capacidade para falar(e fazer) merd@ e outras, assim como eu, apenas as odeia. Eu nunca entendi como coisas do tipo fanatismo, sadomasoquismo, fast food, funk, entre outros, pudessem fazer parte não só da vida das pessoas, mas também da crença delas.
                Sendo assim, podemos concluir então que existem várias formas de ser burro né? Bem, para mim não. Eu sempre achei que as pessoas fizessem certas escolhas por alguma explicação, se não divina, social ou científica, que ainda lhes assegurassem o título de seres racionais. Obviamente me enganei nos meus próprios pensares . Pessoas que gostam de Restart, Paulo Coelho, piercing no mamilo ou qualquer outra coisa que possa fazer mal às saúdes mentais, fisiológicas e espirituais, não merecem ser classificados por subgêneros da insanidade mental. Não. Até porque isso não existe: ou você tem problemas ou não tem. Simples.
                Continuo reforçando a idéia de que a burrice é causada por uma fonte única porque, sinceramente, não vejo diferença na escala intelectual de uma pessoa que venera as letras de um funk e outra que é adepta aos skin heads neonazistas, que fazem apelação ao preconceito humano tanto quanto o machismo erótico do funk. O exemplo do funk é um super clichê, sempre usado por aqueles que querem criticar um movimento social estilizado. Mas para provar a minha profunda indignação pela ignorância humana, mudarei o foco.  Serei objetiva.
                O que dizer daqueles que, por estarem num patamar social um pouco mais elevado (apenas pela condição econômica), pensam que são os donos do patrimônio público? Para ser mais clara ainda, o que dizer de uma pessoa, mulher (gênero em processo de conquistas), funcionária pública e “educadora”, dizer que NÃO pratica qualquer tipo de ação cidadã para a preservação do meio-ambiente porque simplesmente NÃO acredita nos mecanismos humanos de prevenção e profilaxia. Em outras palavras, caro leitor, o que dizer de uma professora que assume gastar mais água que o necessário e não catar o próprio lixo, por acreditar que a humanidade precisa do caos e da crise para evoluir? O que dizer heim?
                Bom, pra você que chegou até aqui lendo estes insultos à dignidade (e inteligência) humana, só tenho uma coisa a dizer: a ignorância vem de uma causa só...a CONVICÇÃO.
August 31, 03:13 PM
   O meu humilde bloguinho está longe de chegar a visibilidade bloguística das colegas seguidoras da Lola. Ele está mais para um diário digital do que outra coisa. Mesmo assim, acredito na riqueza dos meus posts, que assim como de todas as outras, refletem não mais que uma forma de expressão social. É aquela história , já que eu não posso bater numa pessoa por ela ser preconceituosa, racista ou hipócrita, então eu venho para o MEU blog e escrevo.
    Foi assim que começou o meu pensamento crítico: escrevendo. E foi escrevendo que me livrei de muitas mágoas, ódio e raiva, que passavam por mim sem eu saber da onde vinham. Geralmente vinham da minha própria casa, da minha própria família, da minha própria mãe.
    Eu sempre fui muito estranha. De fato. Eu nunca concordava com nada. Eu nunca aceitava nada. Eu nunca entendia nada. Na verdade, a principal coisa que me levava a ser a estranha do lar, era o fato de eu nunca entender como este funcionava. Isto é, nas palavras da minha mãe, eu não conseguia entender os papéis de cada um dentro de um lar - vale lembrar, que ela se pautava nos papéis de um lar tradicional; patriarcal.
    Pois bem, eu não entendia mesmo. E melhor - ou pior pra mim- eu não engolia ! Na minha cabeça não entrava essa história de que "o pai manda; a mãe e as filhas obedecem; logo, todos temos um lar feliz!".Por mais que eu tivesse preguiça e pirraça em fazer as obrigações essenciais para a organização de um lar, um dia - e isso foi aos doze anos de idade - eu descobri, na escola, um argumento tão bom quanto o da minha mãe para não tirar os sapatos chulezentos do meu pai da porta da sala : a igualdade de gênero.
     Enquanto minha mãe relutava em defender que meu pai tinha todo o direito do mundo em explorar ela, eu e minha irmã, só porque ele trabalhava oito horas diárias, eu me arriscava a fazer os primeiros questionamentos sobre o poder supremo de um pai, numa casa em que as três mulheres presentes também trabalhavam (e estudavam) duro.
    Claro que naquela época, essa minha inciativa indagadora, era tida primeiramente pela rebeldia teenager característica da idade, e segundo porque era sempre eu quem era obrigada a catar aquelas duas amostras de bombas de enxofre que meu pai carregava nos pés. A falta de credibilidade dos meus argumentos era visívelmente apreciada pela minha irmã mais nova, que sempre me aconselhava a calar a boca toda vez que eu me propunha a argumentar os também deveres do meu pai dentro de casa - que não minha visão não existiam. Era sempre eu a rebelde, logo o castigo era sempre meu.
    Minha mãe era tão dependente das decisões do meu pai, que até pra resolver as freqüentes discussões comigo, ela dava o poder de persuasão à ele.
-Mas mãe, por que a gente tem que colocar o prato de comida na mão dele quando ele chega? Por que a gente tem que tirar das "Chiquititas", só pra ele ver o Jornal Nacional? Por que a gente tem que beber suco de goiaba, quando só ele gosta desse suco aqui? E o pior de tudo : por que a gente tem que tirar os sapatos dele, do pé dele e ainda lavar as meias dele??? Por que mamãe? Por quê? Só porque ele trabalha fora??? Mããããe, você também trabalha fora ! Mãe, você ainda trabalha em casa. Mãe, você ainda é esposa. Mãe, você ainda é mãe.
  No dia em que eu gritei isso pra minha mãe, o meu pai chegou bem na hora, e adivinhem?! Ele me deu razão. Éééh, ele me deu razão : " você está gritando com a sua mãe por causa de dois sapatos?" Eu disse não. Na verdade eu estava. E ele continuou : "você está alterando a voz, dentro da minha casa, com a minha esposa, por um direito que você diz ser seu? Pois bem, direito concedido.Você não precisa mais fazer nenhuma coisa pra mim nesta casa. E tem mais...eu não quero que cenas como estas se repitam nunca mais, entendeu? Nem com você e nem com a sua irmã. Eu não tô criando filha pra ser capacho de homem nenhum, ouviu bem?
   E assim ele terminou o discurso. Eu achei aquilo explêndido. Eu fiquei tão orgulhosa de mim, que nunca mais pude esquecer a primeira vez em que tive voz como alguém que sabe o quer. Como alguém com direitos a serem respeitados. Mas, acima de tudo, eu nunca esqueci como aquelas palavras do meu pai, por mais pesadas que tivessem sido pra uma menina da minha idade, foram  definitivas para minha futura postura como mulher.
   Pode parecer forçado da minha parte, mas o que me fez carregar a bandeira do feminismo não foi a passividade da minha mãe, nem o chulé do meu pai. O que me fez, definitivamente, abraçar a causa female de agir foi a promessa que fiz a ele:
- Pai, desculpe gritar com a mãe. Mas eu prometo nunca ser capacho de homem nenhum (beijei os dedinhos cruzados). Prometo !

- Então filha, promete não trocar o pai por homem nenhum, nenhum...nunca largar o pai...namoro só depois dos 30...promete??
  Não preciso nem dizer que meu pai está lá até agora esperando eu prometer, né?!

October 13, 10:32 AM
       Desculpe gente. Mas não posso evitar. Apesar de defensora da natividade, tenho consciência que muitas vezes deixo a desejar. Sorry ! Ops, quer dizer....ah vc sabe.
Não posso, contudo, esquecer minha profunda admiração pelo ango-saxonismo nórdico ao qual devo minha segunda formação linguística. 
     Digo então, que sou casada com o português e suas peculiaridades, mas tenho um caso antigo e descarado com o inglês e suas tramas de false friends. Mas o meu gostar de inglês não se resume a vulgaridade do dialeto frente as tendências que a Indústria Cultural nos trás. Não. O meu caso com o inglês é a partir da singularidade
de significado que ele pode dar as coisas. Vejamos então : o stand up comedy, no Brasil ficou conhecido como stand up comedy. Estar com um blue on the face, é algo que no português passa perto de "ser coagido com perguntas indiscretas". Novel , que no português é errÔneamente traduzido como novela, pode ser considerada, ser formos bem flexíveis, como um romance. Na verdade, e poucos sabem, novel é um termo que foi usado apenas para denominar os textos de Willian Shakespeare, que desde do séc. XVI inclusive, não tem uma classificação literária definida. Seguindo a mesma linhagem de traduções mal-digeridas temos a Soap Opera que hoje é a tão conhecida mini telenovela, cujo seu piloto original só pode ser apreciado nas telinhas britânicas. 
    O que eu quero dizer, contudo, é que há coisas que são intraduzíveis. E como eu sei que os meus leitores são bem informados a ponto de já saberem desta façanha ( até pq, os leitores advêem os escritores), me dispus a apresentar-vos algo que provavelmente vcs também já saibam , mas que no entanto, não sabiam denominar.
   Apresento os meus xodozinhos da bobajada inglesa: as internet stuff craps.


   Caro leitor, assim como todos os outros exemplos citados a cima, as internet craps também fazem parte do intraduzível inglês. Mas, metida a besta que sou, vou tentar explicar um pouquinho desse termo, mas não com palavras. Afinal você é meu leitor, e como tal tirará suas próprias conclusões a respeito do que lhe é apresentado.  Sem influências. Sem explicações. Você saberá o que é. E saberá ainda o porque eu considero craps as melhores notices criativas.
   Ah, só mais uma coisa: diante de qualquer definição, seja ela em qualquer idioma, jamais, eu disse jamais, ouse a pensar no " é como isso, equivale àquilo, é assim, ou é assado". Não faça isso. Você não é o detentor da verdade. Você não é o criador das coisas. E além do mais, nenhuma língua é igual à outra. Logo, nehuma língua quer dizer o mesmo que a outra. Aprende leitor: Você não traduz, você deduz.

Think about it!





         
                         

                    




            
                
           
                           
                      
    


          
                         


  
August 05, 04:31 PM
    A postagem de hoje é rápida, sucinta e direta. Consiste em provar o quão democrática e ética eu sou - ou ao menos tento ser.
    Sem muitos comentários eu vou apenas admitir a genialidade de Arnaldo Jabour na postagem da sua coluna de hoje, 05 de agosto de 2010, no Estadão. Poucos (na verdade quase) sabem o quanto está me doendo admitir isso no meu próprio blog. Acontece que eu detesto o Arnaldo Jabour, não como pessoa e nem como cineasta...afinal, eu não gosto dele, mas não sou tão estúpida assim.
    Apesar de discordar plenamente com os comentários burgueses e totalmente maliciosos feitos por ele toda terça a noite no Jornal da Globo, eu tenho que admitir que o cara é competente. Só não digo que ele é foda porque , pra mim, foda é o José de Alencar - vice presidente do Brasil. Não gosssto mesmo do Arnaldo. Mas enfim, tenho que bater palmas para o que ele escreveu hoje.
   Parabéns Arnaldo. Pela primeira vez, você deixou a sua malícia elitista de convencer o pobre desinformado de lado e escreveu algo em que eu realmente concorde.
   Meu post de hoje é dedicado a você !

  Com vocês, A felicidade é um obrigação de mercado, por Arnaldo Jabour.
August 04, 05:43 PM


                                                       

Queridos leitores, eu realmente não quero encher a vossa paciência com os posts chatos e quase sempre voltados à questões relacionadas a intelectualidade ( ou a falta dela). Pois bem, prometo que este será o último. É que não me contenho com as coisas que vejo por ai a fora, e como não posso bater nas pessoas ou pelo menos cobrar delas o mínimo de vergonha na cara, o que me resta é escrever.
Durante esta semana tenho visitado lugares públicos com certa freqüência – o que tem me angustiado a cada olhada para o lado que dou. Só nos últimos três dias, essas visitas a lugares públicos me renderam ácidos comentários no twitter a respeito da burocracia dos bancos, falta de consciência no trânsito, entre outras coisas ligadas a cidadania.
Pra encurtar a história, o fato é que toda vez que me exponho a lugares em que, impiedosamente, sou obrigada a compartilhar o mesmo metro quadrado com seres indignos da minha educação, me sinto frustrada. Não quero, contudo, fazer apelações burguesas ao conceito “clássico” de educação em público, Até porquê ,isso requer um amplo conhecimento de relações públicas e a conseqüente influência cultural nos conceitos de educação. Apesar disso, podemos sim, entrar num consenso do papel da educação na organização social.
Quando você está num lugar – público, como já mencionei – e é submetido as regras deste lugar, você, como um ser educado e que acredita nas leis de organização social, respeita as tais regras. Quando você – ainda neste lugar fictício – está em conjunto com outros seres que compartilham do mesmo código lingüístico que o seu, você tem a opção de se comunicar ou não. Você é livre.
Digamos que você opte por NÃO se comunicar por achar ,no mínimo, desinteressante a forma como os outros seres utilizam a comunicação. Ok. A vontade é sua. A vida é sua. E as pessoas deverão respeitar isso. Digamos ainda que você decida ler um livro, para não se sentir tão oco, num ambiente cheio de transições de pensamentos. Ótimo. Melhor ainda. Você não quer se comunicar com os seres  ao seu redor, mas pode ainda se comunicar autOnomamente, sem ofender aqueles que lhe desinteressam. Idéia perfeita não acham?!
Não. Péssima idéia.
Os seres que estão ao seu redor não se conformarão com a sua atitude. Na verdade, para os seres que estão ao seu redor, doeria menos levar um fora e ouvir você gritar que “eles são chatos hipnotizados pelas idéias de senso comum”, do que você abrir um livro e começar a ler, ignorando-os.
Esses seres não se conformarão. Porquê isso dói, caro leitor. Ler um livro numa roda onde se discute a pensão que o Pato vai dar à Sthefanny Brito é tão abominante quanto ser testemunha de um ritual de crucificação animal. É terrível leitor ! Isso fere, choca, constrange, humilha, repugna , cospe, amassa, golpeia, pisa, esmaga o ego dos seres ao seu redor.
Eu não sabia disso. E juro que não fiz por mal. Abri meu livro e comecei a ler. Os seres não sossegaram enquanto não me fizeram desistir. Eles foram persistentes – falavam o mais alto que podiam, comentavam sobre mim, argumentavam sobre o título do meu livro, me cutucavam , tentaram de tudo. Mas eu também persisti. Bravamente. Fui lendo meu livro com muito sabor, com muito gosto. Eu salivava para passar as páginas. Lia sussurrando. Lia. Lia.Lia.
Mas tudo o que fiz para me manter invicta do senso comum daquele ambiente foi em vão. Num golpe mortal à minha moral, um jovem homem me atingiu com a seguinte frase:
- Eu não entendo esse povo que fica lendo, lendo, lendo, essas porcarias que no fundo só contam historinhas...eu, que só fiz o ginásio, leio jornal e sou muito mais bem informado.
                Eu tive que parar de ler. Doeu em mim. Retruquei:
- Meu senhor, desculpe, mas o senhor estava falando a respeito de leituras mais formais, né?O senhor acha que essas leituras mais formais também não servem para informar?
                Antes eu tivesse ficado quieta.
                O homem levantou sem nenhuma explicação e passou a minha frente.
                E para dar o golpe final, olhou para trás e disse:
-Se a senhora lesse menos e prestasse mais atenção na fila, isso não iria acontecer!
                Preciso dizer mais alguma coisa, meus caros???

.
               


August 02, 11:41 PM
   Ai, ai... que lindo é o bom exemplo britânico! Precursores da maiores revoluções sociais que já estudamos, os ingleses tiveram, e sempre terão, uns dos melhores exemplos de qualidade de vida que podemos idealizar. Ok, eu sei o que vc pode estar pensando: é a Europa né filha!?
   Pois bem, digo que não é só por isso que os gentlemans ingleses têm a minha profunda admiração. A Espanha também está na Europa e nem por isso custeia 100% o sistema de saúde pública do seu Estado-nação. Portugal também está na Europa e nem por isso tem um PIB maior do que a média americana. Se for nesse ritmo, irei desmoralizando cada um dos grandões países europeus. E sinceramente, o meu objetivo aqui não é este. Afinal, Europa é Europa né gente!
   A minha observação de hoje, mantendo a linha foreign de entreter, é para a declaração do conselho de educação nacional inglês - os States watchdogs - que está provendo quanto a qualidade do ensino de suas universidades (públicas), que de uns anos para cá têm aumentado o nível de exigência na grade curricular e que , no entanto, não têm aumentado a qualidade de aprendizado de seus alunos.
    Precavidos que só eles, os experientes Lords ingleses não são de cortar o mal pela folha não. Se uma coisa está dando errado no sistema, eles vão à fundo investigar qual é a CAUSA do problema. Não é questão de resolver o problema. É diagnosticar a CAUSA do problema., para depois sim, resolvê-lo.
    Brilhante! Por que não pensamos nisso antes??? Resposta: Porque isto leva anos.
  O sistema dos Education Watchdogs inglês entendeu que se os estudantes não estavam conseguindo acompanhar a grade curricular das Universities de alto nível, é porque, na certa, a educação primária não era de alto nível. Logo, a primeira iniciativa para assolar as notas "médias" dos estudantes universitários é investir no basic level. Dito e feito. Um novo projeto to improve a grade curricular dos pequenos já foi aprovado e será, imediatamente aplicado nesse segundo semestre.
   Não tenha dúvida, caro leitor, que no final do ano mesmo o nível dos universitários de Cambridge estará no  TOP 10 das universidades do mundo - como se alguma vez tivesse saído de lá né?!
É isso que eu admiro : previdência. A previdência começa desde de pequeno, pra quê esperar ficar velho se o problema está nas raízes?? Esperar pra quê?? Devemos aprender mais com essa pontualidade britânica.


Veja a matéria completa em  http://www.guardian.co.uk/education/2010/aug/02/universities-state-schools-a-levels

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