thais lancman
escreve.
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É como um porre de gente
Uma enxurrada
Porra sem significado esperando para significar
Volta para casa meditando
Bebedeira barulhenta meditando
Tanto o que falar, olhar para o nada e transformar em mantra
Ser bonita enquanto medita
Falar só quando for necessário
Gritar! De fora para dentro
Ser melhor na poesia do que na prosa
De dentro para fora
Pedir desculpas, chorar engasgado
Engasgar em todas as pessoas que sentam à mesa
Que sabem contar histórias como ninguém
Que admiram os outros, que falam de talentos
Virtudes! Grandes feitos desprezados! De todos
Enquanto nossa mesa reúne o comitê intersetorial das frustrações
E eu – presidente – fico ali conversando com o guardanapo
O que ele me diz quando o rasgo em pedacinhos
Para onde escorreu o mármore das musas quando o copo tombou
Eu estou perdendo tempo
Falando com ninguém
Não sendo feérica nem colérica nem simplificando nada
Eu já deveria ter me frustrado dez anos atrás
A decepção sempre chega atrasada
Não confie nas fotos
Elas aparecem depois também
E sempre com um sorriso e em uma cor alaranjada
Que esconde a vergonha daquele momento
A vontade de estar em outro lugar
Lugar – pele – alteridade
Não lugar em que não se habita
Musas mudas não aparecem sem que antes
Se fuja rastejando, com um esboço na mão
Há primeiro a ideia
Não
Há o a ser contemplado
E então a ideia
E sua convulsão tomada em palavras
Depois os primeiros espasmos tomando corpo
o fluxojorro, ja falei disso antes
que é rascunho ja pulsando
alou, eu não sou que nem você
musa, me salve, me tire do purgatório
tal qual alma deixando o corpo
o mar de corpos
todos em baixo por sete dias rezando pela subida dessa alma
o general manda que cubram os espelhos
o banqueiro paga seus funcionários para rezarem
girando manivelas, movimentando roldanas
fracionando o peso de elefante dessa alma
essa alma subindo chachoalhando as pernas
quase gargalhando para só então ver que a musa
essa inspiração que ainda nem tinha chegado a tocar
faz esquecer de todo o resto
como vim parar aqui nessa página?
E deixar o corpo vulnerável para outra alma
Mui amiga e especial
Tomar conta e embriagar o corpo
De mais porcaria cancerígena
Esburacar o que ainda está lá, esfarelar as entranhas
Tornar tão impossível quando odiado o pensamento
Ser contínuo, a mera visão de continuidade da obra
Tornar a palavra obra risível
Produção
Referência
Repertório
Escola estilística e qualquer outra merda
O corpo tão exíguo que é esmagado em críticas que nunca chegam
Em silêncio de cartas e na polifonia dos bares
Na absurda necessidade de contar alguma coisa
Que mais! Que mais! Que mais!
Digo que eu não sei se vai dar certo
Que eu queria morrer de fome mas não sei se consigo
Se posso, se a musa deixa
No meu quarto eu inaniria
Não fosse os portões do castelo que sempre se abrem
O fosso cheio de gelatina
A minha incapacidade
De esperar para uma resposta falsa que diz tá bem
Que ecoa esse tá bem em todo o resto
Ao mesmo tempo que diz droga droga droga
Ou ainda que pensa tudo isso
Bem quando o mantra começa a ecoar
E chama o pelotão
Chegam todos armados
Vendam meus olhos trrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
Se eu não tivesse esquecido que tinha dinheiro na carteira e pegado o ônibus. Se eu não tivesse ficado com medo de descer a Augusta sozinha e pegado um taxi.
Era só um carro branco esperando alguém. Era eu, acenando para outro que vinha mais rápido, passou, veio o outro de trás, rastejante. O taxi trôpego parou à minha frente, entrei imaginando que do boa noite ele só ouvira noite mas podia supor a saudação. Alameda Casa Branca, só descer a Peixoto e pegar a Oscar Freire à esquer.
Filho da puta. Era o ônibus que cortava, serpenteando a avenida. Não sei o que esta acontecendo hoje. Eu recolhia a carteira e outras coisas que tinham caído da mochila, sem largar o celular. Essa hora, os ônibus ja não respeitam ninguém, e quis contar do tombo que quase levara para descer em frente o Conjunto Nacional, mas desisti.
Vou ter que benzer esse carro. E dava de novo a partida, tinha morrido na hora em que freou brusco. Hoje ja começou tudo errado.
O senhor começou agora? E aí não lembro o que ele respondeu mas tenho certeza que ele achou que eu achei que era novato e me senti culpada pra caramba por fazer ele pensar isso, mas juro que me referia àquela noite, até preparava perguntas sobre as madrugadas, e queria me explicar mas nem teria como, e também não tinha mais clima para saber sobre quem ele levava de onde e para onde e sobre o que conversavam.
Na tela do celular 23:13. Olha viu, ja não sei mais o que fazer.
Eu devia dar logo um tiro na minha cabeça. Nessa hora foi que eu fiquei com medo.
Acelerada forte borrando os garotos de programa do Dante.
Vou dar um jeito na minha vida.
Sinal fechado. Ele olhou pra mim com sua cabeça pequena. Barba feita, tudo pontudo. Não aguento a pressão do mundo. Não tinha calma, força, fé, aguente firme para fazer contrapeso à pressão do mundo.
Desce até aonde? Pode virar à esquerda na Oscar Freire.
É muita depressão.
Eu não acreditava em taxistas com depressão, mas não sabia há quanto tempo ele era taxista. Quando ele falou que era um homem bom, que tinha sido abandonado por um monte de gente, ou então tinha feito um emaranhado de abandonos entre seus parentes e respectivos cônjuges, eu achei mesmo que aquele papo era eu ouvindo errado uma voz de muito longe e de muita gente que ecoava desde aquele vidro quebrado, Igby e o pai falando e se repetindo
I feel this great pressure, coming down on me.
Isso é a coisa mais sincera que alguém já disse em alguma ficção, para mim.
O taxista era ficção, mas se era sincero tinha dúvidas. Tinha uma música sertaneja tocando alto e eu não a conhecia. Passando o casamento do meu irmão, pra não estragar a festa dele, eu resolvo isso.
E aí vi que era tudo palhaçada mesmo porque uma amiga que planejou o suicídio dizia que seria depois de vários aniversários, na véspera eu fiquei muito tensa e deve ter sido a única vez que pedi para o vazio que nada acontecesse e ganhei tranquilidade, porque na data mesmo eu nem lembrei e só me liguei uns dias depois. E ela tava viva.
Essa gente é tão pouco afoita que não tem nem cara de dizer a palavra.
Morte.
Pra quem ja deu tudo errado a vida é só a morte. Nessa hora ele olhava para o nada da rua.
Era hora de entrar na Alameda Casa Branca. 10 reais, uma nota de 50, não tenho troco. Nem senhora, nem moça, nem tudo de bom, só bati a porta com um já volto, que ele deve ter ouvido javol e não tinha opção além de esperar.
Em cima era ou 5, ou 20. Coloquei a nota maior num envelope achando que ela podia evitar um suicídio, não sozinha, mas com um bilhete Obrigada J e boa noite. Foi-se o dinheiro e o elevador até o térreo, foi-se o taxi pela rua escura pelo que eu pude ouvir. Esqueci de dizer que o taxi morreu antes de parar em frente ao prédio.
A lenda de não se noticiarem suicídios ainda é verdadeira. Minha amiga acaba de me mandar uma mensagem cobrando uma cerveja que nunca acontece. Eu não lembro sequer a placa do meu carro para fazer o cadastro do estacionamento, como é que vou pegar a do taxista. Não faz diferença mesmo. Mesmo, não faz diferença, o que eu preciso saber já sei.
Quando eu era mais nova imaginava sempre o meu enterro e esse pensamento me aterrorizou tanto que eu não consegui mais voltar a ele. Me acho tola por isso.
Tem gente se beijando na televisão, dois pernilongos zanzando pelo quarto e a voz do taxista parece nem mais existir. Ir embora pode ser sempre morte, estamos sempre morrendo uns para os outros. Ele nem precisava me falar de se matar, porque pra mim ele nem era.
E agora é, e não sendo vai me assustar com a ideia de deixar de ser.
Se não, só para mim será seu tiro naquela cabeça pequena, o estralhaçamento da sua orelha pontuda e mergulho em sangue genérico, tal qual os mosquitos chupam e vez ou outra conseguimos espatifar na parede, com pó de corpinho.
O elevador tinha uma luz fria e um espelho manchado. Luz manchada e espelho frio. Uma grade que emperrava sempre no mesmo ponto e dizia. Me abre, me feche. Me empurre com força, me faça sumir. Do quinto andar vinha ele, com cheiro de sabonete, a camisa bege, o casaco marrom, o cabelo castanho muito penteado e esticado e molhado. Algumas gotinhas na testa escorriam e foram amparadas nas sobrancelhas, quando ele sorriu e espremeu os olhos.
Domingo à noite, homem de pasta. A pasta o define, ele sem ela não é nem homem, nem nada.
Me feche, me faça sumir, com as mãos muitos pelos e um braço pálido.
- Indo pro plantão?
Me explicou que passava em casa os plantões, acompanhando o berçário por webcams. Só ia até o hospital quando nascia um bebê com má-formação, ou em casos de aborto.
Me abre.
Era o térreo, chegamos. Ele iria ao subsolo, e acenou de leve quando passou por mim de carro. Acenei sem descruzar os braços, era frio. Enquanto eu saía de casa, começava uma vida defeituosa, marcada por aquele dia em que tinha garoado um pouco no fim da tarde. Sua má formação seria certificada por um médico que não se impressionava mais, o que diria a mãe?
E se ela tivesse abortado, que teria o médico a confessar sobre o natimorto? Na sua cabeça, o milagre da morte de um feto problemático talvez fosse ainda mais surreal que o do nascimento. Ou então o nascimento, por ser corriqueiro a seus colegas de hospital, não teria de mais enquanto nos defeitos residiria o divino, na justiça que a natureza faz com ela mesma, cega castigando aqueles que são pequenos demais para terem voz ativa em seus procedimentos.
Do médico, eterno salvador e milagreiro, restava a posição de observador privilegiado, do mais impotente dos atores.
Daquele que tanto tinha estudado, decorado ossos e músculos e sonhado em pendurar um dia o diploma no consultório, ficava um leão de chácara de um universo desastroso, em que o único sentido é aquele que passa pelo filtro dos laudos. E seria de sua autoria aquele que ecoaria enquanto durasse aquela figura e suas defeituosidades.
Na rua, uma mulher quase atropelada se jogava na calçada com os dois joelhos esfolados. O carro, após frear bruscamente, acelerou numa clara fuga.
Tentei ver a placa, mas perdi uma letra. Imaginei-a. E poucos segundos depois já não me lembrava se o Ford era prata ou preto.
Em volta, até as pessoas eram cinzas.
Assustada, a mulher não queria que ligassem para o resgate, nem para a polícia nem nada. Eu ja afirmava ter certeza da placa, e tremia. De pensar ter visto um atropelamento. Todos em volta pareciam brigar com a vítima, que se recusou até o fim a dar seu nome e só pedia para que abrissem espaço para chegar ao ponto de ônibus.
Mancando, acudida pelo marido que concordava com sua decisão. Dava para ver eles esperando, enquanto um dos que passavam ainda brigava com a polícia. Foi um crime como pode denunciar não acredito nisso processar é por isso que esse país ver só.
Não sabia se, como eu, todos se perguntavam como o motorista – alguns juram que era uma mulher – chegara em casa, se ela sabia que o atropelamento não tinha de fato, acontecido.
Uma semi-morte, uma semi-vida, esperando no restaurante com um incômodo que ainda não detectava era a primeira vez que me sentia acordada. Para isso sentir o osso do joelho tremer, tudo aquilo que é involuntário.
Eu não conheço meu próprio cheiro, e todas as vezes em que fumo demais penso na distância entre como me veem e quem está no espelho. Todas as vezes em que tremi e pode-se ver eu estava fingindo. Endotremo e é real. Endochoro e não faz sentido.
Em mim, a existência é contínua. Eu tenho um corpo para sustenta-la, uma constituição ou formação ou qualquer conceito de matéria diferenciada da essência que caiba. Sem o médico eu posso ser tanto pasta quanto gosma quanto falha quanto puro amor em forma de gente. Ele quem avalia e escolhe, e só por sair de casa para isso sua palavra tem mais valor.
É na rua que tudo muda.
New Orleans, inverno
Quando vomitou na calçada sentindo que rugia do avesso, Tainá lembrou que passara pela mesma rua naquele dia mais cedo e contara três gorfos secos no asfalto. Não comentou nada, não queria parecer afeita às nojeiras para as amigas, mas pensava nelas quase que o tempo todo. As pessoas eram bonitas apesar de serem poços de vômito e gosma, surpreendia-se.
O que importava é que Tainá já não conseguia mais beber sem vomitar, mas agora ela vomitava num canto, se revolvia e limpava com a manga do casaquinho os olhos e se juntava às pessoas que nem a esperavam mais, tinham preguiça daquele escarceu, do barulho inevitável que Tainá fazia e era seguido pelo som do líquido entregue ao chão. Todos dobraram juntos a esquina e enfim viram três, quatro, quatrocentos e cinquenta e tantos neons e chamadas para uma perdição risível, olha esse panaca de conjuntinho, as vadias de celulite pulando, esse bar vazio com seus copos coloridos no balcão. Trash!
E a Tainá ja ria de olhos fechados, esticava a mão às garrafinhas e vez ou outra esbarrava em um braço, um ombro, mas ninguém se dava conta. Para ela, porém, eles eram pulsação, barulho de motor ligado, vida em um estado tão quente que, ao encostar em cada membro, cada órgão, Tainá parava por alguns segundos de ouvir o que os amigos conversavam. Gostava de se banhar de lua – pensou ela, como se estivesse também brilhando e não endoidecida de Jim Bean bebido, derramado e expulso. Olhou para cima, imaginando que se oferecia, que algo de profundo viria daquele ritual.
- Ih Tainá, não vai começar a uivar agora né?
Um portal se fechava, os neons sumiam. Silêncio da falta de comida, de qualquer coisa no estômago.
Aqui é a linha invisível, dizia o menor de idade, referindo-se a uma divisa imaginária, pouco conhecida, entre a área mais turística e os bares barra-pesada.
Agora é apertar o passo, dizia a preocupada.
Ninguém se mexia, iam com uma correnteza estranha, que desovava náufragos sob um letreiro de maça.
*****
Redenção
Salvos, hooray!
Oi, sou Martin Scorsese, disseram os óculos do barman à Tainá. Prazer ela respondeu, tentando convencer o dono dos óculos que seu dono é quem estava bêbado demais para enxergar e para conversar. Martin Scorsese se calou, deu vez ao barman que não sabia o preço de nada, serviu o que pode em copinhos de plástico sem se preocupar com as medidas das doses, ele queria mais era voltar para a sombra das placas de madeira: You broke it, you bought it, There’s ketchup on my ketchup. O resto eram um monte de tralhas.
Tainá e todos os outros sentaram nos banquinhos do balcão, uma japonesa e um cara de bobo ocupavam uma mesa, e eles estavam hipnotizados com a banda, que até agora era tão ignorada que ninguém sabia exatamente o que eles tocavam ou como, ou quem, ninguém especialmente os do balcão, rindo do Scorsese e de seu dono, prestava atenção na música até estarem instalados e serem servidos.
Tainá saia do banheiro, o menor de idade fumava um cigarro prepotent. Dum-dum-du-rum no baixo e todos levaram uma rasteira.
A mulher muito louca, com seus gritos e tocando a maior parte do tempo seu banjo. Na cítara uma homenagem jazzística aos monges budistas e ao valor que aquilo adquiriria na sua própria dissipação — baboseira. O do baixo com os olhos muito apertados era quase um espectador mais envolvido. Tem que ser assim! Estava tudo bem, aos ouvidos de Tainá e da turma, já tinham dado conta do recado.
O barba, grisalho e supremo dos instrumentos de sopro, não tocava muito que era para não perder o apoio do braço sobre um móvel, talvez um piano-artigo-de-decoração, conversando com todos, no mais preguiçoso jáiz que se podia dar conta.
Quando qualquer um se deu conta, Tainá ja dava os primeiros passos de dança. Ba-bara-baruba e ei, alguém se lembrou do eclipse?
Saiu do bar correndo com os amigos, com a banda, com todos exceto os idiotas das mesas. Tainá, em vez de fechar os olhos e entortar o pescoço como fizera antes, esperou a lua se mexer mais um pouquinho, para enquanto isso, com uma onda, mais uma, nadar até o fim da rua, trombando náufragos de outras marés, peixes e seres despescoçados. Sua trupe a seguiria, seja por curiosidade ou por falta de opção, e ela sabia que estavam logo atrás por causa do cheiro do cigarro prepotente do menor de idade. Todos riam alto de doer o maxilar. Uááááá.
Foi difícil nadar de volta e quando dariam de novo de cara com tantos painéis de maçã, somente frutas podres rolando pela calçada, o cenário era desolador. Não havia música nem a não-japonesa, dentro.
Todos eram mais alguns, esperando a lua sumir. Tainá só tinha começado a rir agora, segurava a barriga, misturava línguas e, incompreensível, terminava melancólica.
Ninguém se olhava.
Hoje, somos todos mais pesados – disse uma voz, a voz do barba, o barba dando pulinhos para não perder o equilíbrio quando um dos pés fugia do chão. Equilíbrio já estava em falta para o barba.
Tainá concordou, falou sobre as marés, tateando o ar como se estivesse em uma caixa, como se aquilo ilustrasse melhor. O menor de idade chegou para discordar, ela aproveitou e inverteu tudo, propositalmente, para se sentir mais esperta, na esperança de que aquele jogo de ideias, em primeiro lugar fizesse ela se lembrar do eclipse depois e, em segundo, que desse sentido para a lembrança após o registro.
Todo mundo entrou no bar abraçado, depois que o menor de idade passou os braços por Tainá. O eclipse ficava la fora e eles temiam não terem nada para comentar. O carinho substitui não a conversa, mas o constrangimento da falta dela. Ou então todos ali sabiam que a raridade do eclipse caberia bem nas rodas de amigos para comentar um dia, mas que era ímpossível falar sobre ele com quem tinha passado pela mesma experiência.
O barba logo se camaleou na madeira e a cautelosa ria muito do pessoal que entrava abraçado. E que afagos tão sinceros eram aqueles, reais porque vazios — pensava a cautelosa. Pois bem que no palco tinha uma outra mulher, com a voz encoberta pelo violão. A muito louca servia no bar e por não saber o preço dos drinks colocaca todos em sua conta. Scorsese e seu dono transitavam entre público e palco, sempre atrasados em suas reações. O do baixo, com os olhos apertados, colou no rosto de Tainá para se certificar da cara de nojo que ela fazia.
— Tenho duas filhas da sua idade, talvez você as encontre por aí, na estrada. Riu e foi para o palco, ora olhando para fora ora para cima como se o teto pudesse ficar transparente e do nada fosse possível ver o céu. Não fingia mais tocar, seus dedos eram como soldados abatidos sobre as cordas. As poucas notas vinham do barman, que usava a folga para manipular os espasmos de uma guitarra.
A muito louca gritava odes a William Blake enquanto os amigos desenhavam um leão em uma nota de um dólar. O menor de idade grampeou a nota da parede — Rawr! — antes de sair para olhar o céu. Nada de lua, só um buraco que ela deixava e as saudades que todos ja sentiam dela. Tainá vomitava na calçada, com medo de que a lua não voltasse, e para sempre ficassem mais pesados os colares, as correntes e a bebida no estômago, querendo que todos afundassem ali mesmo, num espetáculo infértil.
Me chamou para entrar, sentamos na mesa de plástico do quintal. Eu, a mulher e o coelho ruivo que ela levava no colo. Nunca tinha visto um coelho de orelhas caídas, tão engraçadinho quando a dona, falando sobre o tempo, a hora do almoço e os temperos que plantava no quintal, puxava a cara do bicho para baixo, transformando-o num velhinho resmunguento.
Salgar a carne, cozinhar, preparar a mesa, espremer as laranjas do suco, esquentar rapidinho a calda de chocolate pro bolo, que não demora nem dois minutos e faz uma diferença enorme na sobremesa com cafezinho, tudo para fazer daquela tarde especial, já que visita naquele fim de mundo era raridade.
Ela começava a falar do divórcio do irmão quando aproximei a máquina fotográfica do coelho, que chacoalhava a cabeça tentando morder a dona. O animalzinho quase tocou a lente com o nariz, o que fez da foto uma lembrança engraçada daquele momento. Apenas.
Estava me levantando quando a vi se agachar, o coelho, já no chão, se preparava para correr solto como de costume. Parecia pegar impulso quando aproximei a câmera do meu rosto e vi seus pelos ganharem nitidez através das lentes. Três ou quatro pauladas na cabeça e nenhum passo, e senti a máquina fotográfica pesar no pescoço, pendurada por uma larga alça.
Agora sim, ela se gabou com as primeiras gotas de sangue do bicho que era içado pelos pés.
Vieram as lembranças do casamento do irmão e Simone. Sonho. Parecia de novela, com um quarteto de cordas tocando na entrada dela na Igreja. E o coelho era pendurado de cabeça para baixo em uma amoreira, com a corda que já servira a tantos outros. Vinham detalhes sobre o chantum do vestido, um nó era dado unindo as patas, a pedraria que a noiva levou no cabelo, a corda passava da árvore para o animalzinho e desaparecia em tantas voltas que dava, e tão apertadas. O pai, muito satisfeito em levar a filha ao altar, e a história continuou com a voz da mulher ficando cada vez mais distante. Lá estava ela engatinhando sob a mesa, entortando a cabeça à procura. Voltou em silêncio, um carrasco segurando o facão, e eu aliviado que aquela história tinha se esgotado.
Baixei os olhos ao ver os cortes que ela fazia ao redor dos tornozelos do coelho, transformando sua pele em uma espécie de macacão infantil e um par de meias. Estranha aflição que tornava irresistíveis olhadelas naquele ritual que se desdobrava na minha frente. Pensei em tantos pés de coelho que acreditei que fossem me trazer sorte um dia e sorri, mas agora a pele se abria mais, como se alguém puxasse um zíper. Músculos rosados pululavam. O casamento do irmão e sua posterior separação pareciam ser assuntos que se esgotavam. Ahns e éhs, para que eu suspirasse um enfim, voltando a mirar o chão.
Silêncio, e o suplício do coelho me puxava o olhar. A pele se soltava fácil, saía como um vestido. Deslizava. Nem sinal do pelo alaranjado, no bicho que agora já era uma criatura do avesso. Ela agora contava que seu irmão estava saindo com uma moça, alguém como ele nunca ficou muito tempo sem ninguém. Foi quando ela disse o nome da nova cunhada – Marina – que eu me dei conta que o cadáver na amoreira não tinha mais cabeça.
Olhei em volta, nem sinal daquelas orelhas caídas. Todos os outros coelhos que já tinha visto tinham orelhas espetadas, os das feiras de filhotes, dos shows de mágica. Na árvore, carne e músculo clamavam pelos temperos plantados no quintal e pelos dotes daquela mulher que contava do jantar que ela preparara para o jovem casal alguns dias antes. Ela ia aprontar o almoço, a mesa já estava posta, eu podia ficar lá fora enquanto isso. O portão se movia com o vento, batendo de leve, permitindo que eu visse em intervalos ritmados um cachorro estirado ao sol.
Moisés rasgava o plástico inaugurando seu CD. Músicas alegres para viajantes interplanetários alegres, e olhava o encarte enquanto ouvia a música de número hum, que tinha exatamente esse nome também. E quem consegue adivinhar o nome da próxima.
Um desenho abstrato coloridinho ocupava todas as faces daquela embalagem em papel de origem desconhecida, um desenho de uma alegria boba, e qual outra Moisés e seus contemporâneos, conterrâneos, contemcotidiâneos almejavam desfrutar.
Pois que a música número hum e os primeis acordes da dois eram barulhos. Moisés nunca diria, mas ele sentiu agonia em ouvir aquilo, foi de fato algo tão sincero, um discurso, Discurso — se é que alguém usa o conceito com maiúscula — mas pegou ele de uma maneira que sua sala conceitual branca e preta de repente era gigantesca e ele sentia a dor da mesa em que apoiava os pés, das maçanetas puxadas e torcidas, e a feiura de sua cara, quando refletida em uma tigela prateada sobre a mesa.
Moises então ligou para um amigo, uma espécie de versão sua em outro bairro, e quem não tem um desses.
— Não é um absurdo? Dizia após contar toda a ladainha, olhando para as cores calmas da capa do CD, não acreditando em como sofria o plástico amassado e ainda com os rangidos da música dois torturando a memória.
— Hein? Hein? O amigo não respondia. Moisés passou a seguir instruções de uso então.
Deus fala conosco das maneiras mais improváveis, disse Mateus movendo uma peça no tabuleiro de xadrez. Seu adversário, loiro bronzeado, que no Brasil seria instantaneamente apelidado de Alemão, era obviamente o mais competitivo na partida. Em volta deles, mais ou menos dez pessoas mudas, exceto a menina de cabelo azul.
- Se eu puder me apegar a alguma coisa até ser velhinha, que seja aos livros.
E eu, se fosse mais espontânea teria forçado o vômito naquela hora. A menina falava olhando para o loiro de piercing no nariz, importante lembrar, mas ele constantemente virava a cabeça para trás, para os lados, para longe daquela chatice.
Tédio, preguiça, como amplamente colocada em preguiça de alguém ou algo.
Antes do discurso acabar, Mateus já enrolava o tabuleiro e o guardava com as peças em um saco, ele lembrava um arqueiro. Imaginei que ele se apressou por estar perdendo, mas não jogo xadrez. Sei porém, o que é um roque e sei que o roque das rainhas só existe para Lewis Carroll.
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orides fontela:
Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
… Tão real que nos despedaça.
Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.
(Toda palavra é crueldade)
Uma bomba de efeito imoral que faça as pessoas tirarem a roupa e se amarem no meio da rua.
”Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.” Tiago 4:4
Os alemães não suportam ver cicatrizes nem mutilações. Acham que é sinal de derrota. Trauma de duas guerras mundiais
Art begins in a wound, an imperfection, and is an attempt either to learn to live with the wound or to heal it.
Não, meu coração não é maior que o mundo. Sim, meu coração é muito pequeno. Tu sabes como é grande o mundo. Fecha os olhos e esquece. Meu coração não sabe. Outrora escutei os anjos, Meus amigos foram às ilhas. Então, meu coração também pode crescer.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem… sem que ele estale.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo…
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.
Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.
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e no meio das partituras do Physicantus (Coral da Física)....http://itec.if.usp.br/~coral/partituras.html3 days ago from web | Reply, Retweet, Favorite
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OMFG eu estou louca ou o símbolo do IFUSP é um átomo feito de clips??? http://t.co/pUNH3WA53 days ago from web | Reply, Retweet, Favorite
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todo título é uma promessa3 days ago from web | Reply, Retweet, Favorite
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"Falo sobre memórias que eu gostaria que tivessem acontecido, mas não foi o caso." Anderson, Wes <3 http://t.co/x0SOvsu64 days ago from web | Reply, Retweet, Favorite
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comecei receosa, mas acabei adorando: A Wasteland Companion, M. Ward http://t.co/5DYcs2dK7 days ago from web | Reply, Retweet, Favorite
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a postura séria e maleta do personagem contaminou o tesão que eu sentia pelas canções. (@screamyell sobre Criolo, preciso)7 days ago from web | Reply, Retweet, Favorite
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<3 gonzo (obrigada @tcarran!) http://t.co/Qzm8Pgbh12 days ago from web | Reply, Retweet, Favorite
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melhor nome de @: @bebimeuprogress12 days ago from web | Reply, Retweet, Favorite
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ô gente, o shopping JK Iguatemi vai ter Top Shop, abram logo esse negócio!12 days ago from web | Reply, Retweet, Favorite
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karolina kurkova incrível!!!!!!! http://t.co/ADlITZC613 days ago from web | Reply, Retweet, Favorite
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200 milhões de hectares para 200 milhões de cabeças de gado. Isso é brasil